Caverna em Cartagena

Um perfil de 2000 do escritor colombiano Gabriel García Márquez, morto em 17/04/2014.

Cartagena das Índias é uma das cidades históricas mais bonitas da América do Sul. Uma brisa refrescante atravessa seu entardecer duradouro, às vezes acompanhado de gotas pesadas de chuva que só fazem elevar as temperaturas. É lugar para quem não se deixa enganar por compromissos e horários; para quem se diverte com intuições mais do que com elaborações sofisticadas; merece cânticos históricos e até os mais fantasiosos romances impressionistas.

Pelas calçadas das ruas estreitas, rodeadas de edificações coloniais , crianças e adultos jogam dominó, xadrez, damas, ou sentam-se à porta de casa para conversar fiado com os vizinhos enquanto o calor e a umidade do ar lhes empapam a roupa minimamente necessária; os rádios das bodegas reproduzem a todo volume os ritmos cubanos, a salsa porto-riquenha, boleros, a cumbia e o vallenato colombianos. Carruagens inventam tours, táxis caçam passageiros e ambos poluem. As barbearias servem às lamentações masculinas tanto quanto as rinhas de Ninguém escreve ao coronel (1968).

A essa altura, existem dois Gabos na cabeça de cada colombiano, um real e um virtual. Para muitos escritores, ele é o modelo do que querem ser. Para muitos leitores, uma espécie de amigo com o qual se comunicam por meio dos livros. Como ele é um gestor de boas ações em diversos temas – paz, Cuba, direitos humanos, libertação de sequestrados, etc. –, e o faz geralmente em segredo, as pessoas imaginam histórias sobre coisas que Gabo fez e decidem que tal e tal coisa foi feita por ele. Algumas vezes é verdade; noutras, ninguém sabe, mas os colombianos gostam de imaginá-lo assim.

Gabriel García Márquez possui uma ampla casa em Cartagena, exatamente ao lado do antigo convento Santa Clara, erguido em 1617. As muralhas da cidade-forte separam a casa do mar, mas não roubam a vista oceânica do pavimento superior, onde fica o escritório. Cartagena, alvo de incontáveis ataques de piratas no passado, é também um dos mais importantes cenários das obras de Gabo.

O amor nos tempos do cólera (1985) expõe signos urbanos facilmente localizáveis na cidade, incluindo alguns pontos turísticos, como a Torre del Reloj e o Portal de los Dulces, onde os personagens Florentino Ariza e Fermina Daza se encontram pela primeira vez e, a partir de então, atam-se por mais de meio século.

De amor e outros demônios (1994), por sua vez, é inspirado em reportagem escrita pelo próprio Gabo em outubro de 1949. À redação do diário El Universal havia chegado a informação de que iriam esvaziar as criptas funerárias do antigo convento Santa Clara, hoje convertido em hotel cinco estrelas.

Eram três gerações de bispos, abadessas e outros personagens notáveis dos tempos em que Cartagena era a residência dos vice-reis do Novo Reino de Granada. O jovem jornalista de 20 anos percebeu que a notícia estava no terceiro nicho do altar-mor. Aberta a lápide, uma cabeleira viva, cor de cobre intensa, se espalhou para fora da cripta. Era a cabeleira de Sierva María de los Angeles, e tinha mais de vinte metros de comprimento.

Cartagena não supera Macondo como espaço ficcional declarado, obviamente. Macondo é o mais precioso mosaico mágico-realista do Caribe. Mas Cartagena, como capital do reino de influências do autor, ajudou a inspirar a própria Macondo: mulheres de seios fartos pedindo passagem e equilibrando, na cabeça, bacias de frutas; negrinhos empurrando carroças de verduras, e picolés, e cocadas, e arroz de coco, e empanadas, e rum; mulatas de cabelos alisados desfilando em microssaias; mulatos com chapéus a la Compay Segundo; flertes entre olhos amendoados. Todos carregam o remexido odor multitudinário mencionado em O enterro do diabo (1957).

– Gabito adora se meter nessa coreografia – garante o orgulhoso Jaime García Márquez, oitavo dos 11 irmãos.

