Sobre meninos e camelos

Em dezembro de 1977 ganhou de Natal uma bicicleta Monareta azul que mudou a relação dele com o mundo

Sergio Vilas-Boas

Ele não sabe andar de bicicleta. Tivera apenas um velocípede quando criança. Mas treina com afinco dentro do quintal. Faz um pacto com os pais de só sair para a rua quando domar o animal. Em poucas horas, a bicicleta vira seu cotidiano de ponta-cabeça, absorvendo-o completamente, implodindo o monótono mundinho intramuros do retraído adolescente. Agora não há mais por que resmungar “mãe, num tem nada pra mim fazê!”, referindo-se a brincar, interagir, sociabilizar. Ela tampouco tem razão para insistir nas mesmas respostas: “Tem exercício da escola”, ou “vai vê televisão”, ou “pega os livro pra lê” (referindo-se aos didáticos comprados nas seções de usados das papelarias).

Nada disso. Agora há uma bicicleta, o animal amigo e companheiro. Distrai-se tanto com o tal animal que fica desnorteado quando a mãe, ao entardecer, ordena-lhe que entre em casa logo “porque está na hora de tomar banho e jantar”. Foi como despertar de um transe hipnótico: “Quem sou, onde estou, o que aconteceu, o que estou fazendo aqui?”.

O menino nem percebe os joelhos, cotovelos e coxas escalavrados; nem o cromo do guidom suavemente amassado em dois pontos; nem as raspas de borracha dos pedais e manetes grudadas no muro áspero; nem os apelos dos pais para que fizesse manobras que eles próprios, os pais, não sabiam fazer porque nunca andaram de bicicleta na vida; tampouco se importa com os moleques vizinhos disputando uma fresta de ferrugem do portão de zinco para ver o espetáculo do Serginho em cima de sua bicicleta.

No terceiro dia de pedalagens, com a exaustão agravada por não ter dormido direito (de tão absorvido), ele domina o animal como um amansador venturoso. O retorno à superfície do oceano da consciência se dá quando começa a falar do alto de seu camelo. Sim, pedalar e falar ao mesmo tempo. O resto foi conseqüência: montar-se e desmontar-se do selim com naturalidade; posicionar os pedais no ponto certo com os próprios pés, movendo-os para trás; manter-se montado em repouso – apoiado num pilar, por exemplo.

Em termos práticos, todo o resto se resume agora em acelerar nas retas e reduzir nas curvas. Em termos filosóficos, porém, as coisas antipráticas não eram assim tão presumíveis.

25/03/1978. Para descer os seis quilômetros do Anel Rodoviário de Belo Horizonte em cima de suas bicicletas os garotos precisavam subir, ou melhor, escalar os mesmos seis quilômetros pela velha via de mão dupla – estreita, tortuosa, deformada pelos caminhões pesados. Um aclive acentuado começava mais ou menos no trevo do bairro Betânia (sentido Rio de Janeiro).

Os caminhoneiros faziam o que podiam para embalar suas scanias, mercedes e volvos, mas era inútil. Em segundos suas máquinas eram barradas. À medida que se rendiam ao relevo inclemente, o desfile de enormes dragões (do ponto de vista dos garotos, que também eram conhecidos por “vagais”) vai se tornando um entediante cortejo de vira-latas fatigados.

E aqueles merdinhas vadios, trezentos metros adiante, parados, descansando sobre a garupa de seus camelos (gíria para bicicletas, assim como “vagais” para “perdidões”). O que faziam ali? Ah, estavam emboscados. Objetivo: conseguir tração até o alto da serra. Esperavam os que caminhões passassem, saíam da moita, evitando que suas imagens fossem captadas pelo retrovisor do motorista, e fisgavam um dos ganchos de amarrar cargas, localizados na face traseira da carroceria.

Alguns caminhoneiros atentos percebiam a armação e começavam a sacudir o caminhão com o volante, gritando:

“Cai fora daí, moleque danado. Caia fora daí. Cadê a tua mãe, filho-da-puta?”

