Ubaldos brasilis

Um perfil de 2000 do escritor João Ubaldo Ribeiro, morto em 18 de julho de 2014.

– Quinhentos anos? Você veio aqui pra falar dos 500 anos? Essa não!

– Bem, poderia ser um dos assuntos, afinal, a Carta de Pero Vaz de Caminha ainda é a certidão de nascimento do Brasil…

– Primeiramente, não temos 500 anos.

– Menos ou mais?

– Olhe, meu amigo, preciso trabalhar; estou cada vez mais sem saco para entrevistas.

– Por que deixou a gente [eu e o fotógrafo carioca Antônio Batalha] chegar até aqui, então?

– Você insistiu muito…

– O que mais te incomoda em entrevistas?

– Os caras fazerem as mesmas perguntas de sempre, e o modo como me folclorizam.

– Pode nos mandar embora daqui, se quiser.

– Mas sou um sujeito que não sabe dizer não. Vamos, vamos começar. Diga o que pretende.

No escritório de seu apartamento no Leblon, Rio, entre incontáveis ações tabagísticas, João Ubaldo estava nitidamente entediado. Sua paciência andava por um fio. O assédio de aspirantes a escritores, formandos do curso de letras, embaixadores culturais, entrevistadores, profusões de e-mails de leitores, não leitores e intercambiadores de abobrinhas têm-lhe aborrecido como nunca.

A tudo isso soma-se, agora, outro assunto em voga, diante do qual o autor se arrepia todo: as comemorações dos 500 anos do Brasil e as especulações em torno da identidade nacional. João Ubaldo costuma ser enfático quanto a isso. Certa vez, durante seminário na Alemanha, surgiu o (falso) problema da identidade brasileira.

– E aquela conversa fiada não acabava. Quando chegou minha vez, eu disse: “No Brasil não temos esse problema”.

Os interlocutores – alemães, em sua maioria – devem ter ficado intrigados.

– Nós temos isso aqui, eu disse, mostrando meu RG. Acabou o debate.

Mas não as discussões acadêmicas, jornalísticas, especulativas, botequinescas em torno de seu livro maior, Viva o povo brasileiro (1984). Parece unânime que nesse romance João Ubaldo tenha tentado compreender a formação do Brasil.

Viva o povo brasileiro é uma espécie de distintivo ficcional desse processo formador. Valendo-se do recurso fantástico de uma alma que reencarna em habitantes de Itaparica, Bahia – do tempo da colonização da ilha pelos holandeses (1647) até a ditadura militar, já por volta do final do governo Geisel (1977) –, João Ubaldo desfia, em estilo barroco, vários momentos decisivos da História do Brasil – Independência, Guerra do Paraguai, Proclamação da República, Estado Novo, etc.

– Claro que não planejei tudo isso. Se pensasse nessas coisas enquanto escrevo, ficaria ainda mais louco.

Os antropólogos Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro escreveram que, no Brasil, plasmaram-se historicamente diversos modos rústicos de brasileiros identificáveis: sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e Centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros, nipo-brasileiros, etc. Todos marcados muito mais pelas semelhanças como brasileiros (o idioma é uma delas) do que pelas diferenças decorrentes de adaptações regionais ou funcionais, de miscigenação ou aculturação que emprestam entre si.

– Sociólogos e educadores americanos já reconhecem o black english como língua, não mais dialeto ou linguagem de rua.

– Acha que temos uma “língua portuguesa negra” ou algo assim?

– Não. Até porque não se faz necessário. Todos por aqui falam o português, sintoma de unidade, por mais precária. O Brasil é o autêntico melting pot do mundo. Ponto.

Multitraduzido, marco da literatura brasileira dos anos 1980, Viva o povo funciona como paródia. Paródia que começa em Homero e passa pelas razões que levaram o autor a ter enfrentado uma lavra de 672 páginas. Dois motivos o levaram à empreitada. Ele mesmo os enumera, em meio a impropérios emitidos à média de um para cada dez vocábulos castos, incluídas as preposições e conjunções:

– Primeiro, eu adorava meu avô paterno, João, que era português [seu primeiro nome vem daí; o segundo nome, Ubaldo, homenageia o avô materno]. Ele dizia que livro que se respeita fica em pé sozinho, numa gozação bem-humorada dos livros do meu pai sobre Direito e temas afins. Segundo que, lá pelo começo dos anos 1980, o então editor da Nova Fronteira, Pedro Paulo de Sena Madureira, comentou que estava incomodado com esses livros fininhos, que se leem na ponte aérea. Então…

O cidadão do mundo João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro, sexagenário, aportado desde 1992 no apartamento comprado de Caetano Veloso, professa uma crença mordaz pelo Brasil e por si mesmo. Trata-se de um sujeito esperançoso também, particularidade sua e fundamental para o seu viver. Mas esperança se refere essencialmente ao futuro; quando calcada demais no passado, torna-se patologia. Para ele, o sonho do futuro (ou de uma prosperidade equânime) parece estar virando desilusão.

