Os ‘exercícios de admiração’ de Sergio Vilas-Boas

“O Mundos dos Outros”, de Sergio Vilas-Boas, valoriza o Perfil,
gênero jornalístico muito divulgado e pouco compreendido.

Welington Andrade

Voando de Campo Grande à fazenda Santa Cruz, no Pantanal mato-grossense, em um Cessna Centurion II, ao lado de Manoel de Barros, o poeta que se dedica a descobrir as insignificâncias do mundo e das pessoas. Tomando café e discutindo futebol com Tostão no condomínio da região metropolitana de Belo Horizonte onde mora o craque da bola e das crônicas esportivas. Acompanhando o dia a dia de Mara Salles, uma chef de cozinha que, há trinta anos, “nem sabia cozinhar direito e hoje é uma das principais embaixadoras da gastronomia brasileira”. Toureando o tédio de João Ubaldo Ribeiro, no escritório do apartamento do autor de Viva o Povo Brasileiro, no Leblon, Rio de Janeiro, e testando ao mesmo tempo a paciência, que andava por um fio, do escritor: “Olhe, meu amigo, preciso trabalhar; estou cada vez mais sem saco para entrevistas”.

Essas são algumas das ações executadas por Sergio Vilas-Boas em companhia de um expressivo número de personalidades, sejam elas célebres ou anônimas aos olhos do grande público, retratadas em Perfis: O Mundo dos Outros – 22 Personagens e 1 Ensaio (Editora Manole), que chega agora a sua terceira edição, revista e ampliada. Autor de onze livros, entre eles Biografismo: Reflexões Sobre as Escritas da Vida e Os Estrangeiros do Trem N (vencedor do Prêmio Jabuti em 1998), Vilas-Boas é também jornalista e professor universitário, tendo realizado tanto sua pesquisa de mestrado quanto a de doutorado sobre um tema bastante caro ao universo do jornalismo – as narrativas biográficas –, ambas apresentadas à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Publicados de modo esparso, entre 1999 e 2014, em jornais, revistas e livros, os perfis biográficos reunidos nessa nova edição exploram, com uma perspicácia e uma sensibilidade cada vez mais raras no jornalismo atual, algumas singulares ocorrências que cercam a vida dos poetas, prosadores, intelectuais, esportistas e homens de negócio a quem o autor se propôs retratar. Embora se trate de personagens cujas trajetórias de vida são tão diferentes entre si, todos aqui parecem ter algo em comum, irmanados que estão pela técnica incisiva e cortante por meio da qual Vilas-Boas concebe seus retratos.

Os textos primam pela concisão. Não aquela ligada à brevidade do vazio e da superficialidade tão em voga em tempos de abundância de informação e escassez de experiências narrativas. Os breves retratos de figuras tão complexas que o autor sugere (o poder de sugestão é, sim, um grande antídoto contra o racionalismo espúrio do qual a sociedade informacional vem se orgulhando cada vez mais) em seus textos estão a serviço da investigação biográfica discreta, diligente, delicada, que não necessita mergulhar fundo nas misérias e grandezas do homem. Antes, tal investigação constitui um exercício de modalização subjetiva, voltado à observação sensível do efêmero, do banal, do acessório. Como se, por meio de tais elementos, pudéssemos privar um pouco da essencialidade dos seres biografados.

Alguns perfis revelam personagens fascinantes desconhecidos do leitor médio. O escritor Francisco Dantas é um deles. No perfil “Domador de veredas”, sobressai a intenção de Vilas-Boas de destacar a atividade literária de Dantas, mas as coisas ínfimas, vividas ao rés-do-chão, que cercam a fazenda onde mora o personagem também não escapam à sua observação sensível: “Desde que eu havia aparecido ali, na fazenda Lajes Velha, em Itabaianinha (SE), prestei atenção no coaxar tresloucado dos sapos no açude; nos galos que saudaram o amanhecer; no berro abafado das dóceis cabras Saanem; nos olhos silenciosos dos bois Tabapuã-Chianina; nos trinados dos grilos ouriçados com as lâmpadas da varanda; nos bufos da burra Medalha”.

Outra figura igualmente cativante é a do escritor Cristóvão Tezza. Em “Alma de relojoeiro”, Vilas-Boas vai em busca do passado do personagem, que viveu, como muitos jovens, os sonhos e as utopias da década de 1960. Mas em vez de o perfil ficar preso a esse tempo nostálgico e inerte, o texto trata habilmente de ligar o “que veio antes” ao “aqui e agora”, encerrando-se com uma metáfora bastante poderosa: “O que vem depois da batida das horas? Nessa casa, aparentemente imune ao pulsar às vezes escravizante do calendário convencionado, mora um escritor com alma de relojoeiro. Meticuloso, tolerante, disciplinado, ele maneja as horas como Curitiba maneja o presente”.

No último texto do livro, o ensaio intitulado “A arte do perfil”, Vilas-Boas recupera a história do gênero que é considerado hoje em dia uma espécie de oásis de invenção e criatividade em meio à aridez da atividade jornalística produzida em escala industrial. (Impossível não pensar no trabalho de ourivesaria e artesanato representado pelos deliciosos perfis publicados na revista Piauí). Nesse texto de fechamento, não somente o estudante de jornalismo como também o interessado em geral pelas narrativas biográficas irão encontrar a descrição precisa, o argumento envolvente, a reflexão apurada sobre esse gênero nobre do Jornalismo Literário que envolve processos criativos multidimensionais em que se combinam a memória, o conhecimento, a fantasia, a síntese e os sentimentos. Sobre “A arte do perfil” declara o próprio autor: “Compilei nesse ensaio os meus estudos e as minhas experiências nos últimos vinte anos como escritor e professor… Nem sempre é possível realizar tudo o que está indicado no ensaio, porque tanto o personagem quanto o processo de retratá-lo são irrepetíveis – aliás, criatividade e maleabilidade são fundamentais na construção de perfis”.

