Fatos e ficções a sangue frio

A obra é admirável, mas Truman Capote inventou;
inventou, inclusive, o paradoxal gênero “romance de não ficção”

Sergio Vilas-Boas
escrito em 2002; revisto em 2010

A Companhia das Letras relançou “A Sangue Frio”, de Truman Capote (1924-1984), dentro da coleção Jornalismo Literário, inaugurada em setembro de 2002 com “Hiroshima”, de John Hersey. “A Sangue Frio” é uma obra admirável, mas não “uma nova forma de arte”, como vem sendo dito desde os anos 1960. Há um dado importante, raramente mencionado: Capote inventou coisas. O confiável biógrafo Gerald Clarke em “Capote: Uma Biografia” (Editora Globo) escreveu:

“Mesmo que os sabujos de jornal não soubessem – e Alvin e Marie Dewey tiveram o cuidado de não o contradizer -, Truman cedeu a algumas poucas invencionices, pelo menos a uma mais grave, e por causa dela ‘A Sangue Frio’ ficou mais pobre. (…) Concluiria [o livro] com a execução?, indagava-se. Ou deveria terminar com uma cena feliz? Escolheu a segunda hipótese. Mas como os fatos não lhe proporcionaram nenhuma cena feliz, foi obrigado a inventar uma: um encontro casual de Alvin Dewey e Susan Kidwell, a melhor amiga de Nancy Clutter, no aborizado cemitério de Garden City, um oásis na secura da cidade. Lá estão enterrados os Clutter, assim como o juiz Tate, que sentenciou os assassinos”.

Quem (não) conhece bem o lendário “A Sangue Frio” pode estar meio perdido a essa altura. Situemo-nos. Lançado originalmente nos EUA em 1966 (Capote já havia publicado alguns capítulos na revista “The New Yorker”), o livro reconstitui a história do sinistro assassinato dos quatro integrantes da família Clutter. Herbert, Bonnie, Nancy e Kenyon foram amarrados, amordaçados e baleados na cabeça, dentro de casa, na noite de 15 de novembro de 1959.  O crime ocorreu na obscura cidadezinha de Holcomb, Kansas. Os dois principais suspeitos – os assaltantes Perry Smith e Dick Hickock – foram presos em Las Vegas, julgados e enforcados em 1965.

E quem eram os dois personagens do encontro casual inventado por Capote? Alvin Dewey foi o investigador que trabalhou no caso e auxiliou diretamente as pesquisas de Capote; Nancy Kidwell, a melhor amiga de Nancy Clutter, uma das vítimas. Após narrar os enforcamentos em detalhes, Capote cria uma cena em que Dewey encontra Susan e mantêm um curto diálogo reflexivo diante da lápide dos Clutter no tal cemitério.

Truman obscureceu ao invés de iluminar a sua façanha com o sua “obra maior” – “A Sangue Frio” é também um dos maiores fenômenos de marketing da história do mercado editorial. “Realmente, o termo que ele cunhou, romance de não ficção, não faz sentido. Um romance, segundo a definição do dicionário, é uma narrativa fictícia de extensão considerável: se uma narrativa é não ficticia, não é um romance”, afirma Clarke.

Em livro ou em revista, a história dos Clutter de Holcomb arrebatou multidões. As quatro edições da “New Yorker” dedicadas ao caso bateram recordes de vendas. O livro logo se tornou um dos maiores best-sellers literários de todos os tempos em vários países. Em menos de um ano após o lançamento Capote embolsou US$ 1 milhão (líquidos) e deu uma festa memorável no Plaza, em Nova York, com a presença de celebridades de diversas áreas.

O painel intrigante e meticuloso montado em “A Sangue Frio” comprova (ainda comprova) que a narrativa da realidade pode ser tão artesanal quanto a literatura. Mas Clarke nos lembra que histórias reais escritas com técnicas romanescas eram consideradas uma espécie inferior de literatura, na época. Os jornalistas, diziam os críticos, “não estavam aptos a explorá-la”; e os bons ficcionistas norte-americanos, por sua vez, desdenhavam a reportagem “porque repórteres não são capazes de produzir boa ficção”.

Capote nunca foi um repórter de noticiários, mas escreveu textos interessantes para revistas. Para a”The New Yorker”, produziu um perfil memorável de Marlon Brando e uma grande reportagem dramática sobre a turnê de uma trupe da Broadway para apresentação do musical “Porgy and Bess” em Moscou. Os dois textos podem ser lidos na coletânea “Os Cães Ladram: Pessoas Públicas e Lugares Privados” (L&PM, edição de bolso). 

