O dilema dos jornais

O livro “O Dilema da Inovação” (1997), de Clayton Christensen, mostrou a “autofagia” de empresas tentando replicar seus produtos num contexto de transformação aguda: o mesmo ocorreu com os jornais na era da internet?

Sergio Vilas-Boas
“Jornal da ANJ”, agosto/2011

Vinte anos atrás, Nicholas Negroponte, um dos fundadores do Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT), visitou o jornal “Zero Hora”, em Porto Alegre, e fez um prognóstico fúnebre: “Daqui a dez anos o jornal em papel deixará de existir”. O mundo acabaria, então, em 2001. “Em termos tecnológicos, as percepções dele apontavam a direção certa”, lembra Jayme Sirotsky, presidente emérito do Grupo RBS e membro do comitê executivo da Sip. “Mas estava bastante equivocado quanto ao timing.”

Seis anos depois, a internet já havia deixado de ser uma promessa e começava a mostrar a sua força como “inovação disruptiva” (mudança tecnológica que provoca a alteração ou a descontinuidade de um produto ou serviço ao criar novas demandas e uma nova rede de valores). O livro “O Dilema da Inovação” (1997), de Clayton Christensen, professor da Harvard Business School, mostrou a “autofagia” de empresas tentando replicar seus produtos num contexto de transformação aguda.

A disrupção não é necessariamente trágica, embora os exemplos em contrário sejam abundantes, como o da rede americana de livrarias Borders, que declarou falência em julho. Quando a Amazon nasceu, 17 anos atrás, a Borders estava no topo das opções dos investidores, e possuía um conceito forte: livros e afins em um ambiente agradável com café e lanches. Na semana do anúncio da falência, um artigo do “The New York Times” ironizou: “Os diretores da Borders puseram os livros de Mr. Christensen à venda, mas não os leram”.

“Infelizmente, ainda há muito desentendimento sobre o que é inovação disruptiva”, observa Kip Garland, diretor da Innovation Seed, consultoria de processos em inovação sediada em São Paulo. “A maioria das pessoas tende a associar isso a uma transformação radical. Christensen sublinhou o momento em que um novo produto ou serviço ainda é rudimentar, de eficiência duvidosa e mercado incerto; e o quanto essa novidade é particularmente desafiadora para empresas com dificuldade de tomar decisões.”

Em março deste ano, Clayton Christensen incitou executivos de jornais do mundo inteiro a verificar se seus planos de negócios estavam direcionados por categorias de clientes e/ou de produtos. Seu discípulo e ex-colega na Harvard Business School, Clark Gilbert, há dois anos comandando a Deseret Digital Media, tem seguida essa diretriz à risca. “Poucos jornais entendem o custo do conteúdo e uns poucos outros sabem o que fazer com toda a informação coletada. Falta foco”, afirma Gilbert.

A internet causou uma ruptura nas relações dos jornais com seus leitores, que, por sua vez, dispersos entre as duas plataformas (papel e online), romperam, categoria por categoria, seus relacionamentos com os anunciantes, afirma Earl J. Wilkinson, diretor executivo da International Newsmedia Marketing Association (Inma). Wilkinson prefere que as empresas jornalísticas identifiquem novos valores comerciais em meio a essas duas “desagregações” (de públicos e de anúncios): “Jornais não podem ser tudo para todas as audiências e para todas as categorias de anunciantes”.

Christoph Riess, CEO da WAN-IFRA, lembra que a tecnologia digital (inovação disruptiva onipresente e contínua) impactou praticamente todos os âmbitos da economia, não apenas jornais. “Para as empresas jornalísticas, as constantes mudanças tecnológicas já são um modo de vida. É fácil esquecer que o iPad tem menos de dois anos, que o Facebook foi fundado em 2004, o Youtube em 2005 e o Twitter em 2006. O setor jornal aprendeu a ser flexível e adaptável como nunca antes. Então, a busca por um novo modelo de negócios é exatamente o que está impulsionando as empresas para a frente.”

