Cada indivíduo é um universo

Escritor Sergio Vilas-Boas fala 
sobre “o Mundo dos Outros” e o seu.

Patrícia Cassese
“Hoje em Dia”

Uma obra “possivelmente” destinada a um público ainda capaz de sentir prazer com a leitura. Não bastasse, que esteja em busca de se identificar (para o bem ou para o mal) com “o mundo dos outros”. Seja como for, o fato de “Perfis – O Mundo dos Outros” (Manole Editora), do jornalista Sergio Vilas-Boas, chegar à terceira edição é, claro, um excelente indicador. Mesmo que ele, todo modesto, faça uma ressalva, relativa às ditas “reportagens mais profundas”, que, lamenta, vêm sendo eliminadas de muitos veículos. “Para você ter uma ideia, todos os 12 perfis das edições anteriores haviam sido publicados originalmente no prestigioso caderno ‘Fim de Semana’ da ‘Gazeta Mercantil’, que, nos anos 1990, era um jornal diário de grande circulação”, ressalva. 

Sergio conta que o livro se tornou mais “visível” junto ao meio universitário, “onde ainda há maior oxigenação e aceitação para ‘reportagens aprofundadas’, sem um objetivo estritamente comercial”. Mas, não obstante todo o relativo “sucesso” (sim, as aspas são do próprio Sergio, referindo-se aos padrões brasileiros), o jornalista não estava satisfeito com as edições anteriores, como confessou ao Hoje em Dia
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Qual o motivo desta “insatisfação”?
 
Primeiro, porque o livro fazia parte de uma coleção totalmente voltada ao público acadêmico. Segundo, a edição não fazia jus ao conteúdo, era pouco convidativa. Terceiro, os personagens eram todos escritores e, apesar de alguns não serem muito conhecidos, a maioria era famosa. E o ensaio reflexivo que, nas edições anteriores, tinha o título de “Feições de um perfil jornalístico”, estava defasado em relação ao meu próprio amadurecimento como autor e estudioso do assunto. Daí decidi aperfeiçoar a coisa toda, mesmo que isso implicasse mudar de editora.
 
Conseguiu, pois, resolver a contento essas questões?
 
Agora, sim, o livro pode atingir um público mais amplo e o projeto gráfico está afinado com o conjunto da obra. Além disso, há uma variedade maior de personagens – e com um bom equilíbrio entre famosos e não famosos, algo que sempre quis (até para mostrar que o “problema” de escrever perfis é sempre do autor, nunca do personagem). Por fim, mantive os 12 perfis das edições anteriores e acrescentei dez, como o Tostão (ex-jogador) e o jornalista Maurício Kubrusly. E o principal: finalmente, acertei a mão com o ensaio “A Arte do Perfil”, em que apresento o gênero e me posiciono mais firmemente sobre o método de trabalho que, até o momento, me parece o mais adequado.
 
Na sua opinião, a quem a obra se destina? 
 
Cada indivíduo é um universo, no caso, e os 22 textos do livro são escritos de maneiras diversas, com linguagens variadas e sob circunstâncias também muito diferentes. Mas não tinha um “alvo” claro em mente. Como ter? 
 
Como foi o feedback aferido nas edições anteriores?
 
A maioria dos retornos dizia respeito à “sensibilidade do autor para adentrar e compreender a vida alheia”. E confesso que fiquei bem contente com isso, porque, no fundo, é o que eu tento fazer mesmo. Mas também recebi retornos menos linguísticos e mais jornalísticos, do tipo: “Apuração minuciosa, senso de detalhe e paciência para encontrar o ponto de equilíbrio entre o diálogo presencial e a observação do que não é verbal”. Um feedback que me sensibilizou, especialmente, foi o de uma jornalista recém-formada. Ela me enviou uma mensagem pelo meu blog dizendo: “Seu livro ‘Perfis’ me fez repensar meu projeto de vida. Não quero mais trabalhar com noticiários nem com informações urgentes”. Uau, achei isso extraordinário, pois foi mais ou menos o que senti quando, uns 20 anos atrás, descobri o jornalismo literário de reportagens especiais praticado pelos norte-americanos.
 
