Rigor avesso à redenção

Resgatada por Jonathan Franzen, a escritora Paula Fox, 89 anos,
ganhou uma segunda chance de exibir sua excepcional coerência interna.

 Sergio Vilas-Boas
Rascunho“, fevereiro/2012

O especialista literário – de preferência renomado – disposto a compreender, digerir e abonar espontaneamente autores “novos” continua sendo uma peça tão rara quanto necessária no mercado editorial. Por outro lado, é uma iniciativa de alto risco, muitas vezes exercida no ápice do entusiasmo, e não garante sucesso e tampouco longevidade a ninguém. Obras avalizadas por medalhões podem ir parar no fundo do poço.

O contrário também ocorre, e com mais freqüência do que se imagina: livros de qualidade sugados pela máquina de moer carne ficam fora de catálogo por décadas e, do nada, terminam resgatados do tal poço e restituídos aos leitores. Aconteceu com Paula Fox, escritora americana de 89 anos, redescoberta em 1991 pelo então promissor – e hoje aclamado – Jonathan Franzen, autor de “As Correções” (2001) e “Liberdade” (2011), sobre os quais escrevi neste “Rascunho” de setembro último.

Resgatada por Jonathan Franzen, Paula Fox ganhou uma “segunda vida” literária.

Em seguida o autor-queridinho da América descobriu que o livro estava fora de catálogo havia décadas. Em um artigo para a revista “Harper’s” de abril de 1996 sobre a persistência da leitura literária em um contexto de onipresença e distração tecnológicas, Franzen menciona Paula Fox várias vezes. O texto foi incluído na coletânea “How to Be Alone” (2002), inédita em português, com o título “Why bother?”.

Franzen se identificou com os protagonistas de “Desesperados”, o romance que a Companhia das Letras lançou no Brasil em 2007, dois anos antes de a Record publicar “Pobre George”. Na visão de Franzen, a atmosfera de desespero que afeta o casal (Otto e Sophie) Bentwood em “Desesperados” durante a Guerra do Vietnã era a mesma que o afetara durante Guerra do Golfo (1990-1991), no governo de George Bush, pai, quando o chauvinismo parecia renovado.

Um editor chamado Tom Bissell leu o ensaio de Franzen e localizou Paula Fox. Daí em diante, tudo é história escrita por várias mãos, como tendem a ser, aliás, todas as fabricações de marketing, pelo bem ou pelo mal. Com seus romances republicados, Paula Fox pôde desfrutar sua segunda carreira, acompanhada de uma espécie de “segunda natureza”. “Por que eu nunca tinha ouvido falar dela?”, perguntou-se a jornalista Lynne Tillman ao ouvir Fox lendo um trecho de “Os Filhos da Viúva” (1986) no National Arts Club em 1999.

Livros nascem e morrem estranhamente, com trajetórias tão erráticas quanto a própria vida humana. As chances de um leitor encontrar a ficção que irá mudar sua vida – como Jonathan Franzen diz ter sido alterado pela leitura de “Desesperados” – são aleatórias e mínimas. A “grande” e a “pequena” literatura desaparecem a cada minuto sem deixar vestígios. Ficcionistas e aficionados, portanto, são exumadores de plantão, e não raro uns acabam servindo de muletas para outros, ou para editores e editoras incapazes de ousar.

Ponto a ponto

Paula Fox escreveu seis romances, duas narrativas autobiográficas e 22 livros infanto-juvenis. Os quatro romances hoje dela disponíveis em português – “Desesperados” (2007), “Pobre George” (2009), “A Costa Leste” (2010) e “Os Filhos da Viúva” (2011), pela ordem de lançamento no Brasil – contam com introduções e/ou posfácios explicativos, assinados por gente da área (um deles foi escrito por Jonathan Franzen, claro). A sensação de que esses quatro livros não perdurariam se contassem apenas com a assinatura da autora é inevitável.

Se os fatores envolvidos no processo de resgate de uma obra ou autor são serendipitosos, pergunto-me: o que há nesses quatro romances que comprova a qualidade dessa escritora? “Deveríamos ter com eles [os romances] a mesma familiaridade que temos com obras similarmente brilhantes de contemporâneas de Fox como Iris Murdoch, Muriel Spark e Flannery O’Connor”, escreveu Andrea Barrett no posfácio de “Os Filhos da Viúva”. “No entanto, por algum motivo eles ainda não entraram no cânone da mesma maneira.”

Esse entusiasmo todo, de tão exagerado, ofusca os valores (abundantes, mas não inquestionáveis) de Fox. Vejamos primeiramente “Os Filhos da Viúva”, recém-lançado. A narrativa se debruça sobre laços familiares intensos e secretos. Compacto, o livro é feito de sete capítulos de tamanho desigual, laconicamente intitulados “Bebidas”, “Corredor”, “Restaurante”, “O mensageiro”, “Os irmãos”, “Clara” e “O funeral”.

