Ubaldos brasilis

Um perfil do escritor João Ubaldo Ribeiro (morto em 18/07/2014)

Sergio Vilas-Boas

– Quinhentos anos? Você veio aqui pra falar dos 500 anos? Essa não!

– Bem, poderia ser um dos assuntos, afinal, a Carta de Pero Vaz de Caminha ainda é a certidão de nascimento do Brasil…

– Primeiramente, não temos 500 anos.

– Menos ou mais?

– Olhe, meu amigo, preciso trabalhar; estou cada vez mais sem saco para entrevistas.

– Por que deixou a gente [eu e o fotógrafo carioca Antônio Batalha] chegar até aqui, então?

– Você insistiu muito…

– O que mais te incomoda em entrevistas?

– Os caras fazerem as mesmas perguntas de sempre, e o modo como me folclorizam.

– Pode nos mandar embora daqui, se quiser.

– Mas sou um sujeito que não sabe dizer não. Vamos, vamos começar. Diga o que pretende.

No escritório de seu apartamento no Leblon, Rio, entre incontáveis ações tabagísticas, João Ubaldo estava nitidamente entediado. Sua paciência andava por um fio. O assédio de aspirantes a escritores, formandos do curso de letras, embaixadores culturais, entrevistadores, profusões de e-mails de leitores, não leitores e intercambiadores de abobrinhas têm-lhe aborrecido como nunca.

A tudo isso soma-se, agora, outro assunto em voga, diante do qual o autor se arrepia todo: as comemorações dos 500 anos do Brasil e as especulações em torno da identidade nacional. João Ubaldo costuma ser enfático quanto a isso. Certa vez, durante seminário na Alemanha, surgiu o (falso) problema da identidade brasileira.

– E aquela conversa fiada não acabava. Quando chegou minha vez, eu disse: “No Brasil não temos esse problema”.

Os interlocutores – alemães, em sua maioria – devem ter ficado intrigados.

– Nós temos isso aqui, eu disse, mostrando meu RG. Acabou o debate.

Mas não as discussões acadêmicas, jornalísticas, especulativas, botequinescas em torno de seu livro maior, Viva o povo brasileiro (1984). Parece unânime que nesse romance João Ubaldo tenha tentado compreender a formação do Brasil.

Viva o povo brasileiro é uma espécie de distintivo ficcional desse processo formador. Valendo-se do recurso fantástico de uma alma que reencarna em habitantes de Itaparica, Bahia – do tempo da colonização da ilha pelos holandeses (1647) até a ditadura militar, já por volta do final do governo Geisel (1977) –, João Ubaldo desfia, em estilo barroco, vários momentos decisivos da História do Brasil – Independência, Guerra do Paraguai, Proclamação da República, Estado Novo, etc.

– Claro que não planejei tudo isso. Se pensasse nessas coisas enquanto escrevo, ficaria ainda mais louco.

Os antropólogos Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro escreveram que, no Brasil, plasmaram-se historicamente diversos modos rústicos de brasileiros identificáveis: sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e Centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros, nipo-brasileiros, etc. Todos marcados muito mais pelas semelhanças como brasileiros (o idioma é uma delas) do que pelas diferenças decorrentes de adaptações regionais ou funcionais, de miscigenação ou aculturação que emprestam entre si.

– Sociólogos e educadores americanos já reconhecem o black english como língua, não mais dialeto ou linguagem de rua.

– Acha que temos uma “língua portuguesa negra” ou algo assim?

– Não. Até porque não se faz necessário. Todos por aqui falam o português, sintoma de unidade, por mais precária. O Brasil é o autêntico melting pot do mundo. Ponto.

Multitraduzido, marco da literatura brasileira dos anos 1980, Viva o povo funciona como paródia. Paródia que começa em Homero e passa pelas razões que levaram o autor a ter enfrentado uma lavra de 672 páginas. Dois motivos o levaram à empreitada. Ele mesmo os enumera, em meio a impropérios emitidos à média de um para cada dez vocábulos castos, incluídas as preposições e conjunções:

– Primeiro, eu adorava meu avô paterno, João, que era português [seu primeiro nome vem daí; o segundo nome, Ubaldo, homenageia o avô materno]. Ele dizia que livro que se respeita fica em pé sozinho, numa gozação bem-humorada dos livros do meu pai sobre Direito e temas afins. Segundo que, lá pelo começo dos anos 1980, o então editor da Nova Fronteira, Pedro Paulo de Sena Madureira, comentou que estava incomodado com esses livros fininhos, que se leem na ponte aérea. Então…

