A percepção do tempo

Tempo para a leitura deste texto: “imensurável”.

Ter tempo é aprender a se preocupar menos com as coisas inevitavelmente demoradas e aceitar as coisas que simplesmente não podem ir mais rápido

O tempo não é um objeto ou substância que podemos tocar ou ver. Também não é uma quantidade, um conceito ou uma dimensão. É inerte: nem rápido nem lento; nem claro nem escuro; nem bom nem mal. Na prática, é uma invenção para nos ajudar a acompanhar os acontecimentos. Evitamos desperdiçá-lo porque acreditamos que ele se move sempre para a frente e portanto não podemos fazer nada a respeito do que passou, exceto refletir e, quem sabe, aprender com as reflexões.

A nossa percepção do tempo é determinada por como o utilizamos e se o observamos

Durante muitos anos mantive uma relação conflitante com o tempo. Meu corpo expressava esse conflito: tinha o semblante cansado, com olheiras; me deslocava a pé sempre muito rapidamente, mesmo quando não havia necessidade, forçando a andar mais rápido quem estivesse comigo; situações de muita indecisão e lentidão me causavam palpitações, como se me aprisionassem; e eu não gostava muito da expressão “tempo livre”, que, na minha cabeça, significava “não fazer nada, absolutamente nada”, ou seja, algo inaceitável para mim, até alguns anos atrás. Não raro realizava várias tarefas simultaneamente – acho que já era multitarefas antes mesmo de essa palavra começar a ser explorada em todas as suas possibilidades (risos).

O risco de ficar parado dentro de um carro indo do trabalho para casa e vice-versa (ou indo de casa para uma praia do litoral de São Paulo no fim de semana e vice-versa) me apavorava. Também não conseguia compreender pessoas que deixam o mundo decidir por elas, em vez de agirem; e aquelas que (aos meus olhos) pareciam à deriva, “perdidas no tempo e no espaço”, como eu dizia, evitava-as dentro do possível. Filas? Ah, nem pensar. As filas colocavam em xeque o meu “Grande Ideal de Direção” (GID) e o meu “Grande Senso de Propósito” (GSP)… [Risos.]

Minha relação com o tempo foi assim – estressante – em grande parte da minha vida. O pior é que, apesar de toda aquela força motora incessante, sentia-me sempre em atraso, embora fosse (sempre fui muito) pontual. Agora a pergunta que não se cala: se aquela correria toda não tinha como objetivo ganhar muito dinheiro ou conquistar mais “tempo livre”, por que diabos eu tentava acelerar os acontecimentos? Acho que uma intensa ansiedade interior devia estar por trás de tudo aquilo.

Uma foto seria o tempo “parado”?

Mas o ponto central é o seguinte: o entendimento e o domínio do tempo são uma questão de percepção. Como o utilizamos e se o vemos como um aliado ou um inimigo são fatores decisivos para a produtividade e o bem-estar. No meu caso, tive que reavaliar a minha relação com o tempo e parar de brigar com ele. A gente costuma dizer, mesmo sabendo que não é verdade, que “o tempo voa quando estamos nos divertindo” ou que “o tempo se arrasta quando estamos cumprindo uma tarefa super chata”. Infelizmente, o tempo em si não se (des)acelera para nos favorecer ou para nos prejudicar. Nunca.

Outro exemplo do tempo como percepção: quando você dirige em uma autoestrada a 50 km/h você tem a impressão de estar indo muito mais devagar do que quando dirige a 50 km/h em uma zona urbana. Ora, se a velocidade é a mesma, o que mudou? Mudou o modo como a sua mente leu a paisagem – os pontos de referência (prédios, árvores, sinalizações, pedestres, outros carros se movendo, comunicações visuais, etc.). Tempo e movimento estão intrinsecamente conectados.