Alguma semelhança com os alemães, por exemplo, com os quais João Ubaldo teve de se entender no tête-à-tête, como escritor residente da Deutsch Akademischer Austauschdienst? Não, os alemães alimentam um número excessivo de certezas sobre esta vida incerta. São o oposto dos brasileiros, a maior parte dos quais sem a menor ideia do que estará fazendo na próxima hora.

“Como os alemães podem marcar as coisas com tanta precisão e antecedência?”, ele pergunta em Um brasileiro em Berlim (1993). Para os teutônicos, o futuro é uma questão de planos, estratégias, organogramas, metas, estatísticas, cálculos.

– De qualquer forma, reconheço que o inverso da esperança seria, no nosso caso, uma prova de cinismo ou de loucura absoluta.

Investigações biográfico-científicas indicam que Ubaldo é:

Brasileiro.

Baiano.

Ilhéu.

Leblonense.

Vascaíno.

Verborrágico.

Evasivo.

Cético.

Crédulo.

Bonachão.

Barroco.

Arrítmico cardíaco.

Fumante desbragado.

Mantenedor de uma relação ambígua com garrafas de White Label.

Amanhã, todas essas verdades podem ser mentiras. A irreverência contribuiu para que João se tornasse personagem de si mesmo, lendário, e a contragosto. Ainda bem que se assume como cidadão composto. Compõe-se de dois (para mim, são vários) ubaldos.

Há o Grande Ubaldo, vértice do escritor – o sujeito simpático despido de culpas e preconceitos e aberto a novas experiências. No reverso dessa “aura vital” reside o Pequeno Ubaldo, espécie de inquisidor.

– Pequeno Ubaldo é um , que me vigia o tempo todo. Determina que tenho que escrever três laudas cheias por dia sem poder contar amanhã com eventuais saldos de hoje. Mas é o que faço quando estou escrevendo um livro: três laudas por dia.

Mas nenhum dos ubaldos demonstra verve filosófica. Sua retórica foge ao convencional.

– Só sou capaz de filosofias baratas.

Que tal esta: “O que existiu realmente existiu? Algo importa além do presente? Há realmente uma História, somos de fato herdeiros de alguma coisa, ou somos eternos construtores daquilo que a memória finge preservar, mas apenas refaz, conforme suas variadas conveniências, a cada instante em que vivemos?”.

Pequeno Ubaldo acredita que o Brasil romperá o século XXI com pós-doutorado em pelo menos três atividades inimagináveis nos tempos do caboco Capiroba, personagem antropófago de Viva o povo brasileiro: futebol, esporte inventado pelos ingleses; novela televisiva, aperfeiçoada dos mexicanos; e Carnaval, inspirado em bailes de máscaras.

– Somos colonizados, ora essa. Se fôssemos originais, teríamos continuado índios. Veja Heitor Villa-Lobos, o grande compositor brasileiro, ou colombiano, ou argentino, ou boliviano (para os caras do G7, é tudo a mesma coisa); ele se divertia na Europa contando como se comia gente no Brasil.

Já Grande Ubaldo foi capaz de criar cenas de antropofagia explícita em Viva o povo, debochando da moral e cívica da geração que lhe sucedeu. Lembremos do caboco Capiroba dando uma porretada na cabeça de um padre que tentava amarrá-lo para borrifar-lhe água benta. Capiroba churrasqueou e charqueou o padre.

“… e charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu no varal para pegar sol. Dos miúdos preparou ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano (…), costela assada, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão (…)”

Itaparica, onde ubaldos nascem, maior ilha marítima do Brasil (porque Marajó é fluvial), é o cenário do banquete. Ela foi também campo de batalhas ameríndias e grandes farras antropofágicas. Numa delas, os tupinambás devoraram Francisco Pereira Coutinho, donatário da Capitania da Bahia de Todos os Santos. Itaparica foi devastada, no século XVII, pela infantaria holandesa comandada por Van Schkoppe.

Mas nem os índios nem o caboco Capiroba comiam covardes. Os rituais de antropofagia tinham um caráter que Darcy Ribeiro chama de “cultural e coparticipado”. Era imperativo capturar guerreiros que seriam sacrificados dentro do próprio grupo tupi, por exemplo.

