Diário do abandono

Um cheiro insuportável contaminou nossas vidas. Delirante, fui perdendo o apetite, o olfato e o sono

Sergio Vilas Boas

Um cheiro insuportável contaminou nossas vidas. Delirante, fui perdendo o apetite, o olfato e o sono. Meu desejo de vingança contra o mundo estava mais que ruminado. Dona Amélia nem se incomodava. Comia com as mãos sujas e ainda lambia os dedos, as palmas, os lábios. Comida e líquidos escorriam-lhe pelo corpo sem resistências nem pudores. Quando perguntada se tinha idéia dos porquês de nosso desespero, ela respondia firme e decidida:

– As andorinhas não vieram hoje.

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Tudo começou quando apertei a campainha da casa dela para pedir abrigo para mim e para Frantchesco, seguindo orientações de um filantropo. Minha vida tomava rumo inusitado pela enésima vez.

Dona Amélia abriu o portão. Espaçoso, Frantchesco invadiu o quintal imediatamente, latindo, e ela, com um caminhar impreciso, ziguezagueante como o de uma formiga desorientada, arrastou suas pantufas de pele de carneiro e foi ao encontro de Frantchesco. Abraçou-o com ternura, como se o conhecesse desde bebê.

Agarrada a Frantchesco como quem se agarra a um objeto flutuante qualquer no ápice de um naufrágio, Dona Amélia virou-se para mim com uma aura de intimidade desconcertante. Frantchesco, claro, não se constrangeu. Retribuiu à altura, com lambidas descaradas no rosto branquelo de Dona Amélia.

Os olhos dela já diziam muito, mas não me dei conta. Estavam fundidos à pele leitosa de seu rosto, destacando globos oculares emoldurados por sutis linhas vermelhas na orla das sobrancelhas, e por olheiras de nascença. Seus cabelos eram ruivos e espigados. As pantufas de pele de carneiro, mais que desgastadas na fronteira dos calcanhares.

Há dez meses eu havia perdido o emprego de faz-tudo. Dias antes daquele encontro com Dona Amélia, eu ainda morava num enorme sobrado velho e mofado na rua Jaguarão, um cortiço de dupla função: prostíbulo embaixo, moradia em cima. Mas me despejaram.

Frantchesco e eu vagamos solitários pela cidade por uma semana. O mesmo filantropo que me doara Frantchesco foi quem me recomendou a solidária Dona Amélia.

Ela escutou meu discurso com falsa atenção (mais adiante eu teria certeza de que ela sempre soube tudo, sobre tudo, acerca de tudo, e sobretudo de antemão. Nada de perguntas no primeiro dia. Nenhuma objeção. Apenas um olhar fixo e penetrante.

Sua cabeça, como o resto de seu corpo, não se comportava. Não se continha. Tremia, balançava. Parkinson? Curioso é que os olhos não. Os olhos eram de uma fixidez indescritível. Voz embaralhada, mas cândida e suave, ela disse:

– Tenho ouvido passos no quintal à noite. (E abriu-nos seu primeiro sorriso.)

Em seguida nos apresentou as flores de seu jardim. Citou nomes de flores que eu nunca tinha ouvido falar, desenhando a anatomia de cada uma com adjetivos arcaicos.

Mas o incrível é que as flores do jardim dela eram raras, e todas da mesma espécie. Visíveis mesmo, aliás, apenas três margaridas desfolhadas e secas. Do que ela estava falando, na verdade? O que ela via que eu e Frantchesco não víamos?

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Dia a dia a casa de dezenove cômodos de Dona Amélia foi se tornando minha, embora não oficialmente. Uma ex-casa parada no tempo, mas que agora… estava linda. Seus espelhos, tapetes, estatuetas e candelabros estão limpos e brilhantes. Na sacada superior, presa entre dois ganchos, instalei uma rede para as horas vagas. E plantas, plantas por toda parte. Adoro especialmente avencas e antúrios.

Eu comprava, cozinhava, limpava, zelava, abastecia, quitava as contas (com o dinheiro da aposentadoria dela). Abrigado da chuva, do frio e da fome, assumi a posição que me foi conferida por ela, pouco a pouco.