Poucos personagens compõem o elenco: Laura Maldonada Clapper, uma mulher fútil, desgastada e controladora, casada pela segunda vez com o frouxo e beberrão Desmond. Clara (tímida e extremamente autocrítica) é a filha do primeiro casamento de Laura; Carlos, irmão de Laura, homossexual assumido e crítico de música fracassado; o velho amigo de Laura, Peter Rice, editor livros aos quais não aprecia. Há ainda uma espécie de “personagem-sombra”: Alma, a mãe de Laura, a matriarca.

Alma Maldonada, de origem espanhola, vive em um asilo. Vivia, melhor dizendo, porque ela morre na véspera da viagem de Laura e Desmond para a África, o ponto exato em que a narrativa se projeta, aliás: o encontro de bon voyage em Nova York do casal com Clara, Carlos e Peter começa no quarto do hotel, continua pelas ruas e atinge um restaurante pomposo, onde a tônica dos diálogos é a superficialidade e a dissimulação.

Laura é a única que obteve a notícia da morte de Alma, mas esconde o fato dos demais. No último terço do livro, quando os cinco se separam, Laura informa Peter (o único que não é da família) do falecimento e o incumbe de contar para seus filhos Carlos e Eugênio (este não participa do romance), mas não para Clara. Por que não?, eis a questão. Noite adentro, de casa em casa, Peter é judicativo em relação às disfunções da família, e por fim visita Clara e conta-lhe.

“É isso, na superfície. Mas é como dizer que ‘Pelos Olhos de Maisie’ [de Henry James, lançado em 2010 no selo Penguin-Companhia] – com cujo espírito este romance guarda alguma afinidade – é sobre uma criança abalada por um divórcio. O que é importante é o que se passa sob a superfície: o que os personagens não dizem, uns para os outros ou para si próprios; o que eles estão pensando; o que eles sentem”, escreve Andrea Barrett, numa síntese involuntária, mas perfeita, da qualidade mais louvável de Fox: o não dito.

O não dito

Lacunas, entrelinhas e silêncios são traços marcantes nos romances de Paula Fox, assim como a sua habilidade em alternar permanentemente os pontos de vista com o intuito de explorar a consciência de seus personagens, criando uma intrigante atmosfera psicológica. Em princípio, porém, essas qualidades não são incomuns, nem altamente distintivas. Sobram escritores e escritoras capazes de manejar bem os labirintos da mente. Jane Austen e Virginia Woolf, por exemplo, são mestras nisso.

As sinapses que transcorrem entre os pensamentos e os atos dos personagens de Fox estão expressas por uma linguagem rica, compacta e sólida. “Desesperados”, por sua vez, é um exemplo de sensibilidade semântica. Esse romance de insinuante suspense fala de Sophie Bentwood, 40 anos, moradora do Brooklyn mordida por um gato de rua ao qual dera um pouco de leite. Durante os três dias seguintes, Sophie fica especulando o que a mordida poderá provocar-lhe. A força motriz do livro, então, é a negação do fato de estar preocupada.

A história se passa no final dos anos 1960, quando Nova York e arredores experimentavam uma decadência urbana terrível: sujeira, vandalismo, criminalidade, desigualdade e intolerância racial e étnica. Em plena Guerra do Vietnã, hippies e revolucionários conviviam com uma classe média oportunista tentando se isolar. Otto e Sophie flutuam à margem dos embates sociais. A vida confortável de casal intelectual sem filhos não esconde o evidente vazio de afetos e objetivos.

“Relendo o romance [‘Desesperados’] pela sexta ou sétima vez”, escreveu Jonathan Franzen no posfácio, “sinto uma onda de raiva e frustração com seus mistérios, com os paradoxos da civilização e com a insuficiência do meu próprio cérebro e então, assim do nada, eu capto o final do livro – sinto o que Otto Bentwood sente quando estilhaça o tinteiro na parede – e de repente estou apaixonado de novo”.

No posfácio de “Os Filhos da Viúva”, Andrea Barrett também se arvora em generalizações, abrindo até o infinito o leque de interpretações e destilando o velho clichê de que as “altas artes” são inapreensíveis: “(…) na verdade, este romance não pode ser descrito. Tudo o que posso fazer é oferecer aperitivos e sugerir que sua voz narrativa e sua estrutura, tão incomuns à primeira vista, existem em parte para tornar possíveis os cruéis vislumbres do interior dos personagens”.

Eu não saberia dizer ao certo de que é composta a chamada “voz autoral” – o estilo (singular) de escrever de um(a) escritor(a). Tecnicamente, é uma mescla de sintaxe, dicção, pontuação, desenvolvimento de personagens e intertextualidades, entre outros indicadores talvez discutíveis. Poeticamente falando, a tal “voz” é a clara expressão de uma máquina sensorial que visualiza conexões entre coisas aparentemente desconexas. Essa habilidade de estabelecer ligações, aliás, é o segredo não exatamente secreto de qualquer autor.

