Autoajuda e antiautoajuda

A psicologia positiva turbinou a indústria da autoajuda e, no fundo,

ajudou a criar um clima de otimismo tão generalizado quanto falso.

I. consumismo, felicidade e autoajuda

Em um mundo onde tudo se vende, até o moralismo possui valor comercial. Há moralistas em toda parte, atuando em setores diversos, pregando não o que acreditam ser o melhor para eles, mas sim o que acreditam ser o melhor para os outros. E um cobiçadíssimo subproduto desse moralismo onipresente é a felicidade, ou melhor, o ideal contemporâneo de felicidade.

Desde a década de mil novecentos e sessenta, mais ou menos, a felicidade virou um negócio altamente lucrativo, que movimenta bilhões de dólares. Não seria exagero sintetizarmos em uma só palavra esse mercado excitante. A palavra? Autoajuda. Em forma de livros, vídeos, seminários, retiros espirituais, etc. (e bota etcétera nisso), a autoajuda é um menu. O menu da felicidade.

Tentáculo do consumismo, a indústria da autoajuda se apropria de conhecimentos extraídos das religiões, das ciências e das artes e os simplifica ou deturpa. Mas seus principais pilares são a mídia sensacionalista e a psicologia positiva. O sensacionalismo em geral apoia a fantasia do resultado fácil; e a psicologia positiva é hoje a base teórica da autoajuda.

Os debates sobre autoajuda são raros e rasos. De modo geral, não saem do gostei-não-gostei; da bobagem-não-bobagem; da necessidade-não-necessidade. Há uma paleta de clichês à disposição: gurus falando sobre campos energéticos, vibrações e divindades; acadêmicos divulgando “a nova era do pensamento positivo”; e cronistas zombando disso tudo com argumentos frágeis.

Por outro lado, queiramos ou não, somos dependentes. Não só porque nascemos entregues aos cuidados dos outros como também porque viver implica conviver. Ninguém está livre de precisar ser ajudado. Nesse sentido, o eremita autêntico é pura ficção. Mesmo se conseguisse isolar-se completamente, ainda assim teria de existir na natureza, alimentar-se dela, conviver com ela.

Precisar de ajuda é inescapável, portanto. Isto, sem desconsiderar que ajudas podem criar dependências. O raciocínio é análogo ao do assistencialismo. O assistencialismo tem menos efeito quando não constrói uma autonomia para o sujeito ajudado. Além disso, nem toda ajuda de fora é eficaz. Por exemplo, seu melhor amigo não pode te ajudar muito quando o seu problema for você mesmo.

Neste ponto, precisamos de concordância sobre o seguinte: é impossível entendermos a nós mesmos com perfeição. Os críticos da autoajuda parecem não levar em conta que a maioria das pessoas não pode pagar por uma psicoterapia; e não entendem que a primazia da consciência crítica não garante o equilíbrio emocional. Ah, claro, as emoções são decisivas em nossa existência.

As emoções nos permitem elaborar sentidos, esperanças, desejos, crenças e crendices. Mais: as emoções meio que controlam nosso comportamento. E nem a ciência clássica nem a teoria crítica têm condições de nos satisfazer plenamente como indivíduos. Por um motivo muito simples: o conhecimento científico ainda não foi capaz de resolver questões subjetivas da “arte de viver”.

Durante séculos, as ciências usaram a etiqueta “alienação” para classificar o pendor natural das pessoas para a busca do que elas acreditam ser a felicidade. E os gurus da autoajuda, em vez de nos incentivarem a seguir o que a realidade parece ser, pedem que sigamos o que gostaríamos que a realidade fosse. Assim, fica difícil. Assim, o autodesenvolvimento é praticamente impossível.

Estudos sociológicos, no entanto, têm sugerido que a psicologia positiva ajudou a criar um clima de otimismo tão generalizado quanto falso. Um dos achados mais conhecidos da psicologia positiva, estruturados pelo psicólogo americano Martin Seligman, foi descobrir que as muitas vantagens da vida moderna pouco contribuíram para melhorar o estado de espírito das pessoas.

Eis alguns resultados das pesquisas empíricas da psicologia de Seligman, organizados pelo sociólogo Pedro Demo, autor de Autoajuda: uma sociologia da ingenuidade como condição humana:

1) Os impactos de eventos fortes ou devastadores na vida das pessoas não duram mais que três meses. 2) Riqueza tem baixa correlação com felicidade. 3) O enriquecimento das nações desenvolvidas não elevou na mesma proporção a satisfação pessoal. 4) Grandes aumentos na remuneração podem impactar a satisfação profissional, mas não aqueles aumentos médios graduais. 5) O relacionamento amoroso não é decisivo na constituição de uma sensação de felicidade. 6) A saúde, embora importante, apresenta fraca correlação com felicidade também.

Esses dados, publicados no início dos anos 2000, excitaram ainda mais o já super dinâmico mercado de autoajuda. O documentário Happy (2011), produzido pela filantrópica Creative Visions, ilustra bem os conceitos da psicologia positiva de Martin Seligman. O diretor Roko Belic rodou o mundo para tentar compreender o que ele chamou de “a emoção mais elusiva da humanidade”. E fez a seguinte pergunta a pessoas de várias nacionalidades, classes e faixas etárias: “O que faz você feliz?”.

Desde o início, esse documentário apostou em um movimento global em prol da felicidade. As histórias e os depoimentos coletados incentivam o engajamento. Neste ponto, vale lembrarmos a canção “Don’t worry, be happy”, de Bobby McFerrin, que diz: Em toda vida, temos problemas/ Mas quando você se preocupa, eles se multiplicam/ Não se preocupe, seja feliz agora!

Na origem, porém, a indústria da autoajuda não é “social”. Na verdade, ela é causa e consequência do individualismo (e do imediatismo) da sociedade hipertecnológica. Trabalho, saúde, estética e relacionamentos são as “disciplinas-chaves”, das quais nascem aconselhamentos do tipo “how to”: como liderar, como educar os filhos, como emagrecer, etc. em versões básicas ou “for dummies”.

Os pregadores da autoajuda, que já ocupam todos os espaços de interação, não admitem que nenhum ser humano sadio tem condições de corresponder ao que suas cartilhas sugerem para que a tal felicidade seja alcançada. (O variado menu da autoajuda, aliás, atende por esse nome: felicidade.) Afinal, a repetição de ideias motivadoras tem efeito ou só serve para enriquecer os pregadores?

Pouco se sabe a respeito disso até o momento. A autoajuda é um fenômeno cultural ainda pouco estudado. Talvez por isso as críticas a ela costumam ser tão genéricas quanto as afirmações feitas por gurus questionáveis. Mas há algumas fundamentações. Pesquisadores de diversas áreas têm mostrado que a autoajuda positivista não se sustenta em pesquisas realmente sérias. É o que veremos a seguir.

II. positividade, negatividade e antiautoajuda

Estudos recentes indicaram que autoajuda não ajuda. Há evidências, por exemplo, de que expressar raiva não fará a raiva passar; e que pré-visualizar metas não aumentará as suas chances de atingi-las. “Outro dado que chama a atenção é que os países ‘mais felizes’ nunca são aqueles onde a autoajuda vende mais”, afirma Oliver Burkeman em seu Manual antiautoajuda.