Os recém-criados sistemas de vendas de aplicativos para tablets, as diferentes formas de venda de conteúdo online e a produção e distribuição de notícias centrada no consumidor são exemplos dessa maleabilidade, acredita Riess. “Houve inúmeros experimentos num intervalo curto de tempo, com empresas criando e consolidando projetos que funcionam e rapidamente abandonando os que não funcionam. Nunca houve um momento mais excitante para estar nesse setor do que agora. Nesse sentido, dada a velocidade das mudanças no setor jornal, o próprio livro de Christensen é velho.”

Ivanildo Sampaio, do “Jornal do Commércio”, reconhece que naquele cenário de novidades e vaticínios os jornais realmente se preocuparam em defender o “antigo modelo de negócio”: “Até porque o faturamento e, por consequência, a sobrevivência só foram possíveis graças ao ‘velho negócio’. Mas, numa segunda fase, todo mundo entendeu que as novas mídias eram uma realidade que não tinha volta e todos se prepararam – uns menos, outros mais – para enfrentar os novos tempos; e esse processo de mudança segue seu curso.”

Os Estados Unidos não são o paradigma

Os profetas parecem tão persistentes quanto as suas profecias, que reverberam até hoje. Foram necessárias duas décadas até a conclusão de que as distinções regionais de mercado podem ser gritantes, e que a tecnologia disruptiva por si só não é capaz de esgotar um produto subitamente. Os vaticínios mais intensivos sobre “o fim do papel” tiveram origem nos Estados Unidos, onde a penetração do impresso vem sendo reduzida drasticamente.

“A grave crise de receita enfrentada pelos jornais americanos não pode ser tomada como tendência universal do setor”, enfatiza Rosental Calmon Alves, diretor do Centro Knight para Jornalismo nas Américas, instituto ligado à Universidade do Texas em Austin. “Nos anos 1980, a maioria dos jornais americanos abriu seu capital, deixando de ser estritamente familiares. Famílias costumavam ser mais maleáveis em relação aos períodos de vacas magras; já os acionistas, eles não querem nem saber de resultados negativos.”

Outro aspecto diferencial dos Estados Unidos: o modelo de negócio que predomina é aquele cuja receita depende quase que exclusivamente da publicidade, com uma proporção 80-20 (oitenta por cento de publicidade mais vinte por cento de circulação), chegando a 88-12 em casos extremos. “A TV, gradualmente, e a internet, avassaladoramente, dispersaram a publicidade, implodindo o sistema anterior”, observa Rosental.

A crise do crédito no final de 2008 agravou ainda mais a situação de empresas já bastante endividadas e pouco competitivas, reduzindo em 30% o volume de anúncios desde então. Nos últimos cinco anos, o faturamento de publicidade dos jornais americanos caiu 45% (regressou a níveis de 1983) e a circulação continua despencando. Além disso, trinta cidades com mais de um milhão de habitantes possuem hoje apenas um jornal diário cada, num perigoso processo monopolista.

Como se não bastasse, durante décadas os jornais de lá tiveram o monopólio local do mercado de classificados, até Craig Newmark colocar no ar a Craigslist.com. Decisivo, no entanto, é o crescimento alucinante da audiência na web e nos dispositivos digitais. Em 2010, esse público ultrapassou o de leitores do impresso, e hoje é de longe a mídia mais popular entre usuários com menos de 30 anos de idade. “Mesmo nesse cenário sombrio, não se viu, lá, uma mortandade generalizada de jornais”, pondera Rosental. “Fecharam as portas aqueles que vinham tendo um mau desempenho há anos.”

Christoph Riess acredita que o grande problema dos jornais americanos não é a audiência, tanto que a maioria deles está conseguindo se reestruturar, ofertar conteúdo em múltiplas plataformas e dar lucro. “O maior problema é o pagamento dos juros das dívidas decorrentes de empréstimos que muitos conglomerados fizeram para financiar o crescimento. Em companhias e mercados que não têm esse problema – caso do Brasil – os jornais continuam sendo um negócio bastante rentável.”

Outra característica específica dos jornais americanos de capital aberto é a medição trimestral de resultados. “Se o resultado trimestral não é bom, as ações caem imediatamente. Empresas com visão de longo prazo – no mundo todo – ficam muito prejudicadas por esse imediatismo”, diz Jayme Sirotsky, do Grupo RBS. Empresas de hedge fund como a Alden Global Capital estão de olho nos números tanto quanto na capacidade inovadora de empresas jornalísticas. A Alden adquiriu em julho a Journal Register Company, comandada por John Paton, que tem feito uma série de experimentos inovadores no digital.

