Ponderando decisões cruciais

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As decisões mais importantes da vida são aquelas em que todas as alternativas têm pros e contras e nenhuma é melhor que a outra, necessariamente

Em “Escolhas são paradoxais” dissertei sobre a dificuldade crescente de lidarmos com a sobrecarga de opções; e graças aos meus caros leitores não tive dificuldade de escolher o tema desta semana. Recebi muitas mensagens pedindo que eu desdobrasse o assunto escolhas. Retomando, então:

A maioria das opções cujo processo decisório ocupa grande parte do nosso tempo diário não têm nenhuma importância. São excessos. A psicóloga e economista Sheena Iyengar estuda como as pessoas escolhem (e o que as faz acreditar que são boas nisso). Sheena tem quatro dicas para lidarmos com a sobrecarga de opções:

  1. Cortar: não deixar que motivações estritamente publicitárias ou mercadológicas entrem no campo das escolhas que podem ser realmente relevantes para nós.
  2. Concretizar: arregaçar as mangas e enfrentar o problema. Evitá-lo só vai dificultar ainda mais a escolha. “Conscientize-se das possíveis consequências de cada opção, de maneira bem realista”, sublinha a pesquisadora. “As pessoas gastam em média de 15% a 30% mais no cartão do que quando usam dinheiro porque o cartão não lhes parece dinheiro real. Não sendo ‘real’, elas têm mais dificuldades de medir as consequências.”
  3. Categorizar: agrupe itens por categorias. Exemplo: das centenas de sapatos que você encontrou em uma loja, dez lhe atraíram porque são confortáveis e/ou bonitos e/ou úteis. Agrupe-os: A) sapatos confortáveis; B) sapatos elegantes; C) sapatos para uso diário; D) sapatos sociais… E por aí vai. “As pessoas lidam melhor com categorias do que com opções”, concluiu Sheena em suas pesquisas.
  4. Do mais simples para o mais complicado: haverá sempre mais informações do que somos capazes de processar. Então, é melhor partir do item/opção mais fácil. Exemplo: no site da montadora o carro que lhe interessa tem 58 opcionais. Comece pelo opcional que talvez seja mais fácil (para você) – a cor, digamos; e continue escolhendo um a um até chegar à escolha mais difícil – o tipo de motor, por exemplo.

Essas dicas simples de Sheena Iyengar se referem não só às “coisas” que precisamos e/ou desejamos mas também às “coisas” que nem estávamos considerando e de repente surgiram.

O processo de uma decisão crucial diferentes daquele de escolher produtos/serviços.

Agora acho que precisamos sair do mundo das escolhas resultantes de consumo/consumismo e pensar um pouco sobre outro tipo de escolha, esta sim super complicada: as decisões cruciais, aquelas que podem mudar nosso destino de modo irrevogável. Nas decisões cruciais, o número de alternativas é geralmente pequeno. Em muitos casos, estamos lidando com “apenas” duas opções ou mesmo com nenhuma. Exemplos:

  • Carreira: o que cursar? Arquitetura, publicidade ou medicina? Nem sempre você pode voltar atrás e recomeçar do zero, e, mesmo que possa, o desgaste é grande.
  • Moradia: ir para uma cidade de médio porte do interior do estado, onde moram seus pais idosos, ou para uma vila perto do mar, como você sempre sonhou?
  • Relacionamento: casar-se com o Cláudio ou com o Roberto? Com a Clara ou com a Lívia?
  • Família: ter um filho, dois ou nenhum?
  • Saúde: na mesma semana em que você, filho único, descobre a terrível recidiva do câncer de sua mãe seu chefe lhe diz que aquele cargo importante na matriz é seu já a partir da semana que vem. Fantástico, mas a matriz fica em Londres!
  • Educação: mãe solteira dividida entre colocar o filho em uma renomada escola de Pedagogia Construtivista, para onde foram todos os amigos do menino, ou para uma de Pedagogia Waldorf, na qual ela realmente acredita.
  • Dinheiro: poupo eu mesmo ao longo dos anos, com disciplina, ou faço uma aposentadoria privada?

