Saint Germain

Havia em Trump um elemento fingidor realçando sua suposta atitude bravia, como um canastrão trocando de cena

Sergio Vilas-Boas

Uma pilha de pratos desaba lá dentro, na cozinha. Gustav Salvatori chicoteia os rapazes de branco com o couro de sua voz maligna. O proprietário do St. Germain é um canalha repelente. Diz preocupar-se com o bem-estar dos clientes e espalha por todos os cantos que o mal-estar dos músicos, por exemplo, não o incomoda nem um pouco. Reduziu o preço do couvert. Aos seus auxiliares diretos, no entanto, os que cuidam do seu core business, Salvatori paga bons cachês.

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Charles Trump está encostado ao balcão do scotch-bar, bebendo com o colega Ezequiel. Trump olha para Ezequiel e move as sobrancelhas na direção do casal sentado à mesa 13, no fundo.

– Conhece?

– Outro gângster visitante. (Ezequiel esmaga a brasa do cigarro.)

– Hum… De qual nicho criminal?

– Influências. (Ezequiel não está a fim de papo.)

– E ela?

– Não se mete, Trump. Não se mete.

Salvatori, vaidoso de seu novo terno xadrez vulgar – Trump teria prazer em enforcá-lo com a gravata vermelha de ferradurinhas azuis -, passa pelos dois fumando um charuto da grossura de um bordão. Desde criança Salvatori aprecia figuras exóticas e propensas à contravenção, como o lobista que faz companhia à morena “desesperadora”.

O mafioso odiava o repertório de Ezequiel e Trump naquela noite, e os dois sabem disso. O paladar musical de Salvatori não é muito diferente da maioria dos frequentadores do St. Germain Blues Bar, histórico club para cidadãos de caráter duvidoso. Mas o St. já foi melhor frequentado. Antes apareciam políticos do primeiro escalão, diferentes dos de hoje, na maioria cumpridores de tarefas. As mulheres também se comportavam de modo mais elegante diante da oferta de uma joia ou de uma insinuação cretina.

Na mesa 13, sem notar o tédio da bela estátua andaluz a seu lado, o traficante de influências beberica de tempos em tempos. Há uns óculos redondinhos pendurados em seu rosto; a rala franja grisalha oleosa escorre pela testa. Quase cobre seus olhos de cão perdido. É baixote, caladão, magricela.

A morena andaluz tem mais pedigree. Usa um vestido tubinho preto. Sua sombra devora a do traficante. Charles encantou-se com os cabelos dela e com o friso provocante da calcinha, da qual ele imaginara a cor e os detalhes da renda quando a viu passar rumo ao toalete.

– Como é que esse lustra-botas pode ser um articulador de bastidores? Meu Deus, que desperdício.

– Tira o olho, Trump. (Ezequiel mistura com o dedo o gelo flutuante no copo de vodca, desprevenido. Sorve o primeiro gole. Para ele, o primeiro é o que desce melhor. Desce ardendo, antes de fundir-se à exalação fria dos cubos.)

Nos intervalos, as pessoas aproveitam o silêncio para conversar, armar planos e ciladas. Não é o caso do traficante e de sua acompanhante. Os dois não sabem o que fazer com as mãos e seus olhares se desviam. Eu próprio achei que havia uma diferença entre os dois, e que esta devia ir muito além dos extremos visuais.

Um sujeito de uma mesa cheia, a única da noite com mais de duas pessoas, se levanta para cumprimentar Trump e Ezequiel. Não satisfeito, o cara começa aquela conversa chata de gente que bebe além da conta, não presta atenção nos arranjos e ainda por cima pergunta por que não tocaram As Time Goes By. Ouve a desculpa de sempre. Trump e Ezequiel são parceiros até a morte. Os kids durangos do St. nunca dizem não, mas em certas noites só tocam o querem, indiferentes aos riscos.

Sob a atmosfera enfumaçada do St. descortinam-se conflitos, seduções, mentiras, amarguras, prazeres anunciados e ideais renunciados. Notívagos em busca de aventuras longe da vastidão de seus solitários quartos escuros.

– “A solidão é névoa densa / Acima de nossas cabeças,/ Aguarda outro / lume breve / de papel e alcatrão / crepitando”. (Trump galopa lado a lado com um caubói chamado Jack Daniel’s, duplo) Fiz esse hoje, pouco antes de vir pra cá.

Ezequiel, fingindo uma dor de cabeça insuportável, faz pouco dos versos.

– Me poupa, Trump. Babalu (dirige-se ao barman, este), faz um chá de erva cidreira pro Charles, vai.

Os dois trabalham no St. há mais de dez anos, pouco menos do que eu. Durante todo esse tempo, minhas retinas acumularam uma infinidade de “momentums”. Em cada um havia a imagem congelada de gente fabulando em torno das teimosias do passado. Fora da penumbra, não deviam ter muito o quê ou com quem conversar.

– Vou lá. Vou falar com ela.