Mesmo não tendo sido considerado “um dos maiores ficcionistas americanos de todos os tempos”, tal como ele desejava (tinha um ego imensurável), Capote abriu fronteiras com “A Sangue Frio”. Antes de tudo, expôs a importância da solidez do trabalho de campo na construção de uma narrativa sobre “o que de fato aconteceu”. O dândi entrevistou, bisbilhotou, esmiuçou, interpretou; relacionou-se com os policiais e com os criminosos; reconstituiu em detalhes diálogos, geografias, feições, pensamentos, temperamentos e lembranças; foi iluminado tanto quanto iluminou o provinciano e conservador ambiente de Holcomb, no condado de Garden City. (Imagine Capote, baixinho, gay e afetado no meio de personagens que deviam lhe parecer recém-saídos de um filme de caubóis.)

Capote não acreditou que podia dar conta do trampo sozinho, apesar de sua experiência de escritor emprestada ao jornalismo. Tanto que pediu ajuda da amiga e conterrânea Nelle Harper Lee, a autora de um livro só: “O Sol É Para Todos” (“To Kill a Mockinbird”). No início das pesquisas em Holcomb, Nelle foi o anjo da guarda de Truman, abrindo o caminho para que ele fosse aceito naquele cenário caipira. Em conversas aparentemente casuais e descompromissadas, os personagens abriam-se . A idéia era exatamente esta: misturar-se com as pessoas e atentar para os momentos reveladores.

Vale contextualizar a “polêmica” da cena final e atualizar o entendimento sobre a atitude de Capote. Sem puritanismos, minha opinião é a seguinte: Capote escorregou feio. Defendo a exatidão, doa a quem doer. Se Capote reconstituísse a cena baseado em alguma evidência ou registro, tudo bem. Mas não parece ter sido o caso. O primeiro e único mandamento de qualquer narrativa que se pretenda de “não ficção” é exatamente “não inventar pessoas, lugares e episódios”. (O “não” é uma espécie de negativa afirmadora, no caso, por mais contraditório que pareça.)

Passados mais de quatro décadas, contudo, esse pecado não deverá derrubar o mito criado em torno de Capote e sua obra. Certas informações vieram à tona talvez já sem efeito. Mesmo na época do lançamento do livro não havia grandes expectativas estéticas em relação aos chamados livros de não ficção. Nos anos 1960 não existia uma Literatura de Não Ficção (socialmente aceita, como hoje) com regras e princípios.

Os ataques mais pesados ao Jornalismo Literário vêm exatamente dos ideólogos da objetividade, os “modernizadores do jornalismo”, que consolidaram a supremacia dos textos burocráticos, pobres de espírito, de vocabulário e de história. O jornalismo diário assim segue tentando imitar o que pensa ser a vida: um eterno comer, beber, dormir e trabalhar, não necessariamente nessa ordem, não necessariamente com a consciência limpa. No fim das contas, o caráter tendencioso dos noticiários termina obscurecido por seu próprio véu de neutralidade.

Reportagens ditas objetivas de hoje, baseadas em “aconteceu ontem” ou “fulano disse”, não raro enfrentam reações iradas das fontes. Mas, nesse caso, seus autores não têm como se defender alegando que “apenas estavam experimentando uma linguagem elaborada”. Alguns personagens de “A Sangue Frio” queixaram-se de cenas, diálogos, pensamentos e atitudes que não batiam com suas lembranças. Já os dois protagonistas da cena final inventada, ao que se sabe, nunca espernearam. Estranho.

Enquanto isso, a fama de “jornalista” de Capote, que chegou a merecer 18 páginas da revista “Life” na época, escapou ilesa. Suas qualidades de fanfarrão, imiscuído nos altos escalões sociais, e sua história de vida conturbada propiciaram muito mais munição a seus detratores do que seus supostos deslizes como repórter. Além do mais, os tempos são outros. Transposta para os dias atuais, a revelação da fraude da cena final de “A Sangue Frio” talvez nem fosse alvo de celeumas. Ou seria? Difícil saber. O mercado editorial é tão vulnerável ao escândalo e à fraude quanto Wall Street.

