“Page One”, o documentário

As mudanças do jornal “The New York Times” no século XXI.

Sergio Vilas-Boas
“Jornal da ANJ”, dezembro/2011

O documentário “Page One, Inside ‘The New York Times’” (2011) procura equilibrar o singular e o universal, sustentando uma narrativa esclarecedora (para o público leigo) sobre o setor de mídia impressa. No plano macro, o filme lança luzes sobre a travessia de uma empresa jornalística do papel para o digital; no micro, detalha as estratégias imediatistas de sites noticiosos, contrapondo-as à noção geral que normalmente se tem de “tradição”, “profundidade” e “credibilidade”.

A narrativa abre com televisores noticiando a morte (provável ou já confirmada) de jornais americanos centenários, como “Rocky Mountain News”, “Philadelphia Daily News”, “Star Tribune”, “Boston Globe”, “San Francisco Chronicle”, “The Seattle Post-Intelligencer”, “Chicago Tribune” e “Los Angeles Times”. Em seguida, uma legenda informa que o “Times” criou em 2008 uma editoria (Media Desk) para cobrir as mudanças que vêm ocorrendo no setor de mídia.

“O colapso dos anúncios aconteceu muito mais rápido do que se podia antecipar. Só neste 2009 a queda na receita com anúncios foi de 30%”, afirma o jornalista Richard Pérez-Peña, do “Times”; e os consultores especialistas ouvidos são unânimes: os jornais “agiram com soberba” em relação ao surgimento do Monster.com e do Craigslist.com; e desconsideraram o fato de anunciantes poderosos como Ford e GM terem criado seus próprios sites.

Com as perdas em anúncios e em classificados, o “Times” comeu o pão que o diabo amassou, sendo obrigado a tomar US$ 250 milhões de empréstimo com o milionário mexicano Carlos Slim e hipotecar a nova sede em Manhattan, no Oitava Avenida entre as ruas 41 e 42.

Em uma passagem interessante do filme, o mediador de um debate pergunta à platéia: “Levante a mão quem ficaria feliz se o ‘Times’ desaparecesse”. Dez pessoas erguem a mão. “E quem aí ficaria preocupado se o ‘Times’ deixasse de existir?”. Maioria esmagadora. Markos Moulitsas, co-fundador do Dailykos.com (“weblog de análise política por uma perspectiva liberal”) questiona a opinião da platéia: “Essa credibilidade automaticamente acoplada ao ‘Times’ é perigosa”.

“Ora, só porque sai no ‘Times’ temos de levar a sério? Isso é perigoso”, diz Moulitsas. “Essa credibilidade automaticamente acoplada ao ‘Times’ é o que permitiu a Judy Miller fazer aquela cobertura pré-guerra [sobre Saddam Hussein possuir armas de destruição em massa] que contribuiu para estarmos na situação em que estamos”.

O filme deixa claro o chamado “efeito ‘Times’”, jornal que pauta outras mídias e, errando ou acertando, gera um efeito dominó.

Os episódios “Miller” e “Blair”

No dia 7 de setembro de 2002, a repórter Judith (Judy) Miller escreveu que “o Iraque acelerou seus investimentos em armas nucleares e deu início a uma caçada global pelos materiais necessários à construção da bomba atômica”. Todos os telejornais reproduziram esse trecho nas horas seguintes. Tempos depois, um repórter britânico indagou à já aposentada Miller o que de fato aconteceu. “Se suas fontes estão erradas, você erra”, ela diz. “Dar ouvido a fontes erradas não põe a sua atividade no mesmo patamar da de um estenógrafo?”, provoca o repórter.

Em julho de 2007, o site de Julian Assange obteve de fonte anônima o vídeo de um ataque aéreo de dois helicópteros Apache americanos contra um grupo de caminhantes na periferia de Bagdá. Doze pessoas morreram na ocasião e, entre os feridos, havia duas crianças. Sob o título de “Assassinato Colateral”, o vídeo, postado pelo WikiLeaks no YouTube, abalou tanto a imprensa estabelecida quanto os governos. As Forças Armadas americanas alegaram que os mortos eram insurgentes.

O WikiLeaks, por sua vez, dizia que dois dos doze mortos eram profissionais da Reuters: Saeed Chmagh e Namir Noor Eldeen. Bruce Headlam, editor do “Times”, resolve investir na história com o objetivo de entender o que aquela controvérsia significava para o jornalismo como um todo: “Havia dois planetas em colisão”, acreditava Headlam. “O planeta da inteligência especializada e o planeta que desejava destruir o planeta pré-existente.”

Na época, Susan Chira, editora de internacional do “Times”, ainda não tinha ouvido falar do WikiLeaks, assim como a maioria de seus colegas. O jovem nerd Brian Stelter, repórter recém-contratado pela editoria de mídia (criada em 2008 para cobrir o setor), sim, e ele telefona para Julian Assange:

– Existe uma definição tradicional de que o jornalismo tem de ser objetivo e jamais infringir a lei para obter informações. Você está tentando praticar essa definição ou o seu conceito de jornalismo é mais amplo? – Brian pergunta.
– O jornalismo é apenas uma ferramenta. Nós usamos a ferramenta com um objetivo.
– Qual objetivo?
– Em sentido amplo, nossa meta é a justiça.
– Jornalista é uma palavra que você colocaria como uma espécie de rótulo para a sua pessoa?
– Sim. Mas é justo dizer que sou também um ativista. Se tivesse que escolher entre uma coisa e outra, eu escolheria os valores do ativismo, ou seja, da batalha contra a injustiça, em vez dos objetivos do jornalismo, que são menos claros.