Mesmo antes da conquista do prêmio Nobel (1982), a identificação dos costenhos com Gabo era total. Depois do prêmio, García Márquez tornou-se patrimônio de todos os colombianos. Todos se sentem um pouco donos do prêmio, como das vitórias da seleção de futebol, dos ciclistas que vencem provas de montanha no Tour de France ou do ídolo do automobilismo Juan Pablo Montoya.

Por sua fama e por seu estilo nada acadêmico, Gabo deixou de ser patrimônio apenas de intelectuais. Virou ícone, e não por acaso há grafites nas ruas com mensagens para el maestro e retratos dele em cantinas populares. Maurício Vargas, companheiro de Gabo na revista semanal Cambio, acha que ele elevou a Colômbia perante o mundo, algo muito valioso para um país conhecido mais pela guerra civil e pelo narcotráfico.

Jaime mal começara a dar os primeiros passos quando os pais mandaram o primogênito Gabo para a altiplanície de Bogotá, a 2,6 mil metros de altitude e mil quilômetros longe do mar. Em comparação com os costenhos, os bogotanos são sisudos, desconfiados, conservadores. Andam apressados e se acham superiores.

O clima de Bogotá é predominantemente frio e de pressa, muita pressa. Em Cartagena, ao contrário, o tempo é moroso, utilizado sem ansiedades ou culpas. Pode-se gozá-lo tão pagãmente quanto possível. A cidade é um sacrilégio à teologia da produção, mas fornece um calor – humano e climático – insuspeito.

Em Bogotá, Gabo se sentiu sozinho e fora de lugar. Mas dois fatores contribuíram para o florescimento de seus talentos. O primeiro foi o internato, que o forçou a enfrentar a solidão com longas leituras. Em segundo lugar, o Bogotaço, que o levou a retornar a Cartagena na primavera de 1948. Em abril daquele ano, assassinaram na rua o então candidato favorito a presidente Jorge Eliécer Gaitán, do Partido Liberal.

O episódio gerou uma onda de violência e revolta conhecida como Bogotaço, que contaminou o país. Cerca de 300 mil pessoas – camponeses em sua maior parte – seriam mortas ao longo das duas décadas seguintes. Resultado: a partir dos anos 1980, havia tantas fontes de violência na Colômbia que as vítimas se confundiam sobre a origem e a identidade dos agressores.

Durante os enfrentamentos que se sucederam ao assassinato de Gaitán, não pouparam a pensão onde o jovem Gabriel García Márquez morava. O edifício inteiro foi incendiado. O então aspirante a escritor e jornalista, tendo na época apenas alguns contos publicados no El Espectador, guardou numa maleta o que restou de sua passagem pela capital: livros de seus autores mais admirados (Kafka e Faulkner, principalmente) e originais seus.

Gabo soube retratar e engajar em sua obra estas e outras circunstâncias. Ao mesmo tempo, e conscientemente, interpretava a história e difundia na Colômbia um alerta contra a polarização radical. Sua transferência da invadida Universidade Nacional para a Universidade de Cartagena, onde continuou por algum tempo o curso de Direito (não concluído), foi decisiva.

Na cueva (caverna) do Mercado Público, na Calle San Juan de Dios, em Cartagena, imperavam os relatos orais e a abertura de espírito próprios da tradição costenha. García Márquez se encantava com a extravagância divertida e a sabedoria tácita dos ambientes populares que lhe seriam preciosos no campo da arte.

As reuniões na cueva eram comandadas por mestre Clemente Manuel Zabala, chefe de redação do El Universal, de Cartagena. Gabo e Zabala bebiam e comiam em extensas mesas ao ar livre, acompanhados de pescadores, prostitutas, vagabundos e intelectuais. Zabala havia lido os primeiros contos do pupilo e, em pouco tempo, este conquistaria um espaço próprio no jornal – a coluna diária “Punto y aparte”.

Em Como aprendió a escribir García Márquez (1994), o pesquisador cartagenero Jorge García Usta conta que, em Cartagena, não havia submissão a nenhum tipo de influência cultural:

– O jovem García Márquez encontra em Cartagena um grupo possuidor de uma diversidade cultural e uma capacidade de criação assombrosas, que sabe conjugar a ânsia de ruptura com um rigor maduro e esclarecedor.