Para haver debate aprofundado seria necessário, hoje, um entendimento universal sobre os pilares do Jornalismo Literário. Pilares, que pilares? Estes: imersão total do autor no tema escolhido; estrutura narrativa que capte a atenção do início ao fim; foco em personagens, não em abstrações; linguagem aprimorada; exatidão; ética; e simbolismo (entendimento do que tudo aquilo representa no nível macro).

Capote violou o mandamento que diz “pessoas reais, em lugares reais vivendo situações reais”. Quem lê obras de Jornalismo Literário atualmente sempre poderá se perguntar se aquilo aconteceu mesmo (sim, às vezes a realidade supera a ficção) e se foi mesmo daquele jeito. Algumas descrições, diálogos, monólogos e digressões feitas a partir de reconstituições responsáveis podem parecer tão hiper-realistas quanto uma obra de ficção premeditada. Nesse sentido, uma boa narrativa da realidade em geral parece (parece) romance ou conto, mas não é. Não pode ser.

Chegamos ao ponto em que o círculo deste artigo tende a se fechar. O que é fato? O que é ficção? A fronteira entre ambos, que chegou a parecer bem definida até às vésperas do surgimento de “A Sangue Frio”, ruiu com a chamada pós-modernidade. Nas últimas décadas, as ciências em geral começaram a ver que essa fronteira, na verdade, esteve sempre aberta. Uma das evidências disso, notaram os pesquisadores, eram exatamente as narrativas que se situavam na zona de fronteira, as que pretendiam, como é o caso de “A Sangue Frio”, fundir a História com a Arte.

Historiadores, antropólogos, sociólogos e jornalistas se acostumaram com o pressuposto de que lidavam com fatos e de que seus textos refletiam a realidade. A filosofia e a psicologia, especialmente, acabaram mostrando que todos estamos mergulhados até o pescoço no território da ficção. O real e o imaginário são indissociáveis. A realidade é uma construção simbólica, engendrada individual e coletivamente. Acreditar que se está oferecendo “o que realmente aconteceu, nem mais nem menos” é um sintoma de esquizofrenia.

Até os trabalhos mais aparentemente científicos têm uma “poética”, elemento estético construído a partir de uma filosofia, uma visão de mundo. Não quero dizer com isto que tudo é permitido, que qualquer coisa é qualquer coisa, que basta “o autor querer”. Insistir na tecla de que “tudo o que narrei é a verdade, nada mais que a verdade dos fatos” é uma atitude marqueteira. Capote agiu assim em suas entrevistas durante as pesquisas para “A Sangue Frio”. Se aspirasse às mais sólidas virtudes do Jornalismo Literário (em franca evolução), Truman Capote não inventaria a cena final em hipótese alguma.

Também não se trata de dizer apenas, grosseiramente, que a “luz apagou, a utopia sumiu, a noite esfriou” (parafraseando o extraordinário poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade). Ultimamente andaram decretando o fim de tudo: da arte, das ciências, da ética etc. Curioso que ninguém, que eu saiba, decretou o fim do jornalismo básico, apesar de sua mais do que demonstrada incapacidade de se renovar e de se manter lado a lado com as evoluções deste nosso cada vez mais indecifrável mundo.

O problema continua sendo as “representações factuais”, o modo como as mensagens são construídas, embaladas e difundidas. Imparcialidades mascaradoras, pretensão ao conhecimento absoluto de conteúdos inaugurais, uso de estatísticas para impressionar o leitor-telespectador-ouvinte, entre outros recursos oportunistas, tentam forjar o real. A reprodução da realidade total, tal qual, é um objetivo inatingível. Nem por isso devemos desistir de nos aproximar das verdades possíveis. Capote quebrou o contrato, ficcionalizou deliberadamente, omitiu. Inspirou tanto quanto decepcionou seus seguidores. Mas seu modo literário de narrar continua sendo referencial para jornalistas-escritores.

Referências básicas

Livros
CAPOTE, Truman. A sangue frio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
CAPOTE, Truman. Os cães ladram: pessoas públicas e lugares privados. Porto Alegre: L&PM, 2006.
CLARKE, Gerald. Capote: uma biografia. São Paulo: Globo, 2006.

Filmes
A sangue frio (In cold blood). 1967. Dir.: Richard Brooks. 134 min.
Capote. 2005. Dir.: Bennett Miller. 98 mins.
Confidencial (Infamous). 2006. Dir.: Douglas McGrath. 117 min.

 

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