O fim do jejum necessário

Tempo para a leitura deste texto: 3 min. e 26 seg.

 Não consegui continuar fazendo coisas nas quais deixei de acreditar, daí optei por me retirar de cena, por um tempo

Virei jornalista meio que por acaso, e valeu a pena, mas fui abandonando a atividade pouco a pouco, ano a ano, sempre tentando abrir espaços para outros modos de vida. O mesmo aconteceu com a minha trajetória de professor: investia e desinvestia conforme as demandas por bem-estar físico e mental. Principalmente mental. O único objetivo que atravessou com alguma constância pelo menos metade da minha vida foi o de me tornar escritor. E aconteceu, e também valeu a pena. Porém, experimentei – por vontade própria – um jejum de quase três anos. O último texto escrito por vontade própria havia sido este, em 2015.

Confesso: o escritor que habita em mim me fez pouca ou nenhuma falta durante esse tempo (rss). Na verdade, nunca me senti nato para isto ou aquilo, em termos profissionais. Certos tipos de escolhas exigem certezas que jamais terei. Desde bem jovem eu já devia saber (sem de fato sabê-lo) que podia ser o que quisesse e o que não quisesse; e por vontade ou por indução alguma coisa acabei sendo nestes 52 anos. [A propósito, antes de estudar jornalismo (depois de iniciar e abandonar três cursos), fui bancário, topógrafo e projetista de redes de transmissão elétrica.]

Foto : Chee Keong Lim (2015)

Na minha cabeça de baby boomer, carreira era sinônimo de reta ascendente. Você faz a sua escolha, constroi uma reputação e desfruta-a. Mas essa ideia nunca me deixou à vontade. Quando um desafio terminava ou quando eu percebia que havia dominado os fundamentos da “novidade”, me batia uma inquietude incontrolável, uma vontade louca de voar para outras árvores. Outro dia me perguntaram assim: “Você realmente largou essas três carreiras?”. Na ocasião, em vez de responder honestamente, apertei os botões das justificativas automáticas e socialmente aceitáveis.

Algumas delas:

  • então, aquele jornalismo “sério”, sabe, aquele que aprendemos na escola, baseado no equilíbrio e na profundidade, não existe mais – e eu não quero me tornar militante de nenhuma causa com “ideias fixas”;
  • pois é, as faculdades de jornalismo, olha, vou te dizer uma coisa, viraram uma máquina de fabricar diplomas e degolar inteligências;
  • e a literatura, cara? Ah, a literatura, não dá: ela perdeu de goleada a batalha contra a instantaneidade, um horror.

Respostas prontas e evasivas, enfim.

Não que os arrazoados acima sejam inveridicos. Ao contrário. Para os membros da minha geração são até óbvios. Daí resolvi perguntar-me: apesar de todas essas supostas precariedades e retrocessos, você não podia ter continuado? Continuado a escrever, publicar, dar aulas? Mesmo recebendo pouco ou nada (pois ainda vigora no meio educacional-cultural o trabalho grátis), você não poderia ter feito só pelo prazer de fazer? Quanto à literatura, é uma atividade árdua e inglória, sim, mas tem aqueles “estimulantes” encontros literários, não? Você podia participar como “speaker”, que tal? Ou ministrar workshops de escrita criativa…

Huuumm…. Que preguiça disso tudo. [Não consigo continuar fazendo coisas nas quais deixei de acreditar.]

O fato é que eu podia tudo, claro. Tinha todas as condições necessárias: força, disciplina, talento e alguma poupança. Mas preferi não fazê-lo. Não fui expurgado pelo Sistema, não. Apenas fiz opções contrárias ao script. A mais recente dessas opções, digamos, não convencionais, foi em 2016, quando decidi me mudar para a Itália com Patrícia e Filó (nossa gatinha anciã). Tenho cidadania italiana por parte da família da minha mãe. Em Florença, sobrevivo como posso, conforme o câmbio, sem crachá, sem status quo, sem instituições de fomento (odeio essa expressão!) e sem poderes adquiridos ou autoatribuídos.

A redação deste textinho, então, seria uma prova de que voltei à escrita? Acho que sim. Só que agora é um pouco diferente. Estou em busca apenas de um passatempo “improdutivo”, como colecionar selos, observar pássaros, cultivar flores, jogar cartas, mergulhar com respirador. Depois de tantas publicações, tantos sucessos e insucessos, tantos conflitos com a herança linear-construtivista, achei que era hora de romper e experimentar. Sem nostalgias nem ressentimentos. Tranquilo.

E agora cá estou, avançando para trás, crescendo para baixo, expandindo para o centro e tentando fluir em todas as direções. Fechei um acordo inédito com o Universo. Um pacto de duas cláusulas, na verdade: 1) Nasci para os desafios que se renovam, estejam onde estiverem, mas não para repetir esfoços em nome de uma estabilidade sempre falsa; 2) O ato de escrever despretensiosamente é um poderoso anticorpo contra a depressão e o estresse deste mundo vago, fútil e cada vez mais exaltado (no mal sentido). That simple!

