A imagem depois do filme

O que mudou realmente no fotojornalismo desde o lançamento
em 1989 da câmera digital Fujix, com capacidade para 21 fotos?

Sergio Vilas-Boas
“Jornal da ANJ”, fevereiro/2012

1. O fim de uma era

Mês passado, a Eastman Kodak apresentou pedido de concordata ao tribunal de Nova York. A centenária empresa está com uma dívida da ordem US$ 6,7 bilhões, contra ativos de US$ 5,1 bilhões. Nos últimos oito anos, 47 mil funcionários foram dispensados e seu valor de mercado caiu de US$ 31 bilhões em 1996 para menos de US$ 150 milhões em 2011.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos anos 1970, a Kodak desenvolveu a CCD (Charge-Coupled Device) – sistema de captação de imagem que, na câmera digital, exerce função semelhante à do filme nas câmeras analógicas. Poderia ter lançado o equipamento já em 1992, mas optou por não apostar na nova tecnologia, em parte porque os filmes ainda geravam-lhe bilhões em lucros.

“Quando decidiu entrar no mercado digital, estava em defasagem. As rivais Sony, Olympus, Canon e outras estavam conquistando seu mercado. Paralelamente, houve a popularização da câmera digital como acessório básico em celulares”, observa Armando Fávaro, editor assistente de fotografia do Grupo Estado e doutorando em Semiótica na PUC-SP.

Desde a sua fundação em 1881, a Kodak esteve na vanguarda: lançou o filme transparente em 1885, a câmera compacta em 1888 (sob o slogan “você aperta o botão e nós fazemos o resto”) e o filme Kodachrome em 1935. “A invenção do rolo de filme mudou a fotografia, mas a revolução digital atropelou a Kodak”, comenta João Wainer, editor de fotografia da “Folha”.

Em junho de 2009, a Kodak interrompeu a produção do Kodachrome. Os rolos remanescentes foram entregues a Steve McCurry, a pedido dele, que os utilizou em missões na Índia e na Turquia. (As revelações ocorreram no ano ano seguinte no único laboratório especializado – o Dwayne’s Photo, que não mais presta esse tipo de serviço –, na cidade de Parsons, Kansas.)

Steve McCurry fotografou a si mesmo em NYC em 2010 com seu último rolo de Kodachrome.

Entre as últimas imagens feitas por McCurry com o mais adorado dos filmes, está a dele próprio posando ao lado de um Yellow Cab nova-iorquino cuja placa (PRK 36) corresponde exatamente ao código utilizado pela Kodak para identificar o Kodachrome. Estes e vários outros episódios recentes – incluindo o fechamento de agências de fotografia como a Gamma em 2009 – são consequência direta da massificação imposta pelo processo digital.

“Por outro lado, a Magnum, fundada por Robert Capa, Henri Cartier-Bresson e outros, resistiu porque sempre buscou a valorização do profissional”, diz o fotojornalista Erivam de Oliveira, professor da ESPM-SP. “A passagem do analógico para o digital foi crucial para o fotojornalismo”, acredita Fávaro, “e as novas possibilidades surgidas refletiram-se no produto entregue ao público”.

2. adaptações que automatizam

O lançamento em 1989 da câmera digital Fujix, fabricada no Japão pela Fujifilm, com capacidade para 21 fotos, foi o marco de uma nova era. Desde então, o fotojornalismo, da mesma forma que o jornalismo escrito, vem passando por transformações radicais. A primeira experiência de cobertura de um grande evento por fotojornalistas brasileiros equipados com câmeras digitais se deu na Copa do Mundo de 1998, na França.

A praticidade e agilidade proporcionadas pelas câmeras digitais foram – e continuam sendo – as principais razões para que os veículos de comunicação adotem essa tecnologia. Contudo, muito especialistas acreditam que as técnicas e os conceitos da reportagem fotográfica estão em fase de adaptação a “uma possível nova forma de fotografar”.

A grande mudança é a automatização. “Nos anos 1980, você precisava de um portador para levar o filme para a redação a tempo de as fotos serem reveladas, selecionadas e publicadas. Para o envio das fotos já reveladas em laboratório, usávamos aparelhos de telefoto, via telefone”, lembra Alexandre Sassaki, editor de fotografia de “O Globo”.

“Se antes o profissional tinha de garantir ‘A Foto’, assim, maiúscula, hoje tenho de trazer ‘As Fotos’; se antes eu tinha um filme de 36 poses (o que já era muita coisa), agora tenho um cartão de 4GB, no mínimo”, pondera Iana Soares, editora adjunta do núcleo de imagem de “O Povo”. “Essa transformação técnica é uma revolução. Mais: quando o olhar do fotógrafo é mediado por um aparelho, as evoluções na máquina geram mudanças comportamentais também.”

A passagem do analógico para o digital favoreceu o fotojornalismo, na visão de João Wainer: “A internet completou o processo. Então, a conjuntura que está se formando vai fazer com que o fotojornalismo talvez se transforme em algo diferente, especialmente com as câmeras SLR, que filmam e fotografam”. O momento é de incertezas e curiosidades em relação ao que está por vir, tanto quanto pelo que já está ao alcance.

