Os tempos de Schnitzler

Obras do autor vienense espelham as dualidades sociopolíticas
do “neurótico” Império Austro-Húngaro

Sergio Vilas-Boas
Rascunho”, abril de 2011

Num relato pessoal para a “New Yorker”, George Steiner escreveu: “O século XX, tal como o vivemos no Ocidente, é, em suas linhas essenciais, um produto austro-húngaro. (…) Viena foi a capital da era da ansiedade, eixo do gênio judaico, filtro do holocausto”. Na literatura, o escritor e médico vienense Arthur Schnitzler, cultuado, mulherengo e neurótico, eclipsou as dualidades fin-de-siècle da decadência moral da sede do império habsburgo às portas da era moderna.

No século 19, a Europa Central compreendia o espaço econômico do Danúbio, mas aos poucos se converteu num território literário fartamente servido pelo idioma alemão. Hitler fez daquele pedaço de mundo uma espécie de incubadora nazista. Atingiu seu objetivo facilmente, em parte graças à crise de identidade, à depressão e à hesitação que se abateram sobre os intelectuais vienenses.

Áustria, Hungria e Habsburgo: palavras-chaves do império. Os habsburgos subiram ao trono em 1273, embora estivessem no poder desde 867. Eram verdadeiros experts na ciência (ou arte) de mandar e de sobreviver a instabilidades. Usavam a força quando necessário e a diplomacia para alinhavar matrimônios. As vogais diziam tudo: Austriae Est Imperare Orbi Universo. A Europa era o mundo e, a Áustria, seu centro.

Porta para a Ásia, epicentro da Europa, abrigo de nômades, fabricante de exilados, aquele império abrangia 17 nacionalidades e seu hino era entoado em 13 idiomas. Colcha de retalhos cuidadosamente costurada por uma experiente dinastia amparada em burocracia, matrimônios e um liberalismo pragmático. A Europa média ou central era a própria Áustria-Hungria (como o Oriente Médio, até 1918, confundia-se com o Império otomano).

Englobava boa parte da Europa central, oriental, norte da Itália e Bálcãs, vinte nações que poderiam ser arrumadas em 16 diferentes composições geopolíticas. As pilastras do antigo império – Áustria, Boêmia, Morávia, Hungria – integravam as alternativas. O reinado de Francisco José I, que vai de 1848 a 1916, foi o mais longo da história europeia.

Em 68 anos de estabilidade, burocracia, rigor, tradição e protocolo, a aristocracia difundiu um comportamento que permeou a cultura e a política austríacas pelo menos até a Segunda Guerra. A celebrada efervescência vienense é desse período de intensa produção artística e principalmente literária. Mas, na virada para o século 20, Viena experimentava “circunstâncias díspares”.

“Decadência e inovação; unidade e multiplicidade; cosmopolitismo e provincianismo; Levante e Ocidente”, escreveu o historiador Carl Shorske em seu extraordinário “Viena fin-de-siècle”. Isso propiciou o florescimento de um surto de criatividade tão expansivo que a vida política posterior ficaria marcada para sempre por traços que oscilavam, psicanaliticamente falando, entre culpa e redenção, angústia e beleza, ansiedade e vazio.

“Imbuída de senso de missão e determinada a libertar-se do jugo edipiano clássico-iluminista, Viena abrira espaços de convívio, onde os mais ousados conceitos passaram a ser objeto de vivo debate. Os grandes jardins já públicos, os ‘salões’ literários, os cafés legendários transformaram-se em foros de discussão da psicanálise nascente, do novo urbanismo, da música atonal, das artes plásticas – do ‘déco’ ao expressionismo”, escreveu Shorske.

Os cenários intelectuais eram múltiplos: havia o salão de Alma Mahler, mulher de Gustav e musa de Kokoschka, Giropius e Werfel; o Café Central, onde se cruzavam Freud, Mazarik, Bronstein (ou melhor, Trotsky), o socialista Bauer e o reacionário Lueger. Wittigenstein, Schoenberg, Klimt e Otto Wagner discutiam avanços que iam da matemática à estética; Herzl vislumbrava o Estado judeu, já temendo o anti-semitismo crescente; e o então jovem Adolf percorria, maravilhado, a monumental avenida Ringstrasse.

A vida de Arthur Schnitzler coincide com o outono áureo de uma civilização majestosa, cenário ideal para romper com a tradição e antecipar a modernidade. Mas as circunstâncias trágicas pelas quais a Áustria acabou sendo enredada nas duas grandes guerras, até ser anexada pela Alemanha em 1938, aguçaram os contrastes. Num cenário histórico de intolerância crescente e irradiação artística luminoso, o esplendor vienense degradou-se.

