A posse e o efeito posse

Tempo para a leitura deste texto: 6 min. e 29 seg.

Todo objeto retido –  por consumismo ou colecionismo – é um objeto tirado de circulação, mas também uma matéria prima extraída da natureza

Por que reter tantos objetos que já não servem para nada (se é que serviram)? Nem as próprias pessoas sabem por que aquelas centenas de posses acumuladas estão ali, perdidas, estáticas, desalmadas dentro de algum armário intacto ou de uma garagem empoeirada. O afã de adquirir (ou de apoderar-se de) coisas tem motivações e implicações, claro. Pode ser consumismo? Certamente. Hobby? Talvez. Instinto de preservação? Tampouco se descarta. Afeta o futuro do planeta? Uma resposta afirmativa seria mais que sensata.

Sou minimalista e anticonsumista por convicção, mas me mordo de curiosidade em relação a quem se dedica ao colecionismo, porque colecionar não tem nada a ver com necessidade e uso. Você pode se auto enganar dizendo que possui 45 pares de sapatos porque precisa de cada um deles. Não faz sentido (para mim), mas é compreensível. Agora, orgulhar-se de ter em casa um baú enorme cheio de canecas de todos os tipos que vêm sendo juntadas e guardadas há mais de trinta anos, bem, isso muda tudo.

Foto : Eilon Paz, da série “Dust & Grooves” (2015), sobre 130 colecionadores de vinis

Todo objeto retido – seja por consumismo, seja por colecionismo – é um objeto tirado de circulação, mas também uma matéria prima extraída da natureza. Essas duas consequências tornam o assunto fascinante.

Um devoto de Mick Jagger não compraria uma camiseta usada pelo astro em um concerto para metê-la na máquina de lavar e usá-la em uma balada. Uma camiseta usada por Jagger deixa de ser uma simples camiseta e se transforma em uma conexão com o mundo do sexo, das drogas e do rock in roll. Encarna um sonho, portanto. Objetos colecionados são assim: perdem a função original para se tornarem relíquias sagradas, uma espécie de passagem para outra dimensão. São anímicos e transcendentais ao mesmo tempo.

Reter, organizar e (às vezes) exibir com orgulho objetos colecionados é um modo de conectar-se a algo maior, dizem especialistas; e também já ouvi falar que a razão de ser do colecionismo tem paralelo nas religiões – que, aliás, nasceram do medo da morte e do desejo de vida eterna. Philipp Blom (“To Have and to Hold: An Intimate History of Collectors and Collecting”) acredita que os autênticos colecionadores possuem dois tipos de ímpeto. O primeiro nos remete a Giacomo Casanova: a fúria da conquista que se esgota no próprio ato de conquistar.

Foto : Eilon Paz, “Dust & Grooves” (2015)

O segundo ímpeto é totêmico, remete às tumbas dos faraós, sublinha Blom. As posses do rei –suas riquezas e os recursos necessários para ele viver em “outro mundo” – eram organizados cuidadosamente em torno dos sarcófagos. Embora fosse uma presença estritamente simbólica, aquela ordem garantia a sobrevivência, pensavam os antigos. “Ao longo dos tempos, muitos colecionadores escolheram ser imortalizados por meio de suas coleções, nomeando-as e doando-as, para que permanecessem.”

Se objetos colecionados são “chaves para outro mundo” e “certificadores de imortalidade”, como crê Blom em seu excêntrico livro, seria eu um insensível que não consegue tocar “as profundezas de quem sou”? Adoro perguntas que me atingem em cheio, mas acho que não é o caso de responder esta. Apesar de ser minimalista, me sinto tão pleno de corpo e alma quanto quem retém obstinadamente ingressos de cinema, ímãs de geladeira, cartões postais, bolinhas de gude, relógios velhos, mouse pads, moedas de um centavo, canetas, revistas antigas, cabides, contas de restaurante, miniaturas, etc.

Confesso: quando saí de São Paulo para vir morar em Firenze, fiquei chocado com a pouca, para não dizer irrisória quantidade de coisas que possuía. Não dava para encher nem metade daqueles guarda-roupas de parede inteira vendidos nas Casas Bahia. Isso não me torna melhor nem pior que ninguém. Apenas diz algo a meu respeito. Aliás, o certo e/ou o errado não existe nesta nossa conversa. O importante é considerar os espaços desprezados ao longo do nosso dia a dia inevitavelmente tecnológico e, portanto, obviamente dispersivo.