No momento, a Web ainda ecoa o que já era feito no impresso, mas com uma diferença primordial: no on-line é possível publicar fotogalerias, vídeos e ensaios. “No jornal em papel, a gente publicava uma ou duas fotos, em média, para cada matéria. No on-line, você publica pelo menos uma na home, várias no link da matéria e ainda pode montar uma galeria”, compara Sassaki.

Armando Fávaro: fotógrafo, doutorando em Semiótica e editor de imagem do Grupo Estado

A digitalização eliminou o processo químico, que, de certa forma, mantinha o fotógrafo longe do convívio com os colegas jornalistas. Os laboratórios normalmente eram apartados das redações. “Não participávamos intensamente das conversas. Ficávamos entre a rua e o laboratório, tirando e revelando fotos que não sabíamos ao certo como iam sair. Ou seja, trabalhávamos literalmente no escuro”, brinca Sassaki.

3. olhares que brilham

A alta produtividade e a veiculação instantânea também geram dilemas. Dulcília Buitoni, autora de “Fotografia e Jornalismo” (Saraiva, 2011), professora da ECA-USP e da Faculdade Cásper Líbero, passou os últimos dez anos estudando imagens jornalísticas: “Poder deletar fotos em seguida ao clique é uma simplificação importante no processo. Por outro lado, prejudica o pensar sobre a imagem”.

Marcelo Min, repórter fotográfico free-lance de revistas, acredita que na era digital o fotojornalismo corre o risco de perder a força documental de antes, assim como “o seu aspecto de verdade”, em função dos programas de manipulação da imagem: “Os bons fotojornalistas sempre souberam que a fotografia não é ‘a’ verdade, e sim um modo de olhar. Então, o lado positivo da evidência da manipulação é tornar o leitor mais exigente e crítico”.

Para captar esse instante, Bresson dizia, é preciso paciência e intuição. Mas a era da informação, além de iludir o olhar, instituiu a crença de que o tal instante procurado está ocorrendo em tempo real, constantemente. Agora o que se pergunta é se a quantidade e o imediatismo estão alterando o modo de olhar dos fotógrafos. “Se pudermos recriar em computador o ‘instante único’, então será o fim da fotografia. Mas não acredito nisso”, diz Marcelo Min.

Iana Soares, de “O Povo”, acha que esteja sendo formada uma geração de profissionais que darão prioridade à agilidade e à informação: “Mas é exatamente em tempos velozes que a sensibilidade precisa estar mais afiada e aguçada”. A precisão do instante a que se referia Cartier-Bresson ainda é muito importante, na visão dela: “Continuamos sendo protagonistas do ato fotográfico, e escolhemos o nosso momento decisivo”.

Para Erivam de Oliveira, sempre fez parte do trabalho de um fotojornalista a busca permanente por rapidez, informação e estética: “Não raro atingem o ponto de equilíbrio. A foto de Wilton Júnior, vencedora do Prêmio Rei da Espanha deste ano, com a presidente Dilma sendo ‘atravessada’ por uma espada, é um bom exemplo disso”. Wilton Júnior, da Agência Estado, sugere cautela: “A gente tem de controlar a ansiedade antes de enviar o  material para a redação”.

4. cidadãos que fotografam

Com a popularização das câmeras digitais e da internet, o volume de imagens possíveis para se editar em um jornal diário hoje em dia tende ao infinito; e quando se pensa que a edição está fechada, aparece um motorista de táxi, por exemplo, com uma foto ainda mais relevante (ou mesmo esteticamente melhor) do que a que havia sido colocada na primeira página. É o que se costuma chamar de jornalismo participativo, ou cívico, muito em voga na era digital.

“Existe uma máxima no fotojornalismo que diz: ‘o cara certo na hora certa’. Hoje, as imagens estão sendo feita por milhões de ‘repórteres fotográficos’, milhões de potenciais leitores dispostos a participar de acontecimentos que possam ajudar a construir a credibilidade do jornal. Se alguém registrou um fato relevante com seu celular, a história terá de ser contada”, afirma Célio Jr., editor executivo de “A Crítica”.

Alexandre Sassaki, de “O Globo”, encara essa onda do “Eu, Fotógrafo” como um avanço positivo no sentido de ampliar a vinculação do leitor com o jornal: “Outro aspecto interessante é que, como não podemos estar em todos os lugares ao mesmo tempo, temos agora mais olhos atentos por aí”. O incentivo à participação do leitor-internauta é resultado da onipresença da tecnologia e da massificação dos dispositivos fotográficos portáteis.

“Frases com ‘envie sua foto’ são cada vez mais frequentes nas páginas dos jornais. O projeto Foto Repórter, por exemplo, já propiciou ao ‘Estadão’ cenas incríveis, em momentos em que era praticamente impossível um profissional do jornal chegar ao local. Acho que a maior lição a ser tirada dessas experiências é que o repórter fotográfico de hoje tem que ser um profissional cada vez mais bem informado sobre o assunto que está cobrindo”, diz Wilton Júnior, da AE.

