O amor e a primeira morte

Morreu em 1986 para que nascesse outro alguém; alguém nascido para descobrir para o que nasceu

Sergio Vilas-Boas

Morri pela primeira vez em 1986. Morri para que nascesse outro eu – um que não acreditasse que nasceu para alguma coisa, mas que nasceu para descobrir para o que nasceu. Esse espírito guerreiro e realizador, essa dedicação incondicional e desmesurada ao trabalho criativo, essa disponibilidade para a mudança (minha) hoje é fruto daquela primeira morte (é?).

Liguei para Ivana de um telefone público do aeroporto. Ela me mandou passear. Daí, entrei no Shaft nº 7. No Aeroporto de Confins, BH, onde eu trabalhava como eletrotécnico, na época, havia o Shaft n° 7, passagem que conduzia a uma extensa galeria subterrânea com três bandejas metálicas suspensas em cada uma das paredes de concreto armado. As bandejas transportavam quilômetros de fios e cabos de várias bitolas e finalidades. Um túnel escuro e sem fim.

Entrei no Shaft parecendo uma barata fugindo da luz (kafkiano, claro): curvado, atônito, com uma angústia paralisante e falando sozinho – coisas profundas, talvez, mas incompreensíveis; e com uma acidez cruel me corroendo o estômago. A respiração era um suspense. Tremia dos pés à cabeça. Aqueles medos que vinham se formando desde a Idade da Pedra concluíram seu processo formativo ali.

Desabado no chão do Shaft, sentia o silêncio cavernoso do meu esconderijo sendo atravessado pelo ruído sinistro do relógio de pulso. Com a alma dissociada do corpo, um vazio incoerente me ocupou como nunca. Botei a mão no ventre. Doía. Ali, enterrado no underground, literalmente, me dei conta de que estava mesmo apaixonado pela Ivana. Ali, no Shaft, então, travei um confronto melancólico comigo mesmo enquanto a fita da namoro era rebobinada.

///

Oh, não, você ligou para ela? Convidou-a para sair hoje à noite, sei. E além de responder “não” ao convite ela acabou com você! Certo, ok. Mas você vai procurá-la assim mesmo hoje custe o que custar, estou vendo. Vai tentar colocar as coisas em pratos limpos, pois não se pode terminar assim, de repente, sem um olho no olho, não é verdade? Brincadeira… Não é não. Ela estava falando sério. Muito sério. Nunca ouvi a voz dela assim. É, mas ao telefone a gente é capaz de tudo.

Você parece previamente rendido ao desastre. Está aqui, neste buraco, dobrando-se em cólicas, os hormônios lutando entre si; o corpo esquentando e esfriando em espasmos; as articulações das pernas, dos braços, dos dedos, do pescoço combalidas como os alicerces de um edifício depois de um terremoto. Está segurando a cabeça entre as mãos e gritando para si mesmo: “Não! Não! Não!”. Isso mesmo. Então grite: “Não! Não! Não!”

Justo agora, hã? Justo agora que você reconheceu os erros que ela lhe apontou; justo hoje, quando você, pela primeira vez, teve coragem de dizer aos amigos que está apaixonado por ela e se deu conta de que despertar de manhã é uma coisa deliciosa porque você acorda e a primeira coisa que se lembra é de que há ela; mas por que ela achou de romper horas depois de vocês dois terem passado uma noite de sensualidade e prazeres tão incríveis? Sim, sim, você tomou a decisão de se mostrar por inteiro e esta é mais uma razão para que nada disso esteja acontecendo.

Mas está acontecendo, meu caro. É um fato. Desabafe, desate o nó da garganta: “Não é possível!”. Muito bem.

Largado nas entranhas (o Shaft nº 7) deste modorrento elefante branco chamado de aeroporto, onde você exerce a função de eletrotécnico, sabe que, se morrer aqui, serão necessários dias, talvez semanas até alguém te encontrar exaurido, pálido, com a boca seca e os olhos estatelados. E daqui a pouco a sua turma começa a tocar MPB naquele bar lá, no centro, onde você tem experimentado bebedeiras e boemia. Só que alguém não estará lá com o pessoal: você.

Então, levante-se, ande até o vestiário sem demonstrar abatimento aos peões, troque essa roupa imunda, tome o ônibus convencional das 17h15, pegue uma poltrona bem ao fundo do ônibus, feche os olhos e finja que está dormindo profundamente. Não fale com ninguém, não responda nem pergunte o que quer que seja. Ninguém pode saber que você está em crise, ok? Dor de cotovelo – fossa – aos 21 anos é uma coisa ridícula.

E quando o ônibus despejar o seu corpo fraco no terminal rodoviário, você vai subir em disparada as escadas sem se despedir de nenhum outro colega seu; vai atravessar sem fôlego a praça em frente, aquela que não tem árvores, movendo as suas pernas a passos largos, combinando dois estilos – cem metros rasos e oitocentos metros com barreiras; vai seguir por aquela avenida até à altura do Palácio da Artes, virar à direita na rua mais estreita até quase esquina da outra avenida e…

Aperta logo essa campainha, idiota. O quê? O porteiro está dizendo que ela não está. Pois então diga a ele que você vai esperar aí embaixo, no saguão. Vai ficar esperando até ela voltar. Como não pode? Discuta com o cara. Diga que está vindo de longe só para falar com ela. Isso aí. Diga que está vindo do interior do Estado para isso. Invente que ela está te esperando. Certo, certo. Ah, nesse caso é diferente. Você prefere esperar no bar ao lado. Ótimo. Tudo bem. Então vai lá, vai para o bar, criatura.