“Como posso ser feliz?” Você já se fez essa pergunta várias vezes, não? Mas Burkeman argumenta que não é sensato nos interrogarmos dessa maneira. Em vez disso, diz ele, deveríamos aceitar que “os nossos esforços para eliminar tudo o que é negativo – insegurança, incerteza, fracasso ou tristeza – é precisamente o que nos faz inseguros, ansiosos, indecisos ou infelizes”.

Guarde esta frase do filósofo da contracultura Alan Watts (1915-1973): “Quanto mais você tentar boiar, mais afunda; mas quando você tenta afundar, você boia”. Watts certamente se oporia à atual onda de “otimismo mágico”. Uma referência clássica sobre felicidade é Schopenhauer [1788-1860], autor de um livrinho de cabeceira – A arte de ser feliz -, publicado postumamente.

Esse livrinho compila 50 máximas do filósofo pessimista. Há um trecho assim: “Viver feliz somente pode ter o sentido de viver da maneira menos infeliz possível, ou, em outras palavras, viver de uma maneira suportável”. Os viciados em otimismos vazios torceriam o nariz para a mensagem de Schopenhauer de que felicidade é ilusão e, sendo assim, não deveríamos procurá-la tanto.

Um livro que encantou os adeptos do positivismo exagerado foi O segredo. Sucesso mundial (livro e filme), O segredo garante que tudo o que queremos está ao alcance. “Otimismo irracional inundou o setor financeiro [em 2008]”, lembra Burkeman, “e os palestrantes e gurus de autoajuda não se fizeram de rogados para incentivá-lo. O pensamento positivo tornou-se ele próprio um negócio”.

As abordagens mais populares da autoajuda são as mais risíveis. Algumas se baseiam em “visualizações positivas” [mentalize que as coisas vão dar certo que elas darão certo] e em conceitos new age com o da “lei da atração” [visualize o sucesso para alcançar fortuna]. Físicos zombaram dessa tal “lei”. E você? Você acredita que seus pensamentos podem afetar coisas que estão fora da sua cabeça?

A autoajuda, nesse sentido, até parece ter um quê de ficção. E por falar em ficção, o romance Ser feliz (2002), do canadense Will Ferguson, fez paródia irresistível sobre um jovem editor (Edwin) de uma grande editora (Panderic) que descobre e prepara a publicação de um livro de autoajuda “multidisciplinar”. Título: O que aprendi na montanha. Autor: o misterioso guru Tupak Soiree.

O livro de Tupak é uma espécie de pastiche. Feito às pressas, ele toca superficialmente em assuntos diversos, misturando filosofia moral budista com capitalismo em estilo libertário. “É terra-a-terra. E pretensioso. E banal. Tudo isso e muito mais”, acredita o personagem Edwin. Divertido e devastador, Ser feliz satiriza a mitologia da realização pessoal e de seus exploradores comerciais.

Já o Manual antiautoajuda de Burkeman é uma análise mais metódica do fenômeno do culto ao otimismo irrefletido. A hipótese: o positivismo é um feitiço que acaba tendo o efeito inverso do esperado. Jornalista especializado em psicologia, Burkeman revisita filósofos estoicos, budistas, consultores obcecados por metas e pensadores que duvidam de que “somos o que a nossa mente é”.

Os estoicos argumentavam que só o ser humano recebeu da Natureza o dom do raciocínio, e que o estado mental ideal é a tranquilidade. Isto, aliás, é o oposto da animação excitada dos positivistas quando falam de felicidade. Para os estoicos, a única coisa que podemos controlar são os nossos juízos a respeito do mundo, não o mundo em si, claro.

Já os budistas acham que a raiz de todos os sofrimentos é o apego. O fato de desejarmos certas coisas, e de odiarmos ou não gostarmos de outras, é o que motiva a atividade humana. “Porém, em vez de desfrutar de coisas prazerosas quando ocorrem e vivenciar o desprazer da dor, criamos o hábito do apego e da repulsa. A dor é inevitável, mas o sofrimento é resultado de nossos apegos.”

Outro alvo do Manual são as pessoas obcecadas por metas e objetivos. Vocês já devem ter conhecido (ou ouvido falar) de gente assim. A paixão por metas e objetivos tem sido amplamente explorada pela autoajuda. Mas a tão falada importância de estabelecermos planos detalhados para nosso futuro pode nos levar a uma aversão à incerteza, adverte Burkeman.

“A busca pela certeza bloqueia a busca pelo sentido. A incerteza é a própria condição que impele o homem a desenvolver seus poderes”, escreveu o psicólogo social Erich Fromm. “É na incerteza que as coisas acontecem. É nela que as oportunidades – de sucesso, de felicidade, de uma vida plena – estão à espera”, Burkeman acrescenta.

A autoajuda, na verdade, se dirige a um eu, e a existência do eu é um fato  normalmente aceito pelo senso comum sem questionamentos. Mas o filme Matrix (1999) levantou uma questão filosoficamente fascinante: como eu posso ter certeza de que o mundo não é uma sofisticada charada criada por uma inteligência sobre-humana de modo que eu não perceba o truque?

Ao que parece, os gurus trabalham com um conceito de eu que não resiste a um exame mais atento. As neurociências têm mostrado que não há no cérebro um centro onde todas as coisas se juntam e formam isso a que chamamos eu. Porta-vozes da autoajuda, aliás, geram paradoxos incríveis: misturando eu com ego, afirmam que viver a serviço do ego não pode nos tornar felizes.

Ora, a abordagem da felicidade focada no otimismo e obcecada por metas é exatamente o tipo de coisa que o ego adora. O pensamento positivo, lembra Burkeman, é “uma questão de desejar um futuro feliz ou bem-sucedido, o que reforça de maneira sutil a mensagem de que a felicidade está em outro momento, não no presente”. Agora reflita: pode haver um “você” sem “todo o resto”? (Novembro, 2015)

 

Sergio Vilas-Boas aborda a distância entre duas gerações em novo livro

Autor discorre sobre a dificuldade de comunicação e o papel do outro na descoberta de si próprio.

Silvana Arantes
“Estado de Minas”

A mim o que me falta é esse eu que tu vês. E a ti o que te falta é este tu que eu vejo. Paul Valéry

A questão do impacto do olhar do outro na construção da identidade e da autoimagem ganhou uma hábil abordagem em ‘A superfície sobre nós’ (Amarilys). Nesse romance, Sergio Vilas-Boas nos introduz, de saída, no território movediço das interpretações.

“Você conhece uma pessoa com mais que o dobro da sua idade e ela o ajuda a aprimorar seus sentimentos e discursos. Mais adiante, você fica sabendo que ela não só tentou suicídio como foi capaz de matar alguém. Daí você se pergunta: ‘Será que peguei o fio certo da meada?’, e logo admite que não há respostas que possam corrigir o seu, digamos, ‘deficit de atenção’.”