Ao que parece, os cidadãos incorporaram a produção de imagens ao seu cotidiano. Já não basta apenas fotografar e salvar. Faz-se necessário “compartilhar”. “Existe a especulação de que, em vinte anos, 89% da população será DJ e fotógrafo”, brinca Iana Soares, de “O Povo”, jornal que criou uma seção chamada “Você, Fotógrafo”. “Neste momento de ‘alfabetização visual’, a missão do fotojornalista é instigar a reflexão e desafiar o cidadão a pensar sobre as razões e consequências de se apertar um botão.”

Com tantos potenciais repórteres fotográficos à solta, restam apenas “pautas frias” para os profissionais que precisam se deslocar pelo trânsito caótico das grandes cidades brasileiras para comparecer aos eventos? “Isso se resolve facilmente com cabeças que pensem o tempo todo em um jornalismo mais quente e vibrante”, acredita Célio Jr. “O leitor não pode ser privado de uma informação por razões logísticas.”

Uma foto feita com um iPhone 4S, por exemplo, tem uma qualidade tão boa que dá para abri-la em três colunas na capa do jornal, segundo Sassaki, e os tablets, principalmente o iPad, hoje permitem uma experiência fotográfica superior a qualquer outro suporte: “Nem sempre você chega, mas, quando chega, o seu olhar de fotojornalista tem de entrar na história imediatamente”. João Wainer, da “Folha”, concorda: “Na era digital, dependemos mais do cérebro e menos da sorte”.

5. fotógrafos que escrevem

Procuram-se: fotógrafos versáteis, capazes de transcender o hardnews, transitar por pautas de comportamento, empregar linguagem multimídia, captar imagens em movimento, reportar bem por escrito. Na era digital, a lista de características ideais para um profissional de fotojornalismo é mais extensa e complexa. Célio Jr. se dedicou por mais de vinte anos à função de repórter fotográfico antes de se tornar editor executivo do jornal “A Crítica”, em Manaus. Para ele, fotografar e escrever são funções muito distintas.

A presidenta Dilma atravessada por uma espada. Foto: feita por Wilton Júnior/AE, em 21/08/2011. Imagem vencedora do Prêmio Rei de Espanha 2012 de Fotografia.

“Já aconteceu de eu estar sozinho no lugar certo e na hora certa. Minha atitude, como jornalista, foi registrar o fato com fotografias, e só depois correr atrás da apuração. No retorno à redação, eu passava as informações e contatos para que a editoria responsável destacasse um repórter para pegar mais detalhes”, lembra Célio. “Acho que, salvo raras exceções, é muito difícil fazer as duas coisas bem-feitas ao mesmo tempo.”

A tendência é um dia o fotógrafo escrever mais e o repórter de texto fotografar mais, acredita Alexandre Sassaki, de “O Globo”: “Essa dupla função não é a regra, porém. A maioria dos membros da minha equipe, embora formada em jornalismo, não pratica a linguagem escrita diariamente. Mas há vários que escrevem bem. Para essa combinação dar certo, você tem de considerar duas coisas: o tipo de matéria e o perfil de cada fotógrafo”.

Na equipe da TV Folha há jovens profissionais que escrevem, fotografam, filmam e editam vídeos, segundo João Wainer, editor de fotografia da “Folha”: “Acho ótimo. O leitor ganha e o profissional se valoriza. Com a tecnologia que temos hoje, isso é inevitável, e o saldo, bem positivo. Não acho que a pessoa tenha que fazer tudo ao mesmo tempo, mas estar apto a produzir um texto, um vídeo ou uma foto, quando necessário, é o futuro da nossa profissão”.

“Entrei no curso de jornalismo da Universidade Federal do Ceará porque gostava de escrever e não para ser fotógrafa”, conta Iana Soares. “Descobri a fotografia enquanto cursava, simultaneamente, Ciências Sociais, noutra universidade, e pesquisava os índios Tremembé, uma etnia cearense. Vi na fotografia uma possibilidade de travar diálogos com quem era fotografado. Nessa perspectiva, o diálogo entre texto e imagem me pareceu bem interessante.”

Quem iniciou a carreira de repórter fotográfico já em plena era digital raramente entende de fotografia analógica. A professora Dulcília Buitoni, autora de “Fotografia e Jornalismo” (Saraiva, 2011), acredita que o conhecimento da imagem feita com filme “ajuda a depurar o olhar”. “Ajuda a deixar o profissional digital mais presente, de corpo e alma mesmo, no processo da imagem. Também deveria fazer parte da formação estudar o fotojornalismo de outras épocas.”

Ligações clandestinas no bairro Jardim Pantanal, São Paulo. Foto: João Wainer / Folhapress.

“Com filme, era mais emocionante”, afirma Marcelo Min. “A gente lidava com incertezas. Você tinha que ter uma espécie de instinto de pré-visualização, e, mesmo assim, havia muitas surpresas positivas e negativas. Hoje, as câmeras são tão avançadas que se tornou quase uma obrigação captar a melhor imagem possível. Sim, existe uma obrigação, com a digital. Na analógica, havia uma obrigação mais ‘mágica’. Por outro lado, a edição agora está mais nas mãos do fotógrafo do que antes.”

6. linguagem que promete

A era digital está impondo uma nova linguagem ao fotojornalismo? “Nova linguagem, não, porque as técnicas continuam as mesmas. Mas sem dúvida há um fluxo diferente de observação e captação de imagens”, analisa a professora Dulcília Buitoni, autora de “Fotografia e Jornalismo” (Saraiva, 2011). Em lugar de criatividade e reflexão, Dulcília vê o fotojornalismo brasileiro atual se encaminhando para a padronização e a burocracia.