O cidadão do mundo João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro, sexagenário, aportado desde 1992 no apartamento comprado de Caetano Veloso, professa uma crença mordaz pelo Brasil e por si mesmo. Trata-se de um sujeito esperançoso também, particularidade sua e fundamental para o seu viver. Mas esperança se refere essencialmente ao futuro; quando calcada demais no passado, torna-se patologia. Para ele, o sonho do futuro (ou de uma prosperidade equânime) parece estar virando desilusão.

Alguma semelhança com os alemães, por exemplo, com os quais João Ubaldo teve de se entender no tête-à-tête, como escritor residente da Deutsch Akademischer Austauschdienst? Não, os alemães alimentam um número excessivo de certezas sobre esta vida incerta. São o oposto dos brasileiros, a maior parte dos quais sem a menor ideia do que estará fazendo na próxima hora.

“Como os alemães podem marcar as coisas com tanta precisão e antecedência?”, ele pergunta em Um brasileiro em Berlim (1993). Para os teutônicos, o futuro é uma questão de planos, estratégias, organogramas, metas, estatísticas, cálculos.

– De qualquer forma, reconheço que o inverso da esperança seria, no nosso caso, uma prova de cinismo ou de loucura absoluta.

Investigações biográfico-científicas indicam que Ubaldo é:

Brasileiro.

Baiano.

Ilhéu.

Leblonense.

Vascaíno.

Verborrágico.

Evasivo.

Cético.

Crédulo.

Bonachão.

Barroco.

Arrítmico cardíaco.

Fumante desbragado.

Mantenedor de uma relação ambígua com garrafas de White Label.

Amanhã, todas essas verdades podem ser mentiras. A irreverência contribuiu para que João se tornasse personagem de si mesmo, lendário, e a contragosto. Ainda bem que se assume como cidadão composto. Compõe-se de dois (para mim, são vários) ubaldos.

Há o Grande Ubaldo, vértice do escritor – o sujeito simpático despido de culpas e preconceitos e aberto a novas experiências. No reverso dessa “aura vital” reside o Pequeno Ubaldo, espécie de inquisidor.

– Pequeno Ubaldo é um , que me vigia o tempo todo. Determina que tenho que escrever três laudas cheias por dia sem poder contar amanhã com eventuais saldos de hoje. Mas é o que faço quando estou escrevendo um livro: três laudas por dia.

Mas nenhum dos ubaldos demonstra verve filosófica. Sua retórica foge ao convencional.

– Só sou capaz de filosofias baratas.

Que tal esta: “O que existiu realmente existiu? Algo importa além do presente? Há realmente uma História, somos de fato herdeiros de alguma coisa, ou somos eternos construtores daquilo que a memória finge preservar, mas apenas refaz, conforme suas variadas conveniências, a cada instante em que vivemos?”.

Pequeno Ubaldo acredita que o Brasil romperá o século XXI com pós-doutorado em pelo menos três atividades inimagináveis nos tempos do caboco Capiroba, personagem antropófago de Viva o povo brasileiro: futebol, esporte inventado pelos ingleses; novela televisiva, aperfeiçoada dos mexicanos; e Carnaval, inspirado em bailes de máscaras.

– Somos colonizados, ora essa. Se fôssemos originais, teríamos continuado índios. Veja Heitor Villa-Lobos, o grande compositor brasileiro, ou colombiano, ou argentino, ou boliviano (para os caras do G7, é tudo a mesma coisa); ele se divertia na Europa contando como se comia gente no Brasil.

Já Grande Ubaldo foi capaz de criar cenas de antropofagia explícita em Viva o povo, debochando da moral e cívica da geração que lhe sucedeu. Lembremos do caboco Capiroba dando uma porretada na cabeça de um padre que tentava amarrá-lo para borrifar-lhe água benta. Capiroba churrasqueou e charqueou o padre.