Quem enuncia o dilema não é nenhum dos dois personagens nele envolvidos – a saber, Hugo, o jovem que teve seus sentimentos e discursos aprimorados pelo convívio com o experiente Jaime – mas uma leitora da narrativa dessa relação sob o ponto de vista de Hugo.

Tabs, a namorada de Hugo, lê e comenta (com observações entre colchetes) o original do livro que o parceiro escreveu para exorcizar a experiência de atração e repulsa pela personalidade fraturada de Jaime. A ideia de deitar em palavras aquilo que viveu se impôs a Hugo depois que ele se deparou com um livro escrito e jamais publicado por Jaime, o que, de certa forma, está na origem de sua crescente tendência à misantropia.

Estamos, portanto, numa cascata de tentativas dos personagens de compreenderem a si mesmos e ao mundo por meio da literatura. Vilas-Boas lança mão desse recurso com segurança suficiente para entremear as narrativas sem que sua superposição soe arbitrária ou antinatural. Dadas as biografias de Hugo e Jaime, que se aproximam no momento de tensão máxima numa greve decidida pela Redação da publicação para a qual trabalhavam, desfilam pelo livro tipos secundários e característicos dos ambientes do jornalismo e da academia. A coleção de personagens laterais termina sendo uma pitada de humor numa história de tom predominantemente denso.

O tema do outsider surge na história exemplificado numa análise da corrente migratória de dentistas brasileiros para Portugal nos anos 1990. O autor maneja com consistência uma boa dose de dados estatísticos, ao lado de reações nos campos da política e da vida comuns lisboeta, para tentar atingir o cerne psicológico que impulsiona alguém ao movimento de retirada de seu lugar de origem. Aqui, desenha-se a dificuldade do encontro de Hugo e Jaime. Para o primeiro, são inapreensíveis as razões que levaram o segundo às escolhas que fez ao longo da vida.

O grande esforço de ‘A superfície sobre nós’ é evidenciar a incomunicabilidade entre a geração baby boomer e a Y, traçando as razões do fosso que se estabeleceu entre elas. As perspectivas de Hugo e Jaime a respeito do presente e do futuro e também sobre o que dá sentido a uma vida parecem não ter ponto de contato. No entanto, o jovem protagonista desse romance de Vilas-Boas se dá ao trabalho de buscar permanentemente desvendar os enigmas da alteridade, ainda que para reforçar a conclusão a que chega Valéry nos versos que abrem este texto: “Quanto mais nos refletirmos, tanto mais seremos outros”. (17/07/2015)

“A Superfície Sobre Nós” (em papel)

“A Superfície Sobre Nós (e-book)

Do que é feita a solidão?

Em A Superfície Sobre Nós, o escritor Sergio Vilas-Boas discute os conflitos de gerações e as angústias de um homem soterrado pelas dores do passado.

Eder Alex
www.aescotilha.com.br

Às vezes a fuga vira uma espécie de crença religiosa. É como se o ato de ir embora, deixar tudo para trás e foda-se o mundo, carregasse consigo o poder da renovação e, principalmente, da anulação ou do completo desaparecimento de tudo o que fizemos anteriormente. Mas a gente já é bem grandinho e sabe que a coisa não funciona bem assim, certo? Você pode trocar de país, de cultura, de língua, mas não de passado. A superfície sobre nós, de Sergio Vilas-Boas (vencedor do prêmio Jabuti de 1998), lançado este ano pela Amarilys Editora, fala um pouco sobre isso, sobre esse peso de carregar aquilo que fomos.

O livro trata do conflito de gerações (Baby boomer x Geração Y) a partir do diálogo entre Hugo, o estagiário de TI que nos narra a história, e Jaime, um tradutor que se considera um outsider e que no momento passa por uma fase terrível. Os dois se conhecem durante a greve do jornal em que trabalham e aquilo que poderia ser um simples papo de boteco, acaba se tornando uma profunda reflexão sobre uma porrada de coisas, desde os efeitos da tecnologia no nosso cotidiano, até o vazio enorme que preenche o peito de quem se sente só.

sao paulo review

É muito bonito, por exemplo, ver o guri lá do filme Na natureza selvagem abrindo mão de um vida confortável para andar por um mundo com cara de National Geographic e encontrar o seu “eu”. Contudo, nós sabemos que isso está um pouco distante daquela realidade em que há boletos para pagar e onde é mais provável tocar a marcha fúnebre do que a música do Eddie Vedder na trilha sonora. Então o que Sergio Vilas-Boas faz é nos apresentar a figura do outsider como a de um sujeito cuja coragem de seguir em frente, na verdade, está sedimentada num medo profundo de ficar onde está e ter que encarar a si mesmo no espelho.

Não, ele não é do tipo que se enfia no meio do mato e fica comendo folha envenenada. Jaime é um senhor que enfrentou inúmeras dificuldades, encarou o desemprego, a doença terrível de sua esposa e ao longo de sua vida acadêmica cometeu alguns erros que o marcaram para sempre. Contudo, toda essa pós-graduação em sofrimento não garante a ele o título de bacharel em sabedoria. Há em seu discurso uma pegada meio mestre Yoda, que diz coisas profundas usando frases de efeito, o que chega a ser um tanto incômodo no início, afinal você não pretendia ler Augusto Cury, mas que aos poucos vai se mostrando apenas um recurso estilístico, consciente, do autor. Aparentemente, o que Vilas Boas tenta criar ali é um contraste sutil entre aquilo que Jaime diz ser/pensar e aquilo que ele de fato é/pensa. Algumas questões de fato coincidem, outras tantas colidem.

O que Vilas-Boas tenta criar é um contraste sutil entre aquilo que Jaime diz ser/pensar e aquilo que ele de fato é/pensa. Algumas questões de fato coincidem, outras tantas colidem.

Hugo é seu pequeno gafanhoto aprendendo que vida não anda fácil pra ninguém. Mas o tempo de aprendizado passou e embora haja a proximidade da amizade, compreende-se que as gerações são diferentes, pois experimentam e enxergam o mundo de maneira diferente. Em meio a esse distanciamento metafísico o que o jovem faz, com o passar dos anos, é tentar entender o ser humano de verdade por trás daquela capa de sapiência.
 
Ao misturar os tipos de linguagem (há trocas de mensagens em “internetês”, poemas (bem fraquinhos, diga-se) e anotações da namorada de Hugo no meio da narrativa), o autor consegue imprimir a sensação de urgência e de verborragia na comunicação da Geração Y, ao mesmo tempo em que faz pausas mais reflexivas, às vezes meio forçadas, com as anotações de Jaime. Esta polifonia dá mais densidade à narrativa, uma vez que aplica à forma, aquilo que se discute no conteúdo.

