Sergio Vilas-Boas aborda a distância entre duas gerações em novo livro

Autor discorre sobre a dificuldade de comunicação e o papel do outro na descoberta de si próprio

Silvana Arantes
“Estado de Minas”

A mim o que me falta é esse eu que tu vês.

E a ti o que te falta é este tu que eu vejo.

Paul Valéry

A questão do impacto do olhar do outro na construção da identidade e da autoimagem ganhou uma hábil abordagem em ‘A superfície sobre nós’ (Amarilys). Nesse romance, Sergio Vilas-Boas nos introduz, de saída, no território movediço das interpretações.

“Você conhece uma pessoa com mais que o dobro da sua idade e ela o ajuda a aprimorar seus sentimentos e discursos. Mais adiante, você fica sabendo que ela não só tentou suicídio como foi capaz de matar alguém. Daí você se pergunta: ‘Será que peguei o fio certo da meada?’, e logo admite que não há respostas que possam corrigir o seu, digamos, ‘deficit de atenção’.”

Quem enuncia o dilema não é nenhum dos dois personagens nele envolvidos – a saber, Hugo, o jovem que teve seus sentimentos e discursos aprimorados pelo convívio com o experiente Jaime – mas uma leitora da narrativa dessa relação sob o ponto de vista de Hugo.

Tabs, a namorada de Hugo, lê e comenta (com observações entre colchetes) o original do livro que o parceiro escreveu para exorcizar a experiência de atração e repulsa pela personalidade fraturada de Jaime. A ideia de deitar em palavras aquilo que viveu se impôs a Hugo depois que ele se deparou com um livro escrito e jamais publicado por Jaime, o que, de certa forma, está na origem de sua crescente tendência à misantropia.

Estamos, portanto, numa cascata de tentativas dos personagens de compreenderem a si mesmos e ao mundo por meio da literatura. Vilas-Boas lança mão desse recurso com segurança suficiente para entremear as narrativas sem que sua superposição soe arbitrária ou antinatural. Dadas as biografias de Hugo e Jaime, que se aproximam no momento de tensão máxima numa greve decidida pela Redação da publicação para a qual trabalhavam, desfilam pelo livro tipos secundários e característicos dos ambientes do jornalismo e da academia. A coleção de personagens laterais termina sendo uma pitada de humor numa história de tom predominantemente denso.

O tema do outsider surge na história exemplificado numa análise da corrente migratória de dentistas brasileiros para Portugal nos anos 1990. O autor maneja com consistência uma boa dose de dados estatísticos, ao lado de reações nos campos da política e da vida comuns lisboeta, para tentar atingir o cerne psicológico que impulsiona alguém ao movimento de retirada de seu lugar de origem. Aqui, desenha-se a dificuldade do encontro de Hugo e Jaime. Para o primeiro, são inapreensíveis as razões que levaram o segundo às escolhas que fez ao longo da vida.

O grande esforço de ‘A superfície sobre nós’ é evidenciar a incomunicabilidade entre a geração baby boomer e a Y, traçando as razões do fosso que se estabeleceu entre elas. As perspectivas de Hugo e Jaime a respeito do presente e do futuro e também sobre o que dá sentido a uma vida parecem não ter ponto de contato. No entanto, o jovem protagonista desse romance de Vilas-Boas se dá ao trabalho de buscar permanentemente desvendar os enigmas da alteridade, ainda que para reforçar a conclusão a que chega Valéry nos versos que abrem este texto: “Quanto mais nos refletirmos, tanto mais seremos outros”. (17/07/2015)

“A Superfície Sobre Nós” (em papel) na Livraria Cultura

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