Por compartilharem o mesmo conjunto de valores, os guerreiros aprisionados eram altivos e dialogavam soberbamente com os que se preparavam para devorá-lo. Um dos primeiros visitantes do Brasil, o alemão Hans Staden, foi levado três vezes a cerimônias de antropofagia e três vezes os índios se recusaram a comê-lo, porque chorava e se sujava, pedindo clemência.

Pequeno Ubaldo pode não se dar conta, ou até mesmo mostrar legítimo desinteresse pelas filigranas de sua gênese ficcional, mas é evidente, em Viva o povo brasileiro, que a História foi objeto de reconstituição intensiva. Ou seja, não existe a verdade, apenas histórias. E Grande Ubaldo sabe narrá-las com o exagero dos bons.

Em Berlim, onde morou entre 1990 e 1991, João Ubaldo brincou novamente com a história de que os brasileiros são antropófagos. Uma moça ficou morrendo de medo dele. Já na Holanda adoraram o trecho do livro em que ele diz que a carne de holandês é melhor que a dos portugueses.

– A dos portugueses é um pouco gordurosa.

– Por que o cidadão médio dos países mais desenvolvidos ainda suspeita que o Brasil é uma grande selva?

– Não sei. Mas é falar em Brasil e eles evocam índios e Amazônia. E ditadores militares cobertos de medalhas, gritando ordens a pelotões de fuzilamento em espanhol de acentos bárbaros e telefonando para bancos suíços. Os alemães não acreditaram que só vi dois índios na vida. Um foi o cacique Mário Juruna, ex-deputado federal. Alguns me consideraram um impostor.

– Mas não conhecer a Amazônia é o pior dos pecados, mais grave que a luxúria, não?

– É como se não pudéssemos ter filosofia, balé moderno, nada que não exprimisse o exótico.

Grande e pequeno ubaldos em geral se incomodam com os porquês do fascínio que seus livros despertam nos europeus.

– Acho que gostam da minha carmen-mirandice.

A edição francesa Vive le peuple brésilien –, por exemplo, traz na capa índios com lanças e corpos pintados nas cores azul, vermelha e branca, numa simetria que em muito remete à bandeira dos EUA. Na Suécia, o livro (acho dispensável fornecer a versão sueca para o título) vendeu mais de 100 mil exemplares. A capa: um rosto metade onça, metade mulher e olhos verdes.

– Enche o saco, não? Mas, como diz Millôr, FHC será um ótimo ex-presidente.

Conforme o ponto de vista, a imagem brasileira lá fora tem um reverso favorável. É a que mais se adequa aos que sonham descer os trópicos, esbaldar-se sob um sol interminável, tomar drinques com os ingredientes dos arranjos na cabeça de Carmem Miranda, anoitecer e amanhecer entre mulatas sem padrão de conduta. Atingir a porção sul da linha do equador significa assumir o estilo libertino reinante no Brasil. Se for Carnaval, então…

– Os homens europeus também vêm ao Brasil com medo da imagem que as brasileiras terão de seus países. Acham que a masculinidade será posta em dúvida se não iniciarem os trabalhos no bar mesmo, na chegada do primeiro martini.

Infelizes trópicos (sic) onde não existe nudez sem malícia, como na Alemanha, onde João Ubaldo testemunhou o espetáculo “espantoso” de cidadãos nus no Halensee em dia de sol e casais homossexuais se beijando impunemente. O fato não deveria ter repercussões em um sujeito capaz de uma obra “pecaminosa” como A casa dos budas ditosos (1999), sobre a luxúria.

– Em Portugal, três grandes “superfícies” (como lá chamam as grandes cadeias de lojas) proibiram o livro e não voltaram atrás. Ele vendeu muito bem, apesar de tudo, mas em outras lojas e livrarias.

Na extremidade norte da Kurfürsttendamm, ou Ku’damm, uma das avenidas mais conhecidas de Berlim, na rua Storkwinkel, número 12, João Ubaldo esteve perto de tudo, teve tudo ao seu redor, como hoje, no Baixo Leblon. Instalou-se naquela esquina logo após a queda do Muro. Em passado mais remoto, Grande Ubaldo tentou ser comunista, Pequeno Ubaldo não permitiu.

– Questão de indisciplina dogmática.

Na época da queda do Muro, os visitantes do Leste se aglomeravam nas ruas, lojas, estações e praças como crianças deslumbradas. A vida, a dos berlinenses, especialmente, tornou-se caótica para os padrões alemães.

– Em vez de visitadas, as pessoas se sentiam invadidas.