Ficção e o fato conforme a região

O ritmo do declínio do jornal impresso como negócio vem ocorrendo de maneira diferente conforme o país ou a região. Entre os países da Comunidade Europeia, os diários alemães, por exemplo, contam com uma audiência leal, marcas fortes e sofisticados recursos editoriais, apesar do acesso universal à Banda Larga. No Japão, 94% dos jornais são vendidos por assinatura, o que ainda lhes dá sustentação e fôlego entre os usuários acima de 35 anos.

Nos países do Bric simplesmente não há um declínio sistêmico da criculação, ou ela é apenas sutil. Na Índia, os jornais impressos crescem como nunca: de 2007 a 2009 a venda em banca aumentou 44% e o total de títulos, 23%. Na Russia, o total de títulos cresceu 9% em 2009 (mas a maioria dos jornais ainda controlados pelo Kremlin – 60% deles – está em apuros, por razões talvez mais políticas que econômicas).

“No Brasil, a circulação e o lançamento de novos títulos crescem mais timidamente que na Índia, mas o setor está aproveitando bem o favorável contexto macroeconômico do país. Seria perigoso, no entanto, as empresas brasileiras menosprezarem as mudanças estruturais que têm sido impostas pela era digital”, adverte Rosental. “Abandonar totalmente o impresso, hoje, seria um suicídio. O modelo baseado em publicidade e circulação, embora em declínio, ainda é viável no mundo todo, e tem muito a oferecer.”

Para Sílvio Genesini, diretor-presidente do Grupo Estado e coordenador do comitê de estratégias digitais da ANJ, o mercado de conteúdos digitais não é mais um enigma. “Após tantos experimentos e inovações, vemos claramente vários modelos de negócios possíveis. O investimento em inovação tem de acompanhar o surgimento de novas mídias, assim como a sinergia entre elas. Com um consumo fragmentado de informação, o investimento em multimeios tem de ser maior. Mas ainda não podemos deixar de investir no impresso.”

Inovação é tão teórica quanto empírica

O dilema das empresas jornalísticas frente às mudanças disruptivas das duas últimas décadas reside em três fatos, segundo especialistas: 1. Os ambientes empresariais que propiciam a criação de produtos e subprodutos relacionados à internet – como as “devices”, as redes sociais etc. –, são criativos, inovadores e ágeis (seu pulmão é a Geração Y, cujo comportamento ainda é pouco conhecido); 2. Tudo o que foi feito até agora em matéria de inovação em empresas jornalísticas não foi suficiente para rentabilizar (por meio de publicidade e/ou assinaturas) os conteúdos produzidos para plataformas digitais; 3. Os experientes profissionais do impresso ainda estão tendo dificuldade de se adaptar à nova lógica comercial.

“Discute-se muito sobre a cobrança ou não de conteúdos digitais, o que só faria sentido se os jornais conseguissem migrar o valor da sua reputação, a sua independência e os seus melhores jornalistas para essas plataformas. Algum jornal já conseguiu migrar para a internet dessa forma?”, questiona Pedro Pinciroli, ex-presidente da ANJ. “Inovação é um problema tão teórico quanto empírico. A melhor solução para as duas mídias (impresso e digital) virá de uma combinação que ainda não foi encontrada.”

Os empreendedores estariam eternamente confortáveis se as disrupções não existissem. Mas, independentemente dos desejos e dos sonhos, elas ocorrem. O enredo das empresas que tentam responder a uma mudança disruptiva costuma ter dois desfechos: o sucesso ou a morte. Quando a tecnologia digital apareceu, ela representava apenas custo. Não gerava receita alguma. Mesmo hoje, nos mercados mais desenvolvidos, as plataformas digitais respondem por 20% da receita total, no máximo.

“O modelo de negócios continuará em evolução por um bom tempo ainda. Não há um único modelo que substitua plenamente o sistema de receita baseado em publicidade e circulação, e sim uma miríade de modelos diferentes que estão em fase de teste”, observa Chrisotph Riess. A pronta defesa dos negócios no impresso, face à disrupção da era digital, foi um equívoco?