O livro nos faz questionar que talvez não conheçamos muito bem aquelas pessoas que de alguma maneira mudaram a nossa forma de enxergar o mundo, aquelas pessoas que foram decisivas em nossas vidas para que nos tornássemos o que somos. Prestávamos atenção nelas ou apenas no que elas diziam? Em todo caso, esta busca por mais informações ganha ritmo a partir do meio do livro e dali em diante, mais do que saborear o intelecto do velho rabugento e solitário, nós (e o narrador) queremos mais é saber o que diabos aconteceu no passado de Jaime. Por que aquele homem carrega tanta dor? Afinal, do que é feita aquela solidão? (08/07/2015) Leia a íntegra da resenha.

Eder Alex é formado em Letras pela Faculdade Educacional Araucária (2007) e pós-graduado em Literatura Brasileira e Ensino da Língua Portuguesa pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (2008). Trabalha como professor de Comunicação e de Literatura (FACEAR) e também como supervisor administrativo (Hospital Pequeno Príncipe). Tenta compensar a incoerência de sua vida profissional, bem como sua inabilidade de convívio social, escrevendo sobre livros e filmes em seu blog. Mas é bem possível que isso tudo seja mentira e no fundo ele passe o dia inteiro jogando videogame e assistindo ao Netflix.

“A Superfície Sobre Nós” (em papel)

“A Superfície Sobre Nós (e-book)

Os ‘exercícios de admiração’ de Sergio Vilas-Boas

“O Mundos dos Outros”, de Sergio Vilas-Boas, valoriza o Perfil,
gênero jornalístico muito divulgado e pouco compreendido.

Welington Andrade

Voando de Campo Grande à fazenda Santa Cruz, no Pantanal mato-grossense, em um Cessna Centurion II, ao lado de Manoel de Barros, o poeta que se dedica a descobrir as insignificâncias do mundo e das pessoas. Tomando café e discutindo futebol com Tostão no condomínio da região metropolitana de Belo Horizonte onde mora o craque da bola e das crônicas esportivas. Acompanhando o dia a dia de Mara Salles, uma chef de cozinha que, há trinta anos, “nem sabia cozinhar direito e hoje é uma das principais embaixadoras da gastronomia brasileira”. Toureando o tédio de João Ubaldo Ribeiro, no escritório do apartamento do autor de Viva o Povo Brasileiro, no Leblon, Rio de Janeiro, e testando ao mesmo tempo a paciência, que andava por um fio, do escritor: “Olhe, meu amigo, preciso trabalhar; estou cada vez mais sem saco para entrevistas”.

Essas são algumas das ações executadas por Sergio Vilas-Boas em companhia de um expressivo número de personalidades, sejam elas célebres ou anônimas aos olhos do grande público, retratadas em Perfis: O Mundo dos Outros – 22 Personagens e 1 Ensaio (Editora Manole), que chega agora a sua terceira edição, revista e ampliada. Autor de onze livros, entre eles Biografismo: Reflexões Sobre as Escritas da Vida e Os Estrangeiros do Trem N (vencedor do Prêmio Jabuti em 1998), Vilas-Boas é também jornalista e professor universitário, tendo realizado tanto sua pesquisa de mestrado quanto a de doutorado sobre um tema bastante caro ao universo do jornalismo – as narrativas biográficas –, ambas apresentadas à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Publicados de modo esparso, entre 1999 e 2014, em jornais, revistas e livros, os perfis biográficos reunidos nessa nova edição exploram, com uma perspicácia e uma sensibilidade cada vez mais raras no jornalismo atual, algumas singulares ocorrências que cercam a vida dos poetas, prosadores, intelectuais, esportistas e homens de negócio a quem o autor se propôs retratar. Embora se trate de personagens cujas trajetórias de vida são tão diferentes entre si, todos aqui parecem ter algo em comum, irmanados que estão pela técnica incisiva e cortante por meio da qual Vilas-Boas concebe seus retratos.

Os textos primam pela concisão. Não aquela ligada à brevidade do vazio e da superficialidade tão em voga em tempos de abundância de informação e escassez de experiências narrativas. Os breves retratos de figuras tão complexas que o autor sugere (o poder de sugestão é, sim, um grande antídoto contra o racionalismo espúrio do qual a sociedade informacional vem se orgulhando cada vez mais) em seus textos estão a serviço da investigação biográfica discreta, diligente, delicada, que não necessita mergulhar fundo nas misérias e grandezas do homem. Antes, tal investigação constitui um exercício de modalização subjetiva, voltado à observação sensível do efêmero, do banal, do acessório. Como se, por meio de tais elementos, pudéssemos privar um pouco da essencialidade dos seres biografados.

Alguns perfis revelam personagens fascinantes desconhecidos do leitor médio. O escritor Francisco Dantas é um deles. No perfil “Domador de veredas”, sobressai a intenção de Vilas-Boas de destacar a atividade literária de Dantas, mas as coisas ínfimas, vividas ao rés-do-chão, que cercam a fazenda onde mora o personagem também não escapam à sua observação sensível: “Desde que eu havia aparecido ali, na fazenda Lajes Velha, em Itabaianinha (SE), prestei atenção no coaxar tresloucado dos sapos no açude; nos galos que saudaram o amanhecer; no berro abafado das dóceis cabras Saanem; nos olhos silenciosos dos bois Tabapuã-Chianina; nos trinados dos grilos ouriçados com as lâmpadas da varanda; nos bufos da burra Medalha”.

Outra figura igualmente cativante é a do escritor Cristóvão Tezza. Em “Alma de relojoeiro”, Vilas-Boas vai em busca do passado do personagem, que viveu, como muitos jovens, os sonhos e as utopias da década de 1960. Mas em vez de o perfil ficar preso a esse tempo nostálgico e inerte, o texto trata habilmente de ligar o “que veio antes” ao “aqui e agora”, encerrando-se com uma metáfora bastante poderosa: “O que vem depois da batida das horas? Nessa casa, aparentemente imune ao pulsar às vezes escravizante do calendário convencionado, mora um escritor com alma de relojoeiro. Meticuloso, tolerante, disciplinado, ele maneja as horas como Curitiba maneja o presente”.

No último texto do livro, o ensaio intitulado “A arte do perfil”, Vilas-Boas recupera a história do gênero que é considerado hoje em dia uma espécie de oásis de invenção e criatividade em meio à aridez da atividade jornalística produzida em escala industrial. (Impossível não pensar no trabalho de ourivesaria e artesanato representado pelos deliciosos perfis publicados na revista Piauí). Nesse texto de fechamento, não somente o estudante de jornalismo como também o interessado em geral pelas narrativas biográficas irão encontrar a descrição precisa, o argumento envolvente, a reflexão apurada sobre esse gênero nobre do Jornalismo Literário que envolve processos criativos multidimensionais em que se combinam a memória, o conhecimento, a fantasia, a síntese e os sentimentos. Sobre “A arte do perfil” declara o próprio autor: “Compilei nesse ensaio os meus estudos e as minhas experiências nos últimos vinte anos como escritor e professor… Nem sempre é possível realizar tudo o que está indicado no ensaio, porque tanto o personagem quanto o processo de retratá-lo são irrepetíveis – aliás, criatividade e maleabilidade são fundamentais na construção de perfis”.