“… e charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu no varal para pegar sol. Dos miúdos preparou ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano (…), costela assada, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão (…)”

Itaparica, onde ubaldos nascem, maior ilha marítima do Brasil (porque Marajó é fluvial), é o cenário do banquete. Ela foi também campo de batalhas ameríndias e grandes farras antropofágicas. Numa delas, os tupinambás devoraram Francisco Pereira Coutinho, donatário da Capitania da Bahia de Todos os Santos. Itaparica foi devastada, no século XVII, pela infantaria holandesa comandada por Van Schkoppe.

Mas nem os índios nem o caboco Capiroba comiam covardes. Os rituais de antropofagia tinham um caráter que Darcy Ribeiro chama de “cultural e coparticipado”. Era imperativo capturar guerreiros que seriam sacrificados dentro do próprio grupo tupi, por exemplo.

Por compartilharem o mesmo conjunto de valores, os guerreiros aprisionados eram altivos e dialogavam soberbamente com os que se preparavam para devorá-lo. Um dos primeiros visitantes do Brasil, o alemão Hans Staden, foi levado três vezes a cerimônias de antropofagia e três vezes os índios se recusaram a comê-lo, porque chorava e se sujava, pedindo clemência.

Pequeno Ubaldo pode não se dar conta, ou até mesmo mostrar legítimo desinteresse pelas filigranas de sua gênese ficcional, mas é evidente, em Viva o povo brasileiro, que a História foi objeto de reconstituição intensiva. Ou seja, não existe a verdade, apenas histórias. E Grande Ubaldo sabe narrá-las com o exagero dos bons.

Em Berlim, onde morou entre 1990 e 1991, João Ubaldo brincou novamente com a história de que os brasileiros são antropófagos. Uma moça ficou morrendo de medo dele. Já na Holanda adoraram o trecho do livro em que ele diz que a carne de holandês é melhor que a dos portugueses.

– A dos portugueses é um pouco gordurosa.

– Por que o cidadão médio dos países mais desenvolvidos ainda suspeita que o Brasil é uma grande selva?

– Não sei. Mas é falar em Brasil e eles evocam índios e Amazônia. E ditadores militares cobertos de medalhas, gritando ordens a pelotões de fuzilamento em espanhol de acentos bárbaros e telefonando para bancos suíços. Os alemães não acreditaram que só vi dois índios na vida. Um foi o cacique Mário Juruna, ex-deputado federal. Alguns me consideraram um impostor.

– Mas não conhecer a Amazônia é o pior dos pecados, mais grave que a luxúria, não?

– É como se não pudéssemos ter filosofia, balé moderno, nada que não exprimisse o exótico.

Grande e pequeno ubaldos em geral se incomodam com os porquês do fascínio que seus livros despertam nos europeus.

– Acho que gostam da minha carmen-mirandice.

A edição francesa Vive le peuple brésilien –, por exemplo, traz na capa índios com lanças e corpos pintados nas cores azul, vermelha e branca, numa simetria que em muito remete à bandeira dos EUA. Na Suécia, o livro (acho dispensável fornecer a versão sueca para o título) vendeu mais de 100 mil exemplares. A capa: um rosto metade onça, metade mulher e olhos verdes.

– Enche o saco, não? Mas, como diz Millôr, FHC será um ótimo ex-presidente.

Conforme o ponto de vista, a imagem brasileira lá fora tem um reverso favorável. É a que mais se adequa aos que sonham descer os trópicos, esbaldar-se sob um sol interminável, tomar drinques com os ingredientes dos arranjos na cabeça de Carmem Miranda, anoitecer e amanhecer entre mulatas sem padrão de conduta. Atingir a porção sul da linha do equador significa assumir o estilo libertino reinante no Brasil. Se for Carnaval, então…

– Os homens europeus também vêm ao Brasil com medo da imagem que as brasileiras terão de seus países. Acham que a masculinidade será posta em dúvida se não iniciarem os trabalhos no bar mesmo, na chegada do primeiro martini.

Infelizes trópicos (sic) onde não existe nudez sem malícia, como na Alemanha, onde João Ubaldo testemunhou o espetáculo “espantoso” de cidadãos nus no Halensee em dia de sol e casais homossexuais se beijando impunemente. O fato não deveria ter repercussões em um sujeito capaz de uma obra “pecaminosa” como A casa dos budas ditosos (1999), sobre a luxúria.

– Em Portugal, três grandes “superfícies” (como lá chamam as grandes cadeias de lojas) proibiram o livro e não voltaram atrás. Ele vendeu muito bem, apesar de tudo, mas em outras lojas e livrarias.

