Perseverando na espera

Tempo para a leitura deste texto: 5 min. e 24 seg.

A sabedoria de esperar (e, por consequência, de perseverar) é a base de muitos projetos bem-sucedidos

 Meu maior defeito? Fácil: a impaciência. Mas é controverso. Renunciei várias vezes ao conforto fácil para sentir o gosto da persistência e constância. Valorizei mais minha liberdade de movimento e menos as finanças – sou um anticonsumista convicto, como se não bastasse. Recusei poderes na época irrecusáveis. Enfim, sacrifiquei a tranquilidade em nome de desafios novos simplesmente porque eram novos. Impacientes genéricos não agem assim, creio.

Dito de outra forma, sou perseverante (e a perseverança é irmã da paciência, sim), mas para algumas situações. No cotidiano, sou alvo fácil. Me torram a paciência: lentidões; barulheiras, principalmente falação e música vagabunda; supermercado lotado; dores lombares; atrasos, de modo geral; filas, de modo geral; egos imensuráveis; reuniões inúteis; cobranças (por que não veio?, por que não ligou?); cinismos…

A lista de impaciências é muito maior que a de tolerâncias, mas o ponto central é outro: notem que o primeiro parágrafo insinua atitudes com vistas a um projeto de longo prazo e o segundo parágrafo toca em circunstâncias que eu gostaria de evitar e que jamais serão cem por cento evitáveis. Em algum momento enfrentarei filas, terei dores lombares ou participarei de uma reunião cujos assuntos poderiam ter sido resolvidos por e-mail.

Os imperativos que a gente mais ouviu na vida foram “precisa aprender a esperar”, “tenha paciência” e “não seja impulsivo”. Saber esperar é inegavelmente uma virtude. Não por acaso, das Quatro Virtudes Cardinais, duas têm relação direta com a espera: a fortaleza (manter estáveis as nossas intenções ao longo do tempo); e a temperança (moderar-se nos apetites imediatos para evitar distrações).

Independentemente de ser uma virtude (em sentido moral), saber esperar faz bem à saúde, dizem os neurocientistas. Esta é a boa notícia. A má notícia é que a sabedoria da espera não vem escrita em nosso DNA. Portanto, é mais uma entre as tantas habilidades que precisamos aprender empiricamente, tanto no nível interpessoal (relacionamentos com pessoas) quanto no intrapessoal (relacionamentos com as adversidades).

Três fatos que tento não esquecer em relação ao saber esperar: 1) exige não apenas paciência, mas também coragem e autoconfiança; 2) é imprescindível para a realização de projetos de longo prazo; 3) durante uma espera sofreremos o assédio da frouxidão (melhor deixar para o ano que vem o início da dieta) e da gratificação fácil (desfalcar a poupança para aquela viagem ao Japão comprando badulaques desnecessários).

Frequentemente, temos de escolher entre uma modesta recompensa para um desejo que podemos satisfazer hoje, agora, e a plena recompensa de um projeto cuja realização pode demandar anos. Nesse caso, entram em conflito dois padrões: a maximização numérica (muito é melhor que pouco) e a minimização da espera (antes é melhor que depois). Sem engajamento, porém, “muito” e “depois” significam nunca (risos).

Saber esperar gera desconfortos e angústias também. No nível macro, o maior desconforto é a falta de garantia de que nossos objetivos de longo prazo terão sucesso. No nível micro, o problema é ter de controlar as nossas reações impulsivas aos eventos desagradáveis do dia a dia. Em ambos os casos, a perseverança e a tolerância, respectivamente, são as inspirações que deveríamos trazer para a consciência.

Mas perseverança e tolerância não são valores absolutos. Depende de quando e como, e não é fácil saber em qual caso o perseverar é a coisa sensata a ser feita. A duras penas entendi que só vale a pena perseverar quando a recompensa futura é objetivamente melhor que a recompensa imediata (se houver); e aprendi também que quando estou centrado, satisfeito comigo mesmo, lido melhor com os obstáculos diários.