Explicações há. Psicanalistas insistem que os colecionadores buscam conforto no acúmulo porque foram mal amados na infância. Inacreditável. Há também quem sustente que a principal motivação para a posse seriada é a ansiedade (pinçar, organizar, controlar, garantir). Ansioso assumido, lhes garanto: posses não me remedeiam. Já os evolucionistas acham que colecionar é uma forma de atrair parceiros afins. Uau! Nessa não me encaixo nem sob pressão: jamais tomaria atitude na direção de criar (ou de ou pertencer a) grupos “afins”.

“O Colecionador” (1965):  filme perturbador.

Mas este texto é sobre o impulso de possuir. Logo, não pode ser sobre mim, exceto se for sobre o que nunca fui. Lembro-me de um filme de suspense que me marcou muito: “O Colecionador” (dir.: William Wyler, 1965), baseado no romance de John Fowles. Um solitário e frustrado funcionário administrativo ganha na loteria e se dedica à cata de borboletas para a sua imensa enorme coleção. Paralelamente, ele persegue uma estudante de arte jovem e linda até conhecer todos os seus hábitos diários.

Sua obsessão atinge o ápice no momento em que decide sequestrar a moça e trancá-la em um porão sem janelas, onde declara o seu amor por ela. É um personagem perturbador, para quem o afeto se traduz em posse e controle (exatamente como a sua atração hipnóticas pelas espécies de borboletas). Esse tema soa banal dito assim, mas era bastante original na época. A atmosfera claustrofóbica e ansiogênica do filme até hoje me serve de referência quando me deparo com pessoas obcecadas por possuir/reter objetos ou ciumentas a ponto de querer anular alguém.

Nos campos da psicologia e da economia comportamental há o Efeito Posse ou Efeito Dotação (Endowment Effect), que descreve a tendência humana a valorizar mais as coisas “possuíveis” (depois de possuídas de fato) do que as coisas abstratas (ou que não fazem parte dos pertences). O Efeito Posse pode ser observado na diferença entre os valores que os indivíduos demonstram estarem dispostos a receber por um bem possuído (disposição a receber) e os valores que estão dispostos a pagar pelo mesmo bem quando não o possuem (disposição a pagar).

Por exemplo, quando você vai reorganizar os seus armários e tem que doar roupas que não usa mais, sente um aperto no coração e acaba por deixá-las onde estavam, com a promessa de voltar a usá-las, mesmo ciente de que isso não vai acontecer. O mesmo comportamento se aplica a quem tem um relacionamento fracassado e insiste em continuar nele por medo de perdê-lo. Experimentos científicos comprovaram que as pessoas atribuem mais peso aos eventos que lhes causam perdas hoje do que aos eventos que podem lhes trazer ganhos ou prazeres amanhã.

Paralelelamente à posse, encontram-se a ordem e o controle

O prazer de procurar e adquirir objetos não necessariamente é prova de cobiça, mesquinharia e consumismo, mas sim uma crença irracional na ideia de que dinheiro algum pode recompensar os afetos que o objeto suscita em que o possui. Existe também o conceito de “contágio”, segundo o qual alguns colecionadores seriam atraídos por pertences de celebridades por acreditarem que aqueles estão infundidos pela essência da pessoa que os usara. Em “Priscilla: A Rainha do Deserto” a personagem Felicia guarda um pedaço das fezes de Agneta, uma das vocalistas do grupo ABBA (risos).

Caramba, tenho mesmo poucos objetos: umas roupas, um par de botas para o frio, tênis para caminhada, chinelos, um laptop, um celular, alguns livros (já doei mais de 500 ao longo de 15 anos). Hummm. Mas são 3h da madrugada e não desisto de terminar este texto, mesmo sabendo que posso terminá-lo depois. Na minha cabeça, no entanto, ele é meu, eu o possuo, e esse sentimento não apenas me move adiante como me da uma sensação de perenidade, embora eu diga a mim mesmo que o texto é de vocês, por vocês, para vocês. Talvez eu seja, na verdade, um colecionador de escritos.

17/6/2018

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

 

2 comentários em “A posse e o efeito posse”

  1. Sergio

    Eu coleconei xícaras de café, promocionais com o logotipo da marca ou do local onde foi servido. Tenho 800 e não procuro mais. Quero deixá-lo para um museu público.
    E.T.: você apresentou meu livro “Literatura e jornalismo”, vol. 3 da coleção Mistérios da criação literária”

    abs
    Brito

    1. Olá, José Domingos, eu respondi à sua mensagem da semana passada também.
      Recebeu?
      800 é número mais do que bom para compartilhar com o público.
      Abraço, Sergio

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Why ask?

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.