O diretor do documentário faz um paralelo entre esse episódio e o do vazamento (pelas mãos do estrategista Daniel Ellsberg) dos documentos do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã. A publicação daqueles documentos, segundo Alex S. Jones, autor de “The Trust: The Private and Powerful Family Behind The New York Times”, é um marco na história da imprensa americana. “Foi o momento em que a mídia se levantou e disse: ‘Somos independentes em relação à presidência e vamos fazer o que pensamos ser a coisa certa a fazer’”, lembra Jones.

Em um programa de TV comemorativo, Daniel Ellsberg já havia refletido sobre o assunto: “Quando entreguei aqueles documentos para o ‘Times’, houve um período de 22 meses – do começo da preparação das cópias até a publicação. Se a internet já existisse, eu teria comprado um scanner e enviado para sites e blogs. Não tenho certeza se surtiria efeito, mas pelo menos estaria rapidamente ao alcance”. E o ex-editor executivo Bill Keller reconhece: “O fato crucial é que o WikiLeaks precisa de nós”.

E precisou mesmo. Em 2010, o WikiLeaks publicou a íntegra de 91 mil documentos secretos das forças armadas americanas que tocavam em questões como mortes inexplicáveis de soldados, táticas de batalha questionáveis e missões que não estavam indo nada bem na “guerra contra o terror” no Afeganistão. O “Times” – juntamente com a revista “Der Spiegel” e o diário inglês “The Guardian” – fez “parceria” com o WikiLeaks e publicou trechos dos tais documentos.

“Eles [o WikiLeaks] não são nossos parceiros nem colaboradores”, adverte Susan Chira. “Assange é uma fonte como qualquer outra fonte nos dando acesso a papeis importantes.” Chira acredita que o WikiLeaks pode ser fonte mesmo sendo também publisher. Meses depois, o WikiLeaks lança 250 mil transmissões diplomáticas confidenciais. O “Times” processa algumas transmissões em sua primeira página durante nove dias consecutivos. Para os especialistas ouvidos, aquela participação foi um “claro sinal” de que o “Times” não só continuava no jogo do jornalismo como era ainda um player importante.

David Carr e Brian Stelton

No filme, o analógico e o digital são representados pelos jornalistas David Carr (52 anos) e Brian Stelton (24). Carr representa a velha guarda, a criatura analógica e politizada. Stelton é o jovem digital, plugado em vários aparelhos, inconformado com matérias editadas ao meio-dia que só entram no Twitter à meia-noite. Passado e presente separam os dois, porém. Antes de Brian nascer, Carr se afundara em drogas.

“Você é um ex-viciado em crack e agora está no ‘Times’. Qual dessas duas coisas é mais prejudicial à sociedade?”, pergunta o apresentador engraçadinho de um talkshow.  Além de ter sido um pária, Carr enfrentara prisão por porte de cocaína. Ele não esconde sua história das câmeras e procura demonstrar compreensão (mas não submissão) aos que o atacam e às fontes que se recusam a atendê-lo em suas coberturas do setor de mídia.

Carr participa ativamente do filme não apenas por seu passado atribulado e sua voz ferina de Pato Donald barítono, mas também por sua inteligência, apuração minuciosa e escrita pungente. Ele brinca que Brian Stelton é “um robô fabricado no subsolo do Times com o objetivo de reerguer o Times e destruir os profissionais mais velhos”. Quando estudante, Brian foi alvo de reportagem do próprio “Times” sob o título “O garoto blogueiro que tem todas as notícias sobre os telejornais”.

As duas gerações oferecem percepções às vezes coincidentes sobre o atual momento histórico do jornalismo, como no trecho em que criticam os agregadores de conteúdo. Mas coube a David Remnick, editor da revista “The New Yorker”, disparar: “A maioria dos sites de notícias se alimenta de conteúdos do ‘Times’, adicionando a esses conteúdos imagens vistosas, manchetes ‘sexy’, comentários espirituosos e outros truques sem qualquer motivação jornalística”.

A edição final do documentário pode nos levar a crer que os sites noticiosos são arrivistas e fúteis. As falas da maioria dos responsáveis por esses sites soam tão pragmáticas quanto ingênuas. Nick Denton, por exemplo, fundador do Gawker, deixa claro que a vigilância dos poderes públicos não é sua missão: “Ninguém aqui está interessado em histórias de corrupção”.

O problema do investimento em jornalismo investigativo, aliás, foi minimizado no filme. Instituições sem fins lucrativos, como o ProPublica, fundado em 2008 por Paul Steiger, quem por 25 anos foi editor executivo do “The Wall Street Journal”, são genericamente apontadas como “alternativa imprescindível”. “Não há modelo de negócio (lucrativo) possível para jornalismo investigativo”, afirma Steiger.

A mensagem do filme, sob esse aspecto, é clara: o jornalismo de qualidade se sustenta pelo embate (presencial) com acontecimentos de amplo espectro, o que requer uma estrutura que apenas empresas grandes teriam condições de manter. Além de compor um retrato valioso do setor jornal neste início de século, Andrew Rossi conseguiu evitar o catastrofismo. Contudo, as melhores referências (para mim) sobre o “Times” continuam em papel: os livros “O Reino e o Poder” (1969), de Gay Talese, e “The Trust” (1999), de Alex S. Jones e Susan Tifft, que resenhei anos atrás e postei aqui no blog.

PS: Depois de oito anos à frente do “Times”, Bill Keller se aposentou. O cargo de editor executivo foi passado em setembro de 2011 para Jill Abramson, primeira mulher a comandar um dos maiores jornais do mundo (a propósito, Jill foi primorosamente “perfilada” por Ken Auletta na “The New Yorker” em outubro de 2011). Outro fato relevante ocorrido após o lançamento de “Page One”: o “Times” passou a cobrar pelo acesso total ao NYTimes.com – e com resultados animadores, ao que parece.