Foto : Jeffrey Allen (2015)

No macro ou no micro, o fato é que sem a habilidade de esperar (e, por consequência, de perseverar) não há sucesso. [Essa palavra tem significados diferentes de pessoa para pessoa. Para mim, sucesso é conquistar o maior “controle” possível sobre as minhas escolhas e sobre o uso do meu tempo.] Aqui, neste texto, tomemos o sucesso como simplesmente “o atingimento de um objetivo, qualquer que seja”.

Voltando: em um mundo mutante como o nosso, para chegar ao sucesso, somos colocados diante do dilema “agora versus depois”. Uma pessoa guiada somente pela satisfação imediata pode ser presa fácil para a publicidade e o marketing (ex: trocar logo o celular “velho” pelo último que saiu). Não há nada de errado nisso a priori. Mas quem age sempre assim perde de vista os objetivos de longo prazo (ex: ter casa própria).

Aceitar que nossos esforços e sacrifícios só darão frutos em um futuro distante e incerto é duríssimo. A sociedade do espetáculo (hummm) tenta nos fazer acreditar que basta uma dose cavalar de determinação para chegarmos “lá”. Mas, no fundo, o que essa mesma sociedade está nos dizendo é: “Esforce-se ao máximo, sim, mas não exagere, porque, na verdade, só os ‘geniais’ e/ou os ‘especiais’ chegam ”. E esse “lá”, o que é?

Segundo filósofos e psicólogos, uma resistência estoica às tentações do agora por si só é insuficiente para levarmos adiante projetos complexos. Também é importante, dizem, nos conscientizarmos das próprias limitações e nos prepararmos para superá-las. [O uso impensado do substantivo ‘superação’ no sentido de “vejam este indivíduo, oh, ele/ela é um verdadeiro exemplo de superação” me deixa impaciente.]

Ou seja, em algum momento, a gente vai ter que alterar nosso padrão de atitude. Ninguém precisa ser psicólogo ou filósofo para entender esse intricado confronto entre as dimensões de nossos desejos – de curto e de longo prazo – e as (ir)reais chances de realizá-los ou satisfazê-los. Até um simples escritor como eu é capaz de identificar e entender isso. Mas por que diabos a gente tem tanta dificuldade de esperar?

Biologicamente, a espécie memorizou que quanto menos se espera, menos riscos se corre, e quem corre menos riscos vive mais, e quem vive mais tem mais chances de se reproduzir e transmitir seu patrimônio genético. A propensão a preferir as recompensas imediatas às futuras continua bem instalada na nossa mente. Mas a cultura também influi muito. Certamente a minha impaciência e irritabilidade com as pequenas adversidades foram adquiridas.

No entanto, apesar dos meus esforços de sempre, continuo acelerado e com dificuldade de me ajustar ao fluxo natural das experiências do agora. É como se meu pensamento estivesse anos-luz à frente do meu corpo e da minha fala. Sendo bem sincero: acho que só consegui exercer a perseverança em longas empreitadas (escrever livros e concluir doutorado, por exemplo) porque geralmente trabalhei sozinho, sem precisar me ocupar da suposta “lentidão” dos outros (risos).

29/4/18

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

2 comentários em “Perseverando na espera”

  1. Excelente texto. Identifiquei-me com inúmeros pontos, mas acho que os mais simples são os que mais acontecem comigo. Uma das coisas mais irritante (e que você já comentou em outros textos, e que é bem marcante aqui no Brasil) é a famosa cobrança por coisas banais, como você coloca: “cobranças (por que não veio?, por que não ligou?)”. Como você coloca em outro texto, “não fui porque não quis e não liguei porque não tava afim” são ofensas mortais, e não tenho paciência pra isso. E, como ainda sou uma espécie de aspirante a escritor, também odeio depender dos outros (e de seus atrasos e embromações – principalmente sobre coisas inúteis – como as reuniões inúteis de trabalho/acadêmicas que são verdadeiros testes de paciência). Enfim, parabéns pelo texto inspirador (como sempre). Abraço!

    1. Oi Eduardo, bom dia. Nada pode me deixar mais feliz do que um leitor de texto meu pensando sobre sua própria vida e sua condição no mundo.
      Abação, Sergio.

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