PS: Reformulado e reorganizado (portanto, mais fácil de consultar), este site contém alguns artigos, reportagens e contos que publiquei ao longo de 25 anos de trabalho. Acervo livre para estudantes universitários.

1/4/2018

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

15 comentários em “O fim do jejum necessário”

  1. Ah, meu querido, que delícia ler algo seu! Não sabia de nada, nem do abandono da docência nem da mudança. Que delícia se mudar, mudar e se transformar. Espero que esteja aproveitando muito. Um grande prazer saber de você. E quantas saudades! Abraço apertado e beijo enorme (em você, Pat e Filó).

  2. Sergio: como se diz por aí, eu poderia ser sua mãe, e, mesmo com a diferença de idade (pelo que isso significa em perceber/viver determinados períodos da vida brasileira mais ou menos “calejada” na vida e no jornalismo) concordo em 100% com o que você escreve.
    Não tenho esse escritor dentro de mim. Não me animo a mudar por causa dos filhos & netos. Então, me ponho a colecionar selos e a observar o céu, o sol, as nuvens.
    Esperando. Essa espera fica bem melhor quando posso ler você. Porti il mio bacio a Firenze!

  3. Que legal ter notícias suas. Quer lugar melhor para ter epifanias que Florença? um beijão e parabéns pelo site.

  4. oi, Sérgio. tu nem vai lembrar de mim, mas fui sua aluna num curso de jornalismo literário em sampa. Enfim, li empatizei com muito do que você disse, especialmente com relação a carreira. Ao final do seu texto me veio a palavra involução. a minha geração, que difere um tanto da sua, coisa de uma década só, me deu de herança o fardo do fracasso. E durante um tempo convivi com isso, e briguei com isso, até que parei de brigar, e embora ainda me arranhe a garganta, pude perceber o quão diferente é a carreira e eu mesmo. então, recusar a carreira não é morrer? de certa forma é sim, um suicídio social. Mas não tive escolha senão involuir. beijo grande em você, muita sorte, força na dose necessária e alegrias constantes.

  5. As questões que você levanta também estão muito presentes na minha vida. Eu sou (fui) jornalista ambiental há 30 anos. Mas não significa que tenha de ficar casada com essa opção até o último dos meus dias. Temos a mesma idade – e eu acho que, a essa altura, o risco de continuarmos fazendo mais do mesmo, no conforto do que já conhecemo,s é ruim para as nossas sinapses, que daqui prá frente rolam ladeira abaixo.
    A vida inteira suspeitei que o meu negócio é ficção, e não jornalismo. Mas a verdade é que desde a adolescência, quando produzi uns poemas vagabundos, nunca escrevi nada literário. Nem conto, nem crônica. Nadica. Só que alguma coisa mudou há três anos, não sei bem o que. Estava mais tranquila com grana e tempo. Talvez tenha sido isso. Me deu um troço. Em 10 meses escrevi a minha primeira ficção histórica. É boa? Capaz. Mas se não for, a segunda será. Ou a terceira. Alguém vai ler? Sei lá. Mas tudo bem.

    1. Oi Regina, quanto tempo! Que honra receber um feedback seu. Olha, não se preocupe se alguém vai ler a sua ficção. Sabe por quê? Porque alguém vai ler. Inevitável. E o mais importante: o grande lance da arte é realizá-la. Enquanto realizamos, nos descobrimos, ou descobrimos novas formas de fazer. “A arte é um fazer tal que, enquanto se faz, reinventa o fazer” (Luigi Pareyson). Beijo

  6. Que legal ler seus textos novamente professor! Fico feliz em poder fazer parte desses acertos e desacertos da sua história, pois graças aos seus ensinamentos, descobri que não gostava de jornalismo para Leads e coisas do tipo, mas para escrever histórias de gente de verdade, de carne e osso, de amores e desamores e sou muito grata de ter tido você como meu professor. Continue por aí com seus escritos, quem sabe sobre a Itália e suas curiosidades, para continuar nos inspirando e estimulando a sermos pessoas e escritores melhores. Um grande abraço!!

  7. Olá Sergio
    Vejo você, acima de tudo, como escritor. Você tem um domínio da linguagem escrita muito bom. No mais, é transpiração, mais do que inspiração. Tenho uma arraigada convicção de que vc vai escrever o seu best seller.
    Rosamund Pilcher, após oito ou nove livros publicados, escreveu “Os catadores de conchas”, um livro simples na sua essência, que trata de valores humanos. E que se tornou um best seller. Acho que é isso, amigo: tentativa e erro. Vai fundo!
    Abração

  8. Eh…professor….. Como sempre, revolucionando! Em constante jornada de transformação, em busca de ser inteiro. Grande exemplo, que merece muita reflexão. Obrigada pelos presentes disponibilizados no blog e pelos novos textos. Vou divulgar. A maior lição é a liberdade conquistada, de apenas ser humano…

    Grande abraço,

    Eliane

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