Bem, vamos entrar na seara das perguntas óbvias: quem você nunca “perfilou” (sim, sei que você não gosta dessa palavra, li no ensaio) mas gostaria de…?
 
Não produzo nada, digamos, industrialmente. Nem perfis nem nada [risos]. Sou antiindustrial por natureza. Tampouco (sobre)vivo de escrever narrativas biográficas. O que ocorre é que ou eu sugiro os personagens, ou aceito sugestões alheias ou simplesmente me deixo levar pelas histórias de indivíduos que se cruzam com a minha vida em dado momento. Então, não sou – nem pretendo ser – do tipo “caçador de personagens”. Não me atrai a ideia de ficar obcecado por uma pessoa ou lamentando se perdi (ou ganhei) a “pessoa certa” para “o perfil ideal”. Além do mais, tenho duas características pessoais que, bem ou mal, impactam tudo o que faço: 1) sou reservado; 2) não idolatro nem idealizo objetos ou pessoas. 
 
Você fala em não idealizar o personagem… No passado, já incorreu nesta armadilha? A decepção foi grande?
 
Nunca idealizei um personagem em si, mas já idealizei as condições de retratá-lo(a). Por exemplo, criar expectativas de que vou poder encontrar a pessoa em lugares/situações diversas e que ela vai se abrir para mim, bastando, para isto, que eu use a minha capacidade de gerar empatia; ou que vou poder ouvir vários convivas e que eles/elas certamente me dirão coisas surpreendentes, imperdíveis. Em alguns casos, a pessoa nem topa, e tudo para. As situações são tão singulares, tão irrepetíveis, que o único dos 22 perfis do livro em que tive todas as condições para construir uma narrativa plenamente à minha maneira (ou à maneira proposta no ensaio “A arte do perfil”) foi a que retrata o sr. Jayme Sirotsky, presidente do Grupo RBS. Passei quatro dias em Porto Alegre. Durante esse período, estive com ele tête-a-tête, conversando mesmo (em particular), em quatro lugares diferentes e ainda pude acompanhá-lo e observá-lo em outros três acontecimentos sociais importantes para ele. Alguns desses encontros tinham movimento – por exemplo, caminhamos juntos pelo calçadão às margens do rio Guaíba numa manhã de sábado, totalmente “desarmados”. E mais: entrevistei seis pessoas, que me ofereceram perspectivas valiosas.
 
Dos personagens com os quais já trabalhou, poderia citar uma história interessante? Um fato inusitado, engraçado ou imprevisto?
 
Normalmente, incluo nos perfis informações de bastidores, se as considero cabíveis – no sentido de ajudar a entender o momento do personagem ou as condições em que as histórias foram apuradas. Fiz isso no perfil do João Ubaldo Ribeiro, por exemplo. Reproduzi na íntegra o diálogo pouco amigável que se deu início ao nosso encontro, num momento em que os “vários ubaldos” (o título desse texto é “Ubaldos brasilis”) estavam em conflito, atravessando um momento de maus humores e grande pressão. Ele me recebeu no apartamento dele bastante contrariado, como se houvesse sido pego de surpresa (e não era o caso). Outro fato interessante (e que eu também mencionei no livro) ocorreu no primeiro encontro que tive com o escritor Francisco J.C. Dantas, em Itabaianinha (SE), na fazenda em que ele morava, na época. Ele é um sujeito muito sério e cauteloso. A conversa tinha um fluxo, mas não fluía, biograficamente. Não saíamos da lógica intelectual. Mas eu acreditava que ele finalmente entraria em sintonia comigo – e eu com ele. Era questão de paciência. A sintonia é sempre uma questão de tempo e paciência. Daí, depois do almoço, cada um ocupou uma rede para a sesta, como é de praxe por lá. Dormi profundamente. Por volta das 16h, acordei com um cutucão. Era ele, Dantas. “Vamos tomar um banho de bica?”, ele perguntou. “Claro”, respondi, pulando da rede como se ela estivesse eletrocutada. Ainda zonzo, parei para pensar e a ficha caiu: “Ih, eu não trouxe short”, falei. “Tem problema, não. Te empresto um”, ele disse. É como se ele tivesse, depois de um tempo, aceitado que eu não estava ali apenas para fazer o papel de “perguntador profissional” [risos]. Outra situação interessante foi a que vivi com a Jaqueline Ortolan, uma das primeiras mulheres a abraçar a carreira de piloto de jatos comerciais no Brasil e hoje é comandante de Boeing 777 na TAM em voos internacionais. Todas as conversas com ela foram acompanhadas de perto – em estado de vigília permanente – por uma jovem funcionária do departamento de “relações com imprensa” da TAM, o que dificultou imensamente a espontaneidade da Jaqueline. Eu não estava lidando com uma pessoa, na verdade. Eu estava lidando com toda uma corporação, num processo tão burocrático quanto desumanizante. Foi difícil, mas dei um jeito.
 
