Cosmopolitismo é qualidade?

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Uma pessoa cosmopolita acredita-se cidadã do mundo e tem prazer em adaptar-se à vida em cidades globais

Entre as minhas tantas atividades – incluindo a de escrever este blog – , trabalho como greeter, palavra antiga de origem inglesa que deisgna “pessoa que dá as boas vindas”; que recepciona com palavras de afeto e incentivo; que transmite mensagens de amizade; e que apresenta a cidade onde mora aos visitantes. Não é necessário ser nativo, mas, dependendo da cidade e dos visitantes, o greeter tem de falar pelo menos dois (melhor três) idiomas.

Agora que entendo o sentido, por estudo e por experiência, concluo que poderia ser (ou ter sido) greeter em outras cidades que conheço bastante bem, como Belo Horizonte, São Paulo e Nova York. Mas aconteceu de eu ser greeter em Firenze, onde vivo desde 2016. [Se você não sabe por que moro em Firenze e tem interesse em saber, leia este post, mas não agora.] Há greeters voluntários, que não recebem pelo seu trabalho. Não é o meu caso.

De modo geral o greeter não é um guia turístico, embora existam guias turísticos convencionais que são também greeters. Um greeter está mais focado em ajudar o visitante a imergir na cultura local do que em passar informações práticas que podem ser facilmente encontradas na internet ou em manuais impressos. A principal função de um greeter é dar ao visitante uma ideia do funcionamento geral da cidade.

Florença vista a partir da Ponte Vecchio. Foto : Frank Jackson.

Então, três vezes por semana, em média, recepciono turistas de todos os cantos do mudo, que desembarcam em Firenze aos milhões, principalmente entre março e outubro. A maioria chega de trem, vindo de Milão ou de Roma. Atuo como greeter para uma multinacional que administra milhares de apartamentos privados para hospedagem turística em cidades da Europa. Só em Firenze a empresa gere 200 imóveis de alto padrão no centro histórico.

Por ter me tornado (por acaso) um greeter, voltei a refletir sobre um tema que sempre me atraiu: o cosmopolitismo. Me interessam tanto a ideia de mundialização embutida nessa palavra quanto a mentalidade e o consequente comportamento que esse conceito implica. Outra motivação é o fato de que a globalização iniciada nos anos 1980 com Margaret Thatcher e Ronald Reagan – e mesmo com Deng Xiaoping – está atravessando grave crise.

A palavra vem do grego kosmopolítes (kosmós = mundo; polites = cidadão). Em suma: cidadão do mundo. Uma pessoa cosmopolita acredita que todos os cantos do planeta são a sua pátria. O conceito se estende às espécies animais e vegetais também. Um organismo é considerado cosmopolita quando se ambienta em qualquer território ou consegue suportar qualquer tipo de condição climática.

Florença. Foto : Brian Carroll.

Cidadão do mundo é quem pretende superar os limites da divisão geopolítica e as cidadanias nacionais. Os cosmopolitas recusam a identidade patriótica que os governos nacionais impõem e reconhecem-se como independentes por serem Cidadãos da Terra, não de uma nação. É o meu caso. E por isso eu certamente defenderia um plano político para um modelo novo de cidadania, um que possua alcance realmente global e cuja adesão fosse voluntária.

Hoje conheço conceitos, históricos e discursos sofisticados sobre esse assunto, mas, na verdade, o cosmopolitismo é sobretudo um sentimento pessoal que vinha experimentando desde garoto. Morei 18 anos (dos 8 aos 26) em um bairro da periferia de Belo Horizonte. A vida ali continha mil maravilhas, mas não era nada cosmopolita. Ao contrário. Mais provinciana impossível. Então, como eu podia me sentir cosmopolita já ali?

Não sabia que sabia, mas, naqueles primórdios, o cosmopolitismo já se manifestava em mim de maneira oblíqua. A sólida unidade de pensamento local me provocava uma sensação intensa de despertencimento. Frequentemente me sentia forasteiro alì, entre os meus. Não por acaso, esse tópico apareceu nos dois romances que publiquei – “Os Estrangeiros do Trem N” e “A Superfície Sobre Nós” – e em muitos textos de não ficção que escrevi ao longo de trinta anos.

Turistas em Florença.

Desde jovem desejei extrapolar fronteiras (reais e simbólicas), e o território no qual as forças randômicas da natureza me haviam inserido física e culturalmente não me bastava. Sentir-se estrangeiro dentro da própria cultura era portanto um sinal claro de que eu precisava me ultrapassar. Como escreveu o poeta Paulo Leminski: “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. Ir além, levar-me além, que excitante!