“Compare o que se faz hoje no Brasil com o que se fazia, por exemplo, em revistas como ‘O Cruzeiro’ e ‘Realidade’, ou como ‘Time’ e ‘Newsweek’, que até hoje publicam ensaios fotográficos excelentes. Raramente vemos isso em ‘Veja’, ‘Época’ e ‘IstoÉ’, por exemplo. Quanto aos jornais e seus portais, está tudo muito igual. Até as fotos de maior destaque tendem para uma indesejável semelhança.”

Mãe do empresário Leonardo Drumond vela o corpo do filho assassinado na rua Visconde de Inhaúma, Centro, Rio. Foto: Marcelo Carnaval / OGlobo.

Enquanto os fotojornalistas digitais começam a experimentar múltiplas funções, como escrever, filmar e editar vídeos, além de fotografar, pesquisadores advertem para o risco de a polivalência interferir na excelência de uma das linguagens, o que poderia resultar em “mediocridade”. Para evitar isso, o caminho parece mais de natureza editorial do que técnica: construir narrativas especiais multimídia que escapem à obviedade.

“Como tudo é novo, todo mundo está experimentando e descobrindo processos novos o tempo todo. Contar histórias por meio de fotos é realmente mais fácil hoje em dia”, concorda Alexandre Sassaki. “Há câmeras excelentes para esse fim, como a Canon EOS 5D Mark II, que também te permite filmar com uma linguagem muito próximo à do cinema; e ela usa as mesmas lentes de uma câmera mais convencional.”

Sassaki cita como exemplo o vídeo institucional “Por dentro do Globo” (disponível no site do jornal), feito com essa câmera: “Um fotógrafo hoje é um profissional multimídia com conhecimento também de ‘imagem em movimento’. Mas há uma diferença entre filmar e fazer imagem em movimento. Além de diferentes, essas duas coisas não são feitas (nem ficam prontas) ao mesmo tempo, e a edição envolve a mesma capacidade de síntese do fotojornalismo”.

Para João Wainer, da “Folha”, é a internet, não a tecnologia digital, que está impondo a necessidade de novas linguagens: “De qualquer maneira, a essência é a mesma. Uma boa foto vai ser sempre uma boa foto – em filme, em cartão de memória ou em qualquer outro dispositivo que venha a ser inventado”.  “O que não podemos de forma alguma”, acrescenta Wilton Junior, da AE, “é permitir que a tecnologia se torne mais importante que nós, profissionais”.

7. manipulações que desabonam

Repórteres fotográficos nunca foram meras máquinas de apertar botões. As imagens que produzem são resultados da escolha de algumas variáveis, como lentes, velocidades, aberturas, flashs, filtros e, principalmente, enquadramentos. Além disso, todos assumem algum posicionamento “ideológico” diante dos fatos que retratam. Um mesmo assunto pode ser mostrado friamente por um profissional, e de forma trágica por outro, sem ferir os quesitos “autenticidade” e “veracidade”.

No entanto, manipulações intencionais de imagens fotográficas vêm ocorrendo desde os primórdios da história da fotografia. A diferença em relação à era digital é que o que antes era feito em laboratório hoje é realizado em computador, com muito mais recursos e agilidade. “Tecnicamente, a manipulação digital é bem diferente da que se fazia no passado. Hoje é muito mais fácil criar elementos que não existiam na imagem”, diz Célio Jr., de “A Crítica”.

Erivam de Oliveira, professor da ESPM-SP, lembra a celebre frase de Lewis Hine: “Embora  as  fotografias não possam mentir, os mentirosos  podem  fotografar”. E outra, do fotógrafo catalão Joan  Fontcuberta:  “A  fotografia mente sempre. Importa saber o que podemos fazer com essa mentira”. “Essas afirmações nunca estiveram tão presentes no cotidiano da fotografia como hoje em dia – nas edições, cortes, adulterações e montagens”, observa Erivam.

A finalidade do Photoshop, que existe há cerca de trinta anos, segundo Alexandre Sassaki, de “O Globo”, sempre foi dar uma tratamento à imagem para que ela pudesse ser impressa no papel com a melhor qualidade possível: “Hoje, o programa está muito avançado. Ele faz com a imagem o que você quiser. Mas quem trabalha com jornalismo precisa de credibilidade. Daí que se você derrapa, é para sempre”.

Wilton Junior, da AE, distingue o fotojornalismo das demais formas fotográficas no que tange ao factual: “Em jornalismo, você não pode, por exemplo, apagar uma pessoa ou mudar a cor do céu. Ou seja, não pode interferir nas informações. Jornais sérios permitem utilizar apenas o mínimo possível das ferramentas disponíveis no Photoshop. Basicamente, as seguintes: cortar, legendar e reduzir o tamanho do arquivo para facilitar o envio da imagem”.