Sergio, o que te apraz, hoje, como leitor? 
 
Infelizmente, o Brasil não possui uma sólida tradição em jornalismo narrativo – que é a reportagem de imersão, com apuração detalhada e aguçado senso estético. É a essa tradição de reportagem que os perfis jornalísticos se vinculam, historicamente. Mas houve um “renascimento” desse jornalismo narrativo no país nos últimos 15 anos. Fatores que contribuíram para isso, na minha opinião: necessidade de variação de métodos no jornalismo impresso de noticiários com o advento da “era digital”; retorno da narratividade como conteúdo específico em cursos de graduação e pós-graduação em Jornalismo; o surgimento da coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, em 2002, que resgatou clássicos do gênero; a entrada no mercado de revistas como “Piauí”, “Brasileiros” e “Rolling Stones”, entre outras. E o principal: esse tal “renascimento” veio responder a uma necessidade de valorização do “personagem real” num contexto jornalístico marcado pelo excesso de abstrações. Estatísticas e futilidades se tornaram mais importantes do que “gente que realmente (se) realiza”. Entre os perfis escritos por autores brasileiros que mais gostei de ler, nos últimos anos, estão certamente alguns do João Moreira Salles e da Daniela Pinheiro na “Piauí”. E admiro o trabalho de reportagem em profundidade (não exatamente no gênero Perfil) que a Eliane Brum fez durante um bom tempo na revista “Época”. Singular a maneira como ela capta os sentimentos dos personagens de suas matérias. Mas, acredite: não há texto perfeito. Nem meu nem de ninguém. A perfeição é um ideal humano, logo… Imperfeito [risos].
(28/9/2014)
 

Todos somos personagens

Autor de “O Mundo dos Outros”, jornalista Sergio Vilas-Boas  conta os segredos do artesanato de um Perfil.

Vanessa Aquino

Escrever perfis é uma arte. Captar a medida exata do mundo dos outros requer um exercício de observação e sensibilidade extremas, como o fotógrafo ao capturar uma imagem ou o artista plástico a delinear retratos, paisagens ou sentimentos. Independentemente da linguagem, conhecer a essência do objeto, local ou pessoa a ser representada é fundamental. No caso dos perfis não é diferente. Essa é a vertente que segue o jornalista, professor universitário e escritor Sergio Vilas-Boas. Com sutileza, ele descreve o que há de mais peculiar em cada personagem. Foi assim com Ferreira Gullar, Manoel de Barros, João Ubaldo Ribeiro, Paul Auster, Gabriel Garcia Marquez, Lya Luft, Tostão e Cristovao Tezza, entre outros.

“Meu trabalho é artesanal. Tudo para mostrar quem é a pessoa, sua personalidade e sua obra, verdadeiramente. Busco ouvir em momentos e ambientes diversos o protagonista e algumas pessoas próximas a ele/ela. E, quando julgo pertinente, revelo também as circunstâncias em que ocorreram os encontros”, detalha o jornalista, que estudou narrativas biográficas em seu mestrado e em seu doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).

Sergio Vilas-Boas (1)

Quando e por que você começou a escrever perfis?

