Adorações transversais

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Idolatrias e fanatismos aprisionam: o idólatra se anula em suas adorações, enquanto o fanático deseja impor as suas

 

Por ter escrito e estudado biografias, sempre me perguntavam se para escrever sobre uma pessoa (viva) é preciso admirá-la. “Não necessariamente”, eu respondia. “Mas, no meu caso, o processo fluiu melhor quando eu admirava a pessoa pelo bem ou pelo mal.” Esse “pelo bem ou pelo mal”, que às vezes complicava, significa que podemos admirar/apreciar uma vida mesmo quando discordamos do modo como ela foi vivida.

Esse assunto, aliás, pode nos levar por um bom caminho: uma jovem aluna de pós-graduação certa vez me propôs como trabalho intermediário (valia nota) escrever um texto biográfico sobre um músico-cantor que ela “ama de paixão”. Ela era muito, muito mais que uma super fã do tal. Ela o idolatrava. Daí descobri que ela idolatrava celebridades não apenas das artes, mas de outras áreas, e suas palavras acerca daquelas “pessoas incríveis” tinham um tom… Fanático.

Ela acompanhava vorazmente as notícias sobre o ídolo e chorava quando o via. Fazia loucuras para estar na primeira fila dos concertos e invadir bastidores. Obter um autógrafo ou foto com “Ele”, de quem parecia se sentir íntima, era uma jornada espiritual. Suas idolatrias eram, digamos, “pop”. Não evoluiriam para um fanatismo do mal, como o de gente que se autoexplode em nome de deus ou torcedores de futebol praticando linchamentos. Não.

De qualquer forma, preocupado com suas adorações excessivas, procurei ouvi-la e compreendê-la. [Compreender não significa, necessariamente, concordar.] O ídolo dela – “criativo, talentoso, revolucionário e lindo” – era uma hipérbole do que ela, no fundo, queria ser, e por isso seus valores e crenças estavam repletos de idealizações. Diferentemente de um fã, que admira ídolo e obra (e ponto), o idólatra tende a se anular como indivíduo à sombra de sua adoração.

Graeme Turner (autor de “Understanding Celebrity”) diz que o fenômeno das celebridades começa por volta de 1915, com o estrelato cinematográfico. Desde então, a idolatria aos famosos cresceu exponencialmente. Antes da popularização do cinema, afirma Turner, as estrelas eram autônomas. Suas vidas privadas permaneciam protegidas, distintamente próprias, e não se misturavam com suas aparições públicas.

Hoje, celebridades são mercadorias expostas em vitrines midiáticas onipresentes. Uma indústria de bilhões de dólares que alimenta tabloides, paparazzi, comércios de “entrevistas exclusivas” e reality shows. Aquela histeria em torno dos Beatles nos anos 1960 é fichinha perto do que a cultura do espetáculo seria capaz de criar com as tecnologias digitais. As linhas que separam o super fã de um idólatra compulsivo ou de um fanático insano não são fáceis de identificar.

A expressão Síndrome do Culto às Celebridades apareceu pela primeira vez em 2003 numa reportagem do “Daily Mail” sobre um estudo científico feito com adoradores de famosos. Em 2008, outra pesquisa, esta da Universidade de Buffalo (EUA), entrevistou 348 universitários e associou adoração à baixa autoestima. Uma das conclusões: o idólatra não dá atenção a si mesmo e não se gosta.

E o que dizer dos fanáticos? A diferença é que, enquanto o idólatra se enfraquece à sombra de seus adorados, o fanático deseja impor aos outros suas adorações.  Não por acaso fanáticos se atraem e formam grupos coesos, impedindo-se uns aos outros de colocar em dúvida suas adesões incondicionais a uma ideia, uma fé, uma teoria ou uma pessoa. Cria-se, assim, terreno fértil para intolerâncias radicais.

O fanatismo existe desde os primórdios da história humana. Nossas mentes transportam esse componente psíquico, mas nem todo mundo consegue vigiá-lo e controlá-lo. Isso ficou claro nos embates políticos nas redes sociais entre 2015 e 2018 – do início do processo de impeachment de Dilma Rousseff ao recente assassinato da vereadora Marielle Franco –, quando crenças cegas (contrárias à racionalidade) emergiram perturbadoramente de suas profundezas.

Fanatismo e idolatria andam de mãos dadas, mas quando o fanatismo se instala as chances de um debate equilibrado e construtivo desaparecem. O escritor Amos Oz (“Como Curar um Fanático”) acredita que as violências do mundo atual não derivam do desequilíbrio entre riqueza e pobreza somente, mas também do fanatismo de nacionalistas, racistas e fundamentalistas de todas as fés e etnias que perseguem e atacam quem pensa diferente.

O nosso tempo oferece também formas de fanatismo menos aterrorizantes, lembra Oz, que não resultam em genocídios ou crimes sangrentos. Conheço gente radicalmente envolvida, por exemplo, com causas ambientais e de saúde, proteção de animais, alimentação orgânica, espiritualidades e outras. A defesa firme e razoável de uma ideia, fé, teoria ou pessoa não é um problema em si. O problema é a intolerância e agressividade contra os “opositores”.

Confesso: falas e militâncias desesperadas me repelem. Da mesma forma, pessoas com ideias muito fixas tendem a se distanciar de mim. Sou antidogmático por natureza. Porém, para os fanáticos, os dogmas são inquestionáveis. Exemplos de dogmas: para ser (considerado) espírita, você tem que acreditar em reencarnação. Para ser (considerado) vegano, você tem que acreditar que animais não podem ser transformados em produtos para uso humano.

Politicamente, me considero de esquerda, e isso, para mim, nada mais é do que acreditar que a desigualdade social não é natural, mas sim provocada pelos governantes, e por isso precisamos de governantes realmente comprometidos com a redução da desigualdade social. É uma opção consciente, construída ao longo de 52 anos, e que não tem nada que ver com este ou aquele partido ou com este ou aquele político em particular. É uma diretriz de vida, no meu caso.

Em suma, não sou fanático, e tampouco idólatra. Só para vocês terem uma ideia: em várias oportunidades estive por acaso muito perto de artistas que admiro, mas nunca me aproximei para pedir autógrafo ou foto. Por quê? Ok, vou responder, mas, por favor, sejam tolerantes (risos): 1) Porque não sinto nenhuma necessidade de registrar esse tipo de momento. 2) Porque, na minha visão, abordar famosos por aí é uma autodeclaração de inferioridade.

Então, voltando à minha aluna que ama seu ídolo acima de tudo. Bem, eu a desaconselhei de escolher o seu gênio-genial como personagem do nosso exercício biográfico. Além de explicaçãoes éticas e ténicas, tentei dizer-lhe que tudo o que tem potencial para nos cegar completamente não deveria ser misturado com trabalho, estudos, namoro, etc. E ela, por sua vez, aceitou que uma vida cheia de certezas – como a dos fanáticos – deve ser muito chata.

13/5/2018

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

 

2 comentários em “Adorações transversais”

  1. Muito legal, mestre! Idólatra ou fanático geralmente não abre a escuta nem os olhos. Isso me irrita, me afasta, me leva embora.

    1. Oi Raquel, que coisa boa receber um retorno seu como leitora… Maravilha!
      Sim, é muito difícil lidar com pessoas de pensamento “estático”. Te entendo.
      Abraço!

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