Os tempos de Schnitzler

Obras do autor vienense espelham as dualidades sociopolíticas
do “neurótico” Império Austro-Húngaro.

Sergio Vilas-Boas
Rascunho”, abril de 2011

Num relato pessoal para a “New Yorker”, George Steiner escreveu: “O século XX, tal como o vivemos no Ocidente, é, em suas linhas essenciais, um produto austro-húngaro. (…) Viena foi a capital da era da ansiedade, eixo do gênio judaico, filtro do holocausto”. Na literatura, o escritor e médico vienense Arthur Schnitzler, cultuado, mulherengo e neurótico, eclipsou as dualidades fin-de-siècle da decadência moral da sede do império habsburgo às portas da era moderna.

No século 19, a Europa Central compreendia o espaço econômico do Danúbio, mas aos poucos se converteu num território literário fartamente servido pelo idioma alemão. Hitler fez daquele pedaço de mundo uma espécie de incubadora nazista. Atingiu seu objetivo facilmente, em parte graças à crise de identidade, à depressão e à hesitação que se abateram sobre os intelectuais vienenses.

Áustria, Hungria e Habsburgo: palavras-chaves do império. Os habsburgos subiram ao trono em 1273, embora estivessem no poder desde 867. Eram verdadeiros experts na ciência (ou arte) de mandar e de sobreviver a instabilidades. Usavam a força quando necessário e a diplomacia para alinhavar matrimônios. As vogais diziam tudo: Austriae Est Imperare Orbi Universo. A Europa era o mundo e, a Áustria, seu centro.

Porta para a Ásia, epicentro da Europa, abrigo de nômades, fabricante de exilados, aquele império abrangia 17 nacionalidades e seu hino era entoado em 13 idiomas. Colcha de retalhos cuidadosamente costurada por uma experiente dinastia amparada em burocracia, matrimônios e um liberalismo pragmático. A Europa média ou central era a própria Áustria-Hungria (como o Oriente Médio, até 1918, confundia-se com o Império otomano).

Englobava boa parte da Europa central, oriental, norte da Itália e Bálcãs, vinte nações que poderiam ser arrumadas em 16 diferentes composições geopolíticas. As pilastras do antigo império – Áustria, Boêmia, Morávia, Hungria – integravam as alternativas. O reinado de Francisco José I, que vai de 1848 a 1916, foi o mais longo da história europeia.

Em 68 anos de estabilidade, burocracia, rigor, tradição e protocolo, a aristocracia difundiu um comportamento que permeou a cultura e a política austríacas pelo menos até a Segunda Guerra. A celebrada efervescência vienense é desse período de intensa produção artística e principalmente literária. Mas, na virada para o século 20, Viena experimentava “circunstâncias díspares”.

“Decadência e inovação; unidade e multiplicidade; cosmopolitismo e provincianismo; Levante e Ocidente”, escreveu o historiador Carl Shorske em seu extraordinário “Viena fin-de-siècle”. Isso propiciou o florescimento de um surto de criatividade tão expansivo que a vida política posterior ficaria marcada para sempre por traços que oscilavam, psicanaliticamente falando, entre culpa e redenção, angústia e beleza, ansiedade e vazio.

“Imbuída de senso de missão e determinada a libertar-se do jugo edipiano clássico-iluminista, Viena abrira espaços de convívio, onde os mais ousados conceitos passaram a ser objeto de vivo debate. Os grandes jardins já públicos, os ‘salões’ literários, os cafés legendários transformaram-se em foros de discussão da psicanálise nascente, do novo urbanismo, da música atonal, das artes plásticas – do ‘déco’ ao expressionismo”, escreveu Shorske.

Os cenários intelectuais eram múltiplos: havia o salão de Alma Mahler, mulher de Gustav e musa de Kokoschka, Giropius e Werfel; o Café Central, onde se cruzavam Freud, Mazarik, Bronstein (ou melhor, Trotsky), o socialista Bauer e o reacionário Lueger. Wittigenstein, Schoenberg, Klimt e Otto Wagner discutiam avanços que iam da matemática à estética; Herzl vislumbrava o Estado judeu, já temendo o anti-semitismo crescente; e o então jovem Adolf percorria, maravilhado, a monumental avenida Ringstrasse.