Outros caminhoneiros nem pressentiam (ou fingiam não notar) a presença dos pequenos parasitas agarrados aos ganchos.

Sergio – ou Serginho, dependendo de quem o chamava e em quais circunstâncias – está agora preso à ponta da cauda de uma Mercedes-Benz modelo 1313, potencialmente forte e ágil como um touro, mas que depois de quinhentos metros de desaceleração mais parece um réptil lesado. Além de tudo, o mercedão está empanturrado de milhões de pequenas rochas compactas e pesadas: ferro in natura.

Serginho está com 12 anos. Pilota sua Monareta aro 20 que poderia ser esmagada como um tomate pelas dez rodas daquele brutamontes. Ao seu lado estavam os amigos Clever e Luiz Antônio agarrados à mesma face da mesma carroceria. Os três sentiam o empuxo do motor do mercedão, que cuspia raivosamente uma fumaça negra, quente e densa.

A fumaça de diesel cru impregnava seus corpos: turvava os olhos, borrava a pele, endurecia os cabelos, entupia os poros e condicionava a respiração, enquanto os tímpanos eram pungidos pela zoeira daquela descarga que só dava trégua (por alguns segundos) quando o motorista trocava de marchas. A cada redução de marchas, aliás, decorria um silêncio medonho, como o hiato de um asmático que de repente para de ofegar. Daí os injetores irrigavam os cabeçotes, o motor urrava e a névoa de carbono envolvia novamente os vagais.

Que diabos o Serginho está fazendo ali, minha Nossa Senhora?

O que passava pela cabeça do provável “filósofo do bairro”?
Filósofo… Essa é boa.

Em sua cabeça passavam-se mil coisas: um medo que não podia demonstrar; culpa por trair a Providência e as metas de refinamento progressivo traçadas por seus pais; desdém pelos códigos sociais; a sensação de que a vida de ex-menino prisioneiro do lar terminou; a dúvida sobre como ter o que é preciso, somente o que é preciso, sem a necessidade de matar-se para conseguir.

“Agüenta firme, panguá!”, berra Luiz Antônio para Clever, autoritariamente.
“Tô firme, porra”, Clever garante, antes de repassar o grito para o Sergio: “Olha pro chão, olha pro chão! Se sua roda pegá em alguma coisa, já era”.
“Eu sei, eu sei”, Serginho tenta se controlar.

Um buraco, uma pedra, uma lasca de lona de pneu, um valo, um estreitamento e… pá! O grande herói das estradas poderia cair e virar mais um tomate amassado. O mercedão cansado de guerra pesava toneladas, transportava toneladas. Os três vagais? Ah, eles eram uma soma de plumas dentro do sistema de perigos em que gostavam de se meter.

Além da fumaceira e da zoeira, as cargas deixavam um rastro de poeiras ferruginosas que atingiam em cheio os moleques; minérios se desprendiam da carroceria e não os acertavam por sorte. Caramba, os três calhordas, que na verdade não enxergavam um palmo adiante, precisavam vigiar as pedras, as poeiras, as fumaças, os sulcos da pista, os caminhoneiros mal-humorados e ainda por cima os tiras da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Não raro, patrulheiros da PRF os interceptavam de surpresa, os perseguiam, capturavam e passavam sermões. O alvo principal eram as bicicletas. Sim, porque os camelos eram a razão de ser dos vagais. Liquidando-os, liquidavam-se os moleques. Quando os tiras pegavam as bicicletas, huuum, rasgavam os pneus com canivetes: “Agora podem voltar pra casa sem perigo”, zombavam, observando os panacas cabisbaixos lado a lado com seus veículos imprestáveis. Tiras cruéis, aqueles.

“E se pegamo ocês de novo, entortamo esses ‘camelos’ a marteladas, ouviram bem? Idiotas! Miolos moles! Onde estão com a cabeça?”
Enquanto isso os vagais pensavam em voz baixa:
“Tiras de merda.”
“Mandatários do sistema!”
“Aspones de reco.”
“Oficiais da opressão.”
“Desmancha-prazeres.”