Em Berlim, o outro representava o intruso, cuja fala, modos e fraquezas eram inaceitáveis. A solidariedade, nessas horas, é pura retórica. O que estava acontecendo não era o que tanto queriam? Queriam mesmo? O fato é que ser estrangeiro é uma condição que envolve gradações.

– Fora do Brasil, não apenas sou estrangeiro como tenho cara de estrangeiro. Na França, me misturam com os árabes. Nos EUA, sou hispânico. Na Alemanha, passo por turco, e por aí vai.

Sua estrangeirice começou há mais tempo, na verdade, e dentro de seu próprio território. Com dois meses de vida, a família de João Ubaldo se mudou primeiramente para o interior de Sergipe. Seu pai foi subindo na carreira de magistrado que então o ocupava e, anos depois, foram parar em Aracaju. Quando Ubaldo começava a se sentir sergipano, teve de voltar para a Bahia.

– Sempre demarco meu território. Sair dele é traumatizante.

Em Salvador, o pai implacável mandou o pequenino Ubaldo para um desses colégios tradicionais, de alta classe – o Colégio Sofia Costa Pinto, em Salvador. O uniforme do Sofia era de calças compridas.

– Nas primeiras vezes que me mandaram para o Sofia, meteram-me em paletó, gravata, calça curta e meia até o joelho. Era patético. Nem nos colégios do interior de Sergipe os garotos se vestiam assim.

Fora leitura, estudo de idiomas e outros, o pai não lhe permitia quase nada. Grande Ubaldo conseguia, contudo, jogar futebol como zagueiro recuado e, às vezes, ponta direita, posição que formalmente não existe mais no futebol moderno.

– Meu pai não permitia que eu trancasse portas, exceto a do banheiro. Era o único lugar em que eu podia me trancar. Um dia ele me pegou falando baixinho no telefone pra ninguém me ouvir. E disse, aos berros: “Isso não é jeito de namorar, Ubaldo!”.

Em 1964, o aspirante a escritor recebeu uma bolsa de estudos junto à embaixada americana e desembarcou na Califórnia, onde fez mestrado em administração pública e ciência política. Chegou a dar aulas de ciência política na Universidade Federal da Bahia e até publicou um livro chamado Política (1981). Retornou à Bahia vindo de Los Angeles. Foi quando percebeu que havia perdido a sua turma. Todos tinham ido “fazer o Rio de Janeiro”.

Glauber Rocha e Jorge Amado, amigos e padrinhos literários de João Ubaldo, que estava “ficando desajustado na Bahia, longe da companhia dos amigos”, conseguiram para o pupilo outra bolsa de estudos, desta vez da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa.

– Não dava pra pagar nem o aluguel.

Nesse período, então, editou com o jornalista Tarso de Castro a revista Careta, o que lhe permitiu viver modestamente em Portugal com a esposa Berenice.

– Eu editava por telefone, e Portugal não tinha ligação DDI, na época. Era um inferno conseguir ligação.

Entre a volta de Portugal e 1983, instalou-se no Rio a duras penas, assumidamente fiado em Deus, ao ponto de um amigo dizer-lhe: “Ô, João, você num acha que tá fiado demais em Deus, não?”.

– Eu tava naquela situação do “ai de quem precisa”. Ou seja, quem precisa não encontra ajuda.

João Ubaldo acabou desembarcando de mala e cuia na casa de Itaparica, onde nasceu e onde seus avós maternos moraram até a morte. Nela, pôde resgatar a tão adorada combinação bermuda-sandália-camiseta; não pagar aluguel; ter escola barata para os filhos; e ainda, se precisasse, apanhar uns mariscos frescos ele mesmo. Nesse tempo, “viveu barato”, como se dizia. Só voltaria a morar no Rio depois da estada em Berlim, no tal apartamento comprado de Caetano Veloso, na rua General Urquisa, Leblon, o local do nosso encontro.

– Sente falta das “leituras públicas” na Alemanha?

– Claro que não. Imagine o sujeito chegar do trabalho e, em vez de fazer algo sensato, como tomar um drinque e convidar a vizinha para ouvir uns disquinhos, preferir uma leitura. Isso é inconcebível para nós brasileiros, exceto sob a mira de uma metralhadora.

Pois os alemães fazem isso, ou fizeram apenas para impressionar Grande Ubaldo, que detesta previsões concretas sobre o Brasil, muito menos aquelas dos relatórios econômicos extensos redigidos por consultorias internacionais. E agora tem esse negócio de risco-Brasil, número criado por uma meia dúzia de caras.

