O arquiteto de microscopias

Um perfil de 2000 do poeta Manoel de Barros, morto em 13 de novembro de 2014.

Sergio Vilas-Boas

Manoel de Barros e seu filho caçula João Wenceslau** foram me apanhar no hotel em Campo Grande às 8h, conforme o combinado. Iríamos de teco-teco alugado até a fazenda do poeta no Pantanal. Quando Manoel viu que eu era eu (não, nunca nos havíamos visto antes), reagiu:

– Ah, que bom que você é um garoto! – E me deu um abraço apertado, pleno de alívio, como se uma tremenda crise de ansiedade estivesse terminando naquele exato momento.

Manoel é um velho retraído, frágil, que hoje evita o próprio retrato. A minha proposta de um perfil o incomodou a princípio. Ele faz questão de reafirmar que poeta não tem biografia, tem só poesia. Portanto, para me tornar entendedor, eu teria de me virar com meias-palavras. Entre outras coisas, significa enfrentar a amplidão do Pantanal com um teco-teco e os versos dele com uma lupa.

Seu mundo é o dos seres minúsculos, desperdiçados: insetos, aves, peixes, bichos em geral, mas também seres humanos rodeados de distâncias e silêncios. Com um pedaço de linha escura sobre fundo branco Manoel fotografa, imagina, fantasia, inventa comportamento para as coisas. Trabalha com a tenacidade de uma criança descobrindo o desenho. Nos tocos de seus lápis “tem sempre um nascimento”.

Acompanhei-o, então, com dois ouvidos inutilmente abertos, e tentando decifrar suas divagações em verso. A essa altura só a poesia lhe interessa. Ela é seu meio e seu fim.

– Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

E está inscrito nela que poderoso não é aquele que descobre o ouro. Poderoso, para Manoel, é aquele que descobre as insignificâncias: do mundo e as nossas. Ouros e insignificâncias fazem parte do Livro das Ignorãças (1993). Sua “ignorãça”, presumi, é a fachada que ele encontrou para contestar o racionalismo ocidental, já advertido em outra rubrica:

Hai muitas importâncias sem ciência.

 Ele não perde tempo com máquinas sem finalidade poética, como computadores. Prefere tocos de lápis e rasgos de celulose que compõem quantias consideráveis do material do escritório de sua casa em Campo Grande. Aliás, uma casa em estilo moderno, clean, extremamente funcional para um sujeito que flertou com troncos tortuosos e mil tipos de assobios.

Preocupa-o hoje a ciência dos homens. Os progressos também potencializam perigos inimagináveis.

– Tenho medo que essa confiança na Ciência nos leve a acabar com coisas que não se podem criar “in vitro”, como o amor e o desejo.

– O senhor se acha um homem fora do seu tempo?

– Dizem que sou “primitivo”. Tenho mesmo fascínio pelo primitivo. Vontade de regredir para o começo. Há palavras que devem estar dentro de mim há milhões de anos.

Chamá-lo de “poeta do primitivo”, aliás, é como chamar Federico Fellini de palhaço: um êxtase. O fato é que Manoel não suporta ser apenas o vovô que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às seis horas da tarde, que aponta lápis, que vê a uva…

 Perdoai.

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas.

 Mais tarde anotei em minha caderneta: “É como se ele pretendesse entender a metafísica tornando-se inseto – FormiguinhaZ, quem sabe -, livre de cair em sensatez”. No exato momento, a caneta falhou de um modo muito suspeito. O exemplar autografado de Retrato do Artista Quando Coisa (1998) caiu do meu colo sem mais nem menos. Ainda anseio pelo retrato do poeta quando humano.

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Manoel nasceu em Cuiabá, no Beco da Marinha, em 1916. Mudou-se para Corumbá, onde se fixou de tal forma que até chegaram a considerá-lo corumbaense. Hoje vive em Campo Grande, de onde partimos no Cessna Centurion II, prefixo PT-KHH, para um vôo de cerca de uma hora até sua Fazenda Santa Cruz, no meio da Nhecolândia, uma das primeiras regiões de ocupação do Pantanal, demarcada pelos rios Taquari e Negro.