Caro jovem escritor

As ideias me ocorrem de maneira bastante caótica.

Sergio Vilas-Boas

Sou também jovem, ou melhor, sinto-me: 45 anos não é nada. Era um meio-adulto quando optei pela faculdade de jornalismo mais pelo fato de estar encantado com literatura que por qualquer outra coisa. Desde então não parei de escrever: crônicas, reportagens, ensaios, teses, contos e romances. Apesar de mais de duas décadas de produção e publicação, estou certo de que ainda não dei o melhor de mim.

Não é questão de entrega, não. Entrego-me à escrita a ponto de ela me possuir. Os convivas sofrem com o meu alheamento. Quando plenamente imerso num projeto narrativo (vamos chamar de projeto narrativo tudo aquilo que envolve a arte de contar uma história), tenho de me advertir até sobre a hora de comer. Afinal, de que adianta encher-se de arte e esvaziar-se de corpo?

Cada mergulho criativo é uma experiência singular. O conhecimento sobre o fazer é cumulativo. Mas não há fórmulas nem fôrmas. O que existem são formas: a forma que você atinge, que eu atinjo, que eles/elas atingem. Espera-se que tanto a forma quanto o conteúdo sejam originais ou irrepetíveis. Quem escreve, assim como quem pinta ou filma, está sempre em busca de algo novo (para si, pelo menos).

As ideias me ocorrem de maneira bastante caótica. É eu me colocar à disposição delas e elas surgem aos borbotões. Então, a ideia que se tem da falta de ideia é um mito, na minha visão. Se você se puser em sintonia com a geração de insights, os insights vêm. Pode contar. O problema é outro: quem tem milhares de ideias não tem, na verdade, nenhuma. É nadar, nadar e morrer na praia (mas, por favor, evite esse tipo de clichê nos seus textos, ok?).

Estou convencido de que comigo funciona assim: agarro-me a uma (somente uma) ideia e provoco insights para que ela encorpe. Pergunto-me coisas aparentemente bobas como: qual a história? Quantos personagens ela terá? Qual o nome de cada um? O que acontece com cada um? Devo trabalhar com uma ocorrência simples que cria panoramas ou fatos de grandes proporções que iluminam uma experiência individual?

Entendo a demanda atual das pessoas por medidas concretas, diretrizes exeqüíveis, providências certeiras. Vivemos numa era tecnológica, não literária. Estamos longe do século 19, quando o romance era uma espécie de telenovela, ainda que para poucos (o analfabetismo era alto, na época). Se você, jovem escritor, por acaso tem esse tipo de demanda, anote uma dica: ajude-se, mas não dê bola ao falso conforto da autoajuda.

Claro que você precisa ficar atento ao que os bons escritores dizem ou escrevem, sem jamais se esquecer de que os bons escritores não necessariamente são os mais famosos ou os que vendem mais. Siga aqueles cuja qualidade você aprendeu a confiar, ou aqueles que lhe foram indicados por gente que você confia. Acompanhar a produção e o pensamento dos nossos pares é importantíssimo. Estudar também. Estudar literatura, claro, como não?

E enquanto acompanha e estuda você vai experimentando. Como disse, cada experimento é um experimento. Até hoje não tenho clareza sobre a minha melhor maneira de trabalhar. Projetos narrativos já me ocorreram redondinhos, numa sequência lógica incrível, como num download. Outros surgiram em doses homeopáticas, empurrando-me para uma digestão longa, que não tem como ser medida em horas, meses ou anos.

Dentro do possível, evito ao máximo a ansiedade (de ter ideias, de ter um projeto, de realizar o projeto, de publicá-lo etc.). Se você olhar bem, verá que transito entre duas vertentes do mesmo Grand Canyon: a reportagem com requintes literários em que nada se pode inventar; e o romance ficcional, no qual tudo poderia, em tese, ser inventado e, no entanto, não o é. Entre o real e a invenção, meu caro, há mil nuances.

Publiquei mais textos jornalísticos ou ensaísticos que textos ficcionais, e isto é relativamente fácil de explicar, no meu caso: a “invenção” de uma história, para mim, é um drama maior. Mexe comigo por inteiro. Revolve-me as vísceras. Impõe-me certa irracionalidade. Tudo depende só e somente só de mim, entende? Isso para dizer-lhe o seguinte: deixe-se possuir pelo projeto, mas cuidado com a autocrítica excessiva.

Quando o projeto é de ficção, posso me sentar diante do computador com objetivos claros ou vagos, não importa. O ritmo da execução vai variar conforme o “calor”, os progressos e os retrocessos (trechos ou capítulos inteiros podem ir parar na lata do lixo). Mas uma coisa é certa: dificilmente produzo mais que vinte e poucas linhas aproveitáveis por dia. Mesmo assim, essas tais linhas nunca serão as mesmas nos dias seguintes.

Antes de partir para a segunda bateria de vinte e poucas linhas, reescrevo obsessivamente a primeira bateria. E assim por diante. Porque escrever, caro jovem, é reescrever, na verdade. Conheço autores que juram que o que brota primeiro é o que fica. Duvido. Ou melhor, admiro, acho incrível, até. Mas comigo não é assim. Ao contrário, minhas primeiras investidas costumam ser aceitáveis em termos de coesão e de gramática, mas toscas do ponto de vista artístico.

Não estou sendo excessivamente autocrítico, não. É fato. Tanto que, quando releio as tais vinte e poucas linhas no dia seguinte, ou depois de amanhã, o que vejo são esboços, estudos, possibilidades, enfim, algo com uma energia potencial. Ah, pois isto nos leva a outra questão importante: qual a hora de parar? Quando um autor atinge a certeza de que seu projeto está terminado? Lamento se a minha resposta o decepciona, mas é assim: eu sinto o ponto final. Como aqui, agora.

