Artesão do consolo

Um perfil  do escritor Gilvan Lemos (1928-2015)

Sergio Vilas-Boas

Um cidadão tímido, solteirão e autodidata circula pelas ruas do centro do Recife em horários regulares. O que se sabe é que o tal é um senhor que expõe o grisalho ao ensolarado nordestino a partir do número 105 da Sete de Setembro, uma rua descontínua e dificultada, estreitada por ambulantes que a enfeiam com restos de tudo o que civilização industrial produz sem pagar impostos.

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Gilvan Lemos, 72 anos neste 2001, é o generoso senhor que emerge e imerge silenciosamente nesse burburinho suado. Está tão dentro e tão fora do cenário que talvez ele nem perceba mais que os odores do arredor se diversificaram a ponto de não mais exalar; que as paredes descascadas dos edifícios passaram, contraditoriamente, a embelezar o cenário; que as anacrônicas grades de ferro das portas e janelas não protegem nada, embora transmitam uma doce ilusão de segurança.

No décimo-segundo andar do vaivém, os vizinhos conhecem o velho e bom Gilvan, que escreve por vício e prazer, sem martírios. Mais precisamente: escreve ficção, gênero que tem levado pernada dos tempos (os novos e os antigos) como vira-latas em porta de botequim. A literatura de ficção parece que já aprendeu a gostar de apanhar. Foi-se o tempo em que admiradores esperavam os grandes autores na porta das leiterias da Rua do Imperador, como fazia o próprio Gilvan para ver José Lins do Rego.

– Escritores eram como artistas de cinema.

Há um consolo, entre os muitos de Gilvan: os poetas de hoje estão em pior situação e são capazes até de responder mal a quem gritar “ô, poeta!”, ou mesmo sair correndo. Gilvan está salvo da suspeita de inutilidade que ronda os cabras cantadores armados de verso.

– Na fossa ou apaixonado, nunca me atrevi a escrever poemas.

Mas já publicou duas dezenas de livros, entre eles os romances Noturno sem música (1956), Emissários do diabo (1968), O anjo do quarto dia (1976), O espaço terrestre (1993) e Morcego cego (1998). Uma boa obra (quando persistente, coerente e gratificante) dissipa qualquer aura folclórica.

Gilvan é um escritor nordestino e obscuro, como ele próprio se define. Mas não cultua a reclusão. Aconteceu de desde muito cedo as negativas lhe calharem. Sua vida é feita de nãos no atacado e sins no varejo. Não o turvaram, por exemplo, os holofotes da fama; não o seduziram os movimentos, os encontros, as conferências, os debates e as noites de autógrafos (nem as de seus livros); tampouco as academias e sociedades de letras; nunca teve os amigos certos, os pistolões, as cartas de recomendações, os QIs; diplomas escolares, apenas o do curso primário – isto por culpa da oportunidade, ou melhor, da falta de.

Filhos? Não. Esposa? Não também. Parou de fumar? Para sempre, não.

Nada de incompatível, nada de inviável até aí. Outros nãos melhores se impuseram às margens do Rio Capiberibe, que pode ser visto da janela do apartamento de Gilvan em Recife: o atacado não lhe pesa nos ombros; as demoras para obter sins, por correio ou telefone, não ferem sua dignidade; o silêncio às vezes ignorante dos críticos não arranha sua lentidão certamente incomum nesses tempos em que é preciso ficar tagarelando sobre a própria auto-imagem, engolindo a previsibilidade dos metiers a fim de obter um espaço de divulgação literária que vem sendo reduzido num crescendo.

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Quer saber? Gilvan é um sujeito resoluto:

– Minha capacidade de influenciar pessoas ou fazer amigos é nula. Perdi a esperança de ser famoso, passou minha vez.

Mas ele diz isso entre dois risos ingênuos, tendo o auto-retrato na parede da sala como segunda testemunha. O auto-retrato também vê o Capibaribe, e daqui quase dá para ver o atual prédio do INSS (antes IAPI, depois INPS), onde Gilvan trabalhou décadas até aposentar-se (1980) e poder apenas ler e escrever, o que de melhor a escola pôde lhe ensinar nos anos 1930.

A vida de funcionário público o poupou dos calos que marcam a maioria de seus contemporâneos de São Bento do Una, onde nasceu, em 1928. Naquele tempo a lenha estalava no fogo, areavam-se as panelas até virarem espelho, mulheres transitavam com trouxa de roupa na cabeça, bacamartes estrilavam à toa.

Os calos de Gilvan são de outra natureza. São de labutar com as palavras desde muito cedo, de lutar pelos meios, não pelos fins, de começar ilustrando revistas de histórias em quadrinhos com pena comum e tinta Sardinha. O garoto caçula dos cinco irmãos já desejava piamente virar autor e desenhista de histórias em quadrinhos. Optar pela escrita foi conveniência.

– Era mais fácil porque não precisava desenhar.

A mãe costurava tendo sempre ao lado da máquina algum romance clássico, que Gilvan apanhava de em vez em quando como bisbilhoteiro mirim.