Eu e o poeta durante voo no Cessna de Campo Grande para Nhecolândia.

Em pleno vôo, Manoel não se importa muito com episódios, não se impacienta com as imprecisões da memória e, sossegado e mais à vontade, contempla o Pantanal enquanto conversa, apontando ali e acolá. Por ter uma ligação atávica com sua terra, já o rotularam também de poeta do Pantanal, poeta verde, poeta da ecologia, entre outros. Na academia e na imprensa também tem-se consumido tempo e espaço para tentar tingi-lo de classificações. Ele despercebe. Sabe que muitas dessas divisórias são convenientes aos demarcadores.

Vendo a imensidão verde do Pantanal, 230 mil quilômetros quadrados, área maior que o Uruguai, impossível não pensar em como um homem que cresceu rodeado de distâncias e silêncios, planícies vastas e paisagens incertas, que nunca se repetem ano a ano, pôde inspirar-se no minúsculo, no sem feitio, em caramujos esfregando-se em musgos de ruínas imaginárias?

É uma daquelas perguntas que, para validar-se, só permanecendo sem resposta. Sujeitas a tantas idas e vindas, mistérios e equações, uma vida não cabe em livro, que dirá em versos. As inferências devem ser feitas com cautela. De repente, uma confidência em tom de declamação se mistura ao ronco do monomotor:

– Sabe, noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.

– O mesmo com o que fala?

– Claro. Os sentidos é que mandam.

– Há um poema em que o senhor se refere à necessidade de termos um aferidor de encantamentos. O senhor tem um?

– Claro. É com ele que contemplo essa vastidão toda. – E sorri, entusiasmado.

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Pausa para uma pitadinha de ciência, a contragosto do poeta. A geologia garante que quando ocorreu a elevação da Cordilheira dos Andes e do Planalto Brasileiro, há 60 milhões de anos, a região hoje conhecida como Pantanal ficou em uma depressão, ou seja, numa área rebaixada em forma de concha.

Do teco-teco, a quatrocentos metros de altura, vemos que a Serra de Maracaju é uma das bordas da concha, que alaga anualmente entre outubro e abril. Pelo menos era assim nos tempos em que a mão humana não influenciava os ciclos da natureza. Chuvas continuam caindo de novembro a março na cabeceira do rio Paraguai, ao norte, indo cobrir centenas de quilômetros quadrados ao sul, através dos afluentes. Formam-se lagoas imensas e baías que minguam a partir de maio. Mas,  por algum estranho desequilíbrio, o período de seca às vezes chega cedo.

Em horizonte mínimo — pois as altitudes da planície pantaneira variam entre 100 e 200 metros — há dezenas de tons de verde, como se os veios d’água tivessem sido filtrados na palma das folhas, criando habitats aprazíveis para emas, sariemas, curicacas, anhumas, jacarés, cervos, veados campeiros, marrecos, ariranhas, lobos-guarás, onças-pintadas e outros que tanto fascinam os estrangeiros.

– É um lugar inacabado. Os rios não cavaram o chão. Não formaram barrancos. Por isso não podem ser nomeados. São apenas corixos.

Como os poetas, os corixos (rios provisórios) que se infiltram pelo cerrado ralo da região possuem uma sensibilidade desviada, ou seja, “começam a dormir pela orla”, como diz Manoel.

Na memória biográfica de Manoel de Barros faltam fatos e sobram paisagens, como aos corixos.

– Com tantas evidências, por que o senhor prefere que não o associem ao Pantanal?

– Lido com palavras, não com paisagens. O que dá sedimentação às minhas palavras é a paisagem. A paisagem pantaneira. Só que procuro transfigurá-la. Quem descreve não é dono do assunto. Quem inventa, é.

Os ambientalistas engajados, no entanto, querem cooptar este senhor risonho, amável, franzino, cabeça de paina (grisalho, na gíria do Pantanal), três filhos e sete netos, como se ele pudesse servir de estandarte para a ecologia.

