Sorte é mais do que sorte

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Qual o papel das “forças externas” (não pessoais) nas histórias de vida de pessoas bem-sucedidas em suas carreiras?

Por “forças externas” (não pessoais), leia-se: sorte. Seria a sorte uma lei da natureza, como a Lei da Gravidade? (Risos.) Sabemos que as verdades sobre o Universo são regidas por relações de causa e efeito. Alguns fenômenos são explicáveis pela ciência; outros, não. Com ou sem a ajuda da ciência, a humanidade acumulou conhecimentos extraordinários, mas com consequências tanto positivas quanto negativas.

As verdades sobre o Universo se baseiam em relações de causa e efeito.

O desvendamento da estrutura de códigos genéticos, por exemplo, já está permitindo a prevenção de doenças, o que é positivo. Por outro lado, a compreensão de que massa e energia se relacionam – uma descoberta de Albert Einstein – propiciou a construção da bomba atômica lançada sobre Hiroshima e Nagasaki.

Quanto mais descobrimos verdades (sobre nós mesmos e sobre o mundo), mais necessidades – e mais possibilidades – temos de prever ocorrências futuras e de querer tirar vantagem pessoal das previsões. Qualquer ser humano lúcido se preocupa com o futuro. Vale para quem diz que “o importante é viver o hoje” e para quem acha que “tudo tem de ser controlado e previsto”.

Mas nossa fome de controle do que pode, deve ou deveria acontecer gera uma indefinição: acreditamos e ao mesmo tempo desacreditamos no amanhã. Há momentos em que essas duas forças – crença e descrença – se opõem de maneira tão intensa que o imobilismo se instala. Conheço gente que não consegue nem assumir nem desistir de suas vontades e segue inerte.

Passar debaixo de escada inclinada; azar?

Como não sabemos ao certo quais as causas de nossos sucessos e fracassos, criamos histórias para justificá-los. Por exemplo, você aposta no pôquer todas as fichas em uma trinca de valetes, ganha R$ 100 mil, diz que “sentiu a sorte ao seu lado” e aposta mais. Já um indivíduo que escapa ileso de um grave acidente de carro não raro narra para si mesmo a história do “escolhido”.

O que chamamos de sorte na verdade é só uma atitude positiva para nos mantermos abertos às oportunidades ou para nos fazer perceber padrões em processos que não têm padrão nenhum. A ilusão de que a sorte existe também nos permite agir de acordo com as circunstâncias:

  • Minimizar a própria competência: “Tudo não passou de sorte”;
  • Ocultar a incompetência: “Ah, faltou sorte”;
  • Adular: “Vocês são excelentes, mas tiveram azar”;
  • Incentivar: “Avante! Tudo que você toca vira ouro”;
  • Lamentar: “Todo mundo é sortudo, menos eu”.

Nas sociedades altamente competitivas a ideia de sorte está acoplada a um paradigma tão antigo quanto imutável: o de que o sucesso (material, financeiro) decorre principalmente (se não unicamente) de características individuais como talento, inteligência, vontade, esforço, habilidade em correr riscos e… “Uma pitada de sorte”, termina a ladainha.

Três pesquisadores italianos, os físicos Alessandro Pluchino e Andrea Raspisarda e o economista Alessio Biondo, resolveram questionar essa meritocracia. Eles criaram um método racional de pontuações e recompensas para quantificar o talento e o sucesso a fim de verificar qual o papel das “forças externas” (não pessoais) nas histórias de vida de pessoas bem-sucedidas em suas carreiras.

Sucesso é mais aleatório do que imaginamos.

A pesquisa indica que o sucesso (visibilidade + dinheiro) é muito mais aleatório do que imaginamos. “Se é verdade que algum grau de talento é necessário para ter sucesso na vida, por que a maioria das pessoas mais talentosas não alcançam os mais altos picos de sucesso, sendo ultrapassadas muitas vezes por indivíduos medíocres?”, questionaram.

Entre as pessoas pesquisadas, as mais talentosas obtiveram o maior retorno possível com a oportunidade que lhes foi dada, o que, de certa forma, era esperado. Porém, uma minoria (20%) dos talentosos obteve a maior fatia (44%) do sucesso (visibilidade + dinheiro), o que indica uma distribuição desigual entre talento e sucesso – seguindo uma tendência socioeconômica, creio.

[Segundo a Oxfam International, a soma da riqueza de apenas oito indivíduos é igual à metade da soma da riqueza de todas as pessoas mais pobres do mundo.]

O talento nem sempre leva ao sucesso.

O mais interessante nessa pesquisa dos italianos, no entanto, é o seguinte: apesar de o talento ser mesmo altamente relevante para o sucesso, os talentos dos pesquisados mais bem-sucedidos não eram muito superiores aos talentos das outras pessoas talentosas e menos bem-sucedidas.

Conclusão: as pessoas mais bem-sucedidas da pesquisa contaram com mais… Sorte! E não se trata de “uma pitada”, não, mas sim de uma dose considerável. Os mais bem-sucedidos foram beneficiados direta ou indiretamente por acontecimentos externos diversos, aleatórios, alheios às suas vontades.

Essa pesquisa suscita discussões muito importantes. Uma delas: a maioria das estratégias de distribuição de fundos, bolsas, patrocínios e honrarias se baseia no sucesso precedente dos candidatos. Porém, esse método de seleção cria uma bolha de concentração de relacionamentos e de recursos, dentro da qual os mais bem-sucedidos têm mais chances de se tornarem ainda mais bem-sucedidos (mais visibilidade = mais acesso a recursos e mais sucesso).

Daí a gente se pergunta: qual a melhor maneira de distribuir oportunidades? Fazer grandes transferências de recursos para apenas poucos candidatos muito bem-sucedidos ou ter um leque mais amplo de subsídios menores para muitas pessoas de “sucesso médio” e menor visibilidade?

Fiz doutorado com recursos próprios, mas sei o quanto o financiamento público de pesquisas é decisivo para a continuidade da geração de novos conhecimentos. Então, para promover a diversidade e a inovação, me parece claro que essa meritocracia precisa ser repensada. Mais: o dinheiro público tem que atingir também as pessoas talentosas e menos visíveis, digamos. A sorte pode ser aleatória em si mesma, mas o merecimento, nunca.

10/6/2018

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

 

2 comentários em “Sorte é mais do que sorte”

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