Ajustes “técnicos”, como elevação de contraste e clareamento, têm sido feitos desde que o fotojornalismo existe. Fotógrafos e editores experientes recomendam, então, que o tratamento de imagens – hoje realizado geralmente com o Photoshop – se resuma à simples adequação do arquivo ao padrão de impressão do jornal e à visualização de seus sites. “Caso algumas imagens sejam usadas em infográficos, peças de arte ou montagens, o leitor deve ser informado”, enfatiza Armando Fávaro, da AE.

8. acervos que contam

Os jornais longevos e organizados possuem, de modo geral, acervos de imagens em película, papel e cromo, potenciais fontes de receita. “Com criatividade, os gestores podem aplicar a ‘massa estocada’ em produtos como livros, guias, revistas etc.”, sugere Célio Jr., do jornal “A Crítica”. “As imagens de arquivo são constantemente comercializadas pelas agências de notícias, mas nada impede que jornais que não possuam agência própria também o façam”, completa Armando Fávaro, da AE.

O amplo acervo de imagens dos jornais e revistas dos Diários Associados está sendo digitalizado.

Mas sem a digitalização do material analógico nada é possível. Pensando nisso, os Diários Associados decidiram investir na organização sistemática de seu acervo. O primeiro passo foi a criação da D.A Press, unidade de negócios que substituiu a Meridional Agência de Notícias (primeira do gênero no Brasil, fundada por Assis Chateaubriand, em 1931). Por sua longevidade e por abranger empresas jornalísticas de várias regiões brasileiras, os Diários Associados dispõem de um rico conjunto de conteúdos.

O processo de digitalização das imagens começou em 2003, e desde 2008 as empresas do Grupo compartilham o mesmo acervo, que é mensalmente alimentado por 160 mil imagens, das quais 7 mil, no total, são publicadas entre os 14 jornais associados. “Antes da criação da D.A Press, não existia um canal de compartilhamento, dificultando a integração. Agora, a foto é produzida e imediatamente inserida em um sistema unificado”, diz Vânia Caldas, superintendente da D.A Press, sediada em Brasília.

O sistema conta com três ambientes digitais: o ambiente de cada jornal, o ambiente de compartilhamento do banco de dados e o ambiente de e-commerce (o portal www.dapress.com.br), que contém fotos, gráficos, charges, caricaturas, ilustrações etc. “São três ambientes na mesma ferramenta”, diz Vânia. A imagem é inserida pelos profissionais de cada jornal, responsáveis também pelo fornecimento de dados como data, evento, contexto e nome de personagens.

A equipe D.A Press entra na segunda etapa, a da classificação (detalhamento do contexto temático) e indexação (quando são criadas as tags e palavras-chaves que possibilitam o uso da foto ou ilustração em contextos diferentes daquele em que foram produzidas). “Desde agosto de 2009 estamos comercializando imagens, concorrendo com players consagrados como Folhapress, Agência Estado e Agência Globo”, diz Vânia.

O antigo acervo em película dos jornais e revistas do Grupo ainda não está totalmente digitalizado. “No momento, atendemos sob demanda ou digitalizamos proativamente algum material que possa ser solicitado em função de eventos de grande repercussão, como uma Copa do Mundo ou desastres aéreos em cadeia, que exigem um painel de imagens históricas.” A D.A Press, hoje, é autossuficiente, garante Vânia.

Os jornais que mais compartilham imagens com as empresas do Grupo e que mais fornecem material para e-commerce são “Correio Braziliense”, “Estado de Minas” e “Diário de Pernambuco”, pela ordem. Os principais clientes externos são as editoras de livros didáticos. “Num contexto em que notícia é commodity, pois todo mundo a produz, o mesmo não ocorre com conteúdos analógicos antigos, pois somente uns poucos produziam e os detinham.”

9. imagens que desconcertam

Por sua subjetividade intrínseca, o fotojornalismo envolve dilemas éticos que às vezes resultam em (ou provêm de uma) tragédia. A foto feita em 1993 no Sudão pelo fotógrafo sulafricano Kevin Carter – publicada pela primeira vez no “The New York Times” em março daquele ano – é um exemplo paradoxal. A imagem mostra uma criança cadavérica, sem forças para continuar rastejanado até um acampamento da ONU, a um quilômetro dali, e espreitada por um urubu.

Criança no Sudão espreitada por um urubu: Kevin Carter recebeu o Pulitzer em 1994 e se suicidou.

Por outro lado, para a crítica especializada, ele merecia todos os cumprimentos por seu profissionalismo e objetividade. Analistas defenderam que Carter estava dando uma contribuição ao mundo ao mostrar a condição extrema de um ser humano imaturo e indefeso, que, em vez de satisfeito em sua necessidade mais básica, corria o risco de se tornar alimento de um abutre.

“Essa foi a minha foto de maior sucesso, depois de dez anos como fotógrafo, mas não quero pendurá-la na parede. Eu a odeio”, ele declarou à revista “American Photo”. Meses depois de conquistar o Prêmio Pulitzer de 1994, entrou em depressão e suicidou-se. “Estou sendo perseguido pela memória viva de matanças, cadáveres, cólera e dor… Por crianças famintas ou feridas… Por homens loucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policiais, e assassinos…”, escreveu em sua carta de despedida.