Sobre “Doutor Desafio”

Como escritores, o que podemos almejar a respeito de alguém, seja em um perfil de duzentas e poucas páginas, como este, seja em uma biografia de milhares de páginas, são alguns fragmentos verificáveis.

Sergio Vilas-Boas

Eu não conhecia o sr. Luiz Garcia. Comecei a conhecê-lo um pouquinho durante a minha primeira reunião em São Paulo com Celso Machado, diretor de cultura corporativa da Algar, e com Marco Oliveira, consultor experiente que conheci em sala de aula (Marco foi meu aluno no curso de pós-graduação em Jornalismo Literário).

Sergio e o “Dr. Luiz” no dia da visita a uma das fazendas dele no interior do Mato Grosso do Sul.

A partir do momento em que aceitei o convite, o projeto passou a depender de mim para existir; e eu, como autor, sabia que, naquele momento, estava me ligando para sempre à vida do sr. Luiz e de seus convivas (e vice-versa).

Este livro faz parte de um projeto ambicioso. “Doutor Desafio” integra um conjunto de ações que o Grupo Algar vem empreendendo no sentido de registrar suas memórias e experiências coletivas e individuais para as futuras gerações.

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Na minha visão, o primeiro grande passo dado pela Algar nessa direção foi a construção de um extraordinário acervo de memória oral em parceria com o Museu da Pessoa.

O convite era irresistível. Além de se tratar de um homem íntegro, sobre o qual não pesam dúvidas de natureza ética, o projeto se encaixava perfeitamente em alguns critérios meus. Estes:

  • dentro do possível, prefiro os vivos aos mortos, e a prática tem me mostrado que essa escolha não compromete em nada a perenidade e o escopo da narrativa;
  • gosto mais do gênero Perfil (ao estilo jornalístico-literário) que da biografia exaustiva, em geral com uma aparência de catálogo e talvez por isso um tanto indigesta e autoritária;
  • prefiro o foco à quantidade;
  • em vez de seguir uma cronologia rígida, como a da maioria das biografias convencionais que vemos nas livrarias, prefiro entrelaçar os episódios.

Até porque a vida narrada não é a vida vivida. Até porque uma vida não cabe em um livro. Na verdade, não cabe nem mesmo em uma coleção infinita de livros. A vida vivida existe em si mesma e, portanto, sua totalidade não pode ser atingida por meio da palavra escrita.

Como escritores, o que podemos almejar a respeito de alguém, seja em um perfil de duzentas e poucas páginas, como este, seja em uma biografia de milhares de páginas, não é nada além de alguns fragmentos verificáveis. Não é o volume de fragmentos que faz a diferença, mas sim a maneira de selecioná-los e organizá-los.

As parcelas da história de vida do sr. Luiz Garcia, contadas em “Doutor Desafio“, portanto, decorrem de escolhas minhas. Escolhi algumas facetas e episódios da vida dele. Assim tinha de ser. Assim foi pactuado.

Assumo inteiramente essas escolhas. Assumo-as ciente de que as pessoas que conhecem o sr. Luiz melhor do que eu, ou que pensam conhecê-lo a fundo, talvez fizessem recortes completamente diferentes dos meus.

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Mas estou seguro de que minhas escolhas são as mais apropriadas ao design original do projeto, que previa a abordagem pessoal de um observador posicionado fora do grande circuito de relacionamentos do sr. Luiz.

O que ao final permitiu que minhas seleções de facetas e episódios criassem um sentido dentro da narração, ainda que por acaso não agradem a alguns convivas do sr. Luiz ou mesmo a ele próprio, foi a pesquisa documental e oral que realizei.

O processo de biografar, independentemente de quem seja o personagem central, exige muita leitura, múltiplas entrevistas de compreensão e uma escrita de preferência elegante e acessível a audiências heterogêneas.

O acervo de experiências acumulado pelo Centro de Memória Algar, em parceria com o Museu da Pessoa, foi decisivo para o meu trabalho. Pude contar com exaustivos depoimentos (gravados) de pessoas que estão entre nós e de várias que já se foram. E tive acesso a textos e documentos imprescindíveis.

Acima de tudo, imergi em mais de quarenta horas de depoimentos do próprio sr. Luiz, parte deles gravados pelos entrevistadores do Museu da Pessoa, parte gravados pelo jornalista Ethevado Siqueira, especialista em TI/Telecom e hoje colunista do jornal “O Estado de S.Paulo”.

Esse conteúdo de memória oral gerado pelo próprio sr. Luiz deu sustentação histórica ao livro. Isso porque a participação do sr. Luiz no meu trabalho de campo foi discreta, ainda que fraterna; cautelosa, ainda que transparente.

Com o tempo foi ficando claro para mim que ele é o que podemos chamar de “um cidadão low profile”. Para ele, o que interessa é a Algar, não ele próprio, como marido, pai, filho, esportista etc. Às vezes me pareceu que ele não tinha ciência certa de sua importância local e nacional.

Com o tempo, então, tive que aceitar o fato de que devia me virar sozinho. Mais sozinho do que eu gostaria, diga-se. Tive de quebrar cabeça sem o auxílio intensivo dele para montar o inevitável quebra-cabeças que é a trajetória humana.

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Por outro lado, uma obra biográfica é (tem de ser) sobre uma pessoa, a menos que se queira vender gato por lebre. Sim, é sobre uma pessoa, não sobre uma instituição, por mais que vida e obra – estes dois componentes básicos presentes em cada um de nós – sejam (e são) indissociáveis.

Então fui percebendo que ele, no início, procurava manter uma distância segura de mim. Agiu assim até mesmo nas raras vezes em que buscou uma aproximação espontânea. E querem saber? Eu o admiro por isso.