A vida de Arthur Schnitzler coincide com o outono áureo de uma civilização majestosa, cenário ideal para romper com a tradição e antecipar a modernidade. Mas as circunstâncias trágicas pelas quais a Áustria acabou sendo enredada nas duas grandes guerras, até ser anexada pela Alemanha em 1938, aguçaram os contrastes. Num cenário histórico de intolerância crescente e irradiação artística luminoso, o esplendor vienense degradou-se.

Crise de mentalidades

A editora Record está relançando alguns títulos da vasta obra de Schnitzler, com tradução de Marcelo Backes. Já estão à disposição “Crônica de uma Vida de Mulher”, “O Médico das Termas” e “O Caminho para a Liberdade”. Outros virão. “Breve Romance de Sonho”, no qual Stanley Kubrick se baseou para o filme “De Olhos Bem Fechados”, é talvez a narrativa mais conhecida do público brasileiro recente.

Num primeiro momento, as temáticas psicológicas do autor vienense podem parecer supérfluas ao leitor contemporâneo. Essa percepção (equivocada) talvez pudesse ser corrigida com posfácios que contextualizassem melhor “os tempos de Schnitzler”. Infelizmente, os posfácios sobre os romances do autor vienense incluídos na coleção “As Grandes Obras” (da Record) não fazem jus à qualidade do trabalho de tradução de Marcelo Backes.

Os livros recém-lançados têm mais ou menos o mesmo pano de fundo: a Viena fin-de-siècle, através da qual Schnitzler nos põe em contato com mentalidades duais, tanto do ponto de vista do indivíduo quanto do imaginário coletivo da época. Imerso nas contradições de sua cultura, Schnitzler apresenta variações minuciosas do hedonismo conflitante praticado por burgueses e aristocratas da Áustria.

Os três romances que a Record traz de novo a público transportam uma verdade social praticamente idêntica: o fato de que, nas últimas três décadas do Império Austro-Húngaro, que ruiu durante a Primeira Guerra, a intelligentsia austríaca se debatia com uma questão inadiável: a crise cultural. Em Viena, artistas refinados se ocuparam bastante da temática do indivíduo numa sociedade em desintegração.

“Como o mundo vienense soçobrou no caos? Terá sido porque os indivíduos traziam em suas psiques algumas características fundamentalmente incompatíveis com o conjunto social? Ou terá sido o próprio conjunto, enquanto tal, que distorceu, paralisou e destruiu os indivíduos que o compunham?”, pergunta Schorske, insinuando que talvez nunca tenha havido um conjunto social rítmico, mas sim uma ilusão de diversidade.

Viena tinha traços em comum com as culturas liberais de outros centros europeus, mas também singularidades. A capital se dividia em componentes moralistas e estéticos contraditórios, fornecendo o aparato intelectual para o enfrentamento da crise de sua época. Na literatura, as duas figuras literárias de proa foram exatamente Arthur Schnitzler e Hugo von Hofmannsthal, que, aliás, é personagem em “O Caminho para a Liberdade”.

De diferentes maneiras, ambos tentaram elaborar concepções sobre a relação entre política e psique. A política se expressa na história. Em 1895, Viena era o bastião do liberalismo. Mas foi sacudida por um movimento social-cristão. O imperador Francisco José, com o apoio da hierarquia católica, recusou-se a ratificar e eleição de Karl Lueger, católico anti-semita.

Dois anos depois, o imperador se curvou à vontade do eleitorado e ratificou Lueger como prefeito. Os demagogos social-cristãos iniciaram então uma década de governo em Viena, recusando os princípios liberais clássicos baseados em tolerância e laicidade. Isso não ocorreu somente no plano municipal. Em 1900, os liberais foram esmagados por movimentos de massa cristãos de viés nacionalista, socialista e anti-semita.

“Essa derrota teve profundas repercussões psicológicas. O estado de espírito suscitado não era tanto de decadência, mas de impotência. O progresso parecia ter chegado ao fim”, escreveu Shorske. “Ansiedade, impotência, consciência agudizada da brutalidade da vida social: esses traços adquiriram um lugar central num clima social em que o credo liberal vinha sendo estilhaçado pelos acontecimentos.”