Eu sei, eu sei o que você está sentindo. É duro mesmo. Afinal, ela já tinha lhe atingido no peito anteontem com aquela conclusão certeira, que você escutou como sendo a verdade mais verdadeira do mundo: “Você é um infeliz”, ela provocou. Ter de engolir isso em seco é terrível mesmo. O que mais podia dizer? “Um sujeito inteligente, criativo e sensível que nem percebe que esse negócio de eletrotécnica não tem nada a ver com você; que essa matemática-física-química toda não tem nada que ver com você; que esse emprego em aeroporto não tem nada a ver com você.” Na melhor das intenções, foi mais ou menos isso que ela lhe disse, não foi?

Ao que você concordou sem concordar porque o que estava em jogo, você pensava, não era você, individualmente, nem ela, individualmente, mas vocês dois juntos. “Está bem, está bem”, foi tudo o que você conseguiu formular, pois estava atônito, tentando encaminhar a conversa para um entendimento, qualquer que fosse. E estava certo. Você não podia perder dois mundos ao mesmo tempo: ela e o personagem fugidio e superficial que você criou para adiar o seu encontro com o fato indiscutível de que está apaixonado por ela.

“Se não fizer alguma coisa que te dê prazer, você vai continuar assim, distante e falso”, ela cravou. Uh! Que soco bem dado. Que show de bola. Ela te esnobou de uma forma incrível, soberba, clássica mesmo; ela, uma garota excitante de apenas dezenove anos. É, ela tem apenas dezenove anos, cara, e se saiu muito, mas muito, muito melhor que você, que se acha o cabeça do affair. O cara supostamente mais “cabeça” que ela. Tolo.

Senta aê. Uma vodca. Perfeito. Com gelo. Melhor ainda. Boa hora para algo forte. Ajuda a botar as ideias no lugar. Durante a tal conversa atravessada (foi anteontem mesmo, né?) não era possível virar a mesa usando o seu jogo labiríntico de palavras, os seus ardis que evidenciam mais a sua racionalidade que a sua real experiência direta com os organismos vivos. Você ainda vive a vida indiretamente. Você vive para dentro, não para fora. Calma, calma. Não está sendo dito nada que você não saiba.

Era mesmo muito difícil reverter tudo anteontem. Sabe por quê? Porque você estava entre perdê-la e perder-se a si mesmo, e ainda por cima com grandes chances de que essas duas perdas desabassem sobre você de uma só vez. Digamos assim: se você convencê-la de que de agora em diante será mais compreensivo e companheiro, pode perder a si mesmo; e se não convencê-la disso, você não só perde-a como também perde a si mesmo. Que tal?

Iludiu-se que havia conseguido evitar que ela te mandasse para o espaço. Ok, tá, você conseguiu, mas ela mudou de ideia. Ela mudou de ideia, meu amigo. Isso é o que acontece com as melhores cabeças. Além do mais, ela também está passando por uma fase difícil, esqueceu? Ela chegou aqui sem conhecer ninguém. Está longe de casa, da família e dos amigos. Não é chegada a estudar. Caiu de paraquedas em um pré-vestibular ridículo simplesmente porque os pais querem impor a ela uma seqüência lógica.

Não, não, nem pense nisso. Nem pense em pensar que os problemas dela são menores que os seus. Ela não está sofrendo com tudo porque é mimada e manipuladora, como você disse, e sim porque a pressão sobre ela também está muito grande. E como se não bastasse tudo, ela não passou na prova da Federal nem na da PUC. E agora?

Portanto, meu caro, pare de batucar os dedos no aço do balcão, mova a sua bunda mole daqui imediatamente e vá agora verificar com o porteiro se ela já voltou. E se não tiver voltado? Se não tiver voltado, você volta para este bar sujo e fica aqui esperando até ela voltar, seja quando for. Você pode talvez tomar outra vodca enquanto espera, ou uma cerveja, mas não sem comer algo, porque o seu abdômen está em chamas.

Na superfície, camarada, a causa do seu sofrimento é a separação. A separação de uma moça sedutora, divertida e sagaz, em quem você apostava. Ela bagunçou completamente a sua cabeça dura, hã? Você vinha fazendo de tudo para mostrar-se avesso e indomável e, no entanto, ela estilhaçou a sua carapaça. Rá! Mas ainda pode ser que ela se torne o seu primeiro relacionamento não baseado apenas em sexo. Quem sabe. Há sempre uma chance. Há sempre uma fé.