Vivemos uma época marcada pelo fenômeno das celebridades sem obra. Vivemos um momento histórico em que o imperativo da performance se confunde com a ditadura das aparências. Isso, aliás, tem levado muito gente a premeditar a própria imagem e forjar (ou adotar) um personagem público muito distante do seu verdadeiro “Eu”.

Acho admirável que um homem como ele, com uma obra empresarial e social tão abrangente, e com influência positiva na vida de tantas pessoas, tenha optado por não controlar o processo deste livro e muito menos aproveitar a situação para criar (forjar) uma “autoimagem”.

Por outro lado, agindo assim, ele me deu mais trabalho, evidentemente. Busquei o quanto pude uma pluralidade de convívios diretos, a fim de enriquecer o texto com cenas do presente, como as do primeiro capítulo (“A missão”). Mas não foi possível.

A atitude dele me remeteu ao escritor Gabriel García Márquez, que disse ao seu biógrafo Dasso Saldívar algo mais ou menos assim: “Quer escrever a minha biografia? Ótimo. Mas não conte comigo. Escreva-a como se eu estivesse morto”.

De qualquer forma, mesmo sem ter podido me aproximar do sr. Luiz na medida que eu precisava (ou que eu gostaria), aprendi a conhecê-lo de outras maneiras. Alguns aspectos certamente me escaparam. Outros simplesmente não emergiram durante o tempo que tive (de fevereiro de 2010 a junho de 2011). Assim é. Faz parte. Além do mais, cada perfil é um perfil. Para cada perfil, um processo. E os processos são irrepetíveis.

Mas estou seguro quanto ao essencial: sr. Luiz é um homem íntegro, sério e autêntico, que transita com naturalidade por qualquer ambiente, nunca tentando ser outro além dele próprio, com tudo o que isso implica. E acredito que esse traço de personalidade dele está devidamente expresso no livro.

Agora um tópico que não posso desconsiderar: os causos têm peso elevado na cultura mineira. Reconheço a importância dos causos como narrativa, compreendo seus mecanismos, adoro ouvi-los. Os causos são mesmo um componente cultural valioso. No entanto, os causos idealizam tanto quanto iluminam; folclorizam tanto quanto revelam; divertem tanto quanto distorcem.

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Muitos causos gravitam em torno da “persona” do sr. Luiz, conhecido como Doutor Luiz (aliás, daí o título “Doutor Desafio“). Alguns são interessantes, outros não; alguns são ilustrativos/elucidativos, outros não; alguns são genuínos, outros me soaram retorcidos.

Infelizmente, não é possível construir um perfil apenas com causos, anedotas ou idiossincrasias, por mais atraentes, do ponto de vista do convite à leitura. Ciente disso, ponderei bastante o falado e o escrito; o especulativo e o comprovável; o fato e a criação; o sólido e o líquido.

Sr. Luiz disse no evento de lançamento do livro em Uberlândia que o Luiz do livro do Sergio é um Luiz sem defeitos. Discordo. Primeiro, a ideia de defeito é variável, não consensual. Segundo, não cabe ao autor de um perfil ou de uma biografia emitir juízo de valor sobre o modo de ser de seu personagem.

Por exemplo: ele é um homem indiscutivelmente teimoso (e o livro contempla esse outro traço psicológico dele). Mas ser teimoso não é nem bom nem mau a priori. É apenas um dado. Conforme o contexto, ser teimoso significa ser turrão. Noutro contexto, significa ser determinado. Estando bem contextualizado, alguns poderão ler como sendo uma “qualidade”; outros poderão ler como sendo um “defeito”. Quem está certo? Todos e ninguém.

Outra coisa: a linguagem escrita é mais rica quando não usada com o intuito de atacar e ferir. As palavras são nossas amigas. Existem aos milhares exatamente para que nós, escritores de não ficção, as usemos com a máxima sutileza e ponderação, a fim de permitir que os leitores, principalmente os leitores que não conhecem o sr. Luiz, tirem suas próprias conclusões (se quiserem).

Então, para encerrar: sr. Luiz, agora nossas vidas estão atadas para sempre por meio desta obra. Nem eu nem o sr. Luiz poderemos negar que “Doutor Desafio” é agora uma das fontes perenes de consulta sobre a sua existência, sua vida e sua obra. Da mesma forma, este livro agora integra a minha obra como professor de biografismo e como autor de narrativas biográficas.

Obrigado a todos que participaram direta ou indiretamente da narrativa! Obrigado ao sr. Luiz, meu “personagem”.

///

Pergunta formuladas por alunos da Universidade de Uberaba (Uniube), sob a coordenação da professora Cíntia Cerqueira:

1 – Quanto tempo levou para produzir/finalizar o projeto (desde a assinatura do contrato até a publicação)?

Três meses de negociação para a assinatura de um contrato entre mim e a Algar Participações S/A, contendo as obrigações de ambas as partes, as condições de produção (recursos materiais e intelectuais), acesso a fontes primárias (material memorialístico de propriedade da Algar e outros), a autoria (ou seja, quem iria assinar o produto final – no caso, eu, mas eu poderia ser apenas um “escritor-fantasma”, se as partes assim preferissem) etc.

Seis meses para o trabalho de campo (exame do material memorialístico existente e entrevistas). Três meses para a redação. Um mês para a leitura da Algar, patrocinadora do projeto, conforme estabelecido em contrato. Leram o livro, pela ordem, então: 1) Celso Machado, diretor de cultura corporativa; 2) Cícero Penha, diretor de RH; 3) Luiz Alexandre, filho do sr. Luiz Garcia e atual CEO. Somente estes três leram a primeira versão.

