Elogiemos a imperfeição

Tempo para a leitura deste texto: 4 min. e 10 seg. 

A crença irrefletida na perfeição pode estagnar, enquanto a aceitação do imperfeito gera movimento contínuo.

 O ideal de perfeccionismo me movia adiante. Ainda move, mas em grau menor. Sinais: 1) Por ter grande capacidade de perceber e reter na memória detalhes e padrões (físicos e comportamentais), incluo muitas variáveis extras nos relacionamentos e nos processos de trabalho; 2) Alimento uma desconfiança irrestrita em relação ao que faço, como se profissionalismo e qualidade elevada por si só não fossem um caminho para a excelência; 3) Reescrevi este parágrafo umas dez vezes.

Racionalmente falando, nunca acreditei em perfeição, e vivia repetindo isso nas minhas aulas de Jornalismo Literário, Biografias e Perfis. “A ideia de perfeição é uma criação humana, portanto imperfeita”, eu repetia. Que maravilha de obviedade! [Viram? Acabei de me julgar, e não há nada mais perfeccionista que a autocrítica exagerada. Ela ajuda a camuflar o medo de não satisfazer “os outros”.] Oh, quantos jovens talentos desmotivei dando-lhes para ler uns textos longos e pretensiosos da “New Yorker”…

“Saw” (1970), Claes Oldenburg. Museu Stedelijk (Amsterdã).

No fundo, a tal frase que repetia em sala era retórica pura. No fundo, busquei sim formas de perfeição como repórter/escritor. Na minha mente, o entendimento do Todo é fundamental, mas o diferencial está no detalhe. Isso, em todos os aspectos, do mais simples ao mais complexo; e em todos os âmbitos da vida (casa, trabalho, lazer, etc.). Durante anos, mobilizei um estoque enorme de energia e me impus sobrecargas brutais. As ambições demonstradas nas aulas também refletiam isso.

Quem foi meu aluno de pós-graduação deve se lembrar da (maldita) voz repetindo: para cada 5 mil caracteres a preencher, tenha 50 mil em pesquisas; processe o conteúdo das entrevistas gravadas no dia em que ocorrem; revise, revise e revise até o último minuto do prazo de entrega… Não que tenha mudado de ideia (risos), mas, hoje, reconheço a radicalidade da proposta. Estava lidando com principiantes. A maioria nunca havia experimentado nem pesquisa nem escrita em profundidade.

Em vez de combater a preguiça, a superficialidade e a procrastinação – estes eram meus alvos – eu acabava incentivando ambições desmedidas; em vez de ajudar a construir um domínio gradual dos processos, acabava espalhando o temor de “não corresponder às expectativas do professor exigente”. É muito comum a gente ouvir por aí o seguinte: “Se não posso ser perfeito, melhor nem fazer”. E um número considerável de alunos realmente sequer me entregava textos. Desistiam.

O mea-culpa acima não vos dá o direito de vingança nos comments (risos). O caso é que o assunto perfeccionismo é sério. Segundo os entendidos, existem dois tipos de perfeccionistas: o normal e o doentio. Em uma cultura obcecada pela aparência e pela fama fácil, não raro nos sentimos diminuídos; e como a autoestima não é inata, e sim construída, sempre paira a opção da renúncia. Criam-se tantas expectativas que nada, absolutamente nada parece alcançável.

Foto : Roger Ballen (1999)

Participei de uma pesquisa acadêmica sobre isso, cujo link não posso compartilhar ainda. O resultado me surpreendeu. Não sou um perfeccionista doentio. Um dos fatores que me livraram por um triz da “lista negra” é o fato de eu nunca ter entregado trabalho fora de prazo, mesmo estando insatisfeito com o que produzi. Os doentios, não, os doentios refazem, refazem e refazem infinitamente, na crença (crença inclui alta dose de imaginação) de que atingirão o inatingível.

Na melhor das hipóteses, esse pensamento fixante causa muita frustração. Na pior das hipóteses, pode levar ao TOC e à Depressão. Interessante também que os doentios gostem da companhia de outros doentios. Inevitável não me recordar agora da minha juventude. Frequentava muitas palestras de escritores e escritoras. A maioria deles – talvez por cultivarem uma ideia divinatória a respeito de arte – falava com evidente prazer de suas manias de perfeição. E eu? Ah, venerava-os. Gênios! (Risos.)

Entre o normal e o doentio deve haver variações, mas uma coisa é certa: os doentios raciocinam de modo binário. É tudo ou nada, claro ou escuro, dentro ou fora, isto ou aquilo, inviabilizando as realizações. Considerem o contexto, ou seja, a cultura em que estamos metidos. Somos pressionados a trabalhar sempre, ganhar mais e mais, amar sem restrições, saber tudo e se divertir como nunca. Ou seja, há uma certa pressão para que a gente acredite no impossível!

A crença irrefletida na perfeição pode nos isolar e até estagnar, enquanto a aceitação do imperfeito é o que nos impulsiona a movimentar, criar, mudar e aperfeiçoar, na minha visão. Se não aceitamos a imperfeição, nada muda, nada se transforma. Na natureza, diferentemente, tudo está crescendo e se modificando o tempo todo. O equilíbrio da natureza tampouco é perfeito, acho. Mas a natureza é sábia quando se trata de dosar conforme o contexto. Já os humanos…

PS (1): Há testes online grátis que prometem avaliar o grau de perfeccionismo.

PS (2): Veja este curta de animação (3 minutos) sobre o assunto.

15/4/2018

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

4 comentários em “Elogiemos a imperfeição”

  1. O mais difícil para o ser humano é se reconhecer imperfeito, se reconhecer como um grão de areia nesse universo. Todos os dogmas que surgiram em nossa história vieram para que o ser humano nos autoqualifiquemos como relevantes e essenciais a esse universo. Executar esse árdua tarefa de nos “desqualificarmos” é necessária para podermos balancear entre o essencial e o que vemos como perfeito.

  2. UUUUUUU UUUUUUU UUUUUUU
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    Serginho, eis o implagiável “Per feito só de us”
    A vida só é boa quando não dá certo!
    Um abraço

  3. Sérgio, pra variar, gostei muito do seu texto.
    E fiquei feliz porque tudo leva a crer que não sou doentio (não neste quesito).
    Grande abraço.

    1. Oi Alex, bom ouvir isso de você, um cara exigente… Mas ser exigência é diferente de ser perfeccionista doentio. Fico feliz que você seja um perfeccionista normal… rs… Abraço

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