– Eles querem saber se somos de alto ou baixo risco. Ora, se se preocupam com isso é porque somos importantes, ainda que na forma de mercado ou mercadoria. Olhe, essas estatísticas não têm a menor confiabilidade.

Seriam as estatísticas dessas consultorias internacionais equivalentes à “fúria asfaltante” do senador Antônio Carlos Magalhães, criticada pelo conterrâneo João Ubaldo, “ilustre integrante da esquerda democrática”? O ex-senador, ex-governador e ex-prefeito baiano recapeou mesmo seu Estado e sua capital. No Brasil dos ubaldos, os fins justificam os meios.

Com ficcionistas é diferente. Um folclore vai levando a outro e, se não se toma cuidado, os autores morrem personagens de si mesmos. De folclores, Pequeno Ubaldo está cheio. Seu alemão, por exemplo, é “oligofrênico”, diz.

– Não falo “chonga” [bulhufas] de alemão, como dizem por aí. Inglês, sim, sei mais do que a maioria dos americanos.

Por folclore ou por competência literária – chega um momento em que não há mais como saber ao certo –, o assédio em torno dos ubaldos é imenso.

– São convites para ser patrono em formatura, dizer tolices em palestras para plateias bocejantes e outras aporrinhações. Mas, como lhe disse, tenho o problema de não saber dizer não.

Ele, que há pouco diagnosticou uma arritmia cardíaca (ou “fibrilação atrial”) e anda no vaivém com o álcool, recusou-se a produzir um reply automático e padronizado em seu programa de correio-eletrônico. Prefere algo como um “software filtrante”, ao menos para que pentelhos não consigam enviar-lhe arquivos com originais de romances anexos, contos ou crônicas cujo download pode levar horas.

– O que pretendem?

– Tudo, menos permitir que eu trabalhe.

– No Brasil, as pessoas em geral não consideram escrever uma profissão…

– Verdade. Minha própria família suspeita que não trabalho porra nenhuma.

É pai de quatro filhos: Emília e Manuela, do casamento com a historiadora Mônica Roters; e Bento e Francisca, com Berenice Batella, .

Com a pressão da chegada dos 500 anos, João Ubaldo tem recebido convites estranhos, como participar de gravações em zona rural, em meio a vacas e cavalos.

– Adoro ar-condicionado, respondo.

Há quem pense que Grande Ubaldo seja também capaz de navegar e, então, certos encontros memoráveis poderiam ocorrer dentro de caravelas – relembrando Pedro Álvares Cabral, entende?

– Repito que não sei a diferença entre bombordo e estibordo. Se preciso, consulto alguém.

Os ubaldos e suas obras têm sido alvo de desvarios que misturam barões malvados, escravas astutas, sagas luso-tropicalistas, canibais, paisagens exuberantes e histórias, muitas histórias que circulam por botecos cariocas e se imortalizam como o próprio autor – imortal, pelo menos, segundo a Academia Brasileira de Letras.

– Porra, como sou escroto. Nem perguntei se vocês querem uma água ou um cafezinho. Agora é tarde, não? Vamos indo, sim?

Texto publicado em 2000 e incluído no livro “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Persoangens e 1 Ensaio” (Manole, 2014, 3ª edição)

Artesão do consolo

Um perfil de 2001 do escritor pernambucano Gilvan Lemos (1928-2015).

Sergio Vilas-Boas

Um cidadão tímido, solteirão e autodidata circula pelas ruas do centro do Recife em horários regulares. O que se sabe é que o tal é um senhor que expõe o grisalho ao ensolarado nordestino a partir do número 105 da Sete de Setembro, uma rua descontínua e dificultada, estreitada por ambulantes que a enfeiam com restos de tudo o que civilização industrial produz sem pagar impostos.

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Gilvan Lemos, 72 anos neste 2001, é o generoso senhor que emerge e imerge silenciosamente nesse burburinho suado. Está tão dentro e tão fora do cenário que talvez ele nem perceba mais que os odores do arredor se diversificaram a ponto de não mais exalar; que as paredes descascadas dos edifícios passaram, contraditoriamente, a embelezar o cenário; que as anacrônicas grades de ferro das portas e janelas não protegem nada, embora transmitam uma doce ilusão de segurança.

No décimo-segundo andar do vaivém, os vizinhos conhecem o velho e bom Gilvan, que escreve por vício e prazer, sem martírios. Mais precisamente: escreve ficção, gênero que tem levado pernada dos tempos (os novos e os antigos) como vira-latas em porta de botequim. A literatura de ficção parece que já aprendeu a gostar de apanhar. Foi-se o tempo em que admiradores esperavam os grandes autores na porta das leiterias da Rua do Imperador, como fazia o próprio Gilvan para ver José Lins do Rego.