Ao final da leitura, provavelmente o leitor mais atento poderá perceber o quanto do universo do próprio autor está relacionado a esse “mundo dos outros”, uma vez que o retrato, segundo o escritor francês Charles Augustin Sainte-Beuve (1804-1869), é uma forma utilizada “para produzir nossos próprios sentimentos sobre o mundo e sobre a vida, para exalar com subterfúgio uma certa poesia oculta”. Em seu livro, Sergio Vilas-Boas faz do interesse por 22 pessoas um belo e denso exercício de admiração – linguística, jornalística e humana – pelo outro, convertendo tais indivíduos em personagens cujas trajetórias tão diferentes das nossas estão plenas de significação muito próxima de nós.

Welington Andrade é formado em Artes Cênicas pela Uni-Rio e doutor em Letras pela USP. Crítico de teatro da revista “Cult”. Este texto foi publicado na revista “Cásper”,  da Fundação Cásper Líbero, n.14, São Paulo, dezembro, 2014.

Perfis: o Mundos dos Outros (em papel)

Perfis: o Mundos dos Outros (e-book)

A arte do Perfil

Ensaio publicado no livro “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Personagens e 1 Ensaio” (3ª edição revista e ampliada, Manole, 2014, pp.271-287).

Sergio Vilas-Boas

          I.

GÊNERO NOBRE do Jornalismo Literário, o perfil é um tipo de texto biográfico sobre uma – uma única – pessoa viva, famosa ou não. Texto biográfico não significa exatamente biografia, que é outro gênero. Nem tudo o que é biográfico é biografia, aliás. A biografia é uma composição detalhada de vários “textos” biográficos (facetas, episódios, convivas, pertences, legados, o feito, o não feito, etc.).

Diferentemente das biografias de mortos, nas quais os autores têm de enfrentar os pormenores da história do personagem – às vezes tendo de contemplar até as suas ancestralidades e ocorrências póstumas –, o autor do perfil de um indivíduo vivo se concentra apenas em alguns aspectos. A similaridade entre biografia e perfil reside no fato de que, em ambos, tudo gira em torno do personagem central (evito a palavra perfilado).

Cada ser humano tem um perfil, assim como cada perfil só pode ser sobre um ser humano. Se a individualidade fosse banida do mundo e os humanos não passassem de robôs programáveis, sem estilo nem identidade, o texto do tipo perfil simplesmente não existiria. O perfil expressa a vida em seu contexto. Atém-se à individualidade, mas não se restringe ao individualismo anedótico, folclórico, idiossincrático.

A palavra perfil tem sido usada indiscriminadamente. Colocam-na antes de qualquer coisa. Mas, para mim, jornalisticamente falando, não existe perfil de cidade, perfil de bairro, perfil de um edifício, perfil de uma época, perfil de um grupo, perfil de um cão (na ficção, sim), etc. Em jornalismo, o ponto de vista é sempre humano.

Lugares, animais, grupos, etc., por mais vivos – por mais marcantes que sejam as suas culturas, personalidades e almas –, nada verbalizam por si mesmos. A cultura, a personalidade e a alma de um lugar, de um animal ou de uma comunidade são o resultado da soma das interpretações, versões, percepções – linguagens, enfim – humanas.

Claro que você pode fazer uma reportagem ou uma crônica sobre um lugar, um edifício, uma época, e tentar desvendar a cultura, a personalidade e a alma do tal lugar, do tal edifício, da tal época. Mas aí ou é reportagem, ou crônica, ou um híbrido de cunho autobiográfico. Perfil, não. O perfil (em forma de texto escrito) possui parâmetros específicos, como veremos.

Na tradição clássica do Jornalismo Literário, o texto-perfil[2] é relevante por sua durabilidade e narratividade. Mesmo que meses ou anos depois da publicação o protagonista tenha mudado suas opiniões, conceitos, atitudes e estilo de vida, o texto pode continuar despertando interesses. Quanto à narratividade, ela se expressa por uma estruturação bem calculada e uma escrita predominantemente reflexiva.

 

          II.

Entre os bilhões de terráqueos vivos, quem merece um perfil? Sendo de indivíduo sobre indivíduo, é muito difícil estabelecer critérios. Potenciais personagens estão em toda parte. No entanto, ninguém é personagem de uma narrativa pelo simples fato de estar vivo. Para se tornar personagem de um perfil, são necessários dois processos antecedentes: o autor escolher uma pessoa (ou ser escolhido pela pessoa) e o “convite” ser aceito.

Quanto ao ato da escolha, trabalho com os seguintes pressupostos: 1) o ser humano é irrepetível mesmo quando totalmente submisso ou alheio à ordem social à qual pertence; 2) há indivíduos que se diferenciam da multidão por suas atitudes e/ou pensamentos, independentemente de serem conhecidos da mídia, de possuírem hábitos exóticos, de serem difíceis de lidar ou de terem experimentado viradas mirabolantes em suas vidas.

Outro aspecto importante: o problema de narrar não é do personagem, e sim do autor do perfil. Por incrível que pareça, o personagem em si não é decisivo para a qualidade da narração, mas, sim, a competência do autor em lidar com o personagem e com a narração. Escapismo justificar que o personagem é isso, aquilo, comum, igual, anônimo, caladão, etc.; ou que a história dele/dela é fraca e que, “por isso, a coisa não funcionou entre nós”.

Pare com isso.

O problema de narrar é sempre do autor. De ninguém mais.

Condição sine qua non em um perfil é a interação autor-personagem, seja quem for. Você deve estar pensando: “Ah, mas o Gay Talese fez aquele antológico perfil do Frank Sinatra sem falar com o Frank Sinatra”. Certo, certo. Mas considere que Talese queria muito falar com o Frank; e cite, se for capaz, outro perfil antológico em que o autor não se relacionou com o protagonista.

Talvez você encontre algum em um obituário, seção periódica fixa muito valorizada na imprensa anglo-saxônica. Mas as seções de obituários são (têm de ser) sobre mortos. A arte do perfil (arte no sentido de um fazer tal que, quando faz, altera o fazer, pois não comporta fórmulas) reside exatamente na vida presente que possui um passado.

Para produzir um bom perfil, é preciso pesquisar, conversar, movimentar, observar e refletir. Tudo dentro do possível, claro, pois cada caso é um caso. Você tem de pesquisar os contextos socioculturais da pessoa; conversar com ela e com as pessoas de seu círculo de relacionamentos; movimentar-se com ela por locais diversos; tem de observar as linguagens verbais e não verbais.

Há uma grande diferença entre o texto-perfil e as entrevistas do tipo pingue-pongue. Perfil não é debate. Autores que ficam paralisados diante do personagem, bombardeando-o com questões muitas vezes irrespondíveis, deveriam reavaliar seus métodos. Os perfis elucidam, indagam, apreciam a vida num dado instante, e são mais atraentes quando atiçam reflexões sobre aspectos universais da existência, como vitória, derrota, expectativa, frustração, amizade, solidariedade, coragem, separação, etc.