10. fotos que são páginas

No jornalismo, a imagem de peso e consistência às vezes por si só conta a história, sem necessidade de texto explicativo. Capas de jornal com foto de página inteira constituem momentos marcantes da reportagem fotográfica brasileira, como a do garoto chorando a derrota do Brasil para a Itália por 3 a 2 na Copa do Mundo da Espanha, que foi publicada no “Jornal da Tarde” em 6 de julho de 1982; ou a da silhueta de Fidel Castro em contraluz na época de sua renúncia ao governo, feita por Javier Galeano, da AP, publicada no “Correio Braziliense”.

“O ‘Jornal da Tarde’ estourava grandes fotos na capa. Já vi publicação até com fotografia em página dupla, usando a capa e a contracapa. Era lindo ver essas ‘capas duplas’ expostas nas bancas de jornal. A era digital não impede que isso continue sendo feito, eventualmente”, diz Célio Jr., repórter fotográfico por mais de vinte anos e hoje editor executivo de “A Crítica”. “Mas não se pode isolar demais a imagem em relação ao conjunto.

Veja, por exemplo, o World Press Photo dos últimos anos. Por dois anos consecutivos as fotografias vencedoras daquele ‘prêmio maior’ precisaram de um texto para que fossem compreendias. Sozinhas, elas não transmitiam o principal.”

Veja 3 capas interessantes de jornais diários brasileiros. Em duas delas, a foto da capa ocupou a página inteira:

Capa do “Jornal da Tarde”, 06 / 07 / 1982. Foto: Reginaldo Manente.

Capa do “Correio Braziliense”, 20 / 02 / 2008. Foto: Javier Galeano / AP.

Capa de “O Globo”, 03 / 06 / 2011. Foto: Gustavo Miranda

11. imagens que movimentam

A professora Dulcília Buitoni, autora de “Fotografia e Jornalismo” (Saraiva, 2011), considera o argentino “Clarín” um dos melhores exemplos de jornalismo multimídia: “O tratamento das fotos é sofisticado e os documentários audiovisuais, excelentes. Não temos algo similar no Brasil. Afora o noticioso, o que vemos com mais freqüência aqui são as galerias de imagens, vídeos esquisitos e flagrantes de celebridades. Ainda impera no nosso fotojornalismo a crença de que só o instantâneo tem importância e valor. Mas é preciso um equilíbrio entre o conteúdo bem planejado e o conteúdo oportunista”.

O documentário multimídia sobre os 25 anos da Guerra das Malvinas é um dos destaques do “Clarín”.

Especiales Multimidia de Clarín

As galerias de imagens, por outro lado, muito comuns no Brasil, primam pela quantidade, sem que haja um acréscimo relevante de informações de uma foto para outra, na visão de Dulcília: “Publicam-se toneladas de fotos, indiscriminadamente. Calcula-se que, hoje, os editores de um jornal avaliem 7 mil fotos diariamente, para que, no fim das contas, publiquem uma imagem quase igual à do concorrente”. Marcelo Min, fotógrafo free-lance, acha que essas galerias com muitas imagens repetitivas são reflexo de uma tendência a tratar a informação em termos de volume, sem considerar a relevância e a complexidade do evento.

Jornalismo Narrativo (1)

A revalorização do Jornalismo Narrativo e a importância da
reportagem em profundidade como complemento para os notíciários.
Leia também Jornalismo Narrativo (2).

Sergio Vilas-Boas
Candido“, fevereiro/2012

Expressar o que é o Jornalismo Literário, também conhecido como Jornalismo Narrativo, é relativamente simples: é a reportagem de imersão sustentada por sólido trabalho de campo que resulta em uma escrita/edição refinada. Historicamente, o JL tem sido empregado em matérias especiais cujo aprofundamento possa ser atingido por meio de um relacionamento de proximidade com seus personagens. Não chega a ser contra-indicado para o hard news, a informação rápida do dia a dia, mas, nesse caso, a urgência sintética pode dificultar a observação detalhada.

O propósito dessa forma – não seria equivocado acrescentar “artística” – de jornalismo é transmitir a vivacidade das experiências de pessoas em relação ao assunto central, incluindo as experiências do próprio jornalista, quando cabíveis ao projeto. Esta, aliás, é a principal diferença do JL em relação a outras elaborações jornalísticas: você pode produzir noticiários sem protagonistas; pode talvez realizar uma reportagem investigativa (de olho nos poderes públicos) sem protagonistas, apenas com dossiês e fontes em off, por exemplo.

Na mesma linha de raciocínio, pode-se escrever uma crônica, uma crítica ou qualquer outro texto opinativo sem preocupação com a “construção de personagens reais vivendo situações reais em lugares reais”. Por outro lado, sob pena de vender-se gato por lebre, é impossível praticar o JL se os fatos apurados e as percepções diretas do autor não girarem em torno da experiência (física e psicológica) de indivíduos criteriosamente selecionados.

Em JL, os personagens não são acessórios. Eles são a motivação central de tudo – da pauta à escrita. Não se pode esquecer que estamos lidando com o ato de contar (narrar) histórias, e histórias (narrações) em geral envolvem personagens (apenas humanos, no caso). Quais personagens, vocês poderiam se perguntar. Em princípio, o autor seleciona aqueles que têm ou tiveram experiências específicas que ajudem a compreender a amplitude dos acontecimentos/assuntos postos em foco.