“Não”, responde Earl Wilkinson, da Inma. “O grande erro, na verdade, foi adotar uma atitude monopolista que contaminou o ambiente interno das organizaççoes como um todo: redações defensivas em vez de criativas; departamentos de publicidade maximizando o order-taking e tratando o setor de vendas como ‘ameaçador’; administrações que cobram o máximo dos empregados, mas reduzem seus ganhos ao mínimo.”

Na visão de Wilkinson, os maus resultados dos jornais espelham uma cultura ultrapassada. “A disruptura digital expôs fraquezas que sempre existiram. Em 1997, os jornais já sabiam que as novas tecnologias poderiam extinguir o sistema tradicional de vendas de classificados. Era necessário criar valores originais para os classificados em formato digital, mas a maioria das empresas não pôde efetuar essas mudanças. Era difícil e causaria muita dor. Aqui, nos EUA, acabaram incorrendo numa dor ainda maior por não terem feito nada.”

Para Wilkinson, o que vem ocorrendo com o segmento de classificados é um indicativo das mudanças que precisam acontecer nas áreas editorial e de marketing: “Livrar-se de uma série de pesos pendurados em nossos pescoços, tais como: conteúdos do tipo commodity, conteúdos não locais ou que não fazem parte da proposição de singularidade/valor da empresa. Ser ‘o maior’ é outro objetivo sem sentido. Mais importante é se tornar ‘o mais útil’ para a maioria das pessoas de uma população bem delimitada. O Mirrorfootball.co.uk do ‘Daily Mirror’ é um exemplo disso”.

Narrativa de games como referência

Como ser inovador nesse “novo ecossistema” que, de certa forma, retirou das grandes empresas jornalísticas uma fatia considerável de seu “poder” sobre a seleção, filtragem e distribuição de conteúdos? Ivanildo Sampaio, do “Jornal do Commércio”, acredita que há empresas confundindo “interação com o leitor” com “entregação ao leitor”. Gerar informação de qualidade, inovando e convidando à interatividade, é diferente de repassar ou reproduzir informação de terceiros só para aumentar o tráfego.

“Os jornalistas serão sempre os condutores do processo de levar a informação aos consumidores, independentemente do número de mensagens que os veículos recebam a cada dia. Para ter informação de qualidade e com credibilidade, nenhum jornal pode abrir mão de dar a última palavra sobre o que vai oferecer ao seu publico. Pode abrir os canais para receber todo tipo de dados, mas não pode rapassá-los, se entender que não são confiáveis”, adverte Ivanildo.

Pedro Pinciroli, ex-presidente da ANJ, se recorda de um episódio vivencial no “Le Figaro” nos anos 1990 durante uma reunião de editores em Paris. Numa pequena sala abafada, com os cinzeiros cheios, jornalistas discutiam a edição do dia seguinte. Passados vinte minutos, o editor-chefe, Phillippe Villin, solicitou que Pinciroli pusesse algum tema novo em discussão. Ele escolheu falar da então recém-criada função de ombudsman na “Folha”.

“Fui criticado com veemência. Quase todos enfatizaram que o ‘nosso jornal não se sujeita a críticas’. De todas as falas, porém, a mais reveladora foi a de um jornalista que destilou uma espécie de mantra: ‘Vá à escadaria do Museu d’Orsay ou ao Louvre’, disse o sujeito, ‘e você não verá ninguém sentado sobre o nosso jornal. Nosso jornal estará ou sobre as pernas ou debaixo do braço das pessoas’. Acredito que esse tipo de postura seja um obstáculo à inovação. Tradição não é um modelo de negócio. Inovar é fazer mais do que foi feito.”

As inovações emergem em ambientes onde os profissionais vibram com o que fazem e vislumbram coisas novas, não repetitivas. Para Earl Wilkinson, diretor executivo da INMA, os profissionais de redação ainda estão muito presos ao passado. “O descompasso entre jornalistas e patrões é histórico. Mas isso não pode ser um impedimento à inovação. Nas revistas, por exemplo, as pessoas me parecem mais afinadas com os negócios do que nos jornais, onde ainda acreditam que seus trabalhos são ‘sagrados’.”