– Escritores eram como artistas de cinema.

Há um consolo, entre os muitos de Gilvan: os poetas de hoje estão em pior situação e são capazes até de responder mal a quem gritar “ô, poeta!”, ou mesmo sair correndo. Gilvan está salvo da suspeita de inutilidade que ronda os cabras cantadores armados de verso.

– Na fossa ou apaixonado, nunca me atrevi a escrever poemas.

Mas já publicou duas dezenas de livros, entre eles os romances Noturno sem música (1956), Emissários do diabo (1968), O anjo do quarto dia (1976), O espaço terrestre (1993) e Morcego cego (1998). Uma boa obra (quando persistente, coerente e gratificante) dissipa qualquer aura folclórica.

Gilvan é um escritor nordestino e obscuro, como ele próprio se define. Mas não cultua a reclusão. Aconteceu de desde muito cedo as negativas lhe calharem. Sua vida é feita de nãos no atacado e sins no varejo. Não o turvaram, por exemplo, os holofotes da fama; não o seduziram os movimentos, os encontros, as conferências, os debates e as noites de autógrafos (nem as de seus livros); tampouco as academias e sociedades de letras; nunca teve os amigos certos, os pistolões, as cartas de recomendações, os QIs; diplomas escolares, apenas o do curso primário – isto por culpa da oportunidade, ou melhor, da falta de.

Filhos? Não. Esposa? Não também. Parou de fumar? Para sempre, não.

Nada de incompatível, nada de inviável até aí. Outros nãos melhores se impuseram às margens do Rio Capiberibe, que pode ser visto da janela do apartamento de Gilvan em Recife: o atacado não lhe pesa nos ombros; as demoras para obter sins, por correio ou telefone, não ferem sua dignidade; o silêncio às vezes ignorante dos críticos não arranha sua lentidão certamente incomum nesses tempos em que é preciso ficar tagarelando sobre a própria auto-imagem, engolindo a previsibilidade dos metiers a fim de obter um espaço de divulgação literária que vem sendo reduzido num crescendo.

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Quer saber? Gilvan é um sujeito resoluto:

– Minha capacidade de influenciar pessoas ou fazer amigos é nula. Perdi a esperança de ser famoso, passou minha vez.

Mas ele diz isso entre dois risos ingênuos, tendo o auto-retrato na parede da sala como segunda testemunha. O auto-retrato também vê o Capibaribe, e daqui quase dá para ver o atual prédio do INSS (antes IAPI, depois INPS), onde Gilvan trabalhou décadas até aposentar-se (1980) e poder apenas ler e escrever, o que de melhor a escola pôde lhe ensinar nos anos 1930.

A vida de funcionário público o poupou dos calos que marcam a maioria de seus contemporâneos de São Bento do Una, onde nasceu, em 1928. Naquele tempo a lenha estalava no fogo, areavam-se as panelas até virarem espelho, mulheres transitavam com trouxa de roupa na cabeça, bacamartes estrilavam à toa.

Os calos de Gilvan são de outra natureza. São de labutar com as palavras desde muito cedo, de lutar pelos meios, não pelos fins, de começar ilustrando revistas de histórias em quadrinhos com pena comum e tinta Sardinha. O garoto caçula dos cinco irmãos já desejava piamente virar autor e desenhista de histórias em quadrinhos. Optar pela escrita foi conveniência.

– Era mais fácil porque não precisava desenhar.

A mãe costurava tendo sempre ao lado da máquina algum romance clássico, que Gilvan apanhava de em vez em quando como bisbilhoteiro mirim.

Aos 15 não precisou mais interromper as leituras da mãe. Empregou-se no escritório de uma fábrica de laticínios da qual um dos sócios era o pai do cantor e compositor pernambucano Alceu Valença. O salário era consumido em livros pedidos via reembolso postal. Dos brasileiros, leu primeiro José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Lúcio Cardozo. Em São Bento do Una não tinha biblioteca, nem jornal, nem livraria.

– Só um cineminha com três sessões por semana.

São Bento do Una, agreste meridional de Pernambuco, entre Caruaru e Garanhuns. Duzentos e trinta e nove quilômetros do Recife. Lá havia muitas cobras. São Bento é o santo delas, as cobras. Una é o nome do rio que deveria banhar a cidade. Não o faz mais porque padece de secura. Curioso (para as gentes do centro-sul) que frentes frias possam importunar o inverno de uma cidade naqueles paralelos equatoriais.