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Paris, 1966. Gabo era então um desempregado correspondente do El Espectador. Apesar do aperto financeiro, não tirava os olhos dos seus sonhos. Posta uma carta endereçada ao irmão Jaime. Pede averiguações em Ciénaga, uma das cidades do Caribe colombiano. Quer confirmar informações necessárias para Cem anos de solidão, a bíblia de alguns de seus irmãos e de muitos dos que manuseiam as mais de 30 milhões de cópias espalhadas pelo mundo, traduzidas para 36 idiomas.

Uma de suas inquietudes era sobre a matança em praça pública dos trabalhadores das plantações de banana da United Fruit Company, em 1928, em Aracataca, exatamente no ano e na cidade em que el maestro nasceu. O episódio, de suma importância para a compreensão da persistente violência na Colômbia, é um de seus fantasmas de infância.

Até os mais rigorosos historiadores caribenhos reconhecem que García Márquez forneceu uma versão convincente da greve e de como ela foi reprimida. A economia de Aracataca, como a de toda a região costenha, foi dominada pela United Fruit Company no começo do século .

O governo da época suprimiu todas as informações sobre a matança descomunal. Praticamente nada havia sido escrito sobre ela, até que García Márquez a reconstituiu no episódio culminante de Cem anos de solidão, em que trabalhadores são metralhados.

Na carta, Gabito pedia a Jaime, entre outras coisas, uma confirmação sobre o que disse o capitão que se dirigira à multidão naquele dia. Era uma dúvida, na verdade. O capitão havia dito “têm cinco minutos” ou “têm um minuto” para se retirar? Ditas a uma multidão, ambas as falas denotam uma crueldade implacável, e não fazem grande diferença em se tratando de uma obra de ficção. Mas Gabo queria o registro correto.

Lido o decreto, no meio de uma ensurdecedora vaia de protesto, um capitão substituiu o tenente no teto da estação e, com um megafone de vitrola, fez sinal de que queria falar. A multidão voltou a fazer silêncio.

– Senhoras e senhores – disse o capitão com uma voz baixa, lenta, um pouco cansada – têm cinco minutos para se retirar.

A vaia e os gritos repetidos afogaram o toque de clarim que anunciou o princípio do prazo. Ninguém se mexeu.

– Já passaram os cinco minutos – disse o capitão no mesmo tom. – Mais um minuto e atiramos. (p.290)

Quando Jaime abriu o seu exemplar de Cem anos e leu a passagem acima, emocionou-se.

– Aquela era a minha contribuição para o livro – lembra. – A frase mais famosa da América Latina, brincou comigo o Gabito.

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Gabriel García Márquez atingiu uma grandeza incômoda para muita gente na Colômbia. Além do prêmio Nobel em 1982, honra compartilhada e fator de autoestima nacional, ele revigorou o jornalismo em seu país. Em dezembro de 1998, virou acionista majoritário da revista semanal Cambio, premiada pela cobertura intensiva e interpretativa que vem fazendo da guerra civil que já dura quase 50 anos.

Retiraram de Gabo um tumor cancerígeno do pulmão e, em junho de 1999, diagnosticaram um câncer linfático, ocultado da imprensa durante meses. Antes do diagnóstico, García Márquez estava debilitado e entrou em depressão. Enfrentou a quimioterapia, perdeu o vigor da aparência. Recuperou-o. Mudou-se para Los Angeles, seu recém-descoberto refúgio, para garantir o anonimato e poder continuar escrevendo Viver para contar, suas memórias. O primeiro volume já foi lançado.

Depois de vários meses de ausência em função dos tratamentos médicos e quimioterapia, Gabo voltou a escrever, em Cambio, a coluna “Gabo responde”, cujo tema pode ser uma demanda específica de algum leitor. São milhares de cartas, segundo Maurício Vargas.