Segundo Schorske, dois fatos sociais básicos distinguiam a burguesia austríaca da francesa e inglesa: os austríacos não conseguiram destruir (e tampouco se fundir totalmente) com a aristocracia. O imperador era um protetor paterno distante, mas indispensável. A incapacidade de monopolizar o poder fez com que o burguês, sentindo-se sempre um pouco forasteiro, procurasse uma integração com a aristocracia.

“O elemento judaico em Viena, numeroso e próspero, apenas fortaleceu essa tendência, com o seu forte impulso assimilacionista”, observa Shorske, que apontou duas vias de acesso à cultura aristocrática, na época: a orgia arquitetônica (edifícios grandiosos inspirados por um passado gótico, renascentista ou barroco que não lhes pertencia) e o patronato das artes de espetáculo, de longa e sólida tradição no império.

É como se a arte estivesse substituindo a vida. À medida que a ação civil se mostrava mais e mais vazia, a arte virou uma espécie de religião, fornecendo um sentido de existência ao indivíduo. As consequências da cultura individualista e do conservadorismo liberal foram o narcisismo e a hipertrofia dos sentimentos. Aliás, não foi por acaso que a psicanálise brotou ali.

“A catástrofe da ruína do liberalismo metamorfoseou ainda mais a herança estética em cultura de nervos sensíveis, hedonismo inquieto e, muitas vezes, franca ansiedade. (…) A culpa se mesclou, e mutilou, nos melhores representantes austríacos, a afirmação da arte e da vida dos sentidos. Essa presença continuada da consciência no templo de Narciso reforçou as fontes políticas da ansiedade na psique individual”, afirma Schorske.

A capital da Psicanálise

Em “Morte no Paraíso”, sobre a vida e a obra do escritor austríaco Stefan Zweig (ele próprio um integrante júnior do círculo de Schnitzler), o biógrafo Alberto Dines assinalou alguns reflexos da aparente estabilidade do Império Austro-Húngaro sobre as individualidades. O principal deles foi a “Cultura Biedermeier”, expressão cunhada por um satirista para designar o burguês apolítico, respeitador das leis e sedento de artes e espetáculos, e que, com o tempo, passou a significar “prazer estético alienado”.

“A classe média era encorajada a se dedicar ao refinamento até então restrito à aristocracia”, escreveu Dines. “A literatura Biedermeier, por exemplo, se debruçou sobre o kleine Mann, cidadão submisso, orgulhoso de sua modesta cota de felicidade.” Um dos personagens de “O Caminho para a Liberdade”, a certa altura, diz: “Estamos no país da desonestidade social: aqui você encontra conflitos selvagens sem um pingo de ódio e amores profundos sem o menor compromisso com a fidelidade”.

Schnitzler encarou a hipocrisia e a mediocridade dos burgueses (sendo ele próprio um burguês judeu não religioso) como decorrência de um projeto sociopolítico. As indignações eram facilmente amansadas; a tolerância religiosa e racial, um fingimento. Enquanto os aristocratas se deprimiam em sua impotência política, os burgueses reprimiam suas emoções. Schnitzler explorou magistralmente em sua ficção os “salões” e feitios morais.

Seus romances estão cheios de pais tirânicos, mulheres frígidas, jovens histéricas, maridos impotentes, meninos fascinados por mães dominadoras, meninas fascinadas por pais sedutores, controles sociais disfarçados, sexualidades reprimidas. O autor vienense meteu o universo burguês e aristocrático de Viena num gigantesco divã.

Numa nota explicativa de “Morte no Paraíso”, Dines nos lembra que a centralidade de Viena como matriz da psicanálise começou a ser discutida pelo psiquiatra francês Pierre Janet já em 1913. Determinista, Janet via na capital do Império Austro-Húngaro o cenário propício para repressões e neuroses: “Determinismo este negado pelo próprio Freud, pois contrariava suas teorias sobre a ancestralidade dos fenômenos do inconsciente. E também por razões pessoais: Viena recebeu de forma hostil tanto a psicanálise como seu patriarca”.

No campo afetivo o burguês austríaco havia sido educado paras outras dualidades: estratificação do sexo e do casamento em santuários distintos; casamentos de fachada e intensa vida sexual com amantes tchecas e húngaras (minorias étnicas impedidas de ascender socialmente na capital da psicanálise); esposas aviltadas pela subserviência.