Comecei nos anos 1990. Na época, trabalhava como subeditor do Fim de semana, suplemento cultural da extinta Gazeta Mercantil. Daniel Piza, então o editor-chefe, sugeriu que publicasse perfis de escritores brasileiros reconhecidos regionalmente – um de cada estado. Essa ideia, tal como foi proposta, não avançou, por razões que nem me lembro agora, mas continuei a escrever reportagens biográficas naquele suplemento. Passada essa fase, ingressei nos programas de mestrado e doutorado da ECA/USP para pesquisar narrações biográficas, especificamente biografias escritas por jornalistas. A partir daí, nas horas vagas ou de necessidade, aproveitei quase todas as chances que tive de retratar indivíduos, famosos ou não. Às vezes, propunha os nomes; noutras, aceitei propostas que julgava interessantes. Entre 2010 e 2013, por exemplo, fui sondado para escrever dois perfis de empresários em forma de livro: Luiz Alberto Garcia, do Grupo Algar, e Ivens Dias Branco, da M. Dias Branco S/A. As duas obras saíram também pela Editora Manole.

O que é necessário para ser personagem de um perfil jornalístico?

Somos bilhões de terráqueos. Todos somos personagens, digamos, da Grande Narrativa Contemporânea da Humanidade sobre a Terra. Mas, jornalisticamente falando, isso é tão enganoso quanto impreciso. Ninguém nasce personagem. Você também não pode dizer que, para ser personagem de um perfil, basta estar vivo… (risos). Não. Na verdade, o indivíduo se torna personagem.

Como?

Quando alguém o escolhe e ele topa ser. Sim, a pessoa tem de topar. Somente em raríssimos casos o autor de um perfil abre mão de se relacionar tête-à-tête com o escolhido. Quando digo isso em um ambiente de jornalistas, a primeira coisa que me perguntam é: “Ah, mas o Gay Talese não falou com o Frank Sinatra para o perfil ‘Frank Sinatra está resfriado’”. É verdade. Mas é um caso tão singular, tão único e tão inusitado no conjunto da produção do próprio Talese que os leitores daqui passaram a tomar a exceção da exceção como regra. Não é bem assim. O método clássico de construção de perfis implica encontrar, dialogar, relacionar-se com o protagonista e com as pessoas de seu círculo íntimo.

Nesse cenário de transformações da imprensa, de crescimento de mídias digitais, ainda há espaço para o perfil?

O lado bom das mídias digitais é exatamente este: abrir novos espaços para tudo dentro do mundo editorial. E os textos biográficos estão nesse pacote de novas perspectivas também. Não é bem a minha praia, mas percebo que os retratos por escrito têm sido muito bem aproveitados e encampados pela linguagem multimídia. Sim, ser digital não necessariamente significa multimídia, mas essa é uma possibilidade bem interessante.

Como construir um perfil quando o personagem pouco fala e pouco se mostra?

O verbal não é a única linguagem na qual você presta atenção durante pesquisas e conversas. Até porque, qualquer pessoa tem um amplo conjunto de linguagens não verbais: o gestual, o vestuário, o estilo de vida, o modo de reagir (ou não reagir) às outras pessoas, os silêncios, etc. Quanto a mostrar-se pouco ou muito, isso precisa ser pactuado. Quando a pessoa aceita ser a personagem real de uma narrativa, ela já está assumindo algum grau de exposição. E, da parte do autor, quando ele propõe a história da tal pessoa, ele já assume que não terá como realizar tudo o que pretende. Com maleabilidade, dá para criar um mínimo de paciência mútua durante o processo de apuração. E, assim, portas e janelas vão se abrindo.

Poderia nos explicar o seu processo de produção de perfil?

Meu trabalho é muito artesanal. Empenho-me em mostrar, verdadeiramente, quem é a pessoa, sua personalidade e sua obra – material ou imaterial. Busco ouvi-la em momentos diversos e ambientes variados. Quando considero pertinente, revelo também as circunstâncias em que ocorreram os nossos encontros. E, na medida do possível, colho depoimentos de pessoas próximas. Sou fascinado por indivíduos, mais do que por grupos, e o desejo de compreender as trajetórias sempre singulares dos outros é a minha maior motivação.

Quais são as suas referências no que diz respeito ao jornalismo literário e à produção de perfis?