Christoph Riess não gosta da expressão “novo ecossistema” e acha que em mercados mais digitalmente desenvolvidos, onde a migração de leitores para plataformas digitais é maciça, os processos inovadores passam pelo tecnológico tanto quanto pela linha editorial. “No âmbito tecnológico, você tem, obviamente, de criar novidades para tablets. No âmbito editorial, é preciso inovar na arte de narrar. Além de áudio e vídeo, a navegação nos tablets permite maneiras novas de se contar uma história. Muitas técnicas que vemos hoje nos games digitais já estão migrando para os noticiários.”

Inovar sem se autodestruir

Frédéric Filloux, diretor da ePresse Digital Consortium, escreveu: “Táticas meramente adaptativas não salvarão o setor jornal nesta guerra de múltiplos fronts contra as tecnologias disruptivas. Alguma reengenharia radical é necessária”. Kip Garland, especialista em inovação, discorda: “Num contexto de disrupção, a própria ideia de reengenharia se torna obsoleta. Quem vai querer fazer uma reengenharia radical numa máquina de escrever, por exemplo, se os processadores de texto são dominantes? Nesse caso, é preferível voltar a escrever com o dedo, e tentar lucrar com isso, a tentar uma reengenharia”, ironiza.

A maioria das empresas tende a ser “muito introspectivas”, pontua Garland: “Organizam-se conforme as atividades e tarefas que precisam realizar internamente (finanças, marketing, vendas etc.). Quando decidem inovar, enfrentam dilemas. Em muitos casos uma inovação interna não tem reflexos visíveis para os clientes. Na verdade, apesar de toda a conversa sobre ‘inovação aberta’, ‘gestão da inovação’ etc. apenas umas poucas empresas realmente inovam. As demais repetem constantemente os velhos exemplos”.

A maioria dos jornais mundo afora respondeu de alguma maneira à disrupção do digital. Mas as receitas geradas com os novos produtos e sistemas ainda não são proporcionalmente compatíveis com o volume de recursos aplicados até agora. “Jornais acabaram presos a ativos antigos que simplesmente não têm como competir num cenário novo e exigente. Mas me parece que a baixa receita não é exatamente o problema, e sim o modelo do negócio como um todo”, arrisca-se Garland.

Cinco anos se passaram desde o projeto Newspaper Next, que encorajou os jornais a experimentar produtos e processos radicalmente diferentes. Para alguns executivos o projeto atenuou o impacto da velocidade com que as mudanças disruptivas vinham ocorrendo. Em termos de receita, a percepção foi a mesma na maioria dos jornais que, por outro lado, optaram por transformações mais lentas e graduais do impresso para o digital.

“Isso aconteceu na maioria das companhias de outros setores com as quais trabalhei. Executivos bem intencionados que dão início a um empreendimento inovador acabam sendo desviados dos projetos diferenciados para trabalhar mais na manutenção da atividade-fim tradicional. Em certo sentido, o ‘dilema do inovador’ está aí”, acredita Garland.

“O Newspaper Next foi uma experiência excelente, mas muitos jornais não souberam aproveitá-la plenamente”, diz o diretor da Inma, Earl Wilkinson. “Uma sugestão: jornais com uma rentabilidade que sustente inovações e ousadias com vistas à conquista de público e anunciantes deveriam criar incubadoras nacionais colaborativas. Isso ajudaria a evitar cair nas armadilhas que hoje aprisionam os jornais americanos, por exemplo. Espero que uma incubadora desse tipo se desenvolva logo no Brasil.”

A imigrante involuntária

O longo “Brooklyn”, de Colm Toíbín, sustenta-se pela ausência de sentimentalismo e de armadilhas de linguagem.

Sergio Vilas-Boas
Rascunho“, agosto/2011

Emigra-se pelas razões mais diversas: guerras; perseguições religiosas, políticas, étnicas; discriminações de qualquer natureza; desastres ambientais; pobreza sistêmica etc. Nos anos 1980, a motivação publicamente assumida pelos brasileiros que partiam para os Estados Unidos, por exemplo, era a recessão e a hiperinflação, mas as motivações eram sempre múltiplas, conforme verifiquei in loco em mais de uma centena de entrevistas para meu “Os Estrangeiros do Trem N”.