Ao final da leitura, provavelmente o leitor mais atento poderá perceber o quanto do universo do próprio autor está relacionado a esse “mundo dos outros”, uma vez que o retrato, segundo o escritor francês Charles Augustin Sainte-Beuve (1804-1869), é uma forma utilizada “para produzir nossos próprios sentimentos sobre o mundo e sobre a vida, para exalar com subterfúgio uma certa poesia oculta”. Em seu livro, Sergio Vilas-Boas faz do interesse por 22 pessoas um belo e denso exercício de admiração – linguística, jornalística e humana – pelo outro, convertendo tais indivíduos em personagens cujas trajetórias tão diferentes das nossas estão plenas de significação muito próxima de nós.

Welington Andrade é formado em Artes Cênicas pela Uni-Rio e doutor em Letras pela USP. Crítico de teatro da revista “Cult”. Este texto foi publicado na revista “Cásper”,  da Fundação Cásper Líbero, n.14, São Paulo, dezembro, 2014.

Perfis: o Mundos dos Outros (em papel)

Perfis: o Mundos dos Outros (e-book)

Biografismo: reflexões sobre as escritas da vida, nova edição

Segunda edição de “Biografismo: Reflexões sobre as Escritas da Vida”lançado primeiramente em 2008,  já está nas livrarias.

Este ensaio de alto teor filosófico discute novos modos de ler, criticar e praticar a biografia, gênero ainda pouco compreendido no Brasil. Amparado por um amplo repertório de leituras biográficas e teóricas de campos diversos, Sergio Vilas-Boas tece um conjunto de reflexões sobre os valores humanos, os métodos e as técnicas que guiam (ou poderiam guiar) os biógrafos contemporâneos. O texto mescla as linguagens dissertativa e narrativa, enriquecidas por diálogos instigantes entre Sergio e o jornalista Alberto Dines, biógrafo do escritor (e também biógrafo) Stefan Zweig. O que resulta é uma abordagem inovadora e prospectiva, e uma forma tão ousada quanto fluente, na qual o biográfico e o autobiográfico se fundem transparentemente.

Capa da 2ª Edição

Do capítulo “Pontos críticos”, que dá início à obra:

Este livro é a minha tese de doutorado (defendida na ECA/USP em 2006), suavemente retocada. As reflexões sobre narrativas biográficas giram em torno de seis tópicos, e cada tópico é um capítulo. Assim:

  1. Descendência, em que relativizo a idéia de uma herança familiar explicativa do ser (biografado);
  2. Fatalismo, em que considero fictício qualquer personagem real visto como predestinado vencedor;
  3. Extraordinariedade, em que critico os preconceitos decorrentes da crença numa genialidade inata;
  4. Verdade, em que desmistifico a biografia como a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade sobre uma pessoa;
  5. Transparência, em que proponho que os biógrafos também se revelem ao longo de seus textos;
  6. Tempo, em que mostro por que a narração biográfica linear-cronológica é uma limitação tanto filosófica quanto narrativa.

Em cada capítulo há trechos elucidativos extraídos das biografias JK, o artista do impossível, de Cláudio Bojunga; O anjo pornográfico, a vida de Nelson Rodrigues e Estrela Solitária, um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro; Chatô, o rei do Brasil, de Fernando Morais; Mauá, empresário do Império (Jorge Caldeira); Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig, de Alberto Dines; e Fidel Castro, uma biografia consentida (2 tomos), de Cláudia Furiati.

Busquei suporte teórico e inspirações em diversos campos: História, Filosofia, Antropologia, Sociologia, Psicologia, Mitologia, Literatura de Ficção, História da Arte, Física Quântica, Cinema Documental e Jornalismo Narrativo. Para não ficar só no “problema”, em cada capítulo aponto algumas alternativas para tornar o conteúdo e a forma da biografia mais vívidos e reflexivos.

Notem que ao longo do ensaio entremeei narrações minhas sobre a faceta biógrafo do jornalista Alberto Dines, autor de vários livros, entre eles a biografia Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig. (O escritor austríaco Stefan Zweig, aliás, também foi biógrafo.) Demarcadas com outro tipo de letra, essas narrações se baseiam majoritariamente nas conversações que mantive com Dines entre novembro de 2005 e maio de 2006.

Outros esclarecimentos: 1. exceto quando especificado, todos os trechos entre aspas dentro da narração sobre “o biógrafo Alberto Dines” foram extraídos de Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig (1ª edição, 1981, e/ou 3ª edição, 2004); 2. traduzi eu mesmo as citações em destaque extraídas de obras originalmente em inglês e espanhol; 3. São propositais as sobreposições dos discursos meu e de Dines nos trechos narrativos. É como se um falasse em nome do outro, de maneira coexistencial, sem a clássica separação entre “quem fala” e “quem escreve”.

Biografismo: Reflexões Sobre as Escritas da Vida (em papel)