Em uma reportagem ao estilo JL sobre enchentes, por exemplo, as pessoas que experimentam na pele a invasão das águas em suas casas têm prioridade sobre aquelas que trabalham em prol dos desabrigados; e estas, por sua vez, têm mais potencial para ser coadjuvantes (da mesma reportagem) do que um sociólogo estudioso de catástrofes em regiões serranas. Decisivo, então, é o seguinte: gente que vive o acontecimento é mais importante que gente que o analisa à distância.

Intercâmbios
Ainda há desinformação e confusão nas empresas jornalísticas e nas faculdades de comunicação sobre o que o JL de fato é. Talvez por isso o confundam exatamente com o ele que não é. Vejamos: JL não é crônica, porque a crônica, no Brasil, pode ser ficcional; não é uma história “baseada” em fatos reais porque há um subtexto aí que abre a possibilidade da invenção; também não se trata apenas de “texto bonito”, porque a “beleza” pode não passar de artifício para encobrir deficiências – por exemplo, deficiência de pesquisa e de conversação.

Há também confusões semânticas, que decorrem, talvez, da falta de tradição do Brasil nesse tipo de texto. As resistências mais evidentes giram em torno do termo “literário”. Alguns jornalistas e acadêmicos enxergam nesse designativo uma tonalidade presunçosa, como se o jornalismo, sendo “menor” que a literatura, jamais pudesse sequer se atrever a querer se parecer com Ela. Prefiro uma visão menos elitista e mais inclusiva: a literatura envolve fatos tanto quanto o jornalismo (literário) envolve arte.

Há ainda os que tecem apelos éticos, na crença de que o tal “literário”, ao empregar técnicas provenientes da literatura, só pode resultar necessariamente em invenção, manipulação e distorção. Ao que respondo: ética é uma questão de formação e caráter, não de técnica. De modo geral, os debates sobre os limiares do jornalismo e da literatura acabam caindo em generalizações. Certos estudos defendem que jornalismo e literatura não podem se misturar; outros argumentam que são como os dedos desiguais da mesma mão.

Há os ensaios que operam com oposições periodísticas (o efêmero versus o duradouro); ou com dilemas comportamentais (funcionário de redação versus romancista/contista/poeta); ou afãs classificatórios (gênero versus subgênero); e purismos do tipo “a Arte não pode se misturar com essas fábricas de notícias” (sic). Entre as tantas insuficiências argumentativas, opto por aquela que aceita que a Literatura tem de englobar a escrita do factual.

(Advertência: a expressão “não ficção” é negativa e negadora, certeira e indiscreta, rudimentar e ardilosa. Como professor e como autor, sinto que, no fundo, toda escrita individual produzida neste mundo é, stricto sensu, tão autobiográfica quanto “ficcional”, afinal, trata-se de “uma criação subjetiva da realidade”. Mas é preciso cautela ao apresentar isto em sala de aula: alunos podem achar que ficção é sinônimo de mentira; ou que realidade é sinônimo de verdade.)

Parece, mas não é
Quando as discussões resvalam em abstração extremas, retiro do baú reportagens, perfis e textos de viagem e distribuo-os. É evidentemente mais fácil entender o JL pela leitura de um texto do tipo. Lendo-os, o nervo central fica exposto: ah, parece (parece) conto, mas não é conto; ah, a estrutura, a trama e a linguagem lembram (lembram) um romance, mas não é romance. Os receios, então, dão lugar ao prazer de experimentar.

Narrar é uma atitude. O novo (o diferente do habitual) requer ousadia. A diretriz fundamental de um jornalista literário é ir a campo: observar, indagar, ouvir mais do que falar, mas falar também; conquistar a confiança das pessoas para que elas relatem suas experiências autêntica e espontaneamente; selecionar ocorrências que levem o público a entrar no relato e vivê-lo como se estivesse lá.

No Brasil, o contexto nunca foi tão favorável ao estudo e à prática do JL. Vários fatores contribuíram para o restabelecimento do interesse pelo gênero: primeiro, as reformas curriculares dos cursos de jornalismo, que incentivaram trabalhos de conclusão em formato narrativo não acadêmico. Paralelamente, criaram-se disciplinas que valorizam mais a reportagem de fôlego, inclusive com a apropriação/adaptação de metodologias de pesquisa das Ciências Sociais.

Programas de pós-graduação (lato sensu) como o da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), que ajudei a criar e dirigir de 2005 a 2011, também preencheram a lacuna de formação especializada não atendida pela graduação. Em termos de mercado, a coleção Jornalismo Literário da editora Companhia das Letras (iniciada com a publicação de Hiroshima, de John Hersey, em 2002) permitiu o acesso a obras referenciais.

O lançamento de revistas como Piauí, Brasileiros e Rolling Stones na década passada também ajudou a reacender o interesse do público pela narrativa jornalística detalhada, fortalecida por componentes literários. A receptividade foi tanta que muita gente até pensou que se tratava de uma coisa nova. Mas o JL existe há mais de um século. Seu marco histórico inaugural é o século 19, quando os romancistas começaram a se excitar com a ideia de “uma ficção verdadeira sobre o real”.