Na extremidade norte da Kurfürsttendamm, ou Ku’damm, uma das avenidas mais conhecidas de Berlim, na rua Storkwinkel, número 12, João Ubaldo esteve perto de tudo, teve tudo ao seu redor, como hoje, no Baixo Leblon. Instalou-se naquela esquina logo após a queda do Muro. Em passado mais remoto, Grande Ubaldo tentou ser comunista, Pequeno Ubaldo não permitiu.

– Questão de indisciplina dogmática.

Na época da queda do Muro, os visitantes do Leste se aglomeravam nas ruas, lojas, estações e praças como crianças deslumbradas. A vida, a dos berlinenses, especialmente, tornou-se caótica para os padrões alemães.

– Em vez de visitadas, as pessoas se sentiam invadidas.

Em Berlim, o outro representava o intruso, cuja fala, modos e fraquezas eram inaceitáveis. A solidariedade, nessas horas, é pura retórica. O que estava acontecendo não era o que tanto queriam? Queriam mesmo? O fato é que ser estrangeiro é uma condição que envolve gradações.

– Fora do Brasil, não apenas sou estrangeiro como tenho cara de estrangeiro. Na França, me misturam com os árabes. Nos EUA, sou hispânico. Na Alemanha, passo por turco, e por aí vai.

Sua estrangeirice começou há mais tempo, na verdade, e dentro de seu próprio território. Com dois meses de vida, a família de João Ubaldo se mudou primeiramente para o interior de Sergipe. Seu pai foi subindo na carreira de magistrado que então o ocupava e, anos depois, foram parar em Aracaju. Quando Ubaldo começava a se sentir sergipano, teve de voltar para a Bahia.

– Sempre demarco meu território. Sair dele é traumatizante.

Em Salvador, o pai implacável mandou o pequenino Ubaldo para um desses colégios tradicionais, de alta classe – o Colégio Sofia Costa Pinto, em Salvador. O uniforme do Sofia era de calças compridas.

– Nas primeiras vezes que me mandaram para o Sofia, meteram-me em paletó, gravata, calça curta e meia até o joelho. Era patético. Nem nos colégios do interior de Sergipe os garotos se vestiam assim.

Fora leitura, estudo de idiomas e outros, o pai não lhe permitia quase nada. Grande Ubaldo conseguia, contudo, jogar futebol como zagueiro recuado e, às vezes, ponta direita, posição que formalmente não existe mais no futebol moderno.

– Meu pai não permitia que eu trancasse portas, exceto a do banheiro. Era o único lugar em que eu podia me trancar. Um dia ele me pegou falando baixinho no telefone pra ninguém me ouvir. E disse, aos berros: “Isso não é jeito de namorar, Ubaldo!”.

Em 1964, o aspirante a escritor recebeu uma bolsa de estudos junto à embaixada americana e desembarcou na Califórnia, onde fez mestrado em administração pública e ciência política. Chegou a dar aulas de ciência política na Universidade Federal da Bahia e até publicou um livro chamado Política (1981). Retornou à Bahia vindo de Los Angeles. Foi quando percebeu que havia perdido a sua turma. Todos tinham ido “fazer o Rio de Janeiro”.

Glauber Rocha e Jorge Amado, amigos e padrinhos literários de João Ubaldo, que estava “ficando desajustado na Bahia, longe da companhia dos amigos”, conseguiram para o pupilo outra bolsa de estudos, desta vez da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa.

– Não dava pra pagar nem o aluguel.

Nesse período, então, editou com o jornalista Tarso de Castro a revista Careta, o que lhe permitiu viver modestamente em Portugal com a esposa Berenice.

– Eu editava por telefone, e Portugal não tinha ligação DDI, na época. Era um inferno conseguir ligação.

Entre a volta de Portugal e 1983, instalou-se no Rio a duras penas, assumidamente fiado em Deus, ao ponto de um amigo dizer-lhe: “Ô, João, você num acha que tá fiado demais em Deus, não?”.

– Eu tava naquela situação do “ai de quem precisa”. Ou seja, quem precisa não encontra ajuda.