Tem a ver com hábitos e costumes também. Pesquisas demonstraram que experiências novas parecem estar acontecendo mais lentamente porque o cérebro ainda está registrando cada momento. Mas, quanto mais vezes realizamos a mesma atividade, menos o cérebro a percebe e mais a experiência repetida se automatiza em nós. Aos poucos, paramos de senti-la ou de percebê-la. Ou seja, o cérebro nos faz esquecer experiências tornadas “mecânicas”, como andar de bicicleta.

O tempo não (des)acelera por nós e para nós

Hoje entendo que as duas visões de mundo – lutar contra o tempo (eu) ou ignorar o tempo [todas as outras pessoas do mundo, exceto eu (risos)] – são restritivas. Não há problema em se preocupar com quanto tempo se leva; nada de errado em se perguntar sobre como fazer certas coisas com mais eficiência; nada de mais em tratar o tempo como principal referência; nada de mais em querer retardar/acelerar certos processos cotidianos no timing preciso… Cada um tem a sua própria relação com o tempo. É uma relação sempre bastante individual e específica, e que assim seja.

No meu caso, acho que me preocupava demais com o relógio e observava de menos o passar do tempo. O tempo precisa ser observado. Se não o observamos, ele nos atropela, passa por cima, esmaga. Toda relação bem pactuada se baseia no respeito. Uma relação de aliança com o tempo também implica respeito. Respeitar os compassos e os andamentos, como na música. Hoje vejo o tempo como o processo de aprender a se preocupar menos com as coisas inevitavelmente demoradas e aceitar sem drama as que de fato não podem ir mais rápido do que estão indo.

O tempo é um dos recursos mais importantes. Porém, recebemos “de presente” uma quantidade limitada dessa fonte, que expira a cada segundo. Então, ter uma perspectiva temporal pode fazer a diferença positivamente. Perspectiva temporal é a divisão do fluxo das experiências em épocas, zonas, categorias, etc. Cada um divide à sua maneira. Fazemos isso de modo impensado, até. [Minhas experiências estão muito associadas às músicas que ouvia e/ou continuo ouvindo. Os momentos em que comecei a ouvir determinadas músicas são referências temporais para mim.]

O psicólogo Philip Zimbardo acredita que, para o tempo tornar-se nosso aliado, precisamos nos orientar em relação ao passado, presente e futuro. Há quem se preocupe somente com a situação imediata, com o que está sentindo e com o que outros estão fazendo. Há os que desconsideram o presente e só o passado importa. E há os que priorizam o futuro, tentam planejar, calcular, prever, enfim, se antecipar às consequências.

O tempo pode estar “em nossas mãos”?

“Existem duas maneiras de ser orientado para o presente, duas maneiras de ser orientado para o passado e duas de o ser para o futuro”, diz ele. “Podemos dar ênfase no passado positivo ou no passado negativo. Podemos ser presente hedonistas (enfatizar os prazeres imediatos) ou presente fatalistas (não importa o que fazemos, forças externas nos controlam). Podemos ser planejadores ou pensar em um futuro transcendental – por exemplo, a vida após a morte.”

Qual seria o perfil temporal ideal? Zimbardo: “Alto em passado positivo, moderadamente alto em futuro e moderado em presente hedonista. Sempre baixo em passado negativo e em presente fatalista. A mistura temporal ideal engloba (1) o passado positivo, que nos conecta com quem realmente somos; (2) o ideal de futuro, que nos dá asas para voar até novos destinos; e (3) o presente hedonista, que gera energia para explorarmos os prazeres.”

Aprender a lidar com o tempo é difícil, mas essencial, porque, no jogo da vida, a gente escolhe o que alcança, recebe o que (não) espera e entrega o que transpira. Portanto, ser capaz de perceber o tempo como aliado ajuda a criar uma maior clareza interior para o enfrentamento das dificuldades. Além do mais, tudo acaba: o amor, o ódio, o bem, o mal, o belo, o feio… O tempo, este nunca acaba. Acreditar que o tempo vence toda e qualquer ilusão é um equívoco. Nossa memória está sempre aí para nos provar o contrário. Nossa memória contém todos os tempos.

15/7/18

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