Crise de mentalidades

A editora Record está relançando alguns títulos da vasta obra de Schnitzler, com tradução de Marcelo Backes. Já estão à disposição “Crônica de uma Vida de Mulher”, “O Médico das Termas” e “O Caminho para a Liberdade”. Outros virão. “Breve Romance de Sonho”, no qual Stanley Kubrick se baseou para o filme “De Olhos Bem Fechados”, é talvez a narrativa mais conhecida do público brasileiro recente.

Num primeiro momento, as temáticas psicológicas do autor vienense podem parecer supérfluas ao leitor contemporâneo. Essa percepção (equivocada) talvez pudesse ser corrigida com posfácios que contextualizassem melhor “os tempos de Schnitzler”. Infelizmente, os posfácios sobre os romances do autor vienense incluídos na coleção “As Grandes Obras” (da Record) não fazem jus à qualidade do trabalho de tradução de Marcelo Backes.

Os livros recém-lançados têm mais ou menos o mesmo pano de fundo: a Viena fin-de-siècle, através da qual Schnitzler nos põe em contato com mentalidades duais, tanto do ponto de vista do indivíduo quanto do imaginário coletivo da época. Imerso nas contradições de sua cultura, Schnitzler apresenta variações minuciosas do hedonismo conflitante praticado por burgueses e aristocratas da Áustria.

Os três romances que a Record traz de novo a público transportam uma verdade social praticamente idêntica: o fato de que, nas últimas três décadas do Império Austro-Húngaro, que ruiu durante a Primeira Guerra, a intelligentsia austríaca se debatia com uma questão inadiável: a crise cultural. Em Viena, artistas refinados se ocuparam bastante da temática do indivíduo numa sociedade em desintegração.

“Como o mundo vienense soçobrou no caos? Terá sido porque os indivíduos traziam em suas psiques algumas características fundamentalmente incompatíveis com o conjunto social? Ou terá sido o próprio conjunto, enquanto tal, que distorceu, paralisou e destruiu os indivíduos que o compunham?”, pergunta Schorske, insinuando que talvez nunca tenha havido um conjunto social rítmico, mas sim uma ilusão de diversidade.

Viena tinha traços em comum com as culturas liberais de outros centros europeus, mas também singularidades. A capital se dividia em componentes moralistas e estéticos contraditórios, fornecendo o aparato intelectual para o enfrentamento da crise de sua época. Na literatura, as duas figuras literárias de proa foram exatamente Arthur Schnitzler e Hugo von Hofmannsthal, que, aliás, é personagem em “O Caminho para a Liberdade”.

De diferentes maneiras, ambos tentaram elaborar concepções sobre a relação entre política e psique. A política se expressa na história. Em 1895, Viena era o bastião do liberalismo. Mas foi sacudida por um movimento social-cristão. O imperador Francisco José, com o apoio da hierarquia católica, recusou-se a ratificar e eleição de Karl Lueger, católico anti-semita.

Dois anos depois, o imperador se curvou à vontade do eleitorado e ratificou Lueger como prefeito. Os demagogos social-cristãos iniciaram então uma década de governo em Viena, recusando os princípios liberais clássicos baseados em tolerância e laicidade. Isso não ocorreu somente no plano municipal. Em 1900, os liberais foram esmagados por movimentos de massa cristãos de viés nacionalista, socialista e anti-semita.

“Essa derrota teve profundas repercussões psicológicas. O estado de espírito suscitado não era tanto de decadência, mas de impotência. O progresso parecia ter chegado ao fim”, escreveu Shorske. “Ansiedade, impotência, consciência agudizada da brutalidade da vida social: esses traços adquiriram um lugar central num clima social em que o credo liberal vinha sendo estilhaçado pelos acontecimentos.”

Segundo Schorske, dois fatos sociais básicos distinguiam a burguesia austríaca da francesa e inglesa: os austríacos não conseguiram destruir (e tampouco se fundir totalmente) com a aristocracia. O imperador era um protetor paterno distante, mas indispensável. A incapacidade de monopolizar o poder fez com que o burguês, sentindo-se sempre um pouco forasteiro, procurasse uma integração com a aristocracia.

“O elemento judaico em Viena, numeroso e próspero, apenas fortaleceu essa tendência, com o seu forte impulso assimilacionista”, observa Shorske, que apontou duas vias de acesso à cultura aristocrática, na época: a orgia arquitetônica (edifícios grandiosos inspirados por um passado gótico, renascentista ou barroco que não lhes pertencia) e o patronato das artes de espetáculo, de longa e sólida tradição no império.