Nos tornamos cúmplices. Ela nunca estranhou minhas atitudes, nem quis saber minha origem, talvez nem tenha memorizado corretamente o meu nome. Mas me esperava chegar, à noite, à hora que fosse, e me entregava um copo de leite morno, embora eu deteste leite morno.

Também passei a não estranhar as atitudes dela. Por exemplo: ela costumava conversar com um abajur lilás que ficava a um canto da sala de estar. Sentava-se no braço do sofá – apossado por um gato rajado-cinzento que não se entendia com Frantchesco – e falava, falava, falava ao abajur. Coisas ininteligíveis (para mim). A única frase ordeira que me lembro é:

– As margaridas estão muito vistosas, Jáder.

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Um dia, eu a repreendi por causa da sujeira. Dona Amélia pôs-se a limpar desarvoradamente a comida que derramara no chão. Mas raspava suas unhas frágeis nas cerâmicas produzindo ruídos arrepiantes.

Segurei-lhe as mãos firmemente. Detive-as. E foi um momento de nova descoberta quando ela me perguntou, a milímetros de meu nariz, tão próxima fisicamente como nunca esteve, tão próxima que eu podia sentir seu hálito azedo:

– Você aguou as margaridas?

Acalmou-se depois do meu sim automático. Derrotado, segurando a cabeça dela entre minhas mãos, como se estivesse prestes a esmagá-la, beijei-lhe a testa afetuosamente.

Naquele ponto da minha vida, de concreto mesmo eu só tinha Dona Amélia e Frantchesco. Fui sugado pelo estranho mundo dela. Comecei a atender telefonemas fictícios e a dialogar com Frantchesco acima da média normal de intimidade possível entre um homem e um cão.

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Certo dia, na volta de uma visita ao túmulo inexistente de minha mãe (não há mais como localizar o ponto exato onde ela foi enterrada no cemitério público municipal gratuito), nossa casa estava mais silenciosa que nunca.

– Dona Amélia! (Chamo.)

– Dona Amélia! (Grito.)

Percorro a casa. Encontro-a envolta em cobertores de lã, cabelos desgrenhados, numa tarde abrasadora de sábado. O mesmo olhar meigo e complacente mirava uma boneca de louça chinesa em cima da cômoda.

– Você não aguou as rosas… (Chorando copiosamente.)

Desembrulhei-a dos cobertores de lã e livrei-a do suor viscoso que a empapava. Um bom banho morno lhe fará bem. Coloquei-a na banheira de camisola e tudo. O rosto de Dona Amélia era tão plácido, tão afável, que tive vontade de abraçá-la como se ela fosse a minha própria mãe.

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Passo as folhas do calendário: faz dois anos que desembarquei aqui. Desencorajado, cismei de ir viajar, não sei pra onde. Dona Amélia observava meus preparativos de longe. Foi eu fechar as abotoaduras das malas e ela começou a roer as unhas. Mordia-as com tanta força que as pontas dos dedos sangravam.

– Ouço passos no quintal, toda noite. (Duas lágrimas pesadas vagaram lentamente por entre suas sardas.)

– Mas agora é dia, Dona Amélia.

– É noite. É noite. É noite.

Repetiu, repetiu isso várias vezes. Quanto a não querer estar só, Dona Amélia é igual a todo mundo. Quanto a saber amar: idem.

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Fotos amareladas dentro de um caixote de madeira mofada. Logo reconheço Dona Amélia em várias delas. Há uma assinada pelo Sr. Jáder em que ela está abraçada ao Sr. Jáder, o tal que se encarna no abajur lilás e com quem ela conversa diariamente. Senhor de traços finos, sobrancelhas aparadas e bigodinho rasteiro. Vejo uma Dona Amélia jovem que queria ter conhecido.

Na mesma noite, me levantei, fui até a janela e vi que não era uma noite qualquer. Era espectral, perfumada por damas-da-noite, com um frescor que só a segurança plena pode captar.

Acendi um cigarro, ajustei os óculos e caminhei descalço pelo corredor. Parei à porta do quarto de Dona Amélia, que varava um sono profundo. Apanhei o lençol do chão e a cobri, não sem antes passar levemente a mão pelo seu rosto, sentindo-a por inteiro.