Quinze dias para eu fazer as correções de dados factuais (apenas eventuais erros de informação) apontados por esses três leitores. Houve poucos erros, felizmente, apesar de muita coisa ter sido relatada oralmente (e a memória é traidora). Daí, mais trinta dias para a leitura do próprio sr. Luiz Garcia, depois de feitas as correções apontadas pelos três leitores anteriores.

Demos outros dias para releituras minhas e do Celso Machado, período dentro do qual atendi a uma meia dúzia de correções factuais (sobrenomes, datas, lugares) apontadas pelo sr. Luiz Garcia. Fiz também alguns aperfeiçoamentos narrativos que julguei necessários. A assinatura do contrato de edição entre a Algar e a Editora Manole ocupou cerca de dois meses (foram coletados três orçamentos de editoras interessadas). Minha única participação nessa etapa foi indicar editoras e facilitar contatos.

2 – Houve interferências no texto? Você teve total liberdade ou lhe pediram cortes de cenas, modificações de trechos etc.?

Não houve interferências diretas na estrutura nem no meu estilo de escrever. O contrato era claro quanto a isto: eu só poderia atender solicitações relacionadas a “informação errada” ou “interpretação equivocada”.

3 – Quais são as principais exigências do contrato de produção biográfica, de ambas as partes?

Nesse tipo de projeto – aliás, em qualquer projeto de narrativa de não ficção – as partes pactuam a filosofia, o método e a escrita. Nenhum autor de não ficção pode fazer apenas o que quer. O diretor Celso Machado, quem me contratou, sempre defendeu que a obra deveria ser produzida por alguém de fora da Algar, de preferência um jornalista, alguém tão qualificado quanto “descontaminado”. O sr. Luiz Garcia é adorado, quase um Deus para a maioria das dezenas de milhares de pessoas que o conhecem. Calhou de, por acaso, ser eu o “outsider” que eles procuravam. Diante da necessidade apresentada pelo Celso, propus um Perfil, em vez de uma biografia gigante. Expliquei como é o trabalho de campo de um jornalista narrativo no que tange ao gênero Perfil. Ele ficou bastante animado.

4 – O que vocês definiram?

Definimos: os objetivos do projeto; a participação do sr. Luiz Garcia nos trabalhos; o tamanho do texto (cerca de 180 folhas A4, fonte 12, espaçamento 1,5); o prazo de entrega; se ia ser comercializado, se ia ser distribuído gratuitamente ou se as duas coisas. se o autor – eu, no caso – assinaria a obra ou se seria um “escritor-fantasma”; definimos as pessoas que poderiam me ajudar no processo de pesquisas e entrevistas, que implicava viagens; quais documentos histórico-memorialísticos estariam à minha disposição (e quais não estariam e por quê); os valores e as formas de pagamento; a cobertura de despesas extras etc. etc. Uma vez definido que eu seria o autor (que eu assinaria a obra), pactuamos algumas liberdades autorais. Assumi “o risco de o sr. Luiz Garcia detestar a obra e impedir a sua publicação” (felizmente, isso não ocorreu).

 4 – Quantas pessoas foram entrevistadas, qual o tempo total de entrevistas realizadas (sem contar as já gravadas que você ouviu) e quanto tempo você passou com o personagem Luiz Garcia (em quantidade de encontros e em tempo total de entrevista)…

Entrevistados: 25, no total. Duração média das entrevistas: 90 minutos (mas também fiz várias por email e, nesse caso, é difícil medir com exatidão. Examinei mais de 30 horas de gravações de entrevistas pré-existentes e outras 20 horas de vídeos. No total, encontrei-me com o sr. Luiz Garcia em seis ocasições. Visitei oito lugares apenas com o intuito de observar a presença dele, sem realizar entrevista formal.

6 – Como você lidou com os comentários recebidos durante a execução do projeto e de que forma elas refletiram no resultado? Depois de o projeto estar pronto, surgiram mais críticas?

Recebi superbem. O sr. Luiz não não me cedeu muito do tempo dele para o livro, mas foi, dentro do possível, atencioso e solícito. Tampouco agiu como um censor/interventor, direta ou indiretamente. Por fim, entusiasmou-se com o projeto e, até onde sei, ele gostou do texto, tanto que o leu inteiro durante um voo entre São Paulo e Brasília, segundo me disseram. De uma tacada só. Sem parar. Ah, ele não pôde resistir… Rs…

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PS: tenho conduzido cursos, palestras e treinamentos sobre Jornalismo Literário (Jornalismo Narrativo) e Biografias/Perfis em instituições como PUC-SP, Universidade Metodista, Uni-BH, U.F.Ceará, U.F.Santa Catarina, UEPG, Unesp, Uni-Brasil, Universidade de Londrina, SindJor-SP, ABJL, Itaú Cultural, Abraji, Flip, Sesc-PR, “Zero Hora”, “Folha de S.Paulo”, “O Estado de S.Paulo” e “Jornal da Tarde”, entre outras.

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Assistir ao vídeo da palestra no auditório da Livraria da Vila, São Paulo.

Assistir ao documentário multimídia sobre o trabalho de Sergio Vilas-Boas.

Sobre meninos e camelos

Em dezembro de 1977 ganhou de Natal uma bicicleta Monareta azul que mudou a relação dele com o mundo.

Sergio Vilas-Boas

Ele não sabe andar de bicicleta. Tivera apenas um velocípede quando criança. Mas treina com afinco dentro do quintal. Faz um pacto com os pais de só sair para a rua quando domar o animal. Em poucas horas, a bicicleta vira seu cotidiano de ponta-cabeça, absorvendo-o completamente, implodindo o monótono mundinho intramuros do retraído adolescente. Agora não há mais por que resmungar “mãe, num tem nada pra mim fazê!”, referindo-se a brincar, interagir, sociabilizar. Ela tampouco tem razão para insistir nas mesmas respostas: “Tem exercício da escola”, ou “vai vê televisão”, ou “pega os livro pra lê” (referindo-se aos didáticos comprados nas seções de usados das papelarias).