É como se a arte estivesse substituindo a vida. À medida que a ação civil se mostrava mais e mais vazia, a arte virou uma espécie de religião, fornecendo um sentido de existência ao indivíduo. As consequências da cultura individualista e do conservadorismo liberal foram o narcisismo e a hipertrofia dos sentimentos. Aliás, não foi por acaso que a psicanálise brotou ali.

“A catástrofe da ruína do liberalismo metamorfoseou ainda mais a herança estética em cultura de nervos sensíveis, hedonismo inquieto e, muitas vezes, franca ansiedade. (…) A culpa se mesclou, e mutilou, nos melhores representantes austríacos, a afirmação da arte e da vida dos sentidos. Essa presença continuada da consciência no templo de Narciso reforçou as fontes políticas da ansiedade na psique individual”, afirma Schorske.

A capital da Psicanálise

Em “Morte no Paraíso”, sobre a vida e a obra do escritor austríaco Stefan Zweig (ele próprio um integrante júnior do círculo de Schnitzler), o biógrafo Alberto Dines assinalou alguns reflexos da aparente estabilidade do Império Austro-Húngaro sobre as individualidades. O principal deles foi a “Cultura Biedermeier”, expressão cunhada por um satirista para designar o burguês apolítico, respeitador das leis e sedento de artes e espetáculos, e que, com o tempo, passou a significar “prazer estético alienado”.

“A classe média era encorajada a se dedicar ao refinamento até então restrito à aristocracia”, escreveu Dines. “A literatura Biedermeier, por exemplo, se debruçou sobre o kleine Mann, cidadão submisso, orgulhoso de sua modesta cota de felicidade.” Um dos personagens de “O Caminho para a Liberdade”, a certa altura, diz: “Estamos no país da desonestidade social: aqui você encontra conflitos selvagens sem um pingo de ódio e amores profundos sem o menor compromisso com a fidelidade”.

Schnitzler encarou a hipocrisia e a mediocridade dos burgueses (sendo ele próprio um burguês judeu não religioso) como decorrência de um projeto sociopolítico. As indignações eram facilmente amansadas; a tolerância religiosa e racial, um fingimento. Enquanto os aristocratas se deprimiam em sua impotência política, os burgueses reprimiam suas emoções. Schnitzler explorou magistralmente em sua ficção os “salões” e feitios morais.

Seus romances estão cheios de pais tirânicos, mulheres frígidas, jovens histéricas, maridos impotentes, meninos fascinados por mães dominadoras, meninas fascinadas por pais sedutores, controles sociais disfarçados, sexualidades reprimidas. O autor vienense meteu o universo burguês e aristocrático de Viena num gigantesco divã.

Numa nota explicativa de “Morte no Paraíso”, Dines nos lembra que a centralidade de Viena como matriz da psicanálise começou a ser discutida pelo psiquiatra francês Pierre Janet já em 1913. Determinista, Janet via na capital do Império Austro-Húngaro o cenário propício para repressões e neuroses: “Determinismo este negado pelo próprio Freud, pois contrariava suas teorias sobre a ancestralidade dos fenômenos do inconsciente. E também por razões pessoais: Viena recebeu de forma hostil tanto a psicanálise como seu patriarca”.

No campo afetivo o burguês austríaco havia sido educado paras outras dualidades: estratificação do sexo e do casamento em santuários distintos; casamentos de fachada e intensa vida sexual com amantes tchecas e húngaras (minorias étnicas impedidas de ascender socialmente na capital da psicanálise); esposas aviltadas pela subserviência.

Na primeira década do século XX aquele hedonismo todo começou a esgotar. O refinamento não alcançava as massas, que se urbanizavam rapidamente, e a modernidade dos salões artísticos não chegava ao nível das ruas, nas quais imperavam a imitação e a demagogia. Enquanto isso, os olimpianos burgueses discutiam transcendências “inúteis”, entendidas pelo avesso (quando entendidas). Um abismo separava os iluminados dos atarantados. Hitler soube se aproveitar disso.

“Em meio a tantas identidades em crise, a dos judeus não ficaria adormecida”, escreveu Dines. “No princípio do século XX, os judeus constituíam 9% da população urbana austríaca; já no campo intelectual, segundo Zweig, nove entre dez austro-húngaros que se destacavam eram judeus. Tribo dentro de uma nação de tribos, cosmopolitas no império multinacional, exímios polinizadores da colmeia europeia.”

