A preguiça pode ter um fim

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 Indefensável em culturas civilizadas, a preguiça diz muito sobre a pessoa supostamente preguiçosa e sobre quem a observa e descreve

Embora eu adore futebol e copas, seleção brasileira me dá preguiça, não importa a escalação nem quem escalou e muito menos o resultado. Calma. Antes de me atirar pedras, raciocine: a preguiça é um tema mal abordado (quando abordado), não? E se você tem preguiça de raciocinar ou de torcer vivamente pela “sua” seleção, já temos aí uma boa razão para explorar o assunto. Mas não é fácil. Falar disso pode causar aquilo.

Paul Lafargue, genro de Karl Marx, defendeu-a como um direito. Domenico de Masi criou um meio-termo entre a obrigação e o prazer. Adauto Novaes organizou uma coletânea (2011) de 22 conferências para elogiá-la, como já havia feito, com bom humor, Jacques Leclercq nos anos 1930 (seu livro acabou de ser relançado aqui na Itália). Corinne Maier, economista suíça, chamou de objetos as pessoas que trabalham só por dinheiro, pulando de um projeto para outro sem se envolverem.

Ausência de vontade de fazer : é tão física quanto mental

A preguiça é socialmente indefensável em todas as culturas civilizadas – no cristianismo, é um dos sete pecados capitais. No reino do capital, da produção incessante, quem a tem é rotulado das mais variadas maneiras (com ou sem razão): indolente, improdutivo, indiferente, distraído, ineficaz, inerte, apático, incompetente, inútil…

E a preguiça é tão física quanto mental. Negar-se a caminhar, correr, pedalar, remar, levantar pesos, etc. é preguiça física, às vezes confundida com sedentarismo. Sentir-se exaurido pelo circo que a mídia cria em torno da seleção brasileira, meio que obrigando a população a manter-se mobilizada para eventos que, no fundo, interessam a muito menos gente do que imaginamos, me causa preguiça mental – perco a vontade de me interessar.

Médicos afirmam que as causas da preguiça vão de distúrbios hormonais (mau funcionamento da tiroide ou fadiga crônica) a psicológicos (autoestima baixa e/ou depressão). Mas nem mesmo quem sofre de clinomania, vontade incontrolável de querer ficar na posição horizontal (deitado mesmo), abrindo mão de outras ações, pode ser chamado de preguiçoso. Preguiça não é doença, e pessoas que se apresentam sempre sonolentas diante de nós são raras.

Fora do campo médico, o ócio e a preguiça são quase sempre vistos em oposição à produção e ao lucro. Mas preguiça e ociosidade são coisas distintas. Você ou eu podemos ser preguiçosos e ociosos ao mesmo tempo, mas não necessariamente quem está inativo (fora do mercado de trabalho) é um preguiçoso.

Para pensar, é necessário… Parar!

Sem a menor dúvida, a gente deveria se fazer diariamente perguntas simples e objetivas (não sem certa ironia) como esta, feita por Jacques Leclercq em seu “Elogio à Preguiça” (“Elogio della Pigrizia”, na versão italiana, 2018): “Você já percebeu que, para admirar, é necessário parar?”. Esta pergunta vai de encontro não apenas aos capitalistas inveterados mas também às hordas de turistas visitando sem parar lugares que nem se lembram de ter ido.

À frente daquele “para” você pode colocar muitos outros verbos. A pergunta, aliás, fica ótima com “para pensar”. Experimente fazê-la. A resposta será a mesma. [Interessante: só agora me ocorre que abordar a preguiça em uma cultura digital, acelerada até o último grau, não é uma excentricidade, mas uma necessidade.] Bem, mas onde quero chegar? Em algumas afirmações que me soam defensáveis:

1) Apenas uma minoria de indivíduos humanos tem a preguiça como parte dos sintomas de uma doença.

2) Todos nós, humanos, sem exceção, somos preguiçosos, inevitavelmente.

3) A preguiça diz muito sobre a pessoa preguiçosa e sobre quem a observa e descreve.

4) Se vista como “momento de contemplação”, em vez de “disfunção”, a preguiça pode ser valiosa.

5) Dependendo do grau e do modo, a preguiça pode, sim, tornar a vida muito mais difícil do que ela já é.

6) Preguiça gera (ou é gerada por) desgastes.

Contudo, não vejo o ócio como antônimo de trabalho; não acho que a preguiça deva estar sempre associada a algo pejorativo; e tampouco acredito que ela circule no sangue do indivíduo que a demonstra (aos nossos olhos). Prefiro dizer que as pessoas têm o direito (universalmente conquistado) de “não querer fazer” determinada coisa, inclusive se essa tal coisa é trabalhar.

Procrastinar é legítima defesa

Agora vem o principal: certas pessoas por aí não estão fazendo o que a gente acha que elas deveriam estar fazendo, certo? Errado. As pessoas estão fazendo o que elas querem, e, em princípio, que assim seja.

Outro autoexame: a gente tende a pressupor que formação elevada, dinheiro, poder, status quo e consumo são objetivos que todos os indivíduos humanos, sem exceção, deveriam almejar, porque, afinal, estas são as únicas diretrizes que podem satisfazer todas as pessoas, sem exceção.

Parece maravilhoso, mas a gente sabe que não é assim.

Uma vez sufocados pela excessiva carga de trabalho, e cercados de obrigações (impostas e auto impostas) por todos os quadrantes, o único modo de lutarmos é procrastinando, por exemplo. Se você pensar bem, o procrastinador (não patológico) está, em parte, lutando contra os efeitos culturais de um sistema evidentemente degradante e nocivo.

Desculpem o tom panfletário, mas acho que ninguém deveria ser tratado como inferior por não se reconhecer no trabalho que realiza ou na carreira escolhida. O mesmo se pode dizer de quem não se sente um ser vivo quando está sem trabalho. Conheci colegas jornalistas que preferiam a morte ao desemprego, e não por razões financeiras. Sem a resposta desejada à pergunta “para qual empresa você trabalha?”, sentiam-se envergonhados, frágeis, inexistentes.

As pessoas fazem o querem e, em princípio, que assim seja

A preguiça, de modo geral, é subjetiva e portanto permite interpretações muito diversas entre si. Algumas interpretações são errôneas. Exemplo: é equivocado tachar de preguiçoso alguém que se deu um tempo e partiu em busca de momentos de descoberta ou de revisão de alguns acontecimentos da própria vida.

E se a sua preguiça (casual ou sistêmica) estiver mesmo sendo causada por alguma “falta de motivação” – outro modo de chamarem a sua atenção para o seu suposto desencaixe social – isto não significa que você seja, necessariamente, uma criatura problemática; e não significa – ah, isso, com certeza – que você é “imotivável”.

Para você ter uma ideia, há anos eu vinha planejando criar um blog – um blog mesmo, não um simples portfólio de autor – para poder escrever nele semanalmente, mas uma dose de desmotivação e uma overdose de preguiça me impediam. Conclusão (ops): a preguiça pode ter um fim (risos).

1/7/2018

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

 

2 comentários em “A preguiça pode ter um fim”

  1. “Você ou eu podemos ser preguiçosos e ociosos ao mesmo tempo, mas não necessariamente quem está inativo (fora do mercado de trabalho) é um preguiçoso”.

    Caro Sergio
    Suas palavras me aliviaram um bocado. Estou aposentado e inativo, pois ninguém quer dar trabalho a um “velho” de 67 anos. Cansei de procurar trabalho e já estou desistindo, mas não sou preguiçoso. Preguiçosos são estes empresários que não querem saber da minha experiência.

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