– Pois a temperatura em São Bento do Una pode chegar a 10 graus!

gilvan7Nos anos 1940, a viagem até o Recife custava um dia inteiro. Enfrentavam-se cabras e lagartos. Para um aspirante a escritor, ir para a capital era destino encouraçado. Mas, até chegar o infalível dia, era preciso contornar as carências culturais e materiais de seu mundo. Gilvan diz que tem saudade da terra natal. Mas vivia contrariado lá: tinha a doença dos seus olhos, a pobreza da família, a cidade atrasada, a falta de estudos e de perspectivas. Salvou-se lendo; lendo e escrevendo.

– Lia e escrevia desordenadamente, orientado apenas por minha irmã mais velha, que era um pouco menos ignorante do que eu. Foi ainda em São Bento do Una que publiquei meu primeiro conto na revista Alterosa, de Belo Horizonte, e me tornei gênio municipal.

– Ficou badalado? – perguntei, discretamente.

– Sim. Passei a escrever crônicas para o serviço de alto-falantes da cidade. Vivia sob uma ansiedade tremenda, sonhando e sonhando em ser escritor.

– Um escritor por todos os poros?

– Não, era só por dentro. Por fora eu era um rapazola normal. Participava dos bailes do União e jogava de ponta-direita no Comércio Sport Club.

Gilvan saiu de São Bento do Una aos 21 anos, sem nenhum lastro cultural, sem curso ginasial (muito valorizado na época), sem convivência literária ou experiência de vida metropolitana. Chegou no Recife com 21 anos incompletos e estranhou.

– Ganhava pouco na Sul América Seguros de Vida e me faltava uma convivência afetiva. Desde 1952 passei a pertencer aos quadros do ex-IAPI, onde ingressei por concurso público. As finanças também melhoraram. Só a partir de 1956, com a publicação do meu primeiro romance [Noturno sem música], comecei a me relacionar com gente da literatura.

gilvan4]Nem os sumidos escapam do esbarrão de algum titã literário. Gilvan trombou com dois que tiveram grande importância em sua vida: o escritor também pernambucano Osman Lins (1924-1978) e o ex-diretor da editora Civilização Brasileira, Ênio Silveira (1925-1996). Ambos o apadrinharam espontaneamente, sem maquinações.

Sabe esses prêmios literários que não repercutem (um problema que não pode ser só dos prêmios) no Brasil? Pois nos anos 1950 repercutiam um pouco mais. Um desses prêmios – o da Secretaria de Educação de Pernambuco, em 1952 – chocou-o com Osman Lins, seu ídolo, no segundo lugar da classificação geral.

Quatro anos depois, quando Noturno sem música foi lançado, Osman escreveu em O Estado de São Paulo este outro bem-guardado consolo: “Dentre todos os romancistas novos que conheço, Gilvan Lemos é talvez o que parece mais prodigamente dotado. É um dos pouquíssimos romances de autor novo que merece leitura e comentário”.

Antes de deixar São Bento do Una, Gilvan cogitou de ir direto para o Rio de Janeiro. A mãe o amedrontou: você vai sofrer muito; além de perigoso, tem a tuberculose. Presta atenção, Gilvan, ou você vai pegar tuberculose! Praga de mãe é fogo à lenha. O submisso Gilvan acabou mudando de idéia.

– Eu então ficaria no Recife mesmo. Por uns anos, até me adaptar à vida em cidade grande. Depois, sim, iria para o Rio.

Em 1953, houve a perspectiva de uma permuta com um funcionário do IAPI interessado em se mudar para Recife. Mas a notícia do câncer da mãe veio quase junto. Gilvan ficou – está – no Recife, e sem condições de evitar alguma forma de reconhecimento pelo que produziu até hoje.

– Se digo que perdi a vez de ser famoso não me refiro a obter dinheiro ou bajulação. Apenas gostaria de não ter de me preocupar se meus livros serão publicados e quando. Esse tipo de espera, na idade em que estou, é torturante.

Depois da publicação de Morcego cego (1998) pela Record, Gilvan contava que seu sarcástico Vingança de desvalidos fosse para o prelo em seguida. Não foi. Luciana Villas-Bôas, diretora editorial da Record, ligou dizendo que, tendo em vista aquelas séries incontáveis de milhões de acontecimentos, só seria possível publicá-lo em 2004 (estamos em 2001, lembrem-se).

– Estarei muito mais velho até lá.

Gilvan achou que Vingança de desvalidos não devia esperar muito porque trata de tema atual. Preferiu então conceder os direitos autorais a uma editora do Recife. Publicaram a obra que ilustra em linguagem chula as agruras da classe média, os apertos, a desesperança ao final da era FHC. A obra tem sabor popularesco. A vingança está em se reunir habitualmente na Leiteria Vitória para beber cerveja e falar mal do governo.  Irônico, cáustico e rude, como Gilvan talvez jamais seja na vida. Ele parece incapaz de vingar uma mosca.