Importante lembrar que os judeus possuíam uma vantagem em relação às outras nações do império: expressavam-se em alemão e, graças à língua, conseguiam ficar sempre bem perto do poder. Mas era apenas uma sensação de poder. Na prática, não desfrutavam poder algum. Já a força dos artistas, judeus e não judeus, estava na estética. Schnitzler e Hofmannsthal se tornariam populares por seus amplos paineis sociais em romances, novelas, peças e ensaios.

Ambos pertenciam ao grupo de estetas denominado Jung-Wien (Viena Jovem). A Jung-Wien se reunia no Café Griensteidl e, mais tarde, no Café Central, onde Trotsky, antes da revolução Bolchevique, tinha lugar cativo e, como todos os habitués, lia jornais, recebia e escrevia cartas, rascunhava ideias, discutia grandes questões. O “espírito vienense”, carregado de altas doses de malícia, se expressava nos cafés. Neles, a arte tinha princípio, meio e fim.

Personagens em si mesmas

O pai de Schnitzler, médico de renome, encaminhou Arthur para uma sólida carreira médica, que o rapaz seguiu por mais de dez anos. Compartilhando do entusiasmo vienense pelas artes de espetáculo, os pais de Schnitzler orgulhosamente contavam com grandes artistas vienenses entre seus pacientes e amigos. Mas quando Arthur sentiu a certeza de que contraíra uma vocação literária, o pai se revelou moralista, opondo-se enfaticamente às intenções do rapaz.

Schnitzler servira como assistente na clínica de Theodor Meynert, professor de Freud, e especializou-se em técnicas de hipnose. À semelhança de Freud, Schnitzler sentia uma profunda tensão entre a herança paterna de valores moralistas e a convicção de que era necessário reconhecer a vida dos instintos como fundamento da desgraça tanto quanto do bem-estar.

Acabou dando vazão à sua atração pela psicologia na (dentro da) literatura, resolvendo assim outra questão de ambivalência: retirar da perspectiva científica a matriz moralista e enfrentar o âmbito dos instintos. “O Caminho para a Liberdade” é a obra que melhor descreve a psique austríaca. O terreno histórico específico do romance consiste no fenômeno de desintegração da sociedade liberal sob o impacto do anti-semitismo.

A geração mais jovem de Viena lutava desesperadamente para encontrar a trilha da clareza e da satisfação pessoal. Cada personagem do romance, principalmente entre os jovens judeus, representa um caminho real mesmo durante o auge da liquidação do liberalismo. Mas, inconscientemente, todos parecem preferir o hedonismo (mais compatível com suas personalidades hesitantes e alienadas) ao senso de justiça.

O homem de vontade política se torna escritor frustrado, e sua vontade se transforma em autodestruição. A jovem judia atraente, feita numa vida de amor, converte-se em socialista militante. O jovem judeu, por temperamento destinado a ser oficial militar de fino corte aristocrático, transforma-se em sionista. O verdadeiro eu de cada personagem é distorcido pelo turbilhão frenético do conjunto.

O protagonista de “O Caminho para a Liberdade”, Georg von Wergenthin, artista e aristocrata, encarna o herói cultural burguês do fin-de-siècle austríaco. Através dele, Schnitzler ilumina a lenta morte de um ideal. Homem refinado e elegante, compositor talentoso, Wergenthin é duplamente festejado no círculo da alta burguesia judaica. Sua arte é apreciada e incentivada.
Por outro lado, do ponto vista ideológico, a alta sociedade empurra Georg e seu espírito pluralista para o isolamento e a futilidade. Em meio ao caos de orientações moralmente conflitantes, o vazio de valores se adere a Georg. Sua vida psíquica, então, aos poucos vai refletindo a condição despedaçada e dilacerada de sua época.

“O Caminho para a Liberdade” não parece ter uma finalidade clara nem uma tragédia visível, como se a faceta médica de Schnitzler houvesse prevalecido sobre a do artista, como se os aspectos morais houvessem superado a vontade de condenar. O romance tampouco concebe uma solução para o problema político da psique.

Como “psicanalista social”, Schnitzler vislumbrou a irrupção do irracional e do instintivo nas altas rodas de sua cidade. Como escritor de ficção, deu também uma contribuição formal. Dizem que nele a técnica do fluxo de consciência, mais tarde magnificamente dominada por James Joyce, começou a se expressar de maneira definidora.

O melhor exemplo dessa utilização está noutro livro “Senhorita Else” (ainda não relançado). Trata-se de um longo discurso em primeira pessoa da personagem-título que, para além do drama narrado, revela um quadro psicótico. O doutor Gräsler de “O Médico das Termas” é outro caso clínico. Além de encarnar o vazio de seu tempo, Gräsler é um solteirão preconceituoso, indiferente aos sentimentos das pessoas e dotado de uma hesitação paralisante.