Os perfis cumprem um papel importante, que é exatamente gerar empatia no leitor. Empatia é a preocupação com a experiência do outro, a tendência a tentar sentir o que sentiria se estivesse nas mesmas situações e circunstâncias do outro; compartilhar as alegrias e tristezas do outro; imaginar as situações do ponto de vista do outro.

A escrita de perfis me ajudou a me conhecer melhor e talvez tenha ajudado os meus leitores a se verem por um ângulo diferente. Humanizar não é um mistério. É uma providência simples. O primeiro passo para humanizar é fugir do ideal da perfeição e evitar maniqueísmos. Uma pessoa não é isto ou aquilo. Ela é isto, aquilo, aquilo outro e mais um milhão de istos e aquilos totalmente imprevistos.

Em vez de formular hipóteses, entro no mundo da pessoa sem preconceitos, suposições ou teses; tento conhecer algumas de suas facetas (carreira, família, sociabilidade, hobbies, etc.); vou aos lugares que ela frequenta; capto sua visão de mundo e suas marcas de temperamento; e não idealizo ninguém, jamais. As pessoas são o que são. E que assim sejam. Evito, com todas as minhas forças, ser judicativo e duvido permanentemente do meu “direito” de poder divulgar unilateralmente as qualidades e os defeitos dos outros.

A ideia de self-made man (ou self-made woman) é outro ponto importante. Para uma vocação florescer e se destacar, muitos fatores (mentalidade e cultura de época, condições financeiras, grau de persistência, apoio de pessoas próximas, autoconfiança e outros) têm de ser considerados. Atenção, portanto, para os coadjuvantes.

 

          III.

Perfis têm aparecido ocasionalmente em periódicos (mas não apenas em periódicos) há mais de um século. A partir da década de 1930, os jornais e revistas começaram a apostar fortemente neles. No início, os personagens mais retratados eram os olimpianos do mundo das artes, da política, dos esportes e dos negócios. Esperava-se que o perfil lançasse luzes sobre a fase atual, o comportamento, os valores, a visão de mundo e alguns episódios da vida da pessoa.

Com esse espírito, os perfis se tornaram a marca registrada de revistas americanas como The New Yorker, Esquire, Vanity Fair, Harper’s e Atlantic, entre outras. No Brasil, O Cruzeiro, Realidade e Sr. também o valorizaram em suas épocas áureas. Interessantes, em Realidade, os textos de Luiz Fernando Mercadante sobre Oscar Niemeyer (jul./1967) e Francisco Matarazzo Sobrinho (out./1967), e o do falecido psicoterapeuta Roberto Freire sobre o jovem Roberto Carlos (nov./1968).

O perfil do jovem Roberto espelha os dias de convívio do jornalista com o astro e com a sua turma, entre shows, gravações, sessões para escolha de novos compositores, programas de TV, jantares e viagens. “Eu nunca o havia visto fora do palco e dos vídeos”, assume Freire no texto. “Não eram os fatos de sua vida pessoal que interessavam, mas seu comportamento diante da profissão e da popularidade, suas reações de homem diante de tudo o que o rodeia diariamente.”

Os jornalistas de Realidade eram estimulados a conduzir diálogos genuinamente interativos. Podiam mesclar informações sobre cotidiano, projetos e obras do protagonista com opiniões deste sobre temas contemporâneos como sexo, família, dinheiro, cultura, economia e política. Ideias e empatias coexistiam em nome de um retrato o mais nítido possível, dentro do possível.

O elenco de bons jornalistas norte-americanos (os Estados Unidos ainda são o principal produtor de Jornalismo Literário) que se dedicaram a escrever perfis é enorme. Alguns: Lincoln Barnett, Joseph Mitchell, Janet Flanner, Lillian Ross, Calvin Trillin, Susan Orlean, David Remnick, Mark Singer, John McPhee, Joan Didion… Vários dos praticantes do chamado New Journalism (nome dado a um período de grande visibilidade do Jornalismo Literário na década de 1960) honraram o gênero.

Gay Talese, na minha opinião, é um dos mais representativos da turma norte-americana. Seu “Frank Sinatra está resfriado”, publicado na edição de abril de 1966 da Esquire, é talvez o texto-perfil mais lido no mundo. Pelas circunstâncias em que foi realizado, talvez seja mais apropriado dizer que esse texto é a exceção da exceção, pelo fato de Talese não ter dialogado com Sinatra diretamente.

Talese desembarcou em Los Angeles para o encontro, mas Sinatra se recusou a ser entrevistado exatamente porque estava resfriado. Em vez de retornar a Nova York com as mãos vazias, Talese decidiu ficar nos arredores à espera de uma oportunidade de ao menos trocar umas palavras com “The Voice”, o que tampouco aconteceu. Restou-lhe, então, seguir os passos do astro por bares, estúdios, programas de TV, cassinos e lutas de boxe.

Estava presente, por exemplo, em um bar de Beverly Hills, onde Sinatra bateu boca, sem mais nem menos, com Harlan Ellison, um jovem roteirista de Hollywood. O diálogo entre os dois foi reproduzido e transmite não apenas a exaltação de ânimos como o humor intragável de Sinatra, que, além de resfriado, atravessava uma fase difícil.

Talese mostra como o cantor se relacionava com a sua trupe e com o mundo; aponta as colisões e coincidências entre as celebridades e os mortais; relembra e interpreta momentos marcantes da infância em Hoboken, Nova Jersey, onde Sinatra nascera cinquenta anos antes. As cenas são orientadas por ações, descrições, ironias e intimidades obtidas por meio de , pesquisas e leituras.

O mais famoso texto-perfil do mundo saiu na Esquire, mas é a New Yorker, fundada em 1925, que detém o crédito de principal difusora de perfis. O grande passo da New Yorker foi a contratação de Joseph Mitchell no final da década de 1930. Mitchell retratou estivadores, índios, operários, pescadores e agricultores. Está entre os maiores jornalistas literários de todos os tempos. Os dois textos que escreveu sobre o folclórico, boêmio e aloprado Joe Gould são primorosos.

Lincoln Barnett, repórter da Life entre 1937 e 1946, é outro memorável. Barnett contribuiu muito para essa atividade. Na única coletânea em livro que publicou – The world we live in: sixteen close-ups (1951) –, ele comenta por que e como escreveu alguns de seus principais textos. Segundo Barnett, o autor de perfis “tem de se preocupar com a transitoriedade dos atributos, diferentemente de um biógrafo diante de um famoso morto”.

O Brasil não tem tradição em Jornalismo Literário, e esta é uma das razões de ainda ser rala a maioria de nossas produções do tipo perfil. Revistas como Piauí e Brasileiros, surgidas entre 2006 e 2008, têm ajudado a reduzir um pouco o nosso déficit em relação aos norte-americanos e hispânicos. Além disso, desde 2002 temos à disposição cursos, livros e sites que ampliaram nosso entendimento sobre o jornalismo das reportagens especiais.

 

          IV.

Algumas definições ou conceitos para perfil: Steve Weinberg os chama de “biografia de curta duração” (short-term biography); Oswaldo Coimbra, de “reportagem narrativo-descritiva de pessoa”; Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari acham que deve ser chamado de perfil o texto que enfoca o protagonista de uma história (a história de sua própria vida). O que se deve ter em vista no perfil, portanto, é o protagonismo.