– Tinha de ser em linguagem rude. Colhi as críticas nas ruas, prestando atenção nas pessoas.

De modo geral, seus livros não seguem esquematismos. Gilvan não se curva às vertentes memorialísticas, aos desgastes do embate ideológico, à matriz do paternalismo político, ao maniqueísmo rasteiro, às revoltas organizadas por jagunços e às bárbaras repressões dos coronéis.

A antropologia do tempo, porém, lhe inquieta. O ótimo Espaço terrestre, por exemplo, é uma irresistível história de várias gerações de uma família luso-tropical que funda Sulidade, misto de São Bento do Una e Macondo. O que prevalece, entretanto, é o fulcro de uma espécie de Casa Grande & Senzala Pré-Terceiro Milênio.

Há os chistes, os sujeitos desalmados, relevos, vegetações, fauna, flora e geografia próprias. Mas sem releituras pós-modernas. Por que inventar demais se, na verdade, pouca coisa mudou muito? Tem isso, o Brasil é um país imenso que sobrevive estreitado. Sazonal em seu desenvolvimento, o país de Gilvan sofre de secura como o rio Una. A diferença é que às vezes transborda. A ficção de Gilvan Lemos lida com um Nordeste atrasado em itens já resolvidos até nos grotões do Centro-Oeste.

– O mais confortável, para mim, é o neo-regionalismo autobiográfico, sem pretextos políticos.

Para os padrões de hoje, é uma equação de resultado (comercial) difícil. Não se trata de fartura ou escassez de leitores. Houve um tempo em que ser escritor, e nordestino, e regionalista, e realista, e crítico social, era moeda de troca. Não mais. Ainda que não morem na periferia, são periféricos os escritores nordestinos (e não só os nordestinos) que hoje tematizam a desigualdade social em plano pré-industrial. Não viram mercadoria, contudo. Fica-se na intrigante condição simultânea de vivos e mortos. Consolo ou desconsolo?

O mundo entrou no Recife como um trator, mas a originalidade da cidade continua solta, alimentada pelos mesmos mitos e coronéis que a sufocam. A história do estado remói idealismos, violências e frustrações. Pernambucanos já tentaram formar um país. Gilvan, a rigor, não deseja inventar nada. Não é do seu feitio.

– Não me proponho a desvendar nem a linguagem, pra você ver. Ou então é porque depois de certa idade vive-se para trás. E vive-se mesmo. Te falo isso por experiência própria.

Digamos que, proporcionalmente, o atual número de leitores de ficção equivalha ao mesmo número dos anos 1950. Nada mal, mas hoje há mais autores que editoras, mais editoras que livrarias, mais títulos que leitores, mais livros que espaço para acomodá-los nas estantes e na mídia.

– Os cadernos culturais daqui tratam de cultura em demasia. Só que, para esses cadernos, cultura é apenas exibições de bandas de toda espécie, rodas de coco, concertos de rabecas, bumba-meu-boi pastoril, tchan, cantorias recitadas etc. Ou seja, pouco ou quase nada sobre livros.

– No entanto, todo dia aparece um autor.

– Todo santo dia – brinca. – Incrível.

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Abrindo um pouco mais o leque do calendário cristão, encontra-se por acaso uma justificativa longínqua possível para o celibato de Gilvan. Sua infância-pátria foi marcada por uma doença nas vistas – “conjuntivite primaveril”, segundo o povo. Até mudar para o Recife e tratar-se, não tirava os óculos escuros. A luminosidade curvava o escritor. Cílios caíam, pálpebras inchavam, o globo lacrimejava.

– Tinha vergonha dos meus olhos e, por receio, não me arriscava muito com as moças. Fui envelhecendo. A partir de certa idade, um homem começa a adquirir manias. Aí é difícil. Hoje acordo cedo todos os dias, mas com a maior raiva do mundo.

Antes de se aposentar, Gilvan sonhava poder ficar mais tempo na cama. Acontece que com o tempo também o sono vai ficando incompleto. Não “anda para trás”, como quando se está velho, mas a gente acaba acordando até quando não quer. Fico pensando onde se escondem as demais pessoas modestas, singelas e generosas como Gilvan. Ele existe mesmo? Puts, me esqueci de descrevê-lo fisicamente. Ai de mim. (2001)

Texto publicado em 2000 e incluído no livro “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Persoangens e 1 Ensaio” (Manole, 2014, 3ª edição)