Ovation sem ovação

De Confins para o Pizzarello, onde tocava um violão Ovation e cantava

Sergio Vilas-Boas

O Pizzarelo era um bar ruidoso, enfumaçado e quente por dentro. Ruidoso, enfumaçado e um pouco mais fresco do lado de fora. Não possuía decoração temática; não era freqüentado por famosos; nunca foi mencionado em guias; e nenhuma de suas especialidades era especial. As pessoas iam lá para beber cerveja, comer petiscos engordurados e ouvir música brasileira.

Ao violão eu cantava apenas razoavelmente. Ter de tocar e cantar – algo tão incompatível, talvez, quanto escrever e falar – ao mesmo tempo me aterrorizava. Por isso as as mãos tremiam e suavam. Tinha de olhar para o braço do instrumento. Conferir se os dedos estavam engatando corretamente os acordes dissonantes que eu aprendera na revista “Violão & Guitarra”. Isso me deixava ainda mais tenso. Como encarar o público e ao mesmo tempo o braço do Ovation (esse modelo de violão era o sonho da turma em 1986)…

Ah, as simultaneidades entre coisas aparentemente díspares de novo a roubar-me o chão. Talvez não passasse de um problema motor. Mas devia ser mais que isso. Sem o violão até que eu cantava bem, sim. Era afinado, exato, com ótimo vibrato, apesar da voz nasalada. Mas medíocre como instrumentista. Me faltava confiança e energia genuínas.

Graças a Deus chegava o Zeca, negro claro, alto, magro, fumante desbragado, bebedor profissional de cervejas, boêmio. Um bonachão de sorriso cativante. O andamento musical de seu ser como um todo ia de piano a pianíssimo. Tão tímido e discreto quanto eu no palco. Éramos vidrados em música, e um foi empurrando o outro para a frente, até que paramos aqui (aos 21 eu curtia o gênero “instrumental brasileiro” e conhecia bastante de jazz e blues).

Com o Zeca junto a parada era outra: MPB. Cultivávamos um repertório amplo. Líamos os pensamentos um do outro. Zeca não cantava nada, é verdade, talvez porque fumasse demais. Mas executava precisamente, sem floreios, sem interpretações, seguindo com disciplina estóica as cifras e batidas indicadas na “Violão & Guitarra”.

Eu sei que vou te amar. Por toda a minha vida eu vou te amar. A cada despedida eu vou te amar… Desesperadamente… O público do Pizzarelo adorava essa interpretação minha, assim como quando eu cantava (com alma) Clareia, manhã. O sol vai esconder a clara estrela. Ardente. Pérola do céu. Refletindo teus olhos. A luz do dia a contemplar teu corpo…

A gente esticava bem os intervalos das apresentações de Marcos Buzana, músico “sênior” do Pizzarelo. Buzana era admirado na cidade. Criatura da noite por excelência, interpretava Djavan como ninguém. Negro baixo e forte, mas não gordo. Rosto redondo, lábios grossos, encimados por um nariz avançado e rotundo. Seus olhos eram côncavos e vivos, giratórios, inquietos. O cabelo rastafári sobressaía.

O ritmo de Buzana contagiava. Percussionava as cordas do violão em sambas, baladas e blues de um modo encantador. E quanta potência e extensão em sua voz de barítono. De tanto freqüentarmos o Pizzarelo às sextas e sábados, Zeca e eu acabamos nos aproximando de Buzana. O Ovation que o Zeca acabara de dedilhar, aliás, havia pertencido ao Buzana, que o vendera para mim.

O público aplaudia a nossa interpretação de “Bons amigos”, do Toninho Horta e Ronaldo Bastos: Diz que vai sumir, finge não me ouvir, briga por brigar. O amor passou, o pior passou, cala por calar. Diz que vai me ver, louca pra me ver chorar… Buzana terminou de comer o seu jantar na cozinha e veio até a mesa dos nossos amigos habitués.

Mais que bons amigos, somos. Muito mais que bons amigos…

“Boa noite. Obrigado. Daqui a pouco o Marquinho Buzana, que deu essa chance pra gente, vai estar de volta aqui com vocês. Esse aqui, vocês sabem, é o grande Zeca. Zeca e o meu violão (risos). Valeu!”, despeço-me.

Sem ovações.

Na mesa dos nossos vários amigos e amigas em comum havia pelo menos uma dúzia de garrafas de cerveja vazias; e quatro cinzeiros lotados; e maços de Carlton amassados; e uma travessa com os restos de uma porção de frango a passarinho e outra com algumas batatas fritas murchas e frias; dois aperitivos esperavam por nós – um presente ritualístico.

Virei um copo de cerveja supergelada e, em seguida, um trago de steinhäger. Soprei o fogo. O gerente do Pizzarelo ligou o tape-deck. Toninho Horta cantou “Aqui, oh!”.