Decisões importantes como essas costumam gerar angústia e agonia. O que as torna difíceis é a maneira como se relacionam entre si as poucas alternativas disponíveis. É um problema bem diferente daquele de escolher um entre 84 hotéis na mesma cidade, todos na mesma faixa de preço. Escolher um entre tantos hotéis é fácil. Você vai sempre achar um critério seu, pessoal, que faz com que uma opção seja melhor que as outras.

Decisões cruciais parecem fora de alcance.

Nos momentos decisivos não é assim. Todas as alternativas têm pros e contras e nenhuma é melhor do que a outra, necessariamente. Vivi isso na pele muitas vezes. A última foi há dois anos, quando estava dividido sobre qual rumo dar à minha vida. Tinha três opções boas. Podia: 1) Continuar produzindo biografias patrocinadas; 2) Ir para Nova York fazer um pós-doutorado (já havia sido até aceito pela CUNY); 3) Abandonar tudo e experimentar uma atividade completamente diferente.

Com um frio na barriga, escolhi a terceira opção e vim para Florença, onde não conhecia ninguém. No momento, ganho a vida, em parte, como Greeter, uma atividade completamente diferente das que conhecia até então. Dito assim, resumidamente, posso lhes dar a impressão de que meu processo foi objetivo e claro. Não é o caso. Foi bem complicado. Me mobilizou por um ano e exigiu diversos pactos novos (incluindo um novo pacto comigo mesmo).

Vejam que interessante: grandes e pequenas decisões têm mais ou menos o mesmo grau de dificuldade porque ambas impactam o nosso futuro. Sendo assim, se mesmo com todas as dificuldades você é capaz de decidir entre um alimento gorduroso e um alimento saudável no café da manhã, o que lhe impediria de decidir entre casar ou não casar?

Ruth Chang (“Making Comparisons Count”) acredita que é melhor avaliar com serenidade do que optar – por desconhecimento, medo ou preguiça – pela alternativa aparentemente mais segura. Você detesta o seu emprego, mas o seu chefe lhe dá um aumento de 25% para evitar que você cometa “a burrice” (na visão dele) de pedir demissão para finalmente fazer o que você mais gosta: esculpir torsos em madeira e vendê-los em feiras.

E o que fazer com sua demanda artística?

Você já está quase decidido a cair fora, mas resolve fazer as contas. A conclusão é óbvia: sua vida material vai melhorar com 25% a mais todo mês. Por outro lado, na prática, você terá de corresponder às expectativas do seu chefe. E o que fazer com sua demanda artística? Ruth Chang, estudiosa de processos decisórios, acha arriscado misturar valores como justiça, idealismo e estética com componentes científicos como comprimento, volume e peso.

Variáveis como a vivacidade de um bebê engatinhando, o amor que você tem pelo seu pai, a “paz interior” que seu cão lhe proporciona, etc., etc. não podem ser mensuradas. “O mundo dos valores é diferente do mundo da ciência. Em determinado âmbito, as coisas podem ser quantificadas. Em outros não. O ‘mundo do é’ não tem a mesma estrutura do ‘mundo do deve ser’, aquele em que supostamente seremos mais ‘felizes’.”

Em sua palestra no TED Chang faz uma afirmação que eu, muito particularmente, adorei. Segundo ela, o processo de uma decisão difícil deveria revelar alguma coisa nova sobre nós mesmos, porque uma decisão, seja qual for (incluindo aí a decisão de permanecer indeciso), nos coloca diante de novos eus. Mais: passado o processo decisivo, os canais antes entupidos se desobstruem e a vida volta a fluir em toda a sua integridade.

Quando criamos as motivações para nos tornarmos o tipo de pessoa que realmente somos, acontece uma coisa incrível: nós nos tornamos essa tal pessoa que realmente somos (risos)! [Isso de “querer ser o que realmente somos” é o oposto de “ser guiado pelas escolhas alheias”.] Honestamente, acho que a gente devia celebrar o fato de que, no fundo, no fundo não é a razão que governa as decisões cruciais, mas sim o nosso feeling. O que é feeling? Well, prometo pensar a respeito.

3/6/2018

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