Na primeira década do século XX aquele hedonismo todo começou a esgotar. O refinamento não alcançava as massas, que se urbanizavam rapidamente, e a modernidade dos salões artísticos não chegava ao nível das ruas, nas quais imperavam a imitação e a demagogia. Enquanto isso, os olimpianos burgueses discutiam transcendências “inúteis”, entendidas pelo avesso (quando entendidas). Um abismo separava os iluminados dos atarantados. Hitler soube se aproveitar disso.

“Em meio a tantas identidades em crise, a dos judeus não ficaria adormecida”, escreveu Dines. “No princípio do século XX, os judeus constituíam 9% da população urbana austríaca; já no campo intelectual, segundo Zweig, nove entre dez austro-húngaros que se destacavam eram judeus. Tribo dentro de uma nação de tribos, cosmopolitas no império multinacional, exímios polinizadores da colmeia europeia.”

Importante lembrar que os judeus possuíam uma vantagem em relação às outras nações do império: expressavam-se em alemão e, graças à língua, conseguiam ficar sempre bem perto do poder. Mas era apenas uma sensação de poder. Na prática, não desfrutavam poder algum. Já a força dos artistas, judeus e não judeus, estava na estética. Schnitzler e Hofmannsthal se tornariam populares por seus amplos paineis sociais em romances, novelas, peças e ensaios.

Ambos pertenciam ao grupo de estetas denominado Jung-Wien (Viena Jovem). A Jung-Wien se reunia no Café Griensteidl e, mais tarde, no Café Central, onde Trotsky, antes da revolução Bolchevique, tinha lugar cativo e, como todos os habitués, lia jornais, recebia e escrevia cartas, rascunhava ideias, discutia grandes questões. O “espírito vienense”, carregado de altas doses de malícia, se expressava nos cafés. Neles, a arte tinha princípio, meio e fim.

Personagens em si mesmas

O pai de Schnitzler, médico de renome, encaminhou Arthur para uma sólida carreira médica, que o rapaz seguiu por mais de dez anos. Compartilhando do entusiasmo vienense pelas artes de espetáculo, os pais de Schnitzler orgulhosamente contavam com grandes artistas vienenses entre seus pacientes e amigos. Mas quando Arthur sentiu a certeza de que contraíra uma vocação literária, o pai se revelou moralista, opondo-se enfaticamente às intenções do rapaz.

Schnitzler servira como assistente na clínica de Theodor Meynert, professor de Freud, e especializou-se em técnicas de hipnose. À semelhança de Freud, Schnitzler sentia uma profunda tensão entre a herança paterna de valores moralistas e a convicção de que era necessário reconhecer a vida dos instintos como fundamento da desgraça tanto quanto do bem-estar.

Acabou dando vazão à sua atração pela psicologia na (dentro da) literatura, resolvendo assim outra questão de ambivalência: retirar da perspectiva científica a matriz moralista e enfrentar o âmbito dos instintos. “O Caminho para a Liberdade” é a obra que melhor descreve a psique austríaca. O terreno histórico específico do romance consiste no fenômeno de desintegração da sociedade liberal sob o impacto do anti-semitismo.

A geração mais jovem de Viena lutava desesperadamente para encontrar a trilha da clareza e da satisfação pessoal. Cada personagem do romance, principalmente entre os jovens judeus, representa um caminho real mesmo durante o auge da liquidação do liberalismo. Mas, inconscientemente, todos parecem preferir o hedonismo (mais compatível com suas personalidades hesitantes e alienadas) ao senso de justiça.

O homem de vontade política se torna escritor frustrado, e sua vontade se transforma em autodestruição. A jovem judia atraente, feita numa vida de amor, converte-se em socialista militante. O jovem judeu, por temperamento destinado a ser oficial militar de fino corte aristocrático, transforma-se em sionista. O verdadeiro eu de cada personagem é distorcido pelo turbilhão frenético do conjunto.