“Essas harmonias que o Toninho Horta faz são demais, não?”, Buzana comentou, exalando seu perfume barato, forte e doce, que podia contaminar para sempre a roupa de quem lhe desse um abraço.
“Cara, tentei fazer essa batida dele na introdução. Mas não consegui, bicho. Não consegui”, Zeca lamentou.
“Tô quase pegando. Te ensino. Pode crer”, Buzana disse confiante. “Pessoal, dá licença que vou rearmar tudo ali. O novo gerente agora é sujeira. Tá de olho em mim. A gente se fala, ok? E obrigado pela canja, duplinha. Valeu mesmo.”

Buzana correu em direção ao palco.

“E aí, como vai a vida?”, Ana me perguntou.
“Legal. Mas cansadaço. E amanhã tô de plantão.”
“No aeroporto?”
“É.”

Eu ia para o Pizzarelo direto do Aeroporto Internacional. Trabalhava na Infraero. Aquela sexta fora complicada. Dois relés do sistema de controle de uma das subestações do terminal de passageiros queimaram na última hora e só consegui pegar o ônibus das 20h, que levou mais de uma hora para chegar ao centro.

“Olha, muito lindo o jeito que você canta ‘Eu sei que vou te amar’. Pura paixão”, Mara disse. Ele era nova no grupo. Convidada de Bianca, fiquei sabendo.
“Mas ele está mesmo apaixonado”, Ana disse à Mara, rindo, me provocando.
“Ana, para com isso, vai.”
“Gente, vamos falar de outra coisa”, Bianca me apoiou.
“Pessoal, olha, acho que ele tá quase curado”, garantiu Zeca, ironizando, mas sério.
“Pô, é verdade. Hoje ele num tá tão ganzúvio”, Vandinho assegurou.
“Ganzúvio? Que diabo é isso?”, Bianca quis saber.
“Ganzúvio é ganzúvio, ora. Ganzúvio é sinônimo de macambúzio. Não sabia?”

Vandinho inventava palavras.

“Pô, tenho que acordar daqui a pouco”, eu disse, a fim de mudar de assunto. “Pegar o buzão lá no ponto-final às seis e meia pra chegar na Rodoviária a tempo de entrar no outro pra Confins, o das sete e quarenta e cinco.”
“Porra, já é uma e meia da manhã, galera”, Zeca lamentou.
“A noite é um bebê”, alguém disse no meio da zoeira e do fumacê.
“Que horas cê tem que chegar no trampo?”, Bianca me perguntou.
“Às 8h.”
“Puta-que-pariu!”, Vandinho intrometeu-se. “Pobre é foda!”
“Tá acabando, gente. Tá acabando. Logo eu saio daquela droga e fico só com as drogas que interessam”, comentei, desanuviado. Apreensivos, todos se voltaram para mim. “Álcool e cigarros, quero dizer.”

Marcos Buzana conversava baixinho com o percussionista. Corrigiam o último problema com o som. Zeca, àquela altura visivelmente bêbado, assim como todos nós, aliás, e depois de soprar a fumaça do cigarro em seu estilo inconfundível (fazendo biquinho), levantou seu aperitivo (cachaça) e propôs um brinde.

“Ao nosso amigo que não vai dormir essa noite por fidelidade à música.”
“Aêêêêê!”
“Péra, péra lá”, Vandinho interrompeu. “Mais um brinde aqui, porra. Ao amor, né? Aos amores perdidos, como não? O que seria da gente sem os amores perdidos?” E me cutucou.
“Vai se foder”, eu disse.
“Caramba, escuta essa, Zeca”, alertou Lúcia, que até então estava caladinha, só olhando. “Presta atenção!”

Começamos a cantar com o Buzana “Beiral”, de Djavan: Eu juro, te querer enquanto o ouro do turno da tarde cair no beiral. Foi como eu disse a você sem lhe ter falado. Meu lado, luz acesa de pescador. Bom de mar, quer me ver sonhar…

Enquanto ouvia Buzana, eu começava a produzir mentalmente a trama delirante do sonho que teria logo depois de desmaiar no ônibus para Confins daqui a pouco. No sonho, eu estava dando um show no Palácio das Artes, cantando clássicos da MPB (e tocando bem, sem olhar para o braço do violão). Cantava divinamente a faixa-tema do filme da minha vida naquele ano:

Sei que mudamos desde o dia que nos vimos. Li nos seus olhos que escondiam meu destino. Luz tão intensa. A mais doce presença. No universo desse teu olhar… Como te perder, ou tentar te esquecer. Inda mais que agora sei que somos iguais. E se duvidares, tens as minhas digitais. Como esse amor pode ter fim?

Ela (a deusa, como dizia a Ana) estava na plateia.

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