No artigo “O amante inconcluso”, por exemplo, relato jornalístico sobre seu encontro com Bill Clinton, Gabo aproveita para desempenhar outro papel, o de embaixador literário da América Latina na Casa Branca:

“Faulkner nos levou a perguntar outra vez sobre as afinidades entre os escritores do Caribe e a plêiade de grandes romancistas do sul dos EUA. Pareceram-nos mais que lógicas, se levarmos em conta que, na verdade, o Caribe não é uma área geográfica circunscrita ao mar, mas um espaço histórico e cultural muito mais vasto, que abarca desde o norte do Brasil até a concha do Mississippi. Mark Twain, William Faulkner, John Steinbeck e tantos outros seriam, então, caribenhos por direito próprio, como Jorge Amado e Derek Walcott”.

Ele foi várias vezes convidado por Bill Clinton para ir à Casa Branca. Amigos, familiares e documentos confirmam que a presença do Nobel nos corredores dos Clinton nunca teve como objetivo apenas irmanar as literaturas das três Américas, mas também incentivar acordos negociados entre guerrilha e governo colombiano.

Em igual medida, o escritor sempre trabalhou no sentido de conseguir alguma melhoria nas relações dos EUA com Cuba. García Márquez continua amigo íntimo de Fidel Castro, e as acusações feitas a Fidel têm recaído também sobre as costas do escritor, hoje pejorativamente considerado um social-democrata ao estilo europeu. “Com um comunista dentro do coração”, rebatem seus fiéis escudeiros.

Sobre as costas de Gabo recaem também a imagem deteriorada da Colômbia no exterior e o que essa imagem representa para os mais jovens. Tudo isso pesa uma tonelada. Em Por un país al alcance de los niños, o escritor propõe que se canalize para a vida a imensa energia criadora que, durante séculos, os colombianos consumiram em depredação e violência, e que se abra, ao final, uma segunda oportunidade sobre a terra, a oportunidade que não teve a desgraçada estirpe do coronel Aureliano Buendía em Cem anos de solidão.

Na verdade, Gabo é um gerador de constâncias, característica que o diferencia do costenho típico. Nos bastidores, é frequentemente chamado a intervir nas negociações de paz entre governo e guerrilhas. Costuma se autodenominar o último otimista do país.

Utilizou também seu prestígio internacional para criar, em 1995, a (FNPI), um centro de formação complementar para pequenas turmas de jornalistas (recém-formados ou não). A fundação, mantida por Unesco, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e empresas privadas, não por acaso fica em Cartagena, na mesma rua San Juan de Dios, a da cueva del mercado.

Jaime García Márquez, que há quatro meses foi chamado para compor a equipe de direção da FNPI, conta que o Proyecto Aracataca de desenvolvimento de vocações precoces em crianças de 4 a 10 anos foi uma ideia de Gabito.

– Crianças são uma obsessão para ele.

Essa obsessão se insinua de várias formas, como neste trecho de texto escrito para a Unesco: “Creio que se nasce escritor, pintor ou músico. Se nasce com a vocação e em muitos casos com as condições físicas para dança ou teatro, e com um talento propício para o jornalismo impresso, entendido como um gênero literário, e para o cinema, entendido como síntese da ficção e da plástica. Neste sentido, sou platônico: aprender é lembrar. Significa que quando uma criança chega à escola pode ir já predisposto pela natureza desses ofícios, ainda que não o saiba. E talvez não o saiba nunca, mas seu destino pode ser melhor se alguém ajudá-la a descobrir”.

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Cartagena se converteu em lar de diversas gerações da saga dos García Márquez, incluindo a quase centenária “Mamãe Grande” Luisa Santiaga Márquez Iguarán. Os familiares são os mais passionais admiradores de Gabito. A família está dividida em três grupos: os gabólogos, conhecedores e experts na obra do ilustríssimo, caso do caçula Eligio Gabriel; os gabistas, seguidores incondicionais, como os irmãos Luis Enrique e Gustavo; e os gabiteros, torcedores furibundos de Gabito. Jaime pertence ao terceiro grupo.

– O que mais gosto nele é a transcendência.