Colm Toíbín nasceu em Enniscorthy, Irlanda, em 1955.

Os processos migratórios não se sustentam apenas por fatos exteriores ao sujeito: é necessária uma impulsão maior, que brote de dentro, e intensa a ponto de criar a ilusão de que os dramas pessoais podem ser superados com o transplante; no fundo, independentemente das conjeturas e contextos, todos acreditam numa vida melhor “lá”, mesmo sem ciência certa sobre a riqueza simbólica que ficou para trás.

“Brooklyn”, romance do irlandês Colm Toíbín, individualiza de modo original o conflito decorrente da transposição geográfica, condensando-o numa jovem protagonista irlandesa (Eilis) imatura e introspectiva que se deixa levar por um movimento totalmente involuntário, ao contrário daquele do imigrante padrão. Rose, a irmã mais velha, é quem finalmente convence Eilis a sair de Enniscorthy (onde nasceu o próprio Toíbín), na Irlanda, para ir trabalhar nos Estados Unidos.

A opção de partir lhe é oferecida em condições incomuns. O padre Flood, radicado nos EUA, amigo da família, bancaria a passagem de navio, recomendaria uma pensão-moradia, arranjaria trabalho e, talvez, uma vaga no curso de contabilidade do Brooklyn College. Mesmo assim, Eilis sente-se selecionada para uma coisa para a qual não estava nem de longe preparada, o que lhe acarreta uma ansiedade que ela achava que só iria experimentar às vésperas do dia em que se casasse.

Sim, ela havia imaginado que iria morar em Enniscorthy a vida inteira, como a mãe fizera, que iria conhecer todo mundo ali, ter os mesmos amigos e vizinhos, a mesma rotina nas mesmas ruas. Esperava encontrar um emprego, casar-se com alguém e deixar o emprego para ter filhos. Nunca aspirou nenhuma forma de liberdade em terra estrangeira e tampouco a conquista de uma vida melhor, no sentido material da expressão.

Intimamente, daria qualquer coisa para poder falar com toda a clareza que não queria ir, que Rose devia ir em seu lugar, que ficaria muito feliz em continuar em Enniscorthy cuidando da mãe. Os Estados Unidos ficavam muito longe, tinham costumes estranhos e um sistema completamente diferente. Por outro lado, na Irlanda do pós-Guerra imediato, a América era vista com glamour. Partir para lá era socialmente mais promissor e incentivado do que permanecer.

No imaginário coletivo, trabalhar numa loja no Brooklyn, em Nova York, dava status, além de tudo; fazia com que um emprego idêntico numa loja em Birmingham, Liverpool, Coventry ou mesmo em Londres parecesse a coisa mais sem graça do mundo. Havia ainda um fator feminino que dificultava ainda mais a manifestação da vontade de Eilis: as mulheres irlandesas podiam tudo (nos moldes da época), exceto dizer em voz alta o que estivessem pensando. Jovem demais para entender as conseqüências de sua reticência, Eilis embarca.

Sutilezas culturais

Os Estados Unidos já estavam então povoados de descendentes de imigrantes por toda parte, pessoas em geral resolutas, ousadas e descoladas do passado. Eilis não era assim. Arraigada e familiar, ela via as rupturas e as separações como ameaças incontornáveis; e sua mentalidade homogênea incitava questões raciocinadas superficialmente (“Como identificar a diferença entre judeus e italianos e entre italianos e americanos?”).

 

BBC: A. Horowitz, Martha Kearney, Tom Paulin e Natalie Haynes debatem “Brooklyn”.

Alguns judeus usavam solidéu e parecia que muito mais judeus do que italianos usavam óculos. E por que a maioria de seus colegas de classe no curso de contabilidade tinha pele morena e olhos castanhos? Por que tão poucas mulheres na sua turma? Por que nenhum irlandês, nenhum inglês sequer? As aulas eram mais longas do que aquelas a que tinha assistido em sua terra natal (“Seria este o motivo de os professores apresentarem a matéria tão devagar?”)