– My God! (Ezequiel inspira, desiludido; “não tem jeito com esse merda”, pensa.) Você está muito carente. Fica quieto aí. Carentes não sabem distinguir o sim do não. (Ezequiel sempre diz a Trump o que este já deveria saber.)

Charles gira o banquinho e bate no ombro do colega, resolvido a enfrentar a “névoa densa”. E de um jeito mais decidido do que ele próprio esperava, considerando seu atual estado de abandono. Contorce-se entre as mesas, ignora os rostos familiares. Havia em Trump um elemento fingidor realçando sua suposta atitude bravia, como um canastrão trocando de cena. Ele se apresenta. A “pantera andaluz” (Paola é o nome) corresponde, ingênua.

Os olhos dela refletiam os néons acima do balcão onde, entre uma baforada e outra, Ezequiel permitia que a memória fosse transportada para bem longe. Na Terra, os cotovelos sustentavam sozinhos os arranhões dos tempos em que era dependente de uma série de coisas, até de drogas. À minha frente, fumava e bebia com os olhos fixos no pôster de Duke Ellington.

Trump acendeu a lanterninha e, sutilmente, iluminou o decote. Pôde ver entre os dois seios geometricamente dispostos a pinta negra afundada no canyon. “Os mamilos feito duas / vivas tatuagens / infláveis”, poetizou, mentalmente. “Os pêlos dela eriçaram-se!” (Isto só pode ter sido imaginação dele, mas preciso dizer.) Por desordem ou medo, há muito Trump não sentia os relevos de um corpo feminino. Suas mãos andavam costuradas ao trompete, como quem diz amém à separação.

Paola bebia uma cerveja. O perfume dela era fulminante. Os lábios, uma luxúria. Trump enxergava flertes em tudo. Até nos gestos. O traficante deixava esquentar uma lata de Coca-Cola light esquecida sobre a mesa. Absorto, não abriu o semblante supostamente frágil só porque Trump se aproximou.

– Você é maravilhosa, Paola. (havia a intenção, mas, de qualquer forma, escapou-lhe.)

Ezequiel amassa outro cigarro no cinzeiro, levanta-se e sinaliza para Trump, que olha o relógio. Foram-se seus preciosos 15 minutos. Salvatori sai da cozinha, ajeitando o paletó, ensaiando maus dizeres. Babalú (eu), finge que vai vomitar. Ezequiel ri. (do bar, o palco parece um pedaço de céu apagado no firmamento, assim como este comentário pode soar inteiramente dispensável.)

A conversa entre Trump e Paola tomava forma, “ganhava nevoenta densidade dramática”. Tanto que, entusiasmado, Charles ignorou o bandidinho. Em baixo da mesa suas mãos tremiam.

– Que tal um drink juntos mais tarde? (um sussurro ao pé do ouvido de Paola; autista teimoso, Trump contrariava os conselhos de Ezequiel novamente.)

Paola lançou os cabelos atrás das orelhas, o brinco esquerdo caiu e Charles se abaixou para apanhá-lo. Pôde ver as botas de texano do traficante, que tinham uma biqueira de metal cintilante. Naquela tensão sonâmbula, as botas pareciam duas mandíbulas afoitas. Charles havia ido muito além dos descuidos com as bitucas de cigarro no carpete de casa. Quando se recompôs na cadeira, o terror surgiu vestido de graça.

– Es-cu-cu-cu-cu-ta aqui, ô-ô ca-ca-ra. Quem vo-vo-vo-cê pen-pen-sa que-que-que é, hein? Te me-me-me-me-to a ma-ma-mão na cara, ou-vi-vi-viu? (para os padrões internacionais do cinema de ação, por exemplo, aquele não era exatamente o tom de voz que se esperava de um matador. Muito menos de um traficante de interesses. Mas Trump pediu licença e saiu apavorado na direção do palco. O tartamudeante reposicionou os oclinhos, ajeitou o paletó de tweed.) E uma ba-ba-ba-ba-la na ca-ca-ca-be-ça! (berrou, consternado.)

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Ezequiel, ao piano, folheava partituras. Próximo a mim, Salvatori apontou para o próprio relógio de pulso dando batidinhas com o indicador da mão direita. Trump estava que era o avesso de um vulcão. Mesmo assim não tomaria nenhuma atitude precipitada sem antes pisotear o charuto de Salvatori até transformá-lo em pó.

Contido, porém, limpou a boquilha do trompete e começou o último tempo da noite com Vivo Sonhando, de Jobim, em ré-maior. Tom desculparia os vibratos retorcidos de Charles Trump, que não chega de saudade do ídolo recém-falecido. De irresistível relance, viu o estranho casal aos beijos. Reconciliantes verdadeiros ou meramente contratuais? Trump nunca saberia.

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– O quê? Vê se eu ia ter medo de um ordinário daqueles! (Trump gabava-se para a madrugada fria de julho, a caminho de casa, misturado ao latido dos cães.)

Ezequiel, pele cor de jabuticaba, como a noite, acende outro cigarro. Faltava pouco para chegar em casa e esbofetear seu “brother”, sujeito condenado à fissura perpétua.

(1998)

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