“Page One”, o documentário

As mudanças do jornal “The New York Times” no século XXI

Sergio Vilas-Boas
“Jornal da ANJ”, dezembro/2011

O documentário “Page One, Inside ‘The New York Times’” (2011) procura equilibrar o singular e o universal, sustentando uma narrativa esclarecedora (para o público leigo) sobre o setor de mídia impressa. No plano macro, o filme lança luzes sobre a travessia de uma empresa jornalística do papel para o digital; no micro, detalha as estratégias imediatistas de sites noticiosos, contrapondo-as à noção geral que normalmente se tem de “tradição”, “profundidade” e “credibilidade”.

A narrativa abre com televisores noticiando a morte (provável ou já confirmada) de jornais americanos centenários, como “Rocky Mountain News”, “Philadelphia Daily News”, “Star Tribune”, “Boston Globe”, “San Francisco Chronicle”, “The Seattle Post-Intelligencer”, “Chicago Tribune” e “Los Angeles Times”. Em seguida, uma legenda informa que o “Times” criou em 2008 uma editoria (Media Desk) para cobrir as mudanças que vêm ocorrendo no setor de mídia.

“O colapso dos anúncios aconteceu muito mais rápido do que se podia antecipar. Só neste 2009 a queda na receita com anúncios foi de 30%”, afirma o jornalista Richard Pérez-Peña, do “Times”; e os consultores especialistas ouvidos são unânimes: os jornais “agiram com soberba” em relação ao surgimento do Monster.com e do Craigslist.com; e desconsideraram o fato de anunciantes poderosos como Ford e GM terem criado seus próprios sites.

Com as perdas em anúncios e em classificados, o “Times” comeu o pão que o diabo amassou, sendo obrigado a tomar US$ 250 milhões de empréstimo com o milionário mexicano Carlos Slim e hipotecar a nova sede em Manhattan, no Oitava Avenida entre as ruas 41 e 42.

Em uma passagem interessante do filme, o mediador de um debate pergunta à platéia: “Levante a mão quem ficaria feliz se o ‘Times’ desaparecesse”. Dez pessoas erguem a mão. “E quem aí ficaria preocupado se o ‘Times’ deixasse de existir?”. Maioria esmagadora. Markos Moulitsas, co-fundador do Dailykos.com (“weblog de análise política por uma perspectiva liberal”) questiona a opinião da platéia: “Essa credibilidade automaticamente acoplada ao ‘Times’ é perigosa”.

“Ora, só porque sai no ‘Times’ temos de levar a sério? Isso é perigoso”, diz Moulitsas. “Essa credibilidade automaticamente acoplada ao ‘Times’ é o que permitiu a Judy Miller fazer aquela cobertura pré-guerra [sobre Saddam Hussein possuir armas de destruição em massa] que contribuiu para estarmos na situação em que estamos”.

O filme deixa claro o chamado “efeito ‘Times’”, jornal que pauta outras mídias e, errando ou acertando, gera um efeito dominó.

Os episódios “Miller” e “Blair”

No dia 7 de setembro de 2002, a repórter Judith (Judy) Miller escreveu que “o Iraque acelerou seus investimentos em armas nucleares e deu início a uma caçada global pelos materiais necessários à construção da bomba atômica”. Todos os telejornais reproduziram esse trecho nas horas seguintes. Tempos depois, um repórter britânico indagou à já aposentada Miller o que de fato aconteceu. “Se suas fontes estão erradas, você erra”, ela diz. “Dar ouvido a fontes erradas não põe a sua atividade no mesmo patamar da de um estenógrafo?”, provoca o repórter.

Em julho de 2007, o site de Julian Assange obteve de fonte anônima o vídeo de um ataque aéreo de dois helicópteros Apache americanos contra um grupo de caminhantes na periferia de Bagdá. Doze pessoas morreram na ocasião e, entre os feridos, havia duas crianças. Sob o título de “Assassinato Colateral”, o vídeo, postado pelo WikiLeaks no YouTube, abalou tanto a imprensa estabelecida quanto os governos. As Forças Armadas americanas alegaram que os mortos eram insurgentes.

O WikiLeaks, por sua vez, dizia que dois dos doze mortos eram profissionais da Reuters: Saeed Chmagh e Namir Noor Eldeen. Bruce Headlam, editor do “Times”, resolve investir na história com o objetivo de entender o que aquela controvérsia significava para o jornalismo como um todo: “Havia dois planetas em colisão”, acreditava Headlam. “O planeta da inteligência especializada e o planeta que desejava destruir o planeta pré-existente.”

Na época, Susan Chira, editora de internacional do “Times”, ainda não tinha ouvido falar do WikiLeaks, assim como a maioria de seus colegas. O jovem nerd Brian Stelter, repórter recém-contratado pela editoria de mídia (criada em 2008 para cobrir o setor), sim, e ele telefona para Julian Assange:

– Existe uma definição tradicional de que o jornalismo tem de ser objetivo e jamais infringir a lei para obter informações. Você está tentando praticar essa definição ou o seu conceito de jornalismo é mais amplo? – Brian pergunta.
– O jornalismo é apenas uma ferramenta. Nós usamos a ferramenta com um objetivo.
– Qual objetivo?
– Em sentido amplo, nossa meta é a justiça.
– Jornalista é uma palavra que você colocaria como uma espécie de rótulo para a sua pessoa?
– Sim. Mas é justo dizer que sou também um ativista. Se tivesse que escolher entre uma coisa e outra, eu escolheria os valores do ativismo, ou seja, da batalha contra a injustiça, em vez dos objetivos do jornalismo, que são menos claros.