A bateria que alimenta essas “associações livres” é a memória do vivido e do não vivido. “Tudo o que você escreve é autobiográfico, mesmo a ficção científica e o Planeta Ork”, Paula Fox disse em entrevista à “Paris Review”. “De alguma forma tudo é reflexo seu, ou de quem você é. Você escreve sobre si mesmo como se você fosse uma espécie de ser humano, daí acaba escrevendo sobre o ser humano. O único ser que você conhece razoavelmente bem, em alguns casos até mesmo irracionalmente bem, é você mesmo.”

Complexidade cansativa

Não pense que é moleza. Ler Paula Fox poderá lhe parecer (e é mesmo) um investimento exaustivo e complexo. Admito que os quarto romances dela a que tive acesso são arquitetados com um calculismo quase absoluto, o que não deixa de ser um pouco aborrecido e, de certa forma, deprimente. É como se tudo houvesse sido ponderado, pesado, medido, visto por vários ângulos e várias vozes; como se todas as oposições e contradições houvessem sido consideradas.

Por mérito ou demérito, agora não importa, o fato é que Paula recusa – ou talvez negue – a simples possibilidade de iludir-se e, por conseqüência, de iludir-nos. Os personagens estão permanentemente insatisfeitos consigo mesmos, embora não saibam o que fazer para mudar o cenário. “Pobre George”, o primeiro romance dela, é cronologicamente menos comprimido que os outros, mas se passa num período que vai da primavera ao verão do mesmo ano.

O personagem-título, referido com insistência pela irmã, Lila, como “pobre George”, é George Mecklin, professor de inglês em uma escola particular de Manhattan. Ele está casado há oito anos com Emma e agora passou a viver no “interior” – isto significa longe da cidade grande o bastante para precisar tomar um trem suburbano para ir do trabalho para casa e vice-versa. O trajeto e a distância vão levar George a raciocinar sobre aspectos antes impensados da vida.

George não é um idiota, como muitos dos personagens dos filmes dos Irmãos Coen, por exemplo – na verdade, nenhum personagem dos livros de Paula Fox é estúpido ou limitado –, mas ele está se encaminhando para a apatia geral. A mudança de residência exacerba seu tédio, tensiona os conflitos prévios com Emma e amplifica sua falta de perspectiva. Uma noite George chega do trabalho, encontra a porta aberta e descobre que a casa foi invadida por um jovem de 17 anos: Ernest Jenkins.

Ernest não é um ladrão, ele apenas gosta de entrar na casa dos outros e bisbilhotar. Em vez de entregar o rapaz à polícia, e contrariando a vontade de Emma, George convence Ernest a ser seu “aluno”, com o objetivo de evitar que o rapaz se transforme em membro de uma gangue ou coisa pior. George é um observador às vezes autoconsciente de seu voyeurismo, noutras perplexo diante de sua inabilidade para enxergar além. A relação com Ernest, um sujeito nada confiável e raramente atento às filosofias de seu “tutor”, é inglória.

Em “George”, assim como nos outros três livros, Paula Fox demonstra uma cadência irretocável. Cada linha contém uma lucidez incrível, e nenhum parágrafo é maior ou menor do que deveria ser. Esse senso de proporção atinge também os diálogos, que não transmitem nem mais nem menos que o projetado. Não há lugares-comuns, banalidades nem clichês. Estamos então diante de obras de concepção perfeita, mas dispersivas. Excruciantes porque cansativas; vazias porque abertas demais; inapreensíveis porque irreparáveis.

Na verdade, o apelo à leitura está no efeito, não na estrutura. A ficção de Fox gera uma ansiedade absurda. Religião, patriotismo e filosofias consoladoras – componentes sociais que tantas pessoas têm tentado levar mais a sério ultimamente – não estão acessíveis a personagens como George, Emma, Otto, Sophie, Clara, Laura, Walter, Annie e outros. O amor, por sua vez, é elusivo, problemático, arriscado. Ou seja, em vez de conforto, o que você encontra em Paula Fox é uma inteligência rigorosa e um modo de pensar que irá demolir seus ideais de redenção.

TRECHO (“Os Filhos da Viúva”)

Laura estava rolando um pedaço de pão entre os dedos. Peter dava petelecos em sua taça de brandy com o dedo. O leve tilintar era como o som distante de uma boia. Laura começou a falar com Desmond numa voz baixa, suas palavras eram inaudíveis. Logo, Clara iria embora. No momento em que abrisse sua própria porta, a noite começaria a ser irreal – ou irrealizável. Ela iria, quando pensasse no assunto, rememorar o que sempre rememorava, seu desassossego, o velho alarido de Laura, e uma sensação de autotraição que duraria alguns dias, uma semana, até ser enterrada, persistindo porém em sonhos de mortificação ou no momento em que ela não conseguisse olhar diretamente no rosto de alguém.