A banalização da autoajuda

Tempo para a leitura deste texto: 5 min. e 11 seg.

Pesquisadores de diversas áreas têm mostrado que a autoajuda positivista não se sustenta em pesquisas realmente sérias.

Estudos recentes indicaram que autoajuda não ajuda. Há evidências, por exemplo, de que expressar raiva não fará a raiva passar; e que pré-visualizar metas não aumentará as suas chances de atingi-las. “Outro dado que chama a atenção é que os países ‘mais felizes’ nunca são aqueles onde a autoajuda vende mais”, afirma Oliver Burkeman em seu “Manual de antiautoajuda“.

“Como posso ser feliz?” Você já se fez essa pergunta várias vezes, não? Mas Burkeman argumenta que não é sensato nos interrogarmos dessa maneira. Em vez disso, diz ele, deveríamos aceitar que “os nossos esforços para eliminar tudo o que é negativo – insegurança, incerteza, fracasso ou tristeza – é precisamente o que nos faz inseguros, ansiosos, indecisos ou infelizes”.

Guarde esta frase do filósofo da contracultura Alan Watts (1915-1973): “Quanto mais você tentar boiar, mais afunda; mas quando você tenta afundar, você boia”. Watts certamente se oporia à atual onda de “otimismo mágico”. Uma referência clássica sobre felicidade é Schopenhauer [1788-1860], autor de um livrinho de cabeceira – “A Arte de Ser Feliz” -, publicado postumamente.

Esse livrinho compila 50 máximas do filósofo pessimista. Há um trecho assim: “Viver feliz somente pode ter o sentido de viver da maneira menos infeliz possível, ou, em outras palavras, viver de uma maneira suportável”. Os viciados em otimismos vazios torceriam o nariz para a mensagem de Schopenhauer de que felicidade é ilusão e, sendo assim, não deveríamos procurá-la tanto.

Um livro que encantou os adeptos do positivismo exagerado foi “O Segredo“. Sucesso mundial (livro e filme), “O Segredo” garante que tudo o que queremos está ao alcance. “Otimismo irracional inundou o setor financeiro [em 2008]”, lembra Burkeman, “e os palestrantes e gurus de autoajuda não se fizeram de rogados para incentivá-lo. O pensamento positivo tornou-se ele próprio um negócio”.

As abordagens mais populares da autoajuda são as mais risíveis. Algumas se baseiam em “visualizações positivas” [mentalize que as coisas vão dar certo que elas darão certo] e em conceitos new age com o da “lei da atração” [visualize o sucesso para alcançar fortuna]. Físicos zombaram dessa tal “lei”. E você? Você acredita que seus pensamentos podem afetar coisas que estão fora da sua cabeça?

A autoajuda, nesse sentido, até parece ter um quê de ficção. E por falar em ficção, o romance “Ser Feliz” (2002), do canadense Will Ferguson, fez paródia irresistível sobre um jovem editor (Edwin) de uma grande editora (Panderic) que descobre e prepara a publicação de um livro de autoajuda “multidisciplinar”. Título: O que aprendi na montanha. Autor: o misterioso guru Tupak Soiree.

O livro de Tupak é uma espécie de pastiche. Feito às pressas, ele toca superficialmente em assuntos diversos, misturando filosofia moral budista com capitalismo em estilo libertário. “É terra-a-terra. E pretensioso. E banal. Tudo isso e muito mais”, acredita o personagem Edwin. Divertido e devastador, “Ser Feliz” satiriza a mitologia da realização pessoal e de seus exploradores comerciais.

Já o “Manual de Antiautoajuda de Burkeman é uma análise mais metódica do fenômeno do culto ao otimismo irrefletido. A hipótese: o positivismo é um feitiço que acaba tendo o efeito inverso do esperado. Jornalista especializado em psicologia, Burkeman revisita filósofos estoicos, budistas, consultores obcecados por metas e pensadores que duvidam de que “somos o que a nossa mente é”.

Os estoicos argumentavam que só o ser humano recebeu da Natureza o dom do raciocínio, e que o estado mental ideal é a tranquilidade. Isto, aliás, é o oposto da animação excitada dos positivistas quando falam de felicidade. Para os estoicos, a única coisa que podemos controlar são os nossos juízos a respeito do mundo, não o mundo em si, claro.

Já os budistas acham que a raiz de todos os sofrimentos é o apego. O fato de desejarmos certas coisas, e de odiarmos ou não gostarmos de outras, é o que motiva a atividade humana. “Porém, em vez de desfrutar de coisas prazerosas quando ocorrem e vivenciar o desprazer da dor, criamos o hábito do apego e da repulsa. A dor é inevitável, mas o sofrimento é resultado de nossos apegos.”

Outro alvo do “Manual de Antiautoajuda” são as pessoas obcecadas por metas e objetivos. Vocês já devem ter conhecido (ou ouvido falar) de gente assim. A paixão por metas e objetivos tem sido amplamente explorada pela autoajuda. Mas a tão falada importância de estabelecermos planos detalhados para nosso futuro pode nos levar a uma aversão à incerteza, adverte Burkeman.

“A busca pela certeza bloqueia a busca pelo sentido. A incerteza é a própria condição que impele o homem a desenvolver seus poderes”, escreveu o psicólogo social Erich Fromm. “É na incerteza que as coisas acontecem. É nela que as oportunidades – de sucesso, de felicidade, de uma vida plena – estão à espera”, Burkeman acrescenta.

A autoajuda, na verdade, se dirige a um eu, e a existência do eu é um fato  normalmente aceito pelo senso comum sem questionamentos. Mas o filme “Matrix” (1999) levantou uma questão filosoficamente fascinante: como eu posso ter certeza de que o mundo não é uma sofisticada charada criada por uma inteligência sobre-humana de modo que eu não perceba o truque?

Ao que parece, os gurus trabalham com um conceito de eu que não resiste a um exame mais atento. As neurociências têm mostrado que não há no cérebro um centro onde todas as coisas se juntam e formam isso a que chamamos eu. Porta-vozes da autoajuda, aliás, geram paradoxos incríveis: misturando eu com ego, afirmam que viver a serviço do ego não pode nos tornar felizes.

Ora, a abordagem da felicidade focada no otimismo e obcecada por metas é exatamente o tipo de coisa que o ego adora. O pensamento positivo, lembra Burkeman, é “uma questão de desejar um futuro feliz ou bem-sucedido, o que reforça de maneira sutil a mensagem de que a felicidade está em outro momento, não no presente”. Agora reflita: pode haver um “você” sem “todo o resto”? Leia também “A Positivação da Felicidade“.

27/11/2015

COPYRIGHT © 2018 BY SERGIO VILAS-BOAS

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Why ask?

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.