O caçula Eligio Gabriel, , como ele mesmo diz, foi um escritor assombrado pelo irmão mais velho. Por coincidência – ou talvez um sinal de que a literatura de Gabo não tem nada de fantástica –, Eligio também lutou contra um câncer.

– Não tenho nada a ver com o realismo mágico de Gabito – me disse Eligio, com uma ponta de alegria e amargura.

Apesar das crises existenciais de qualquer caçula – de quem não se espera o máximo, menos ainda quando se tem o mais velho como ídolo insuperável –, Eligio realizou um sonho antigo: concluir Tras las claves de Melquiades: historia de Cien Años de Soledad (Bogotá: Editorial Norma, 2001), sobre a gênese e o tempo de Cem anos de solidão.

– O que encanta o mais velho, encanta o mais novo. É a síndrome do irmão menor – ironiza o caçula (Eligio Gabriel García Márquez, físico e jornalista, faleceu aos 54 anos, em junho de 2001).

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A primeira extensa biografia de Gabo – a segunda é a do inglês Gerald Martin – explora pouco esse caráter lendário do escritor. Em Viagem à semente, o colombiano radicado em Madri Dasso Saldívar se deixa obcecar pela gênese criativa de seu biografado. Dasso se ocupa de saciar seu desejo de narrar os contextos que culminaram com o lançamento de Cem anos de solidão. Retrata, então, um indivíduo valente, perseverante, resoluto e incansável, o oposto dos costenhos que neste momento me olham passear pelas ruelas de Cartagena.

Manuel Zapata Olivella, um dos pioneiros no estudo da cultura negra do Caribe, acha que os costenhos são constantes em ser e inconstantes em fazer; mais amantes da terra natal que da pátria; soldados aguerridos na guerra e maus combatentes na paz. Os colombianos do altiplano os consideram preguiçosos, desleixados, soltos demais na vida. Por natureza, os costenhos se entregam a suas paixões. Gabriel García Márquez também se entrega às paixões, mas com a preocupação de fazê-las perdurar.

Em 1985, o escritor encabeçou a criação da Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano, que gerou a Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, 35 quilômetros a oeste de Havana, em Cuba. Na escola já se graduaram centenas de estudantes do chamado Terceiro Mundo. A fundação luta a duras penas para formar e aperfeiçoar profissionais, a fim de garantir, pelo financiamento e distribuição, a continuidade do cinema em países mais pobres.

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Os teimosos Florentino Ariza e Fermina Daza, de O amor nos tempos do cólera, cultivaram a paixão durante mais de 50 anos. García Márquez, por sua vez, cantou vallenatos em Paris para ganhar uns trocados enquanto escrevia Ninguém escreve ao coronel. Por sorte, naqueles tempos duros contava com a saborosa ilusão de ter a descendente de egípcios Mercedes Barcha, seu amor “para todo o sempre”, esperando-o na Colômbia.

– Na Europa, Gabito conheceu italianas, espanholas, francesas, alemãs, mas nunca deixou de pensar em Mercedes; cartas iam e vinham, e o pouquinho que lhe sobrava era para os selos – conta , que tem uma promessa feita ao Cristo de la Villa para a plena recuperação de Gabo.

– Mercedes é organizada, capaz de resolver todo tipo de problemas domésticos, a começar por uma eventual falta de comida – confirma Jaime.

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Na Colômbia, o catolicismo convive com o desequilíbrio; a democracia, com a guerra civil; a guerra civil, com o narcotráfico; o narcotráfico, com a injustiça social; e esta, com a corrupção e a impunidade; as crianças, com a omissão; os García Márquez, com seus fantasmas ancestrais.

Gabo recortou um fragmento de tempo e o dotou de significação e permanência. Traduziu o absurdo que atormenta qualquer sonhador mais ou menos lúcido. Nisso, ele tem sido um caribenho autêntico. Mas é um idealista cujos sonhos são sua única realidade. Se sua obra é datada, como argumentam alguns críticos, isso é uma outra história.

Como diz :

– O destino é pertinaz, ninguém o distorce: o que há de ser, é.

Texto publicado em 2000 e incluído no livro “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Persoangens e 1 Ensaio” (Manole, 2014, 3ª edição)