O protagonista de “O Caminho para a Liberdade”, Georg von Wergenthin, artista e aristocrata, encarna o herói cultural burguês do fin-de-siècle austríaco. Através dele, Schnitzler ilumina a lenta morte de um ideal. Homem refinado e elegante, compositor talentoso, Wergenthin é duplamente festejado no círculo da alta burguesia judaica. Sua arte é apreciada e incentivada.
Por outro lado, do ponto vista ideológico, a alta sociedade empurra Georg e seu espírito pluralista para o isolamento e a futilidade. Em meio ao caos de orientações moralmente conflitantes, o vazio de valores se adere a Georg. Sua vida psíquica, então, aos poucos vai refletindo a condição despedaçada e dilacerada de sua época.

“O Caminho para a Liberdade” não parece ter uma finalidade clara nem uma tragédia visível, como se a faceta médica de Schnitzler houvesse prevalecido sobre a do artista, como se os aspectos morais houvessem superado a vontade de condenar. O romance tampouco concebe uma solução para o problema político da psique.

Como “psicanalista social”, Schnitzler vislumbrou a irrupção do irracional e do instintivo nas altas rodas de sua cidade. Como escritor de ficção, deu também uma contribuição formal. Dizem que nele a técnica do fluxo de consciência, mais tarde magnificamente dominada por James Joyce, começou a se expressar de maneira definidora.

O melhor exemplo dessa utilização está noutro livro “Senhorita Else” (ainda não relançado). Trata-se de um longo discurso em primeira pessoa da personagem-título que, para além do drama narrado, revela um quadro psicótico. O doutor Gräsler de “O Médico das Termas” é outro caso clínico. Além de encarnar o vazio de seu tempo, Gräsler é um solteirão preconceituoso, indiferente aos sentimentos das pessoas e dotado de uma hesitação paralisante.

Seu complexo de inferioridade se expressa por paranóias. Uma delas é a de ser rotulado de (ou considerado um) filisteu. Na verdade, nenhum coadjuvante da novela verbaliza esse termo em momento algum. Mas ele é o cerne da implacável autocrítica de Gräsler: “E se tivesse vontade de escolher a senhorita Katharina como sua acompanhante, ninguém teria o direito de continuar vendo nele um sujeito meticuloso por demais ou um filisteu”.

O próprio Schnitzler assinalou certa vez que os “cases” o interessavam mais que os indivíduos. Gräsler, Georg, Therese, Else e muitos outros protagonistas de seus romances são peças do teatro de bonecos que o autor desenvolveu por meio de uma percepção social agudíssima. De maneira geral, porém, sua prosa é um tanto enfadonha, não deleita, embora desembaraçada.

Se Freud, como “cientista”, frustrou a ciência, Schnitzler, como estilista, frustra-nos, hoje, um pouco. Embora não tenham sido fisicamente próximos, as coincidências entre os dois vão além do fato de serem judeus destacados e fascinados pelos mistérios da psique: ambos traziam dentro de si o século XIX, e um dos sinais disso é o pressuposto (em ambos) de que a Viena “pré-moderna” era uma verdadeira fábrica de neuroses.

TRECHOS
de cada um dos três romances relançados pela Record até março de 2011

Therese tinha dificuldades em acompanhar com atenção ou até mesmo em compreender a palestra árida e cansativa; mas, como fazia algum tempo que o pai lhe causava uma compaixão crescente, ela tentou, ouvindo, emprestar a seus olhos dormentes um brilho de participação, e quando o pai enfim interrompeu a leitura para aquele dia, ela o beijou na testa como se estivesse lhe agradecendo, tocada. Mais três noites se seguiram, no mesmo ritual, até o tenente-coronel chegar ao fim com sua leitura; em seguida ele levou pessoalmente o manuscrito aos correios. De então em diante passou seu tempo em diferentes restaurantes e cafés. Travara algumas amizades na cidadezinha, na maior parte das vezes com homens que já haviam deixado o trabalho de sua vida e sua profissão para trás: funcionários aposentados, advogados de outrora, também havia entre eles um ator, que envelhecera no teatro da cidade e agora dava aulas de declamação quando lograva encontrar um aluno. (“Crônica de Uma Vida de Mulher”)