O protagonismo é um ímpeto eminentemente artístico. A arte sempre procurou usar personagens para ampliar o conhecimento da natureza humana. Difícil pensar em literatura, cinema ou teatro sem personagens. Para nos aproximarmos das boas realizações, portanto, deveríamos nos misturar com a arte constantemente, nos expor a ela – sobretudo à literatura.

Podemos traçar paralelos até com as artes visuais. Pintores, desenhistas e fotógrafos sabem que os portraits (retratos), por exemplo, representam um jogo malicioso. Conscientes do problema de obter uma expressão, muitos fotógrafos deixam que a pessoa assuma uma pose. O fotógrafo Henri Cartier-Bresson, por outro lado, perseguia o “instante decisivo”, aquele em que se capta o imutável.

Para E. H. Gombrich, um dos maiores especialistas em história da arte, são as atitudes do sujeito que constituem a linguagem dos portraits no âmbito da pintura e da fotografia. Enquanto os portraits expressam, necessariamente, uma fisionomia, o texto-perfil expressa um modo de pensar/viver. O texto-perfil é explicitado pela história narrada, com um equilíbrio entre o passado e o presente.

Em princípio, não há diferença entre representar uma coisa vista e uma coisa rememorada – nenhuma delas pode ser transcrita como tal, sem uma linguagem, “sem aquele domínio da expressão que Rembrandt fez seu e que é patente de ponta e ponta em sua arte”. Aqui, como sempre, a memória de soluções coroadas de êxito, as do próprio artista e as da tradição, é tão importante quanto a memória da observação.[3]

Leonardo da Vinci aconselhava outros artistas a dividir o rosto em quatro partes – fronte, nariz, boca e queixo – e estudar as formas que esstas quatro partes podem tomar. Uma vez que esses elementos do semblante humano estejam gravados na mente, concorda Gombrich, pode-se analisar um rosto com um único olhar – e retê-lo.

As pessoas percebem quando funcionou corretamente o processo de seleção e recorte (inerente ao portrait e ao texto-perfil). Percebem quando as partes reveladoras do Eu Essencial do personagem receberam a devida atenção do artista. Na verdade, a ideia de singularidade em um texto-perfil não tem a ver somente com a individualidade alheia. A singularidade é importante também no que tange ao(s) encontro(s) do autor com o seu personagem.

Cada encontro é tão singular quanto decisivo. Os personagens não são modelos em pose, evidentemente, e a imagem escrita que tento obter deles tampouco é premeditada. Não posso manipular as palavras, os gestos e os cenários, e o que capto não se baseia apenas em pensamentos plenamente naturais ou em atitudes plenamente espontâneas. Na verdade, autores de textos do tipo perfil estão o tempo inteiro atentos a quatro processos tão fundamentais quanto indivisíveis: 1) os espaços; 2) os tempos; 3) as circunstâncias; 4) os relacionamentos.

  1. Os espaços são os locais dos encontros do autor com o protagonista e/ou com as pessoas próximas a ele/ela. Os espaços ampliam a percepção sobre o estilo de vida (life style), entre outras coisas.
  1. Os tempos compõem a trajetória de vida do indivíduo. Essa trajetória não é necessariamente linear. O tempo está contido no lembrado (pelo protagonista e por seus coadjuvantes) e no vivido (autor e protagonista, juntos, aqui, agora).
  1. As circunstâncias englobam o imponderável. Caso o imponderável afete muito o processo de pesquisa e os diálogos, o texto então deve refletir também a consciência do autor sobre o que ocorreu nos bastidores.
  1. Os relacionamentos (“infinitos enquanto durem”) trazem à tona as expressões (verbais e não verbais) intrínsecas ao protagonista. Os relacionamentos geram imagens, possibilitam insights e fixam o que é indiscutivelmente próprio do personagem.

Os processos criativos são multidimensionais. Neles, combinam-se memória, conhecimento, fantasias, sínteses e sentimentos, cinco elementos imprescindíveis ao trabalho autoral. O poeta E. E. Cummings (1894-1964) dizia que o artista não é um sujeito que descreve, mas um sujeito que sente. Em um perfil, tanto a pesquisa quanto a narração implicam um sentir, e sentir é envolver-se. Mas não um envolvimento ideológico, religioso ou político. De jeito nenhum. Envolver-se, aqui, significa estar aberto à curiosidade e à surpresa.

 

          V.

O texto-perfil publicado, tal qual o portrait visual exposto, está aberto a interpretações diversas. Pense nas páginas e páginas devotadas à interpretação do sorriso da Mona Lisa (La Gioconda), de Leonardo da Vinci. Luxúria? Castidade? Ironia? Ternura? Talvez aquele sorriso não expresse nada além de um disfarce, mas quanta saudável ambiguidade contida nele, não? Observe também como as mãos da Mona Lisa sugerem um estado de relaxamento e concentração simultâneos.

“É verdade que se pode pedir a um modelo que ria ou chore, mas o resultado obtido será apenas um esgar. É preciso sentir a expressão humana, e essa só vem no seu instante”, afirma Gombrich. Então, um retrato por escrito tem de ser construído de modo que as questões interessem tanto ao leitor quanto ao próprio personagem em foco, evitando armadilhas (ou farsas) comuns e contrárias à inteligência do público. Algumas delas:

  1. Quando autor e personagem se tornam oponentes implacáveis, agredindo-se mutuamente, destruindo qualquer possibilidade de afeto e, consequentemente, de compreensão.
  1. Quando um ou outro se põe na posição de defesa, a fim de ocultar mais do que revelar, ou exibir mais do que observar.
  1. Quando o autor se torna o protagonista sem uma razão justificável para tal. Nesse caso, perde-se o conceito de texto-perfil, modalidade que aborda o outro – o mundo do outro.

Num texto-perfil, a complexidade do personagem pode ser trabalhada com a ajuda de um conjunto de cuidados. Dou atenção ao que a pessoa diz a seu respeito e ao que ela diz a respeito de outras pessoas; dou atenção ao que ela diz a respeito dos acontecimentos contemporâneos que a afetam de algum modo; e, dentro do possível, tento captar o que outras pessoas têm a dizer sobre o protagonista (ou sobre algum assunto correlacionado).

A pessoa fornece também gestos, atitudes e pensamentos em função da fase que está atravessando. Opero, então, com um acúmulo de indícios, que podem ou não ser contrastados com dados do passado ou expectativas de realizações. Há o risco de formulações precipitadas sobre o temperamento, sobre as ideias e sobre a fase atual do personagem. Mas esse risco é evitável. Na dúvida, concentro-me no que de fato está ocorrendo entre mim e a pessoa.

Nos perfis deste livro, me deixei levar pelo que foi possível captar por meio de entrevistas e leituras. Os episódios e circunstâncias que marcam as narrativas se misturam, na medida do possível, com as opiniões dos personagens sobre temas da atualidade, interpretações acerca do que já havia se tornado público sobre eles e caracterizações a partir do que me revelaram (às vezes, sem dizer).