Daí ela entra no prédio e vê você conversando com o porteiro. Contrariada, ela passa por você sem olhar para os lados. Daí você grita “Espera!”, mas ela não lhe dá ouvidos. “Precisamos conversar”, você insiste, mas ela diz, como sempre, aquilo que normalmente as mulheres dizem nesses casos: “Não há nada para conversarmos”. “A gente tinha se ajustado, não tinha?”, você apela. E ela rebate que “não tinha acertado nada”. O verbo “ajustar”, aliás, é muito “técnico”, no caso. Não percebe? Incrível.

“Eu já te prometi que vou ser mais romântico, mais isto, mais aquilo. Eu te prometi nunca mais ficar jogando na sua cara aquele lance desleal seu comigo quando eu morava na sua cidade…” Mas ela, serenamente, responde algo como “não estou duvidando se você é capaz de cumprir ou não o que promete. Não mudei de ideia por causa disso”.

E você pede para conversarem com calma lá em cima porque o porteiro está de olho e ouvindo tudo. Ela diz não com a cabeça. A amiga dela está em casa estudando e não dá para falar com ela por perto, “até porque ela deu uma mancada fenomenal no dia que meus pais estiveram aqui”. Dane-se a sua amiga, você diz, em seu tom arrogante (mas que você prefere descrever como “audacioso”). Ela sabe que esse tom não é intrinsecamente seu, mas de qualquer modo não suporta mais ouvi-lo nesse tom… Falseado às tampas.

As portas do elevador se abrem. Ela entra. Aperta o botão nervosamente. Pede para você não subir. Na verdade, implora para que você aceite o fim desse namoro dúbio, cercado por impossibilidades, barreiras autoimpostas, reentrâncias. Um relacionamento teatralmente adulto de dois adolescentes em idade adulta. Você pergunta, cheio de suspeitas absurdas, se ela está mesmo segura do que está fazendo. “Tão insegura quanto você. Mas tem de ser assim”, ela responde.

As portas do elevador se fecham com uma rapidez impressionante. Esta será a imagem que vai ficar gravada na sua mente: a imagem dela desaparecendo como se estivesse em uma foto sendo apagada das margens para o centro. Isso dará força e durabilidade ao seu melodrama, mas ainda não é a consumação do episódio. Você vai sofrer um bocado com o fato de esta cena final não ter acabado com um beijo úmido e cinematográfico. O que não deixa de ser um sinal (positivo) de resignação da sua parte, diga-se.

E ficou sem jeito, a coisa toda. Outro. Ah, o ciúme dói da flor da pele ao pó do osso. Rói do cóccix até o pescoço. Verdade.

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Mais de um ano depois do rompimento, ela me localiza, me convida para sair e, como sempre, topo. Mostrou espanto quando eu disse que ela havia mudado a minha vida.

“Você implodiu o técnico racional”, tive coragem de dizer, pois já era outro. “Te devo essa.”
“Me deve essa? Mas isso é um elogio ou o quê?”, ela perguntou, injuriada.
“É um elogio, sim.”
“Olha, nunca pensei em mudar a sua vida. Muito menos daquela maneira. Na verdade, fui muito burra, isto sim, porque senti a sua falta e não tive coragem de voltar atrás. Se você tivesse me pedido pra voltar, eu teria voltado na mesma hora.”

Pode parecer estranho, mas nunca cogitei de pedir a ela para voltar, opção que um personagem um pouquinho mais real nas mesmas condições teria certamente levado em conta. O desfecho teria sido completamente diferente se a minha leitura do episódio tivesse sido outra. Na verdade, estivemos – ou apenas eu estive? – em um filme.

Um filme com um roteiro fantasioso e desencontrado, no qual os dois protagonistas retroalimentavam-se com noções muito equivocadas um do outro. Não fomos nada convincentes ao projetar uma imagem de audácia e irreverência. É, agora entendo: aquela dramaticidade toda agora me aparece totalmente fora de contexto.

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Estava na redação fechando o suplemento cultural quando o telefone tocou mais de uma década depois. Era ela. Queria me parabenizar pelo meu livro que ela vira exposto na livraria de um amigo meu, a única que o vendia. Conseguiu o telefone na editora e quis confirmar se eu era eu. Na época, ela ainda não havia entrado em uma faculdade e já se divorciara do primeiro marido com o qual tem uma filha.

Hoje está claro para mim que os nossos caminhos não se cruzaram por acaso. Precisávamos um do outro para um empurrão providencial para frente; precisávamos de um choque de encantamento e ilusão para podermos entrar de sola na fase adulta. Aprendi que o amor verdadeiro não é irreal: ele é pacífico, conseqüente e constante. O amor vê-se a olhos nus, e por isso não é eterno. Nada que se possa enxergar com muita clareza, aliás, pode ser eterno.

E se? Talvez a vida hoje fosse outra se ela não tivesse desistido de mim, ou se eu tivesse respondido positivamente ao arrependimento dela por ter desistido de mim. Talvez agora eu estivesse morando em uma cidade de cem mil habitantes, administrando um comércio qualquer, tendo filhos e me forçando a cumprir com as obrigações. Pensando bem, foi mais fácil parir outro eu: um eu mais poético, mais lírico, mais sensível, mais musical, menos técnico. Nessa linha. Torta.

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