E pouco a pouco, enquanto os dias e as noites avançavam, sobretudo nas horas matinais, quando Katharina estaa deitada a seu lado a cochilar, a saudade de Sabine começou a se manifestar com violência dentro dele. Ele refletiu o quanto seria mais feliz, o quanto sua existência poderia se orientar de maneira mais nobre, se em vez dessa moçoila de loja, pequena e bonitinha, que além do contador, do qual havia sido noiva, com certeza ainda havia tido mais um par de amantes, que enganava seus pais honestos e fofocava com a vizinha… se, em vez dessa criaturinha insignificante, cuja graça e bondade ele não deixava de reconhecer, estivesse repousando sobre o travesseiro a cabeça loura daquele ser maravilhoso, que havia se consagrado como sua companheira com uma alma tão pura, à qual ele, por uma falta completamente infundada de confiança, havia desprezado. (“O Médico das Termas”)

Mãe-pátria… Isso era nada mais do que uma ficção, um conceito da política, pairante, mutável, impossível de ser compreendido. Algo mais real era apenas a terra natal, não a mãe-pátria… E, assim, o sentimento natal também significava um direito à terra natal. E no que dizia respeito às religiões, ele tolerava tanto as lendas cristãs e judaicas quanto as helênicas e indianas; mas cada uma delas era igualmente insuportável e asquerosa para ele assim que tentava lhe impor seus dogmas. E, ademais, ele não se sentia estreitamente ligado a ninguém, isso mesmo, a ninguém no mundo. Aos judeus chorando em Basileia tão pouco quanto aos alemães furibundos no parlamento austríaco; aos agiotas judeus tão pouco quanto a cavaleiros rapinantes da alta nobreza; a um taverneiro de conhaque sionista tão pouco quanto a um merceeiro social-cristão. E o que menos o uniria estreitamente a alguém seria a consciência de uma perseguição sofrida em conjunto, de um ódio aturado em conjunto, caso se sentisse interiormente distante dele. (“O Caminho para a Liberdade”)

Os jornais e os tablets

Os tablets surgiram antes de os jornais se sentirem confortáveis com as outras notáveis mudanças dos últimos 20 anos.

Sergio Vilas-Boas
“Jornal da ANJ”, junho/2010 e abril/2011

Junho/2010. Os e-readers e tablets prometem mudar a maneira de produzir, comercializar e adquirir conteúdos jornalísticos. Revolução? Se sim, ela ocorre antes mesmo de os jornais se sentirem confortáveis com as outras notáveis mudanças dos últimos anos. Salvação? Se sim, não se sabe ao certo (ainda) a forma e o valor. O fato indubitável é que essas devices – do Kindle ao iPad –  abrem possibilidades extras para o negócio jornal.

O iPad da Apple é um marco no design de mídias digitais portáteis, leves, amigáveis, nítidas e conectivas. Em pouco mais de um mês (o produto foi lançado no início de abril), vendeu-se um milhão de unidades nos Estados Unidos. Milhares de early adopters europeus e australianos também acorreram às lojas Apple no dia do lançamento mundial, no final de maio.

Até o fechamento desta edição não havia previsão para a comercialização oficial de iPads em países como Brasil, China, Índia e Rússia. Calcula-se que mil brasileiros viajantes tenham um iPad, número talvez maior que o de usuários do Kindle, e-reader criado pela Amazon (a primeira geração chegou ao mercado americano em novembro de 2007). Mas o Kindle levou um ano para atingir a marca de um milhão de unidades vendidas.

Há uma explicação plausível: o Kindle DX (terceira geração), com tela em preto-e-branco, talvez satisfaça o desejo de leitura de livros digitais com foco em texto, não tanto em imagens e movimentos. Mas, para quem não abre mão de “uma experiência mais completa” – como dizem os estrategistas – um tablet como o iPad é irresistível; e o preço também atrai: a versão mais barata custa US$ 499, mais ou menos o mesmo que o Kindle DX (US$ 480).

E-readers X tablets

A principal diferença entre um e-reader e um tablet é exatamente esta: o e-reader é um leitor eletrônico, enquanto o tablet é multimídia. Os dois conceitos não são necessariamente excludentes. Se a expectativa de queda de preço nos próximos anos se confirmar, poderá haver público para ambos. Mas o design e a interatividade dos dois ainda estão distantes do ideal.