João Ubaldo acabou desembarcando de mala e cuia na casa de Itaparica, onde nasceu e onde seus avós maternos moraram até a morte. Nela, pôde resgatar a tão adorada combinação bermuda-sandália-camiseta; não pagar aluguel; ter escola barata para os filhos; e ainda, se precisasse, apanhar uns mariscos frescos ele mesmo. Nesse tempo, “viveu barato”, como se dizia. Só voltaria a morar no Rio depois da estada em Berlim, no tal apartamento comprado de Caetano Veloso, na rua General Urquisa, Leblon, o local do nosso encontro.

– Sente falta das “leituras públicas” na Alemanha?

– Claro que não. Imagine o sujeito chegar do trabalho e, em vez de fazer algo sensato, como tomar um drinque e convidar a vizinha para ouvir uns disquinhos, preferir uma leitura. Isso é inconcebível para nós brasileiros, exceto sob a mira de uma metralhadora.

Pois os alemães fazem isso, ou fizeram apenas para impressionar Grande Ubaldo, que detesta previsões concretas sobre o Brasil, muito menos aquelas dos relatórios econômicos extensos redigidos por consultorias internacionais. E agora tem esse negócio de risco-Brasil, número criado por uma meia dúzia de caras.

– Eles querem saber se somos de alto ou baixo risco. Ora, se se preocupam com isso é porque somos importantes, ainda que na forma de mercado ou mercadoria. Olhe, essas estatísticas não têm a menor confiabilidade.

Seriam as estatísticas dessas consultorias internacionais equivalentes à “fúria asfaltante” do senador Antônio Carlos Magalhães, criticada pelo conterrâneo João Ubaldo, “ilustre integrante da esquerda democrática”? O ex-senador, ex-governador e ex-prefeito baiano recapeou mesmo seu Estado e sua capital. No Brasil dos ubaldos, os fins justificam os meios.

Com ficcionistas é diferente. Um folclore vai levando a outro e, se não se toma cuidado, os autores morrem personagens de si mesmos. De folclores, Pequeno Ubaldo está cheio. Seu alemão, por exemplo, é “oligofrênico”, diz.

– Não falo “chonga” [bulhufas] de alemão, como dizem por aí. Inglês, sim, sei mais do que a maioria dos americanos.

Por folclore ou por competência literária – chega um momento em que não há mais como saber ao certo –, o assédio em torno dos ubaldos é imenso.

– São convites para ser patrono em formatura, dizer tolices em palestras para plateias bocejantes e outras aporrinhações. Mas, como lhe disse, tenho o problema de não saber dizer não.

Ele, que há pouco diagnosticou uma arritmia cardíaca (ou “fibrilação atrial”) e anda no vaivém com o álcool, recusou-se a produzir um reply automático e padronizado em seu programa de correio-eletrônico. Prefere algo como um “software filtrante”, ao menos para que pentelhos não consigam enviar-lhe arquivos com originais de romances anexos, contos ou crônicas cujo download pode levar horas.

– O que pretendem?

– Tudo, menos permitir que eu trabalhe.

– No Brasil, as pessoas em geral não consideram escrever uma profissão…

– Verdade. Minha própria família suspeita que não trabalho porra nenhuma.

É pai de quatro filhos: Emília e Manuela, do casamento com a historiadora Mônica Roters; e Bento e Francisca, com Berenice Batella, .

Com a pressão da chegada dos 500 anos, João Ubaldo tem recebido convites estranhos, como participar de gravações em zona rural, em meio a vacas e cavalos.

– Adoro ar-condicionado, respondo.

Há quem pense que Grande Ubaldo seja também capaz de navegar e, então, certos encontros memoráveis poderiam ocorrer dentro de caravelas – relembrando Pedro Álvares Cabral, entende?

– Repito que não sei a diferença entre bombordo e estibordo. Se preciso, consulto alguém.

Os ubaldos e suas obras têm sido alvo de desvarios que misturam barões malvados, escravas astutas, sagas luso-tropicalistas, canibais, paisagens exuberantes e histórias, muitas histórias que circulam por botecos cariocas e se imortalizam como o próprio autor – imortal, pelo menos, segundo a Academia Brasileira de Letras.

– Porra, como sou escroto. Nem perguntei se vocês querem uma água ou um cafezinho. Agora é tarde, não? Vamos indo, sim?

Texto publicado em 2000 e incluído no livro “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Persoangens e 1 Ensaio” (Manole, 2014, 3ª edição)

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