Nada disso. Agora há uma bicicleta, o animal amigo e companheiro. Distrai-se tanto com o tal animal que fica desnorteado quando a mãe, ao entardecer, ordena-lhe que entre em casa logo “porque está na hora de tomar banho e jantar”. Foi como despertar de um transe hipnótico: “Quem sou, onde estou, o que aconteceu, o que estou fazendo aqui?”.

O menino nem percebe os joelhos, cotovelos e coxas escalavrados; nem o cromo do guidom suavemente amassado em dois pontos; nem as raspas de borracha dos pedais e manetes grudadas no muro áspero; nem os apelos dos pais para que fizesse manobras que eles próprios, os pais, não sabiam fazer porque nunca andaram de bicicleta na vida; tampouco se importa com os moleques vizinhos disputando uma fresta de ferrugem do portão de zinco para ver o espetáculo do Serginho em cima de sua bicicleta.

No terceiro dia de pedalagens, com a exaustão agravada por não ter dormido direito (de tão absorvido), ele domina o animal como um amansador venturoso. O retorno à superfície do oceano da consciência se dá quando começa a falar do alto de seu camelo. Sim, pedalar e falar ao mesmo tempo. O resto foi conseqüência: montar-se e desmontar-se do selim com naturalidade; posicionar os pedais no ponto certo com os próprios pés, movendo-os para trás; manter-se montado em repouso – apoiado num pilar, por exemplo.

Em termos práticos, todo o resto se resume agora em acelerar nas retas e reduzir nas curvas. Em termos filosóficos, porém, as coisas antipráticas não eram assim tão presumíveis.

25/03/1978. Para descer os seis quilômetros do Anel Rodoviário de Belo Horizonte em cima de suas bicicletas os garotos precisavam subir, ou melhor, escalar os mesmos seis quilômetros pela velha via de mão dupla – estreita, tortuosa, deformada pelos caminhões pesados. Um aclive acentuado começava mais ou menos no trevo do bairro Betânia (sentido Rio de Janeiro).

Os caminhoneiros faziam o que podiam para embalar suas scanias, mercedes e volvos, mas era inútil. Em segundos suas máquinas eram barradas. À medida que se rendiam ao relevo inclemente, o desfile de enormes dragões (do ponto de vista dos garotos, que também eram conhecidos por “vagais”) vai se tornando um entediante cortejo de vira-latas fatigados.

E aqueles merdinhas vadios, trezentos metros adiante, parados, descansando sobre a garupa de seus camelos (gíria para bicicletas, assim como “vagais” para “perdidões”). O que faziam ali? Ah, estavam emboscados. Objetivo: conseguir tração até o alto da serra. Esperavam os que caminhões passassem, saíam da moita, evitando que suas imagens fossem captadas pelo retrovisor do motorista, e fisgavam um dos ganchos de amarrar cargas, localizados na face traseira da carroceria.

Alguns caminhoneiros atentos percebiam a armação e começavam a sacudir o caminhão com o volante, gritando:

“Cai fora daí, moleque danado. Caia fora daí. Cadê a tua mãe, filho-da-puta?”

Outros caminhoneiros nem pressentiam (ou fingiam não notar) a presença dos pequenos parasitas agarrados aos ganchos.

Sergio – ou Serginho, dependendo de quem o chamava e em quais circunstâncias – está agora preso à ponta da cauda de uma Mercedes-Benz modelo 1313, potencialmente forte e ágil como um touro, mas que depois de quinhentos metros de desaceleração mais parece um réptil lesado. Além de tudo, o mercedão está empanturrado de milhões de pequenas rochas compactas e pesadas: ferro in natura.

Serginho está com 12 anos. Pilota sua Monareta aro 20 que poderia ser esmagada como um tomate pelas dez rodas daquele brutamontes. Ao seu lado estavam os amigos Clever e Luiz Antônio agarrados à mesma face da mesma carroceria. Os três sentiam o empuxo do motor do mercedão, que cuspia raivosamente uma fumaça negra, quente e densa.

A fumaça de diesel cru impregnava seus corpos: turvava os olhos, borrava a pele, endurecia os cabelos, entupia os poros e condicionava a respiração, enquanto os tímpanos eram pungidos pela zoeira daquela descarga que só dava trégua (por alguns segundos) quando o motorista trocava de marchas. A cada redução de marchas, aliás, decorria um silêncio medonho, como o hiato de um asmático que de repente para de ofegar. Daí os injetores irrigavam os cabeçotes, o motor urrava e a névoa de carbono envolvia novamente os vagais.

Que diabos o Serginho está fazendo ali, minha Nossa Senhora?

O que passava pela cabeça do provável “filósofo do bairro”?
Filósofo… Essa é boa.

Em sua cabeça passavam-se mil coisas: um medo que não podia demonstrar; culpa por trair a Providência e as metas de refinamento progressivo traçadas por seus pais; desdém pelos códigos sociais; a sensação de que a vida de ex-menino prisioneiro do lar terminou; a dúvida sobre como ter o que é preciso, somente o que é preciso, sem a necessidade de matar-se para conseguir.

“Agüenta firme, panguá!”, berra Luiz Antônio para Clever, autoritariamente.
“Tô firme, porra”, Clever garante, antes de repassar o grito para o Sergio: “Olha pro chão, olha pro chão! Se sua roda pegá em alguma coisa, já era”.
“Eu sei, eu sei”, Serginho tenta se controlar.