Os vagais pareciam estar com sorte aquela tarde. Nenhum patrulheiro os localizara. No entanto, o calor era debilitante. O asfalto fumegava. Os metais abrasavam-se. Os corpos derretiam. Depois de alguns minutos, a subida foi ficando arrastada, monótona. O próprio motorista engatou uma primeira e manteve o acelerador em vinte por hora, que é o máximo tolerado pelo motor; apoiou o braço esquerdo na janela, deixou a mente fora do mapa e mergulhou em seus pensamentos.

Nessa hora os vagais se incensavam por ter contornado a situação; por terem supostamente imposto um equilíbrio nas condições. Até se permitiam firulas ridículas, como trocar de mãos nos guidons; ou de um puxar os outros dois, como num trem; ou de se darem ao luxo de olhar para o céu serenamente – afinal, quem só olha pro chão não sonha; e de sentir o vento cavar abstrações nas concretudes.

Finalmente atingiam o topo. Gritavam “obrigado, valeu” para o motorista, que só então se dava conta do parasitismo dos três. Com os camelos nas costas, atravessavam a pista velha em meio a um enlouquecedor zunzunzum de motores e buzinaços. O perigo os imprensava. A espinha de Serginho gelou. Ele arremessou a Monareta dele por cima dos demarcadores de concreto e mergulhou, literalmente, para o outro lado.

Caiu do outro lado, o lado da nova pista asfaltada mas ainda fechada ao tráfego do Anel Rodoviário. Levantou o camelo. Montou nele. Alinhou-se com Luiz Antônio e Clever para a grande descida de seis quilômetros livres, em asfalto novinho, três pistas largas onde nenhum carro os perturbaria.

Com a cabeça entre os braços para cortar vento, pedalou tão ferozmente que se sentiu pedalado. Úúúúúúúú… Logo a sua Monareta atingia a velocidade de cruzeiro. Soltou as mãos do guidom. Espalmou-as. Abriu os braços para recepcionar o universo. “Espetacular. Simplesmente espetacular aquele momento.”

Um dos efeitos colaterais de ser vagal é exatamente essa ingenuidade restauradora, essa redução da consciência ao mínimo, tornando-a imune ao agravamento das degradações. Um vagal ciclista apenas perseguia a pista, uma pista nova, conhecida e livre. Como esquecer? As ocorrências embaralhavam, forjavam uma aparente desordem. Ah, que pena que o mundo não lhe fora explicado nem pela metade. Ele transportava a inteireza de vários trechos incompletos, e só.

Sujeito inconcluso, no conteúdo e na forma, Serginho acabou aceitando o embate aleatório imposto por sua ingenuidade. Teve de aprender algo que todo mundo aprende mais cedo ou mais tarde: arrazoar. Mas arrazoar é também uma desgraça que impede a vida, porque os arrazoados humilham os sentimentos.

Pelo menos sua Monareta azul metálica o obedecia. Ia aonde ele queria ir. Ajudava-o a estourar as bolhas, alcançar o espaço iminente, enfiar a cara no infinito e atravessá-lo. Em cima de seu camelo Serginho não era um organismo mimético, e sim o oxigênio do incêndio.

Aquela tarde os três vagais estavam fazendo os testes dos freios de madeira (em substituição aos de borracha) que inventaram. Mas os tiras bloquearam a ponta norte da pista nova do Anel Rodoviário com imensos barris de aço, um ao lado do outro. Serginho estava à velocidade do som quando avistou os barris uns trezentos metros à frente, após a última curva.

Ele cravou as mãos nos freios com toda a força. Mas suas engenhosas travas de madeira se soltaram pelos ares como folhas de papel num redemoinho. Seu coração disparou. Enfiou o calcanhar da sandália havaiana direita no pneu traseiro, que estava descoberto, sem o para-lamas. Desprezível o resultado. Os barris eram um gigantesco aspirador de pó a sugá-lo. Saltar do camelo? Bater de frente? De lado? Rolar pelo abismo à direita? A vida às vezes impõe sérios limites ao exagero.

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