– A obra do Pantanal é de Deus, não minha. Quando me convidam para alguma causa, desconverso. Acho tudo isso muito chato.

– Mas lhe preocupa o fato de sua fonte de sua fonte de inspiração estar ameaçada…

– Sem dúvida. – E insiste com João Wenceslau, co-piloto do avião, que sobrevoe próximo o rio Taquari, já bem próximo de sua fazenda. – Está vendo como aquele rio está assoreado? Desmatamentos na cabeceira fazem descer areia [e o solo do Pantanal como um todo é bastante arenoso] no leito, que se deposita ao longo. Em vários pontos, dá pra atravessá-lo a pé. Desse jeito, talvez nem mesmo uma tromba d’água consiga engravidar o rio Taquari. – Lamenta.

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O Cessna pousa aos trancos na capineira da fazenda, uma pista demarcada com pneus velhos caiados. Trotamos como em lombo de mula. Manoel de Barros ergueu a sede da Fazenda Santa Cruz sobre terras virgens herdadas do pai, há quase 40 anos. Relutou aceitar a empreitada. Cogitou de vendê-las e investir o apurado em algum refúgio metropolitano, onde pudesse escrever poemas em paz, com seus tocos de lápis e seus papiros. Stella Barros, esposa há mais de 50 anos, convenceu o marido a enfrentar o novo desafio. Acabaram vivendo na Santa Cruz cerca de dez anos.

– No início, era vida de bugre, de rancho sem portas. Morando aqui, só assinava promissórias, nenhum poema. Trabalhava muito. Veja só que coisa: pra lutar contra o gratuito, é preciso ócio.

Santa Cruz tem 15 mil hectares de terras avaliadas em R$ 3 milhões. A fazenda acolhe umas cinco mil cabeças de gado Nelore, patrimônio vivo de R$ 1,5 milhão, segundo cálculos de João Wenceslau. São bois pantaneiros “verdes”, de alimentação natural, como a maioria do rebanho de mais de vinte milhões de cabeças do Mato Grosso do Sul, o maior do país.

Com dois anos, os bezerros vão engordar em outra fazenda (menor), também dos Barros, perto da cidade de Rio Verde do Mato Grosso. Transportar o gado de uma fazenda para outra pode levar até oito dias de uma viagem da qual Manoel não participa mais. Não por ser poeta, tampouco por ser octogenário sem colesteróis ou neuras como as de alimentar-se apenas de carnes brancas ou de evitar qualquer carne. Imagine um vegetariano no Pantanal. Seria um bicho raro. Aqui vive-se de carne e osso.

– O médico me disse que preciso comer peixe e frango. Argumentei que os animais mais fortes da Terra não comem carne branca. Ele não falou mais nada.

Por incrível que pareça, o Pantanal tem clima semi-árido, e acontece de a água precisar ser procurada a fundo. Na Santa Cruz há dez motores para bombear água subterrânea até a superfície. Em períodos de seca geralmente não sobra água para nada. Será preciso esperar as chuvas para revigorar os pastos e engordar o gado de novo.

Enquanto dirige sua pick-up por veredas e vaus, João Wenceslau expõe alguns balanços de sua empresa pantaneira:

– As coisas pioraram muito para os criadores de gado da região. Houve uma desvalorização enorme. Em 1978, uma D-10, camionete a diesel da Chevrolet, zero quilômetro, por exemplo, custava o equivalente a 70 novilhos com dois anos de idade. Hoje, 70 novilhos não compram uma Silverado.

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Enquanto os retrocessos culturais avançavam, Manoel de Barros padecia de fascínio por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizções. Gosta de ouvir e ler Vozes da Origem, da antropóloga Beth Mindlin, mas o prazer da reinvenção da linguagem começou com a leitura de Padre Antonio Vieira. Sonhava conhecer as civilizações Inca, Maia e Asteca.