Numa das cartas trocadas com a família, a mãe de Eilis pergunta como a sra. Kehoe (irlandesa dona da pensão onde Eilis foi morar) conseguia bancar o custo de manter o aquecimento ligado a noite inteira. Eilis responde que não era só a sra. Kehoe, que aliás não era nada extravagante, mas todo mundo nos Estados Unidos ficava com o aquecimento ligado a noite inteira. “Ninguém na Irlanda tinha ideia de que os Estados Unidos fossem o lugar mais frio do mundo.”

Os irlandeses que Eilis fica conhecendo num almoço filantrópico de Natal são trabalhadores braçais que construíam túneis, pontes e estradas. A maioria perdera completamente o contato com parentes e amigos na Irlanda. Eilis “nem conseguia acreditar que houvesse tantos, alguns de aspecto muito pobre e velho, e mesmo os mais jovens tinham dentes estragados e pareciam alquebrados”.

O choque cultural se amplia com a entrada de um encanador na história: Tony McGrath. Ele esconde de Eilis seu nome verdadeiro a fim de evitar conflitos com a comunidade irlandesa do Brooklyn e com a estóica sra. Kehoe. “Meu nome verdadeiro é Antonio Giuseppe Fiorello”, confessa depois, mostrando-se sinceramente apaixonado por Eilis, que desconfia dos sentimentos dele tanto quanto de seus próprios.

Em companhia de Tony ela sai do Brooklyn pela primeira vez em cinco meses – vão a Manhattan ver “Cantando na Chuva”. Esperava encontrar sem dúvida algum charme, lojas mais elegantes, gente mais bem vestida, “um ambiente menos lúgubre”. Em princípio não vê a menor diferença entre os dois grandes distritos, “a não ser pelo frio, que ela achou mais rigoroso e mais seco, e pelo vento mais violento na hora em que saiu do metrô”.

O namoro com Tony insinua uma série de aculturações triviais, como no episódio em que ele a leva à praia. Dizia-se que os italianos haviam trazido para os EUA o hábito de ir à praia com os trajes de banho por baixo da roupa, evitando assim o costume irlandês de trocar de roupa na praia, o que os descendentes de irlandeses consideravam isso deselegante e grosseiro, “para dizer o mínimo”.

Constava ainda que todo italiano dava muita importância à aparência de sua namorada na praia, “por mais perfeita que ela fosse em outros aspectos”. Na Irlanda, ninguém olhava, pois isso era tomado como falta de educação. Na Itália, ao contrário, falta de educação era não olhar. Tony, por sua vez, não se conformava com o fato de que na Irlanda não se jogava beisebol (ele é fanático torcedor dos Dodgers).

Enquanto os italianos viam os irlandeses como sovinas e miseráveis em qualquer circunstância, os irlandeses tinham dificuldade de adivinhar o caráter de uma pessoa com base no seu tipo de trabalho, como acontecia em Enniscorthy; e a personalidade forte de Tony intrigava Eilis. Em um de seus fluxos de consciência, Toínbín sugere, para desconforto da protagonista: “Tony era tal como se mostrava a ela; não existia nenhum outro lado dele”.

A anti-heroína

Numa das mais belas cenas do livro, Eilis se entrega a Tony de um modo perturbadoramente sóbrio. A cena é valorizada pela narração suave e prudente de Toíbín: “Na segunda vez, a dor foi ainda pior do que antes, como se ele estivesse batendo em algo dentro dela, algo que foi ferido ou cortado. De novo, quando pressionou mais fundo, Tony pareceu perder a consciência de que estava com ela. E aquela sensação de que ele estava além dela fez Eilis desejá-lo mais ainda, fez sentir que aquilo e a lembrança daquilo mais tarde seriam o bastante para ela e teriam mais importância do que qualquer outra coisa que havia imaginado.”

Eilis não vislumbra reviravoltas nem confrontações; atende aos apelos externos sem entregar-se decididamente. Com o tempo, porém, o namoro, o cotidiano, as cartas, as superficialidades, a ausência de um sentido amplo, a confusa expatriação, enfim, começam a pesar. Casa-se com Tony, então, de papel passado e sem testemunhas, mais pela esperança de um ordenamento das emoções que pelo vislumbre de um futuro feliz a dois.