Li ou analisei praticamente tudo o que há de jornalismo literário em língua portuguesa, principalmente os bons autores de perfis da escola americana: Gay Talese, Joseph Mitchell, David Remnick e outros. No inglês, apreciei ainda Janet Flanner, Lillian Ross, Mark Singer, John McPhee, Calvin Trillin, Susan Orlean. No fim do meu livro, há um ensaio intitulado “A arte do perfil”, em que compartilho um pouco da história do gênero, sua evolução ao longo do século 20, a sua ligação intrínseca com o jornalismo literário e com a reportagem em profundidade.

Você acha a produção de perfis ainda é pequena no Brasil?

Em meus investimentos na narração biográfica, percebi que o Brasil não tem tradição de publicar jornalismo literário de maneira regular e estável. Ao longo do século 20, tivemos alguns picos de entusiasmo pela narrativa detalhada e aprofundada. Além disso, o jornalismo brasileiro, no geral, tende a rechaçar tudo o que não é noticioso, como se as reportagens especiais – grupo ao qual os perfis se vinculam – não tivessem grande interesse público, como se jornalismo fosse sinônimo de notícias urgentes e só. Isso não me incomoda em nada, pessoalmente, mas é um tremendo equívoco conceitual, no meu entendimento.

Arte, literatura e jornalismo podem se fundir sem prejudicar a impessoalidade da narrativa jornalística?

Essa tal impessoalidade, tão utópica quanto reiterada, não é o pilar único do jornalismo. Ela funciona e deve ser respeitada, por exemplo, nos noticiários mais complexos, nos quais os discursos inevitavelmente ideologizados têm mesmo de ser postos em perspectiva, com distanciamento e uma firme consciência de busca pela neutralidade. Ok. Mas deve ser frustrante demais acreditar que a impessoalidade é uma panaceia. Tente ser impessoal, em sentido lato, durante a elaboração de um perfil em profundidade… Você não vai atingir nada de realmente relevante. Assim como as Minas são muitas, segundo o Guimarães Rosa, os jornalismos são vários. (Risos). Existem modos e modos de se praticar a narrativa de não ficção – em última instância, o jornalismo é uma narrativa de não ficção. Todos esses modos são legítimos, têm metodologias específicas e fins específicos. Querer forçar um procedimento padrão rígido só resulta em limitações culturais, o que não é nada bom.

Como costuma trabalhar a complexidade dos personagens?

A complexidade é inerente ao ser humano, e a única maneira de lidar com ela é aceitando que tudo decorre de um processo social. Num processo social, nada é previsível, linear, certinho. A filosofia e a psicologia têm me ajudado bastante a entender isso. Por exemplo, tento recusar as velhas dicotomias do tipo herói-vilão, bom-mau, vencedor-perdedor, forte-fraco, qualidade-defeito. Tudo está interligado, e por isso você tem de cruzar, avaliar, ponderar as evidências captadas pela observação sistemática e pela escuta atenta.

Entre os perfis que compõem o livro, qual deu a você mais prazer e qual o surpreendeu mais?

Todos me deram enorme prazer. Mas o do senhor Isac Valério, na cidade de Alto Caparaó (MG), foi especial. Ele faleceu anos depois de publicado o perfil. O senhor Isac tinha um conhecimento que estava em vias de extinção: construir e consertar moinhos de pedra. Apesar de ser um homem de pouca instrução formal, sua intensa sabedoria me cativou. Dos textos incluídos no livro, o do senhor Isac é o que tem o menor número total de caracteres, mas talvez seja o mais denso e inspirador. Quanto ao que mais me surpreendeu, acho que foi o do escritor João Ubaldo Ribeiro. Nosso encontro em seu apartamento, no Rio, foi complicado. Enquanto ouvia e observava o Ubaldo, pensava em como escapar da armadilha – na qual muitos jornalistas caíram – de retratá-lo como um personagem de si mesmo. Mas, diante de mim, ele tentou ser uma pessoa que ele não era. No fim das contas, deu tudo certo, mas foi preciso um enorme jogo de cintura para que o “Ubaldo segundo o Sergio” não virasse uma caricatura. [Entrevista publicada no “Estado de Minas” (20/9/2014) e no “Correio Braziliense” (6/9/2014), jornais coligados.]

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