Escolhas são paradoxais

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O excesso de opções nos torna menos capazes de escolher ou de nos satisfazermos com as nossa decisões. E aí?

Tenho aversão ao excesso. Estende-se a todos os âmbitos da minha vida. Talvez seja uma síndrome (risos). Um dos sinais é a desorientação que sinto diante de quantidades indigeríveis de marcas, modelos, combinações, configurações e probabilidades. Detesto hipermercados, por exemplo – com seus corredores labirínticos, suas gôndolas intermináveis, seus tetos siderais e sua amazônica vastidão de coisas.  Me drenam energia e me desmotivam.

Além de ter de vencer fisicamente aquelas longitudes, aquele planeta hiper-racional ainda me obriga a escolher entre 85 tipos de biscoitos, 33 de chás, 16 de azeite, 14 de pastas de dente, 35 de molhos de tomate, 80 de chocolates, 139 rótulos de vinhos diferentes… Certa vez (no Brasil), agarrei uma funcionária pelo braço e implorei ajuda com a minha listinha: 1 baguete, 200 gramas de pamesão e uma garrafa de vinho Cousino Macul Don Luis merlot.

A multiplicidade de opções é evidente em hipermercados, mas não só neles.

A moça gentilmente se ofereceu para me trazer os produtos. Ah, que alívio. E pensei: “As opções de onde comprar pão, queijo e vinho também são tantas que nem isso fui capaz de escolher bem. Como sou idiota!”. “Só isso?”, a moça perguntou de cima de seus patins velozes, como se eu fosse (eu era) um alienígena. A ênfase dela no isso, no sentido de “por que tanta dificuldade?”, me levou a refletir sobre nossa existência neste excessivo mundo de excessos.

A multiplicidade de opções é mais evidente – e mais estressante – em lojas descomunais, como os hipermercados, mas não só nelas. Estou considerando visitar a Isola D’Elba, a 20 quilômetros da costa Toscana, onde Napoleão Bonaparte foi exilado em 1814. A ilha é um balneário disputado entre maio e setembro. Encontrei um site de uma associação local que prometia auxiliar os turistas a fazerem “a escolha rápida e certa”.

Digitei as informações solicitadas – interesses, planos, desejos, orçamento, etc. O sistema filtrou tudo e me enviou a solução: 98 alternativas “sob medida para mim”. Uma simples viagem de descanso começava se tornar uma complexa operação, em que pesam as distâncias entre as vilas, a vista para o mar ou para “dentro” (?), a posição do sol, a mobilidade dentro da ilha, a competição de preços entre as empresas que fazem a travessia de balsa e por aí vai.

Opções demais geram indecisão e paralisia.

Por que diabos é cada vez mais difícil escolher e tomar decisões? Well, let’s face the facts, my dears:  1) Opções demais geram confiança de menos porque o afã de dar a tacada certa nos paralisa; 2) O que nos trava não é a tomada de decisão em si, mas as possíveis consequências da decisão; 3) A gente tenta evitar ser responsável por uma escolha por medo de se arrepender; 4) Toda decisão tem um preço – monetário (em moeda corrente mesmo) ou não monetário.

Para os místicos, em vez de girarmos em torno da inexistente perspectiva de uma decisão cujo preço/custo/sacrifício seja zero, deveríamos, isto sim, aceitar que não existe decisão certa ou errada. Existe decisão. E ponto. Neurocientistas, por sua vez, demonstraram que nossos cérebros consideram múltiplas fontes de informação antes de decidir. Com o acesso mega multiplicado a essas fontes, a mente cria um interminável debate interior, como nos filmes de tribunal.

Agora vejamos o problema pelo prisma cultural. Há um dogma –  sim, um dogma – ao qual todos nós, ocidentais, sem exceção, independentemente de crenças e ideologias, estamos sujeitos: o dogma da liberdade de escolha (imprescindível às democracias, claro). Sendo livres para escolher, nosso bem-estar tende a ser “maximizado” (palavrinha horrível, esta); saber e poder escolher, então, é o auge do exercício da liberdade.

Porém, essa liberdade gera um paradoxo. Mais e mais opções nos tornam menos capazes de escolher ou de nos satisfazermos com as escolhas feitas. Em âmbitos muito mais importantes que o do consumo a gente também tem de enfrentar o mesmo problema do exponencial aumento das possibilidades de escolha. A era pós-moderna digital personalizou nossa existência de tal modo que tudo o que se refere a escolhas e decisões está sendo transferido para… Cada um de nós, indivíduos.

Barry Schwartz: “O Paradoxo da Escolha”.

Levado ao extremo, é como se, além das milhares de pequenas e grandes decisões que temos de tomar diariamente, a gente tivesse que decidir também que tipo de pessoa queremos ser hoje, amanhã e depois. Cada vez mais cedo, os jovens, por exemplo, são forçados a pensar em questões de identidade (qual graduação cursar, para onde se transferir, etc.). “No mundo de ‘antes’ nem tudo era questão de escolha”, lembra Barry Schwartz (“O Paradoxo da Escolha”).

“Mas, no mundo de hoje, tudo é questão de escolha. Não importa para onde olhamos, se para coisas grandes ou pequenas, se para coisas materiais ou comportamentais.” Mesmo quando conseguimos superar a dificuldade de decidir, diz Schwartz, nos sentimos cada vez menos satisfeitos com o resultado da nossa escolha. Há sempre uma “alternativa perfeita” (imaginada), que nos induz ao arrependimento.

Senti isso na pele enquanto pesquisava a Isola D’Elba. Fiquei lamentando as características atraentes das possibilidades que descartei porque não se pode ter tudo. Então, acrescentemos dois itens à lista dos porquês de termos dificuldade em escolher: 5) Para cada escolha feita (ou decisão tomada), estamos também escolhendo não escolher, obviamente; 6) Com tantas opções interessantes ao alcance, nossas expectativas em relação às escolhas aumentam muito.

E se as nossas inúmeras opções excedentes fossem deslocadas para o Congo e a Nigéria, por exemplo, onde, por falta de opções, elefantes são abatidos covardemente por causa do marfim? Foto: Nick Brandt (“Across the Ravaged Land“, 2013).

Logo, se algo não funciona bem a culpa recai sobre… Adivinhem? Sobre cada um de nós, indivíduos: nós, que não soubemos achar a melhor opção; nós, que não fomos suficientemente capazes de decidir com precisão. Vivemos na era das múltiplas possibilidades e frequentemente nos sentimos pior, em vez de melhor. Que paradoxo, não? O problema é mais evidente em sociedades opulentas, das quais fazem parte o Brasil (de certa forma) e a Itália (onde moro).

Agora, sonhemos um pouco. Como seria o mundo se inúmeras opções presentes em nações ricas pudessem ser deslocadas para países onde há pouca ou nenhuma alternativa, como a Nigéria e o Congo? O que me vem à mente é um mundo no qual não apenas a vida de outras pessoas melhoraria por elas terem mais acessos, mas melhoraria também a vida do Sergio, cidadão do mundo avesso ao consumismo. Ele teria menos coisas para cuidar e mais tempo para escrever no blog dele (risos).

PS: E o que dizer daquelas “escolhas realmente decisivas”, que podem mudar nossa vida para sempre? Falemos sobre isso na próxima semana, se eu for capaz de escolher esse tema entre os tantos outros que me ocorreram.

27/5/2018

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

 

 

 

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