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Noutro dia, catava pulgas em Frantchesco quando ela começou a gritar meu nome repetidamente, veloz, num crescendo, persistente como uma criança destemida e insubordinada.

Subi as escadas atropelando os degraus. Encontro-a encolhida, enrolada como um caramujo. Puxei o lençol com uma força sobrenatural, expondo seu corpo à vista das tanajuras de outubro. Entupi a boca dela com o lençol. Sufoquei-a. Ela se debateu. Mas o som de meu nome finalmente era devorado pelo silêncio total.

Taí algo que odeio: meu nome berrado para nada.

Escurecia rapidamente. Os pernilongos começaram a invadir a casa. Quase sem fôlego, com as cordas vocais entrelaçadas, tossindo muito, Dona Amélia sussurrou:

– A lua foi embora.

Dei-lhe um copo de água com açúcar e dois comprimidos de lítio. Senti uma dor pesada na fronte. Desci, espalhei a comida de Frantchesco na cumbuca e contei-lhe minhas amarguras e faltas.

Frantchesco me ouvia com notável consideração. Nem a comida (isto é incrível!) o dispersou. Depois encontrou uma posição cômoda, amoleceu as patas, uma a uma, e fechou os olhos. Aquela seria, de fato, uma noite sem o luar da anterior, como previra Dona Amélia.

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No armazém da esquina, fiquei uma hora conversando com um velho que tomava cerveja entre sacos de cereais e artigos de armarinho. Falamos de cães e ele, sozinho, divagou sobre a renúncia do Jânio. Um tédio.

Mas eu procurava a voz das pessoas como um gato preguiçoso à procura de um sofá macio. Fiquei no armazém tomando cerveja até a bússola disparatar de novo.

No caminho de volta para casa, as pedras do calçamento embaralhavam minhas vistas. Bateu-me um medo, um sentimento de perda, uma coisa indescritível.

Sim, por essa época conversava comigo mesmo em voz alta. Inventava personagens com nomes estrangeiros. Falava múltiplos idiomas com eles. Numa dessas íntimas ocasiões, fui interceptado pelos passos de Dona Amélia ao longo do corredor.

Estremeci de constrangimento só de pensar que Dona Amélia podia me flagrar falando sozinho. Que tolice. Ela, evidentemente, nem me notou. Passou pelo corredor e os passos sumiram ao longe. Dona Amélia fazia isso todas as noites, naquela mesma hora. Onde ela ia?

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E o fedor, o tal fedor repugnante, impregnava até as fendas da casa, a ponto de eu poder senti-lo mesmo em meus poros. Já não distinguia meus próprios odores. Um fedor penetrante, que corroía minha paciência, desmobilizava meus sacrifícios. Uma interrogação a mais, entre tantas?

Decidi livrar a casa daquela atmosfera sinistra. Não podia fazer mais nada por ninguém, talvez nem por mim mesmo.

– As hortênsias estão secas… (Repetia Dona Amélia.)

Na terceira madrugada úmida e fétida, acompanhei os passos de Dona Amélia em sua hora habitual de urinar. Nada premeditado. Apenas quis dar uma trégua à minha insônia.

Ela desceu as escadas, apoiou o corpo na parede, de modo que um dos meus muitos vasos de violetas e antúrios ficasse entre suas pernas, levantou a camisola e urinou abundantemente. Resoluta, voltou para o quarto com a certeza de mais uma missão cumprida, a repetitiva mas necessária missão cotidiana de ser o que se é, mesmo não sendo, mesmo sendo impossível ser.

///

A tempestade das 22h tornara a noite densa, nevoenta e lavada. Podia ouvir transparentemente o eco de meus passos. Sentia-me tão decidido que nem me despedi de Frantchesco. Mas dei uma última olhada para a janela do quarto de Dona Amélia. Meu coração bateu forte. Logo me rodeou o velho temor de que um raio me atingiria em cheio a cabeça, espatifando-me. Um sujeito como eu se apega fácil. A carência é incurável, e os carentes, insaciáveis.

(1993)

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