Comparações que apreciam

Tempo para a leitura deste texto: 5 min. e 29 seg.

Comparar-se com os outros é tão inevitável quanto interessante, às vezes, se consideramos os possíveis efeitos educativos

Comparar-se com os outros não é um problema em si, mas tenho tentado moderar as comparações, no sentido de torná-las mais pertinentes e educativas. Enxergar o outro através de mim e me enxergar no outro é uma experiência extraordinária, que mantém ativos o corpo, o raciocínio, a existência. Acho válido, por exemplo, observar o outro livremente, sem superioridade ou inferioridade; melhor ainda quando me leva a querer “imitar” um comportamento da outra pessoa que me impressiona positivamente.

Não importa muito se a grama do vizinho é mais verde ou menos verde do que a minha. Me interessa saber de que maneira as comparações me afetam. Se aprendo (e avanço) com elas, ótimo. Se me causam insatisfação quanto a quem sou e ao que possuo, então pode haver algo errado. Durante muito tempo, fui assaz comparador, às vezes sem perceber, às vezes para tentar me localizar no mundo, como no jogo “Onde Está Wally”, do ilustrador Martin Handberg, sucesso nos anos 1980.

Praia de Coney Island, Nova York, 1940. Foto: Weegee (Arthur Fellig, 1899-1968.

Na época (trinta anos atrás, digamos), quanto mais negativas eram as percepções que eu tinha a meu respeito, mais eu me comparava com os outros. E o pior: na maioria das vezes, concluía (sem dados objetivos) que, comparativamente, minha vida era sem graça ou horrível, o que era uma inverdade. Nunca fui um comparador, digamos, patológico, mas está claro que a maioria das comparações que fiz entre mim e os outros evidenciavam o abismo que havia entre quem eu era (como eu me via) e quem gostaria de ser (em como eu me idealizava).

Anos de psicoterapia expuseram também meu comparativismo, e agora consigo vê-lo em perspectiva. Por fim, entendi o seguinte: a atitude de comparar-se tem origem ou na insegurança, na inveja, no ciúme ou em tudo isso junto. Mas por que tantas pessoas exageram nas comparações ou até mesmo dependem delas para seguir em frente? Talvez para investigar os segredos do vizinho, que consegue manter a grama sempre mais verde (risos); ou talvez por acharem suas vidas monótonas e tristes.

Também no mundo dos negócios, as empresas usam o benchmarking e o marketing intelligence para se compararem com as melhores organizações. [Mas nem sempre as outras (as melhores) estão interessadas em comparar-se.] O surgimento das redes sociais exacerbou o afã comparativo e a competição por uma vida o mais próxima possível da perfeição e da irrealidade. Mas as comparações, na verdade, já começam no nascimento: mães confrontando seus bebês com os de outras mães.

O mais importante não são as conclusões das comparações, mas sim o porquê de nos ocuparmos tanto com isso, a ponto de estabelecermos paralelos às vezes sem nexo. Não se trata apenas de analisar como o “pobretão do seu primo”, por exemplo, conseguiu comprar um carro zero quilômetro potente e cintilante, enquanto você, que trabalha como um burro de carga – exatamente como o seu primo, aliás –, está precisando de uma geladeira nova e não tem dinheiro para comprar uma.

O pintor, escultor e designer espanhol Salvador Dalì (1904-1989).

Esse exemplo indica que no dia a dia as comparações giram em torno de competições por status. No fim, você acaba descobrindo que, para ter o tal carrão, seu primo optou (optar é o verbo exato a ser usado aqui) por estar inadimplente até com a loja onde comprou roupas em três vezes no cartão. Então, o posto que seu primo ocupa no ranking dos bens de consumo da sua família é mesmo superior ao seu? Por outro lado: sendo você um antissocial e o seu primo super popular, por que você focou logo no carrão do seu primo, e não na “simpatia” dele?

Claro, a cultura da comparação vai além das disputas. Engloba também raça, etnia, nacionalidade, religião, política, etc. Estudei o antigo Ginásio (da quarta à oitava série) em um bairro de classe média alta de Belo Horizonte, nos anos 1970. Mas eu morava em um bairro de classe média (bem) baixa. Era uma escola pública, mas com alunos de origens socioeconômicas diversas. Havia ali uma pirâmide social bem específica, subdividida mais ou menos assim:

  • no topo, os alunos brancos bonitos e com dinheiro para comprar refrigerantes e sanduíches de mortadela durante o intervalo da merenda;
  • mais abaixo vinham os brancos não feios porém pobres, que só podiam contar com a merenda grátis oferecida pela escola (meu caso);
  • mais embaixo ainda ficavam os negros, os morenos, os interioranos e os de “olhos puxados”, que enfrentavam a mesma fila da merenda grátis, mas lá atrás.
  • na base da pirâmide misturavam-se os tímidos e os esquisitos de todas as classes e etnias. Para estes/estas, competição em geral era uma idiotice.

As diferenças socioeconômicas, raciais, regionais, etc. eram inquestionáveis, e ninguém procurava no outro algum aspecto fora do espectro estética-riqueza. Passados quarenta anos, como serão aqueles meninos e meninas hoje? De modo geral, as comparações destrutivas, que nos põem para baixo, se dão entre um objeto real (a nossa existência) e um objeto idealizado (a existência alheia). Como não é possível conhecer os reais motivos que supostamente tornaram o outro melhor que nós, usamos a imaginação.

Pouco importa se a comparação é favorável ou desfavorável para quem se compara. Importa que comparar-se em excesso é uma atitude tão inútil quanto reclamar de tudo o tempo todo. Prefiro concentrar a atenção em mim mesmo, sem juízos morais ou monetários. Discordo de quem afirma que “o único termo de comparação deveria ser nós mesmos”. Até porque há indivíduos realmente incomparáveis (aqueles que se acham o máximo do máximo, por exemplo, mas estes não deveriam nos servir de referência).

Foto: Harold Feinstein (1949).

As comparações forçadas e irrefletidas não me trouxeram benefícios, creio: 1º) me privaram de relacionamentos afetivos interessantes; 2º) retardaram a descoberta do que realmente tem valor para mim; 3º) me impediram de fazer propaganda positiva a meu respeito; 4º) cegaram-me para as atitudes relevantes do outro, às quais eu podia ter tentado imitar. Em vez disso, com baixa autoconfiança, continuei me comparando para poder reforçar a minha “imaginada” inferioridade.

Evidente que autoestima baixa, necessidade de aprovação, ciúme, inveja e outras sensações, digamos, autodepreciativas, podem ser tanto a causa quanto a consequência do excessivo comparativismo. A ideia de que “cada indivíduo é um universo, com vida própria, experiências e motivações próprias” não significa que comparações sejam dispensáveis. Para mim, essa ideia é mais sugestiva que conclusiva: conhecer a singularidade do outro é um dos caminhos para eu me conhecer sempre mais.

6/5/2018

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

 

3 comentários em “Comparações que apreciam”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Why ask?

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.