Realismos
A ascensão do realismo na ficção, principalmente o de temática comportamental, fomentou a explosão de autores clássicos que lemos até hoje, como Balzac, Dostoiévski, Tolstoi, Dickens, Flaubert, Dafoe, Machado de Assis, João do Rio, Euclides da Cunha e tantos outros. Num crescendo de refinamento e sofisticação, o realismo acabaria penetrando em uma camada mais política, ansioso por denunciar as mazelas geradas pelo capitalismo e pelos regimes autoritários das primeiras décadas do século 20.

Hemingway, Steinbeck, John dos Passos, Faulkner, James Agee, Graciliano Ramos e dezenas de grandes jornalistas-escritores são exemplos da safra conhecida por “realismo social”. De um lado, a ficção lutando para incorporar o real, o imediato, o contemporâneo, o fato. De outro, o jornalismo se esmerando na cobertura de guerras, como a de Secessão, nos Estados Unidos, a dos Böers, na África do Sul, e a Guerra Civil Espanhola.

Enquanto na literatura o realismo se encaminhava para uma temática mais social, o jornalismo de reportagens detalhadas incorporava métodos mais sofisticados de apuração e expressão; e, na década de 1950, os Beatniks sacudiriam o meio literário com suas “ficções a quente”, em plena febre das vivências e muito próximas da oralidade. Eram ficções mal-comportadas na forma e às vezes delirantes no conteúdo, mas com um fascinante componente de transgressão.

Nos anos 1950, principalmente nos países mais ricos, o jornalismo estava já numa fase de industrialização, e as redações pareciam divididas entre os que tinham uma visão científica da profissão e os inquietos que se dispunham a encará-la como arte. Nesse conjunto de ânimos eclodiu o New Journalism (Novo Jornalismo), movimento imantado pela capacidade de provocação dos Beatniks e pela efervescência cultural dos anos 1960, quando os cidadãos estavam nas ruas para lutar contra o “sistema”.

O que havia de New, de Novo, naquele New Journalism praticado por autores como Gay Talese, Norman Mailer e Tom Wolfe? Em essência, nada de muito relevante. Aquilo já era feito de maneira arrojada desde o século 19, como eu disse. A novidade, ao que parece, era o fato de que agora leitores do mundo inteiro haviam passado a “comprar” uma narrativa jornalística não apenas porque ela contém dados verificáveis, mas também por sua estética subjetiva.

Resgate
O Brasil teve momentos históricos importantes nessa linha. Imitamos com argúcia o New Journalism em O Cruzeiro, Jornal da Tarde (anos 1970) e Realidade (1966-68). Mas não houve uma prática ininterrupta, não se criou uma cultura de narração literária em jornais nem um amplo mercado consumidor de histórias jornalísticas em livro. Surpreendentemente, em vez de afastar para sempre o JL dos ambientes culturais brasileiros, a atual era digital redespertou-o.

Depois de muita instabilidade, as revoluções tecnológicas acabaram levando a uma constatação que antes não parecia tão óbvia: a essência do jornalismo continua sendo a reportagem, mas ela precisa passar por um processo de oxigenação em seus métodos e procedimentos. Quem pode se interessar por Jornalismo Literário hoje em dia? Em princípio, as chamadas audiências cultas, compostas por pessoas que precisam da leitura para melhor se situarem no mundo.

Mas não podemos nos esquecer que a leitura não é uma habilidade inata. Ninguém nasce leitor. As pessoas se tornam leitoras por meio de incentivos dados ainda no ensino fundamental, e que levem o individuo a acreditar ao longo do tempo que a leitura de textos (de qualquer tipo) pode fazer diferença na vida de alguma forma, conforme o caso. A maioria das pessoas, porém, não atinge esse nível de hábito, ou não vai muito além do processo meramente instrumental da leitura.

Não nos esqueçamos também de que, em um contexto de notícias onipresentes, a informação se tornou uma espécie de commodity. A geração de conteúdos exclusivos de alto nível é, portanto, fundamental para qualquer empresa jornalística que queira sobreviver. Nesse sentido, o Jornalismo Literário, assim como o Investigativo, se apresenta como um dos caminhos de diferenciação historicamente sólidos.

O público leigo exigente tende a escapar do formato às vezes hermético (da academia), pernóstico (dos colunistas) e superficial (dos noticiários). Aqui e ali, as reportagens especiais de fôlego estão retornando, deixando ainda mais clara a genuína índole do JL, que é fazer com que conteúdo e forma sejam parceiros da mesma aventura – como, aliás, ocorre na boa literatura. (Atualizado/revisto em abril de 2013) Leia também Jornalismo Narrativo (2).

Doc multimídia sobre o trabalho de Sergio Vilas-Boas

PS: Sergio Vilas-Boas já conduziu cursos, palestras e treinamentos sobre Jornalismo Literário (Jornalismo Narrativo) em instituições como PUC-SP, Universidade Metodista, Uni-BH, U.F.Ceará, U.F.Santa Catarina, UEPG, Unesp, Uni-Brasil, Universidade de Londrina, SindJor-SP, ABJL, Itaú Cultural, Abraji, Flip, Sesc-PR, “Zero Hora”, “Folha de S.Paulo”, “O Estado de S.Paulo” e “Jornal da Tarde”, entre outras.