Seu deslocamento é agravado pela notícia perturbadora da morte de Rose, momento em que Eilis, pela primeira vez, verbaliza a ideia nuclear de “Brooklyn”: “Eu gostaria de nunca ter vindo para cá”. A quarta e última parte do livro, que trata do retorno de Eilis a Enniscorthy em função daquela perda, parece um conto, tamanha a sua independência em relação ao restante da obra.

Curiosamente, a mãe não pergunta nada a Eilis sobre a sua vida nos Estados Unidos e nem mesmo sobre sua viagem de navio dos EUA à Irlanda. Limita-se a comunicar-se com a filha como se estivesse “hostil a qualquer tipo de réplica”. Os contatos com amigos de longa data vão revelar um pouco do que a imatura Eilis se tornou (ou deixou de ser). Ela acha graça ao ver como as sungas dos rapazes na praia são apertadas e deselegantes. “Nenhum americano seria visto na praia com uma roupa assim. E dois homens jamais andariam em Coney Island tão despreocupadamente, parecendo não prestar a menor atenção às duas mulheres que os observavam correr na frente.”

Jim Farrell, que esnobava Eilis nos bailes da cidade, agora se mostra claramente interessado nela. Supõe-se que ele a recusava porque a família dela não tinha posses, ao contrário da de Jim. A mãe de Eilis via Jim como um ótimo partido, um jovem que, além de tudo, tinha seu próprio negócio. “Tudo em você está diferente, não para aqueles que a conhecem, mas para as pessoas da cidade que só a conheciam de vista”, comenta a amiga Nancy.

Inebriada pela proposta de casamento feita por Jim, Eilis precisa fazer um esforço para se lembrar de que está casada com Tony, que em breve ia ter de encarar o calor escaldante do Brooklyn, a rotina maçante na loja Bartocci’s e seu apertado quarto na pensão da sra. Kehoe. Na visão da protagonista, Jim era atraente e bom, mas conservador. Para poder se casar com ele, teria de falar sobre o casamento com Tony e, se fosse o caso, divorciar-se. Mas a única pessoa divorciada que os moradores de Enniscorthy conheciam era Elizabeth Taylor. O que fazer, então? A escolha, ao final, é difícil e dolorosa.

Em “Brooklyn” Colm Toíbín – autor do excelente “O Mestre”, que recria aspectos da vida de Henry James, e de “Mães e Filhos” – lida de novo com o persistente tema da tentativa de manutenção da identidade irlandesa em terra estranha. Apesar de modesto e sem uma trama forte, a obra é ressonante. Sua prosa delicada e meticulosa insinua mais do que revela, e os personagens, uniformemente circunspectos, evocam mais do que declaram.

Narrado de um ponto de vista semi-onisciente, a narrativa refrata a perspectiva de Eilis, resultado que não deve ter sido fácil atingir. Burilar uma história longa como esta (excessivamente longa, eu diria) dentro da mente de uma anti-heroína sem brilho requer uma carpintaria distinta, em comparação com as exteriorizações poéticas de “O Mestre”. A estrutura se sustenta pela absoluta ausência de sentimentalismo e de armadilhas de linguagem, permitindo que a clareza do projeto literário (e nada mais) se imponha.

TRECHO
Na noite da sexta-feira seguinte, quando os dois voltavam abraçados para casa, depois do baile no salão paroquial, Tony sussurrou mais uma vez em seu ouvido que a amava. Quando ela não respondeu, ele começou a beijá-la e sussurrou a mesma coisa outra vez. Sem mais nem menos, Eilis se viu afastando-se dele. Quando Tony perguntou qual era o problema, ela não respondeu. O fato de dizer que a amava e esperava uma resposta a deixava com medo, dava a ela a sensação de que teria de aceitar que aquela era a única vida que podia ter, uma vida longe de sua casa, de sua terra. Quando chegaram à pensão da sra. Kehoe, depois de caminhar em silêncio, ela lhe agradeceu pela companhia de maneira quase formal e, evitando cruzar os olhos com ele, deu boa-noite e entrou. (…) Tony não era alguém que gostaria de ter uma namorada que não soubesse com segurança que gostava bastante dele. Eilis o conhecia o suficiente para saber disso.