O que mudou realmente no fotojornalismo desde o lançamento
em 1989 da câmera digital Fujix, com capacidade para 21 fotos?
Sergio Vilas-Boas
“Jornal da ANJ”, fevereiro/2012
1. O fim de uma era
Mês passado, a Eastman Kodak apresentou pedido de concordata ao tribunal de Nova York. A centenária empresa está com uma dívida da ordem US$ 6,7 bilhões, contra ativos de US$ 5,1 bilhões. Nos últimos oito anos, 47 mil funcionários foram dispensados e seu valor de mercado caiu de US$ 31 bilhões em 1996 para menos de US$ 150 milhões em 2011.
Nos anos 1970, a Kodak desenvolveu a CCD (Charge-Coupled Device) – sistema de captação de imagem que, na câmera digital, exerce função semelhante à do filme nas câmeras analógicas. Poderia ter lançado o equipamento já em 1992, mas optou por não apostar na nova tecnologia, em parte porque os filmes ainda geravam-lhe bilhões em lucros.
“Quando decidiu entrar no mercado digital, estava em defasagem. As rivais Sony, Olympus, Canon e outras estavam conquistando seu mercado. Paralelamente, houve a popularização da câmera digital como acessório básico em celulares”, observa Armando Fávaro, editor assistente de fotografia do Grupo Estado e doutorando em Semiótica na PUC-SP.
Desde a sua fundação em 1881, a Kodak esteve na vanguarda: lançou o filme transparente em 1885, a câmera compacta em 1888 (sob o slogan “você aperta o botão e nós fazemos o resto”) e o filme Kodachrome em 1935. “A invenção do rolo de filme mudou a fotografia, mas a revolução digital atropelou a Kodak”, comenta João Wainer, editor de fotografia da “Folha”.
Em junho de 2009, a Kodak interrompeu a produção do Kodachrome. Os rolos remanescentes foram entregues a Steve McCurry, a pedido dele, que os utilizou em missões na Índia e na Turquia. (As revelações ocorreram no ano ano seguinte no único laboratório especializado – o Dwayne’s Photo, que não mais presta esse tipo de serviço –, na cidade de Parsons, Kansas.)

- Steve McCurry fotografou a si mesmo em NYC em 2010 com seu último rolo de Kodachrome.
Entre as últimas imagens feitas por McCurry com o mais adorado dos filmes, está a dele próprio posando ao lado de um Yellow Cab nova-iorquino cuja placa (PRK 36) corresponde exatamente ao código utilizado pela Kodak para identificar o Kodachrome. Estes e vários outros episódios recentes – incluindo o fechamento de agências de fotografia como a Gamma em 2009 – são consequência direta da massificação imposta pelo processo digital.
“Por outro lado, a Magnum, fundada por Robert Capa, Henri Cartier-Bresson e outros, resistiu porque sempre buscou a valorização do profissional”, diz o fotojornalista Erivam de Oliveira, professor da ESPM-SP. “A passagem do analógico para o digital foi crucial para o fotojornalismo”, acredita Fávaro, “e as novas possibilidades surgidas refletiram-se no produto entregue ao público”.
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