Seu complexo de inferioridade se expressa por paranóias. Uma delas é a de ser rotulado de (ou considerado um) filisteu. Na verdade, nenhum coadjuvante da novela verbaliza esse termo em momento algum. Mas ele é o cerne da implacável autocrítica de Gräsler: “E se tivesse vontade de escolher a senhorita Katharina como sua acompanhante, ninguém teria o direito de continuar vendo nele um sujeito meticuloso por demais ou um filisteu”.

O próprio Schnitzler assinalou certa vez que os “cases” o interessavam mais que os indivíduos. Gräsler, Georg, Therese, Else e muitos outros protagonistas de seus romances são peças do teatro de bonecos que o autor desenvolveu por meio de uma percepção social agudíssima. De maneira geral, porém, sua prosa é um tanto enfadonha, não deleita, embora desembaraçada.

Se Freud, como “cientista”, frustrou a ciência, Schnitzler, como estilista, frustra-nos, hoje, um pouco. Embora não tenham sido fisicamente próximos, as coincidências entre os dois vão além do fato de serem judeus destacados e fascinados pelos mistérios da psique: ambos traziam dentro de si o século XIX, e um dos sinais disso é o pressuposto (em ambos) de que a Viena “pré-moderna” era uma verdadeira fábrica de neuroses.

TRECHOS
de cada um dos três romances relançados pela Record até março de 2011

Therese tinha dificuldades em acompanhar com atenção ou até mesmo em compreender a palestra árida e cansativa; mas, como fazia algum tempo que o pai lhe causava uma compaixão crescente, ela tentou, ouvindo, emprestar a seus olhos dormentes um brilho de participação, e quando o pai enfim interrompeu a leitura para aquele dia, ela o beijou na testa como se estivesse lhe agradecendo, tocada. Mais três noites se seguiram, no mesmo ritual, até o tenente-coronel chegar ao fim com sua leitura; em seguida ele levou pessoalmente o manuscrito aos correios. De então em diante passou seu tempo em diferentes restaurantes e cafés. Travara algumas amizades na cidadezinha, na maior parte das vezes com homens que já haviam deixado o trabalho de sua vida e sua profissão para trás: funcionários aposentados, advogados de outrora, também havia entre eles um ator, que envelhecera no teatro da cidade e agora dava aulas de declamação quando lograva encontrar um aluno. (“Crônica de Uma Vida de Mulher”)

E pouco a pouco, enquanto os dias e as noites avançavam, sobretudo nas horas matinais, quando Katharina estaa deitada a seu lado a cochilar, a saudade de Sabine começou a se manifestar com violência dentro dele. Ele refletiu o quanto seria mais feliz, o quanto sua existência poderia se orientar de maneira mais nobre, se em vez dessa moçoila de loja, pequena e bonitinha, que além do contador, do qual havia sido noiva, com certeza ainda havia tido mais um par de amantes, que enganava seus pais honestos e fofocava com a vizinha… se, em vez dessa criaturinha insignificante, cuja graça e bondade ele não deixava de reconhecer, estivesse repousando sobre o travesseiro a cabeça loura daquele ser maravilhoso, que havia se consagrado como sua companheira com uma alma tão pura, à qual ele, por uma falta completamente infundada de confiança, havia desprezado. (“O Médico das Termas”)

Mãe-pátria… Isso era nada mais do que uma ficção, um conceito da política, pairante, mutável, impossível de ser compreendido. Algo mais real era apenas a terra natal, não a mãe-pátria… E, assim, o sentimento natal também significava um direito à terra natal. E no que dizia respeito às religiões, ele tolerava tanto as lendas cristãs e judaicas quanto as helênicas e indianas; mas cada uma delas era igualmente insuportável e asquerosa para ele assim que tentava lhe impor seus dogmas. E, ademais, ele não se sentia estreitamente ligado a ninguém, isso mesmo, a ninguém no mundo. Aos judeus chorando em Basileia tão pouco quanto aos alemães furibundos no parlamento austríaco; aos agiotas judeus tão pouco quanto a cavaleiros rapinantes da alta nobreza; a um taverneiro de conhaque sionista tão pouco quanto a um merceeiro social-cristão. E o que menos o uniria estreitamente a alguém seria a consciência de uma perseguição sofrida em conjunto, de um ódio aturado em conjunto, caso se sentisse interiormente distante dele. (“O Caminho para a Liberdade”)

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