“O Mundo dos Outros” é também o nosso

“Pô, eu faço esse negócio um pouco melhor agora, viu?”, diz Sergio Vilas-Boas, sobre seu livro “Perfis: o Mundo dos Outros”

 José Adorno, Portal Cásper Líbero

Sergio Vilas-Boas, docente do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, lança “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Personagens e 1 Ensaio”, nesta quinta-feira, 21/08/2014. Nesta entrevista, feita durante a aula de “Técnicas e Gêneros do Jornalismo – Nível 2”, período diurno, ele fala um pouco sobre a arte de construir perfis e sobre as novidades desta terceira edição de seu livro.

No avião indo de Campo Grande (MS) para a fazenda do poeta Manoel de Barros, no Pantanal.
No avião de Campo Grande (MS) para a fazenda do poeta Manoel de Barros, no Pantanal (500 km de uma viagem singular).

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando surgiu a necessidade de escrever perfis?

O meu prazer de escrever perfis vem de muito antes de eu concluir o curso de jornalismo. Sempre tive prazer em estudar como as pessoas se comportam, e como esse comportamento varia de um contexto para outro. Anos atrás, notei que construir perfis por meio do diálogo e da observação era uma forma de praticar o que eu sentia que sabia. Jornalismo com detalhes me encanta. Vem daí o meu gosto por escrever este tipo de texto.

O que mudou na terceira edição de “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Personagens e 1 Ensaio”?

Mudaram inúmeras coisas. Primeiro que é outra editora, outra capa, outra arte e dez textos novos; dez perfiz novos! E, finalmente, eu consegui encaixar uma coisa que eu sempre quis: pessoas não famosas. As duas edições anteriores só perfilavam gente que era pelo menos um pouco famosa. Um exemplo dessas história de anônimos, agora, é a que conto sobre o José Moreira (capítulo “Velhinho das portas”), que está com quase 90 anos e que trabalha, desde sempre, na mesma empresa, uma indústria de biscoitos e massas de Fortaleza (CE). Hoje ele tem a única função de abrir e fechar as portas dos escritórios e abastecer os frigobares de água mineral nas salas da diretoria. Era uma vontade antiga que eu tinha de trazer pessoas mais comuns. Finalmente, consegui.

E sobre o ensaio “A arte do perfil”?

Essa é a principal das mudanças e diz respeito mais aos alunos (de jornalismo, especialmente), pois agora eles têm um texto em língua portuguesa bem construído ensinando como fazer perfis. No texto, chamo atenção para os textos antológicos do gênero e sobre como proceder para construir textos biográficos, em termos de metodologia e linguagem. Então, a gente agora tem esse ensaio, que “baliza” a vida de quem está a fim de estudar ou praticar esse tipo de reportagem.

Por que a preferência por pessoas mais velhas em seu livro?

Eu não tinha pensado nisso… Acho que foi coincidência. Mas, honestamente, eu gosto das pessoas já maduras. Gosto de trabalhar com personagens que se sintam (ou que me parecem) maduros. Não necessariamente velhos, mas, sim, maduros. Prefiro escrever sobre pessoas que já não estão mais no momento de “guerrilha”, mas sim em um momento de paz. Aquela fase em que busca se reencontrar para repensar e descobrir coisas novas sobre suas vidas. Mas no livro há pessoas jovens e na meia-idade também.

Até onde o autor pode se colocar como personagem em um perfil que escreveu de outra pessoa?

Eu me coloco na história sempre que acho que devo, mas nunca por narcisismo ou egocentrismo. No texto com o João Ubaldo Ribeiro (“Ubaldos brasilis”), por exemplo, exponho a situação que nós dois estávamos vivendo. Foi assim: bati na porta do apartamento dele num momento que ele estava de mau humor e passando por uma fase difícil. Então, o Ubaldo me recebe mal e eu explicito no texto essa percepção, já que estou implicado na situação. Sabe, nunca me isolo das personagens. Em alguns casos, muito raros, mantenho certa distância. Importante dizer que os textos incluídos no meu livro foram feitos de maneiras muito diversas. Tudo depende da personagem. No perfil do Francisco Dantas (“Domador de veredas”), por exemplo, me impregnei propositalmente da linguagem “especiosa” dele. Entao, escrevo com a minha voz, mas como se fosse a dele. Enfim, cada texto demanda uma estratégia, uma tática diferente.

O que mudou no Sergio do primeiro ao último perfil publicado do livro?

, eu faço esse negócio um pouco melhor hoje, viu? No iníicio eu estive procurando caminhos, procurando maneiras de fazer. Estudava o assunto e saía a campo para testar, mas nem sempre funcionava. O Sergio atual tem uma noção muito clara de proporções, de medidas e um conjunto variado de estratégias para usar, conforme as situações. Estou muito mais maduro e consciente. Tanto que fiz questão de, finalmente, produzir um ensaio enxuto, seguro e claro sobre “A arte do perfil”.

Personagens retratados em “Perfis: o Mundo dos Outros” (na ordem em que aparecem no livro):

1) Mara Salles (chef e sócia do Restaurante Tordesilhas, São Paulo);
2) Jayme Sirotsky (presidente do Grupo RBS, Porto Alegre);
3) Francisco Dantas (escritor, Aracaju-SE);
4) Tostão (ex-jogador e comentarista, Belo Horizonte);
5) João Ubaldo Ribeiro (escritor, Rio de Janeiro);
6) Luiz A. de Assis Brasil (escritor e professor, Porto Alegre);
7) Fernando Bonassi (roteirista de cinema/TV, São Paulo);
8) Luiz Garcia (presidente do Grupo Algar, Uberlândia-MG);
9) Paul Auster (escritor norte-americano, Nova York);
10) Isac Valério (construtor de moinhos, Alto Caparaó-MG);
11) Cristovão Tezza (escritor, Curitiba);
12) Ferreira Gullar (poeta e cronista, Rio de Janeiro);
13) José Moreira (funcionário de fábrica, Fortaleza-CE);
14) Lya Luft (escritora e tradutora, Porto Alegre);
15) Manoel de Barros (poeta, Campo Grande-MS);
16) Maurício Kubrusly (jornalista e apresentador, São Paulo);
17) Sérgio Sant’Anna (escritor, Rio de Janeiro);
18) Antônio Barreto (poeta e educador, Belo Horizonte);
19) Johan Dalgas Frisch (ornitólogo, São Paulo);
20) Gilvan Lemos (escritor, Recife);
21) Jaqueline Ortolan (comandante de jatos da TAM, Itu-SP);
22) García Márquez (escritor, Cartagena das Índias, Colômbia).

Perfis: o Mundos dos Outros (em papel) na Livraria Cultura

 

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