Começando em um jornal

Belo Horizonte, redação do “Diário do Comércio”, 2º andar, 8h

Sergio Vilas-Boas

Um sujeito dentro da sala do editor-chefe (será o próprio?) revolve com os dedos a terra de um vaso de samambaias. Entre o médio e o anular da mão direita há um cigarro aceso queimado até a metade. Cinzas no chão.

A sala possui duas faces envidraçadas: uma está voltada para o corredor e a outra para a deserta redação do jornal. Monitores de tela verde-escura aguardam a chegada de editores e repórteres. O sujeito cavucando a terra do vaso está ajoelhado e de costas para a porta da sala do editor-chefe, onde o foca ficou plantado como um dois-de-paus.

As solas do sapato do sujeito, furadas nos calcanhares, estão à mostra.

“Bom dia. O senhor sabe onde encontro o João Rafael?”, perguntou o jovem.
“Sou eu”, responde o sujeito ajoelhado, sem mudar de posição.
“Ah, conversei com o Magaldi, aqui, ontem. Eu sou o…”

“Sei quem é você”, afirma João Rafael suavemente, concentrado ainda na planta. Refina a terra com as pontas dos dedos como quem lida com massa de pão.

“Tô aqui pra começar”,  diz o jovem sem muito entusiasmo.
“Certo”, João Rafael balbucia. Uma porção de terra preta cai do vaso. Suja o chão. Ele varre-a com as próprias mãos. “O que você sabe fazer?”, pergunta secamente, olho na planta.

O jovem de rabo-de-cavalo sentiu-se obrigado a pensar um pouco. Um, dois, três…

“Sei escrever”, responde, por fim, como quem chuta uma questão de múltipla escolha.
“Não. Não é isso.”
“Não?”
“Não! Isso é o que você pensa que sabe fazer”, João Rafael agora altera o tom de voz para uma modulação mais doce e polida. Continua de costas para o jovem. “Eu perguntei o que você sabe fazer.”

Decorreu um silêncio um pouco mais longo porque agora o jovem está visivelmente desconcertado. João Rafael arrancava folhas mortas com seus dedos grossos e escuros de terra. A redação parecia um túmulo àquela hora da manhã. Estão apenas os dois, na verdade.

“Hum…”, o jovem tenta pensar em voz alta. “Acho que penso que é só isso o que sei fazer.”

João Rafael suspira de alívio, ironicamente: “Ah, bom”. Espalma a mão esquerda no chão para poder colocar o pé direito em condições de sustentar o peso de seu corpo roliço. Levanta-se. Vira-se. Olha para o jovem de cima a baixo de uma maneira acintosa mas teatralmente cômica, com um risinho premeditado.

Estão frente a frente, as duas figuras, pela primeira vez. João Rafael deve estar com uns 50 anos. É baixinho. Tem a cabeça redonda e calva, pele caramelada, olhos escuros, boca avantajada e reta, sem contornos. Usa uma camisa pólo marrom listrada, larga, comprida e bastante amarrotada. Sua barriga esférica e rígida em forma de barril avança para a frente sem trégua; pressiona as fibras do tecido da camisa mais ou menos na linha do equador.

“Mas é o Danny DeVito!”, o jovem pensa na hora.

Era uma vaga para substituição de dois sujeitos que entraram de férias.

O jovem havia voltado de Nova York sem realmente voltar. Sua cabeça ainda continuava lá. Mesmo inexperiente e sem grana, adquiriu vivências memoráveis e uma bagagem cultural importante, é verdade.

“Sua mulher falou muito bem de você. Ela acha você um gênio”, diz João Rafael zombeteiramente sério. Em seguida desfranze a testa e abre um sorriso maroto: “Mas eu não acho”.

João estende ao jovem a sua mão imunda de terra preta. O jovem retribui com um aperto firme, como quem entra no clima da encenação. Ele, que nunca desejou ser jornalista, está aqui para o seu primeiro dia como repórter. A partir de hoje começa também a circular na corrente sangüínea do Sistema Você S.A. de competição individual.

O irreverente e imprevisível “Danny DeVito”, chefe-de-reportagem do “Diário do Comércio” – jornal de economia, negócios e gestão –, fez o que pôde para inspirar o jovem a ser menos metido a besta e mais desapegado. Mas o rapaz (nem tão rapaz assim) só pensa em “eficiências e praticidades”.

Parece ter engolido a América dos americanos.

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