No Peru e na Bolívia, onde perambulou nos anos 40, procurou os lugares mais miseráveis. Pescava, bebia, passava os dias em meio aos descendentes diretos dos índios americanos. Empenhou-se em conhecer as maiores pequenezas do mundo.

– Me arrastei por beiradas de muros desde Puerto Suarez, Chiquitos, Oruros, Santa Cruz de la Sierra.

De Cuzco, no Peru, o arqueólogo Manoel foi parar em Nova York e deu de cara com Picasso, Chagall, Paul Klee, Dalí, Miró e outros. Um choque. Seu aferidor de encantamentos devia estar descalibrado.

– Quando vi aquilo tudo, disse que se não fosse poeta, certamente eu teria sido pintor.

Para os pantaneiros, a Bolívia, a oeste, esconde os mistérios do entardecer. O pôr-do-sol “parece uma gema de ovo do lado da Bolívia”. Peão que é peão enfrenta a tal gema olho no olho, não lacrimeja, não se seduz pelo óbvio. O antropólogo Claude Levy-Strauss viajou em 1926 pelo miolo do Mato Grosso. Notou a simplicidade dos móveis no interior das sedes das fazendas.

Dois ou três mochos na sala, arames de estender roupas nos quartos servindo de armário e redes por todos os cantos. Foi um povo ladino, sensual e andejo que um dia atravessando o rio Taquari encheu de filhos e de gado a zona da Nhecolândia.

Manoel foi criado de olho virado para a Bolívia, na fazenda do pai arameiro. Arameiro é o sujeito que faz cerca para isolar o gado, cortando árvores para fazer postes, passando o arame neles, debaixo dos quais a nômade família Barros acampava.

– Minha mãe nos pariu na terra. Não tínhamos como sair para lado nenhum naquela época. Até os oito anos, vivi no chão, de forma quase selvagem.

Em 1961, quando voltou do Rio de Janeiro, onde viveu uns 40 anos, para assumir as terras herdadas, teve medo de virar múmia e emburrecer.

 As coisas que acontecem aqui, acontecem paradas.

Ou então, melhor dizendo: desacontecem.

 O isolamento do pantaneiro não é apenas geográfico. Ele às vezes dói no peito. A maneira que encontram de diminuir as distâncias é botando enchimento nas palavras, criando apelidos, contando lorotas. Através de “palavras vadias”, alargam seus limites.

Bernardo, que fez parte da vida de Manoel na fazenda desde muito tempo, é o personagem cujo silêncio é tão alto que só os passarinhos ouvem. Aos oitenta e tantos de idade, Bernardo internou-se num asilo em Campo Grande. Talvez não demonstre mais o “ar altivo de quem vê pedra nadando”, apenas a eterna inocência de um sujeito “quase árvore”, que alicia o carinho dos animais mais tinhosos.

O grande luxo de Bernardo é ser ninguém. Por fora é um galalau. Por dentro não arredou de ser criança. É ser que não conhece ter. Tanto que inveja não se acopla nele.

As pessoas aparentemente contidas no abandono ou abandonadas no pertencimento encantam Manoel de Barros, tanto quanto as soberbas coisas ínfimas. Surpreendente que o poeta tenha sido comunista pela mão de Apolônio de Carvalho, o velho amigo que o apresentou à literatura marxista.

– Para a doutrina comunista, pessoas de inteligência curiosa são hereges – lamenta.

Em poucos anos de marxismo, Manoel saiu “de ventena” (correndo, em dialeto pantanês). Já bastam os lacanianos que têm orgasmos ao ouvir o poeta dizer que é um sujeito extraído de palavras, o que comprovaria as teorias do psicanalista francês Jacques Lacan.

Teorias, acreditai-vos, irmãos, são destrutíveis. A única coisa indestrutível é a morte.

– Salvo não seja. – E Manoel ri feito criança.

* Manoel de Barros faleceu em 13/11/2014.

** João faleceu em 2008.

Texto publicado em 2000 e incluído no livro “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Persoangens e 1 Ensaio” (Manole, 2014, 3ª edição)