Aos 15 não precisou mais interromper as leituras da mãe. Empregou-se no escritório de uma fábrica de laticínios da qual um dos sócios era o pai do cantor e compositor pernambucano Alceu Valença. O salário era consumido em livros pedidos via reembolso postal. Dos brasileiros, leu primeiro José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Lúcio Cardozo. Em São Bento do Una não tinha biblioteca, nem jornal, nem livraria.

– Só um cineminha com três sessões por semana.

São Bento do Una, agreste meridional de Pernambuco, entre Caruaru e Garanhuns. Duzentos e trinta e nove quilômetros do Recife. Lá havia muitas cobras. São Bento é o santo delas, as cobras. Una é o nome do rio que deveria banhar a cidade. Não o faz mais porque padece de secura. Curioso (para as gentes do centro-sul) que frentes frias possam importunar o inverno de uma cidade naqueles paralelos equatoriais.

– Pois a temperatura em São Bento do Una pode chegar a 10 graus!

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Nos anos 1940, a viagem até o Recife custava um dia inteiro. Enfrentavam-se cabras e lagartos. Para um aspirante a escritor, ir para a capital era destino encouraçado. Mas, até chegar o infalível dia, era preciso contornar as carências culturais e materiais de seu mundo. Gilvan diz que tem saudade da terra natal. Mas vivia contrariado lá: tinha a doença dos seus olhos, a pobreza da família, a cidade atrasada, a falta de estudos e de perspectivas. Salvou-se lendo; lendo e escrevendo.

– Lia e escrevia desordenadamente, orientado apenas por minha irmã mais velha, que era um pouco menos ignorante do que eu. Foi ainda em São Bento do Una que publiquei meu primeiro conto na revista Alterosa, de Belo Horizonte, e me tornei gênio municipal.

– Ficou badalado? – perguntei, discretamente.

– Sim. Passei a escrever crônicas para o serviço de alto-falantes da cidade. Vivia sob uma ansiedade tremenda, sonhando e sonhando em ser escritor.

– Um escritor por todos os poros?

– Não, era só por dentro. Por fora eu era um rapazola normal. Participava dos bailes do União e jogava de ponta-direita no Comércio Sport Club.

Gilvan saiu de São Bento do Una aos 21 anos, sem nenhum lastro cultural, sem curso ginasial (muito valorizado na época), sem convivência literária ou experiência de vida metropolitana. Chegou no Recife com 21 anos incompletos e estranhou.

– Ganhava pouco na Sul América Seguros de Vida e me faltava uma convivência afetiva. Desde 1952 passei a pertencer aos quadros do ex-IAPI, onde ingressei por concurso público. As finanças também melhoraram. Só a partir de 1956, com a publicação do meu primeiro romance [Noturno sem música], comecei a me relacionar com gente da literatura.

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Nem os sumidos escapam do esbarrão de algum titã literário. Gilvan trombou com dois que tiveram grande importância em sua vida: o escritor também pernambucano Osman Lins (1924-1978) e o ex-diretor da editora Civilização Brasileira, Ênio Silveira (1925-1996). Ambos o apadrinharam espontaneamente, sem maquinações.

Sabe esses prêmios literários que não repercutem (um problema que não pode ser só dos prêmios) no Brasil? Pois nos anos 1950 repercutiam um pouco mais. Um desses prêmios – o da Secretaria de Educação de Pernambuco, em 1952 – chocou-o com Osman Lins, seu ídolo, no segundo lugar da classificação geral.

Quatro anos depois, quando Noturno sem música foi lançado, Osman escreveu em O Estado de São Paulo este outro bem-guardado consolo: “Dentre todos os romancistas novos que conheço, Gilvan Lemos é talvez o que parece mais prodigamente dotado. É um dos pouquíssimos romances de autor novo que merece leitura e comentário”.

Antes de deixar São Bento do Una, Gilvan cogitou de ir direto para o Rio de Janeiro. A mãe o amedrontou: você vai sofrer muito; além de perigoso, tem a tuberculose. Presta atenção, Gilvan, ou você vai pegar tuberculose! Praga de mãe é fogo à lenha. O submisso Gilvan acabou mudando de idéia.

– Eu então ficaria no Recife mesmo. Por uns anos, até me adaptar à vida em cidade grande. Depois, sim, iria para o Rio.

Em 1953, houve a perspectiva de uma permuta com um funcionário do IAPI interessado em se mudar para Recife. Mas a notícia do câncer da mãe veio quase junto. Gilvan ficou – está – no Recife, e sem condições de evitar alguma forma de reconhecimento pelo que produziu até hoje.

– Se digo que perdi a vez de ser famoso não me refiro a obter dinheiro ou bajulação. Apenas gostaria de não ter de me preocupar se meus livros serão publicados e quando. Esse tipo de espera, na idade em que estou, é torturante.

Depois da publicação de Morcego cego (1998) pela Record, Gilvan contava que seu sarcástico Vingança de desvalidos fosse para o prelo em seguida. Não foi. Luciana Villas-Bôas, diretora editorial da Record, ligou dizendo que, tendo em vista aquelas séries incontáveis de milhões de acontecimentos, só seria possível publicá-lo em 2004 (estamos em 2001, lembrem-se).