O diretor do documentário faz um paralelo entre esse episódio e o do vazamento (pelas mãos do estrategista Daniel Ellsberg) dos documentos do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã. A publicação daqueles documentos, segundo Alex S. Jones, autor de “The Trust: The Private and Powerful Family Behind The New York Times”, é um marco na história da imprensa americana. “Foi o momento em que a mídia se levantou e disse: ‘Somos independentes em relação à presidência e vamos fazer o que pensamos ser a coisa certa a fazer’”, lembra Jones.

Em um programa de TV comemorativo, Daniel Ellsberg já havia refletido sobre o assunto: “Quando entreguei aqueles documentos para o ‘Times’, houve um período de 22 meses – do começo da preparação das cópias até a publicação. Se a internet já existisse, eu teria comprado um scanner e enviado para sites e blogs. Não tenho certeza se surtiria efeito, mas pelo menos estaria rapidamente ao alcance”. E o ex-editor executivo Bill Keller reconhece: “O fato crucial é que o WikiLeaks precisa de nós”.

E precisou mesmo. Em 2010, o WikiLeaks publicou a íntegra de 91 mil documentos secretos das forças armadas americanas que tocavam em questões como mortes inexplicáveis de soldados, táticas de batalha questionáveis e missões que não estavam indo nada bem na “guerra contra o terror” no Afeganistão. O “Times” – juntamente com a revista “Der Spiegel” e o diário inglês “The Guardian” – fez “parceria” com o WikiLeaks e publicou trechos dos tais documentos.

“Eles [o WikiLeaks] não são nossos parceiros nem colaboradores”, adverte Susan Chira. “Assange é uma fonte como qualquer outra fonte nos dando acesso a papeis importantes.” Chira acredita que o WikiLeaks pode ser fonte mesmo sendo também publisher. Meses depois, o WikiLeaks lança 250 mil transmissões diplomáticas confidenciais. O “Times” processa algumas transmissões em sua primeira página durante nove dias consecutivos. Para os especialistas ouvidos, aquela participação foi um “claro sinal” de que o “Times” não só continuava no jogo do jornalismo como era ainda um player importante.

David Carr e Brian Stelton

No filme, o analógico e o digital são representados pelos jornalistas David Carr (52 anos) e Brian Stelton (24). Carr representa a velha guarda, a criatura analógica e politizada. Stelton é o jovem digital, plugado em vários aparelhos, inconformado com matérias editadas ao meio-dia que só entram no Twitter à meia-noite. Passado e presente separam os dois, porém. Antes de Brian nascer, Carr se afundara em drogas.

“Você é um ex-viciado em crack e agora está no ‘Times’. Qual dessas duas coisas é mais prejudicial à sociedade?”, pergunta o apresentador engraçadinho de um talkshow.  Além de ter sido um pária, Carr enfrentara prisão por porte de cocaína. Ele não esconde sua história das câmeras e procura demonstrar compreensão (mas não submissão) aos que o atacam e às fontes que se recusam a atendê-lo em suas coberturas do setor de mídia.

Carr participa ativamente do filme não apenas por seu passado atribulado e sua voz ferina de Pato Donald barítono, mas também por sua inteligência, apuração minuciosa e escrita pungente. Ele brinca que Brian Stelton é “um robô fabricado no subsolo do Times com o objetivo de reerguer o Times e destruir os profissionais mais velhos”. Quando estudante, Brian foi alvo de reportagem do próprio “Times” sob o título “O garoto blogueiro que tem todas as notícias sobre os telejornais”.

As duas gerações oferecem percepções às vezes coincidentes sobre o atual momento histórico do jornalismo, como no trecho em que criticam os agregadores de conteúdo. Mas coube a David Remnick, editor da revista “The New Yorker”, disparar: “A maioria dos sites de notícias se alimenta de conteúdos do ‘Times’, adicionando a esses conteúdos imagens vistosas, manchetes ‘sexy’, comentários espirituosos e outros truques sem qualquer motivação jornalística”.

A edição final do documentário pode nos levar a crer que os sites noticiosos são arrivistas e fúteis. As falas da maioria dos responsáveis por esses sites soam tão pragmáticas quanto ingênuas. Nick Denton, por exemplo, fundador do Gawker, deixa claro que a vigilância dos poderes públicos não é sua missão: “Ninguém aqui está interessado em histórias de corrupção”.

O problema do investimento em jornalismo investigativo, aliás, foi minimizado no filme. Instituições sem fins lucrativos, como o ProPublica, fundado em 2008 por Paul Steiger, quem por 25 anos foi editor executivo do “The Wall Street Journal”, são genericamente apontadas como “alternativa imprescindível”. “Não há modelo de negócio (lucrativo) possível para jornalismo investigativo”, afirma Steiger.

A mensagem do filme, sob esse aspecto, é clara: o jornalismo de qualidade se sustenta pelo embate (presencial) com acontecimentos de amplo espectro, o que requer uma estrutura que apenas empresas grandes teriam condições de manter. Além de compor um retrato valioso do setor jornal neste início de século, Andrew Rossi conseguiu evitar o catastrofismo. Contudo, as melhores referências (para mim) sobre o “Times” continuam em papel: os livros “O Reino e o Poder” (1969), de Gay Talese, e “The Trust” (1999), de Alex S. Jones e Susan Tifft, que resenhei anos atrás e postei aqui no blog.

PS: Depois de oito anos à frente do “Times”, Bill Keller se aposentou. O cargo de editor executivo foi passado em setembro de 2011 para Jill Abramson, primeira mulher a comandar um dos maiores jornais do mundo (a propósito, Jill foi primorosamente “perfilada” por Ken Auletta na “The New Yorker” em outubro de 2011). Outro fato relevante ocorrido após o lançamento de “Page One”: o “Times” passou a cobrar pelo acesso total ao NYTimes.com – e com resultados animadores, ao que parece.

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