Um buraco, uma pedra, uma lasca de lona de pneu, um valo, um estreitamento e… pá! O grande herói das estradas poderia cair e virar mais um tomate amassado. O mercedão cansado de guerra pesava toneladas, transportava toneladas. Os três vagais? Ah, eles eram uma soma de plumas dentro do sistema de perigos em que gostavam de se meter.

Além da fumaceira e da zoeira, as cargas deixavam um rastro de poeiras ferruginosas que atingiam em cheio os moleques; minérios se desprendiam da carroceria e não os acertavam por sorte. Caramba, os três calhordas, que na verdade não enxergavam um palmo adiante, precisavam vigiar as pedras, as poeiras, as fumaças, os sulcos da pista, os caminhoneiros mal-humorados e ainda por cima os tiras da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Não raro, patrulheiros da PRF os interceptavam de surpresa, os perseguiam, capturavam e passavam sermões. O alvo principal eram as bicicletas. Sim, porque os camelos eram a razão de ser dos vagais. Liquidando-os, liquidavam-se os moleques. Quando os tiras pegavam as bicicletas, huuum, rasgavam os pneus com canivetes: “Agora podem voltar pra casa sem perigo”, zombavam, observando os panacas cabisbaixos lado a lado com seus veículos imprestáveis. Tiras cruéis, aqueles.

“E se pegamo ocês de novo, entortamo esses ‘camelos’ a marteladas, ouviram bem? Idiotas! Miolos moles! Onde estão com a cabeça?”
Enquanto isso os vagais pensavam em voz baixa:
“Tiras de merda.”
“Mandatários do sistema!”
“Aspones de reco.”
“Oficiais da opressão.”
“Desmancha-prazeres.”

Os vagais pareciam estar com sorte aquela tarde. Nenhum patrulheiro os localizara. No entanto, o calor era debilitante. O asfalto fumegava. Os metais abrasavam-se. Os corpos derretiam. Depois de alguns minutos, a subida foi ficando arrastada, monótona. O próprio motorista engatou uma primeira e manteve o acelerador em vinte por hora, que é o máximo tolerado pelo motor; apoiou o braço esquerdo na janela, deixou a mente fora do mapa e mergulhou em seus pensamentos.

Nessa hora os vagais se incensavam por ter contornado a situação; por terem supostamente imposto um equilíbrio nas condições. Até se permitiam firulas ridículas, como trocar de mãos nos guidons; ou de um puxar os outros dois, como num trem; ou de se darem ao luxo de olhar para o céu serenamente – afinal, quem só olha pro chão não sonha; e de sentir o vento cavar abstrações nas concretudes.

Finalmente atingiam o topo. Gritavam “obrigado, valeu” para o motorista, que só então se dava conta do parasitismo dos três. Com os camelos nas costas, atravessavam a pista velha em meio a um enlouquecedor zunzunzum de motores e buzinaços. O perigo os imprensava. A espinha de Serginho gelou. Ele arremessou a Monareta dele por cima dos demarcadores de concreto e mergulhou, literalmente, para o outro lado.

Caiu do outro lado, o lado da nova pista asfaltada mas ainda fechada ao tráfego do Anel Rodoviário. Levantou o camelo. Montou nele. Alinhou-se com Luiz Antônio e Clever para a grande descida de seis quilômetros livres, em asfalto novinho, três pistas largas onde nenhum carro os perturbaria.

Com a cabeça entre os braços para cortar vento, pedalou tão ferozmente que se sentiu pedalado. Úúúúúúúú… Logo a sua Monareta atingia a velocidade de cruzeiro. Soltou as mãos do guidom. Espalmou-as. Abriu os braços para recepcionar o universo. “Espetacular. Simplesmente espetacular aquele momento.”

Um dos efeitos colaterais de ser vagal é exatamente essa ingenuidade restauradora, essa redução da consciência ao mínimo, tornando-a imune ao agravamento das degradações. Um vagal ciclista apenas perseguia a pista, uma pista nova, conhecida e livre. Como esquecer? As ocorrências embaralhavam, forjavam uma aparente desordem. Ah, que pena que o mundo não lhe fora explicado nem pela metade. Ele transportava a inteireza de vários trechos incompletos, e só.

Sujeito inconcluso, no conteúdo e na forma, Serginho acabou aceitando o embate aleatório imposto por sua ingenuidade. Teve de aprender algo que todo mundo aprende mais cedo ou mais tarde: arrazoar. Mas arrazoar é também uma desgraça que impede a vida, porque os arrazoados humilham os sentimentos.

Pelo menos sua Monareta azul metálica o obedecia. Ia aonde ele queria ir. Ajudava-o a estourar as bolhas, alcançar o espaço iminente, enfiar a cara no infinito e atravessá-lo. Em cima de seu camelo Serginho não era um organismo mimético, e sim o oxigênio do incêndio.

Aquela tarde os três vagais estavam fazendo os testes dos freios de madeira (em substituição aos de borracha) que inventaram. Mas os tiras bloquearam a ponta norte da pista nova do Anel Rodoviário com imensos barris de aço, um ao lado do outro. Serginho estava à velocidade do som quando avistou os barris uns trezentos metros à frente, após a última curva.

Ele cravou as mãos nos freios com toda a força. Mas suas engenhosas travas de madeira se soltaram pelos ares como folhas de papel num redemoinho. Seu coração disparou. Enfiou o calcanhar da sandália havaiana direita no pneu traseiro, que estava descoberto, sem o para-lamas. Desprezível o resultado. Os barris eram um gigantesco aspirador de pó a sugá-lo. Saltar do camelo? Bater de frente? De lado? Rolar pelo abismo à direita? A vida às vezes impõe sérios limites ao exagero.