Observar é uma atividade instigante. Tendemos a acreditar que observar é apenas um exercício de percepção visual. Não é. A percepção visual é apenas um dos aspectos, igualmente difícil de praticar, pois requer tanta paciência quanto aquela necessária para se construir um relacionamento interessante. Sem dúvida, olhar pacientemente não basta.

Os observadores mais atilados fazem uso de todo tipo de informação sensorial – olfato, tato, audição, etc. Os insights mais importantes da história da ciência e das artes ocorreram com indivíduos capazes de apreciar o que os estudiosos da criatividade chamam de “o sublime contido no trivial”, ou seja, a beleza profundamente surpreendente e significativa das coisas cotidianas.

Segundo esses especialistas, o caminho para o desenvolvimento da capacidade plena de observação passa por exercícios diários muitas vezes desprezados pela razão, como caminhar no escuro, apalpar ou cheirar objetos com os olhos vendados, tentar adivinhar o que há dentro de caixas e latas pelo peso e formato e reconstruir os cenários ao nosso redor identificando ruídos.

Mesmo sem treinamento profissional para interpretar manifestações de caráter e temperamento, não surpreende que bons autores de textos-perfis ofereçam elementos de comunicação não verbal. Por meio dela, pode-se compor um conjunto de pistas para que o leitor tire suas próprias conclusões sobre o personagem. A possibilidade de descrever o que uma pessoa faz e como ela faz é o que, para mim, torna o perfil tão interessante de ser praticado e ensinado (sim, eu tento ensinar “a arte do perfil”).

 

          VI.

Como fazer o personagem escolhido aceitar o convite? “É preciso xavecar”, um aluno me respondeu certa vez. Mas… Xavecar não é o verbo apropriado porque, originalmente, significa “agir de forma vil e incorreta”. Mas, no dia a dia (em São Paulo, pelo menos) usa-se o verbo xavecar no sentido de “dar uma cantada”, “convencer”, “persuadir”.

Persuadir é tudo. Então, como persuadir a pessoa (famosa ou não) que você escolheu a dedo? Como convencê-la a deixar que você entre no mundo dela e a transforme em personagem – o personagem do seu texto, o texto que você está escrevendo? Descubra você mesmo. Apenas relembro que o que funcionou com um não necessariamente irá funcionar com outro.

Agora, algumas anotações que resumem o que foi abordado até aqui:

  • Todo perfil é biográfico e autobiográfico porque também diz algo a seu respeito, autor.
  • Perfil não é a palavra final sobre alguém.
  • O “retrato” nunca será 100% natural nem 100% espontâneo.
  • Encontre pessoas que agem e/ou pensam de maneira diferente da multidão (leia dica extra, abaixo).
  • Proponha o perfil para seu editor/editora somente depois de conhecer um pouco o personagem que você escolheu. A singularidade é decisiva.
  • Não idealize o seu personagem. As pessoas são o que são. E que assim sejam.
  • Busque o universal no singular (e vice-versa).
  • Tente a sua imagem definidora da pessoa, mas não fique obcecado com a missão de “tentar definir”.
  • A narrativa toda tem de girar em torno dele/dela ou não será um texto-perfil.
  • Não use seu personagem para outros objetivos que não o de compreendê-lo.

 Crie empatia com as pessoas envolvidas no processo. Todas.

  • Não imponha ao leitor as suas vagas noções sobre o que constitui uma qualidade ou um defeito.
  • Ouça as opiniões de seu personagem sobre o campo em que ele/ela atua.
  • Pesquise temas correlacionados à história e à atividade da pessoa.
  • Saiba que você está lidando com lembranças e esquecimentos.
  • Frequente os lugares que seu personagem frequenta.
  • Procure pessoas (próximas ou não) que têm algo a dizer sobre o protagonista.
  • Tome nota do que está ocorrendo nos bastidores.
  • Preste atenção no verbal e no não verbal. Até o silêncio diz muito.
  • Importante ter muito mais do que realmente poderá ser incluído no texto. Quanto mais ampla a apuração, mais eficaz a garimpagem.
  • Faça o possível para examinar/analisar o seu material no mesmo dia em que ele foi coletado.
  • Escreva sobre a fase atual do seu personagem. O presente é o que dá a força motriz do texto-perfil, já que se trata de uma pessoa viva.
  • Mescle episódios da fase atual com episódios remotos.
  • Selecione apenas alguns episódios: melhor um episódio bem contado do que dez sinopses.
  • Valorize o que ocorreu em seus encontros com a(s) pessoa(s).
  • Os episódios podem estar encadeados por um fio condutor.
  • Forneça o máximo possível de detalhes relevantes.
  • Narre as cenas marcantes dos seus encontros com o personagem.
  • Mescle narração com descrições (físicas e psicológicas).
  • Linguagem: dê às suas frases todo o polimento que elas merecem. Sempre que possível e cabível, estabeleça ligações entre o seu personagem e personagens da literatura, do cinema, do teatro, da TV, dos quadrinhos, etc. Clássicos, populares, históricos ou ficcionais, não importa. Intertextualidades fazem bem.
  • Todo momento é único, e todo perfil reflete um momento.
  • Muitas ideias interessantes nos escapam ou surgem tardiamente. Relaxe: isso acontece até com quem pode passar uma década dedicando-se à escrita de um livro de 1.000 páginas.

Outras leituras

 CASTELLO, José. Inventário das sombras. Rio de Janeiro: Record, 1999.

MITCHELL, Joseph. O segredo de Joe Gould. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

PEREIRA LIMA, Edvaldo. Páginas ampliadas: jornalismo literário. 4ª edição. Barueri: Manole, 2008.

REMNICK, David. Dentro da floresta. São Paulo: Companhias das Letras, 2006.

SCHNEIDER, Norbert. The art of portrait. Koln: Taschen, 1994.

SIMS, Norman. The literary journalists. New York: Ballantine Books, 1984.

SIMS, Norman; KRAMER, Mark (orgs.). Literary Journalism. New York: Ballantine, 1995.

SODRÉ, Muniz; FERRARI, Maria H. Técnicas de reportagem: notas sobre a narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986.

TALESE, Gay. Fama & anonimato. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

VILAS-BOAS, Sergio (org.). Jornalistas literários: narrativas da vida real por novos autores brasileiros. São Paulo: Summus, 2007.

VILAS-BOAS, Sergio. Biografismo. São Paulo: Unesp, 2008.

WERNECK, Humberto (org.). Vultos da República. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

WOLFE, Tom. Radical Chic e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Notas

[1] Jornalismo Narrativo, também conhecido como Jornalismo Literário, “é a reportagem de imersão sustentada por meticuloso trabalho de campo e uma escrita refinada”.

[2] Uso a expressão texto-perfil para diferenciar o escrito do audiovisual. O cinema documental, principalmente, tem explorado bastante bem os parâmetros biográficos contemporâneos.

[3] GOMBRICH, E.H. Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica. São Paulo: Martins Fontes, 1995. pp.303-4.

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