Daí, em maio de 1992 (26 anos atrás, exatamente), aos 26 anos de idade, parti de Belo Horizonte para a minha primeira viagem internacional: Nova York. Até então, eu só tinha viajado de avião uma única vez (de BH para Vitória) e nunca havia posto os pés em uma cidade cosmopolita. Fiquei três semanas na casa de um amigo dos tempos de CEFET-MG, que, na época, era imigrante clandestino e morava em Astoria/Queens.

Incrível: aquelas milhões de pessoas de todos os cantos do mundo se entrecruzando diariamente nas ruas e no metrô, expondo suas respectivas diversidades e abrindo-se necessariamente às mais diversas formas de dinamismos e intercâmbios e influências e concordâncias e conflitos… Foi como tocar o dedo em um fio elétrico desemcapado. Arrebatador! Despertei de um longo sono e senti-me como se já tivesse atuado no palco daquele teatro em tempos imemoriais.

Anos depois conheci Londres, Paris, Madri, Roma, Lisboa, Buenos Aies, Santiago, Lima, Bogotá, Montevidéu, etc., todas cosmopolitas e interessantíssimas, mas Nova York continua sendo, digamos, a “minha cidade” (sim, mesmo sendo global o cosmopolita tem lá as suas preferências). Nova York nunca saiu da minha cabeça. Após aquela primeira experiência lá (1992), permanecer fechado no “bairro” se tornou inadmissível.

Florença; Foto : Alessandro Ghedina.

Dali em diante, atravessei um vertiginoso processo de amadurecimento, que incluiu ressignificar Nova York dentro de mim. Entre 2015 e 2016, tentei voltar para lá como pós-doutorando, mas o Brasil faliu nesse período e o CNPq cortou os possíveis financiamentos e minha poupança não era suficiente. Nova York é uma das cidades mais caras do mundo. Hoje, é pelo menos vinte vezes mais cara do que quando a visitei pela primeira vez.

Sampa, por sua vez, já não dava. Em dezoito anos ali finalmente me dei conta de que estava raciocinando e agindo como paulistano, mesmo incomodado com as lógicas ilógicas do local. E não há nada pior para um cosmopolita do que se sentir ao mesmo tempo adaptado e estagnado. Mais: comecei a acreditar que o cosmopolitismo pode coadunar-se perfeitamente com qualidade de vida, expressão abstrata, com diferentes significados de pessoa para pessoa.

E tive dois estalos decisivos: 1) Para habitar uma cosmópole eu não precisava, necessariamente, me matar um pouco a cada dia respirando aquele ar imundo de São Paulo, enfrentando aquele tráfego insano e gastando uma quantidade inaceitável de dinheiro para ter certos “confortos burgueses” que, no fim das contas, nada tinham a ver com o meu espírito cosmopolita. 2) Tamanho não é documento, em se tratando de cosmopolitismo.

Por ter cidadania italiana (da parte da minha mãe), a Itália surgiu como opção, e Firenze como destino (estivera aqui pela primeira vez no ano 2000). Firenze é minúscula para os padrões cosmopolitas brasileiros; e média para os padrões europeus (tem 400 mil habitantes). No centro (turístico) da cidade, onde estou, devem morar um quarto da população residente (gente das mais variadas origens), mas, no verão, circulam pelo centro, diariamente, 500 mil turistas.

Florença: Ponte Vecchio vista a partir da Ponte Santa Trinita.

Nestes espinhosos tempos de neoconservadorismo, o ideal cosmopolita está enfrentando sérias adversidades. Políticos nacionalistas apoiados por cidadãos descontentes com as promessas da globalização têm atacado fortemente valores básicos como diversidade e transculturalismo. Infelizmente, a globalização que abriu as fronteiras econômicas e tornou o mundo menor é a mesma que concentra renda e exclui. É o contrário do que nos venderam trinta anos atrás.

Ferida pela desregulação liberalizante,  a globalização, na verdade, só fez aumentar a injustiça e a desigualdade. Mas pior do que “a globalização para uns poucos” é o remédio proposto por populistas como Donald Trump (EUA), Theresa May (Reino Unido), Marine Le Pen (França), Matteo Salvini (Itália) e Jair Bolsonaro (Brasil), contrários a ações cosmopolitas como aquelas ligadas aos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos indígenas, dos negros, das LGBT, etc.

Na verdade, a raiz do cosmopolitanismo é o Cosmos. Então é o momento de reafirmarmos os diversos valores universais que construímos – por exemplo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos – e aperfeiçoá-los e ampliá-los. Precisamos de mais cosmopolitas e menos tecnocratas. Até porque a vida na Terra, algo muito, mas muito maior que o nosso piccolo mondo, está sob risco (cientificamente comprovado) de extinção.

19/5/2018

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