– Estarei muito mais velho até lá.

Gilvan achou que Vingança de desvalidos não devia esperar muito porque trata de tema atual. Preferiu então conceder os direitos autorais a uma editora do Recife. Publicaram a obra que ilustra em linguagem chula as agruras da classe média, os apertos, a desesperança ao final da era FHC. A obra tem sabor popularesco. A vingança está em se reunir habitualmente na Leiteria Vitória para beber cerveja e falar mal do governo.  Irônico, cáustico e rude, como Gilvan talvez jamais seja na vida. Ele parece incapaz de vingar uma mosca.

– Tinha de ser em linguagem rude. Colhi as críticas nas ruas, prestando atenção nas pessoas.

De modo geral, seus livros não seguem esquematismos. Gilvan não se curva às vertentes memorialísticas, aos desgastes do embate ideológico, à matriz do paternalismo político, ao maniqueísmo rasteiro, às revoltas organizadas por jagunços e às bárbaras repressões dos coronéis.

A antropologia do tempo, porém, lhe inquieta. O ótimo Espaço terrestre, por exemplo, é uma irresistível história de várias gerações de uma família luso-tropical que funda Sulidade, misto de São Bento do Una e Macondo. O que prevalece, entretanto, é o fulcro de uma espécie de Casa Grande & Senzala Pré-Terceiro Milênio.

Há os chistes, os sujeitos desalmados, relevos, vegetações, fauna, flora e geografia próprias. Mas sem releituras pós-modernas. Por que inventar demais se, na verdade, pouca coisa mudou muito? Tem isso, o Brasil é um país imenso que sobrevive estreitado. Sazonal em seu desenvolvimento, o país de Gilvan sofre de secura como o rio Una. A diferença é que às vezes transborda. A ficção de Gilvan Lemos lida com um Nordeste atrasado em itens já resolvidos até nos grotões do Centro-Oeste.

– O mais confortável, para mim, é o neo-regionalismo autobiográfico, sem pretextos políticos.

Para os padrões de hoje, é uma equação de resultado (comercial) difícil. Não se trata de fartura ou escassez de leitores. Houve um tempo em que ser escritor, e nordestino, e regionalista, e realista, e crítico social, era moeda de troca. Não mais. Ainda que não morem na periferia, são periféricos os escritores nordestinos (e não só os nordestinos) que hoje tematizam a desigualdade social em plano pré-industrial. Não viram mercadoria, contudo. Fica-se na intrigante condição simultânea de vivos e mortos. Consolo ou desconsolo?

O mundo entrou no Recife como um trator, mas a originalidade da cidade continua solta, alimentada pelos mesmos mitos e coronéis que a sufocam. A história do estado remói idealismos, violências e frustrações. Pernambucanos já tentaram formar um país. Gilvan, a rigor, não deseja inventar nada. Não é do seu feitio.

– Não me proponho a desvendar nem a linguagem, pra você ver. Ou então é porque depois de certa idade vive-se para trás. E vive-se mesmo. Te falo isso por experiência própria.

Digamos que, proporcionalmente, o atual número de leitores de ficção equivalha ao mesmo número dos anos 1950. Nada mal, mas hoje há mais autores que editoras, mais editoras que livrarias, mais títulos que leitores, mais livros que espaço para acomodá-los nas estantes e na mídia.

– Os cadernos culturais daqui tratam de cultura em demasia. Só que, para esses cadernos, cultura é apenas exibições de bandas de toda espécie, rodas de coco, concertos de rabecas, bumba-meu-boi pastoril, tchan, cantorias recitadas etc. Ou seja, pouco ou quase nada sobre livros.

– No entanto, todo dia aparece um autor.

– Todo santo dia – brinca. – Incrível.

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Abrindo um pouco mais o leque do calendário cristão, encontra-se por acaso uma justificativa longínqua possível para o celibato de Gilvan. Sua infância-pátria foi marcada por uma doença nas vistas – “conjuntivite primaveril”, segundo o povo. Até mudar para o Recife e tratar-se, não tirava os óculos escuros. A luminosidade curvava o escritor. Cílios caíam, pálpebras inchavam, o globo lacrimejava.

– Tinha vergonha dos meus olhos e, por receio, não me arriscava muito com as moças. Fui envelhecendo. A partir de certa idade, um homem começa a adquirir manias. Aí é difícil. Hoje acordo cedo todos os dias, mas com a maior raiva do mundo.

Antes de se aposentar, Gilvan sonhava poder ficar mais tempo na cama. Acontece que com o tempo também o sono vai ficando incompleto. Não “anda para trás”, como quando se está velho, mas a gente acaba acordando até quando não quer. Fico pensando onde se escondem as demais pessoas modestas, singelas e generosas como Gilvan. Ele existe mesmo? Puts, me esqueci de descrevê-lo fisicamente. Ai de mim. 

Texto publicado em 2001 e incluído no livro “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Persoangens e 1 Ensaio” (Manole, 2014, 3ª edição)

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