“Aparelhos que não permitem acesso fácil à internet, seja e-reader ou tablet, não têm chance de sucesso. A gente espera estar conectado. Afinal, as nossas transações dependem disso”, sublinha Roger Fidler, da Universidade de Missouri, que trabalha com protótipos de novas mídias desde os anos 1970. Para ele, contudo, os leitores portáteis continuam sendo lanche e as mídias impressas, o jantar.

Fidler e outros pesquisadores de designs interativos para tablets estão avaliando o espectro comportamental dos potenciais usuários dessas devices. É o mesmo processo que entreteve os designers do iPhone, que previram as ações das pessoas diante da pequena tela de um aparelhinho multifunções cabível no bolso da camisa.

Em tablets como o iPad, menor que uma folha A4 e com tela sensível ao toque (na vertical ou na horizontal), pode-se navegar na web, assistir a filmes, divertir-se com games, interagir com anúncios de produtos e serviços (fazer uma reserva instantânea no restaurante exibido no anúncio) e ler livros, revistas e jornais.

Com os próprios dedos o leitor seleciona matérias, vira páginas, toca na foto de um jogador comemorando um gol e em seguida acompanha a jogada inteira do gol. Deitado numa rede ou na areia da praia, o usuário atinge facilmente a página de esportes, a de reportagens especiais, as histórias em quadrinhos e pode até fazer as palavras cruzadas.

Desafio para os jornais

Essa nova experiência de interação criada pela Apple é no mínimo um capítulo novo no processo de integração multiplataformas, que já está sendo explorado por jornais brasileiros. O iPad representa também um grande avanço em relação aos smartphones. Com essa bela tacada de marketing, o futurista Steve Jobs sacudiu o mercado editorial como um todo.

“O desafio é usar os e-readers e tablets para vender conteúdos, evitando os ‘erros’ cometidos com a migração para a web. Os efeitos da gratuidade ainda assombram”, alerta Kerry Northrup, da Western Kentucky University. Northrup esteve em São Paulo para evento da Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER). “Não permita que essas novas mídias pautem toda a sua estratégia empresarial.”

Northrup foi um dos protagonistas do projeto Newsplex de convergência multimídia da Universidade da Carolina do Sul. Na visão dele, os jornais têm de entregar seus conteúdos com competência, independentemente de os aparelhos estarem fixos ou móveis, de serem pesados ou leves. “O problema central continua: fazer jornalismo de qualidade”, enfatiza.

“Pensem em maneiras diversas de narrar uma história (talvez a mesma história) em vários formatos, pinçando o que há de melhor na apuração e adaptando cada parte ao formato de entrega mais adequado. O que fica melhor em vídeo? O que fica melhor online? O que fica melhor no papel? Os tablets exacerbam essas orientações.”

Para Northrup, o iPad oferece uma experiência diferente de distribuição e recepção de conteúdos, seguindo a linha das mudanças de hábitos de consumo ocorridas na última década. “Nós agora preferimos a flexibilidade à alta fidelidade, a conveniência à beleza, o rápido e amarrotado ao lento e polido. Ter a coisa aqui e agora é mais importante que tê-la em perfeito estado.”

Entrando em nova etapa?

Essas mudanças de comportamento se encaixam no perfil dos usuários de iPads, cujas telas manchadas pelas digitais dos dedos indicadores reafirmam que essas devices serão uma espécie de extensão do corpo humano, como as roupas, os sapatos e os celulares, que, com o tempo, adquirem o modo de ser de quem os transporta para cima e para baixo.

Contudo, o publico ávido por novas experiências digitais é o mesmo que, segundo o designer Roger Fidler, ainda prefere que artigos e reportagens sejam organizados e editados por grandes empresas jornalísticas. “Os jornais digitais altamente personalizados projetados por especialistas não atraíram a atenção esperada”, afirma.

Com os tablets se anunciando como onipresentes num futuro bem próximo, será necessário retrabalhar a ideia de “convergência multimídia”, acredita Northrup. “Convergência não é mais a solução. Deturparam o conceito. Ele acabou sendo utilizado para outros fins, como cortes de custos, corte de pessoal e maior controle sobre a produção”, critica. “Ou seja, o contrário do que deveria ser.”

Northrup prefere o conceito de media fusion, para o qual o treinamento de jornalistas é tão valioso quanto a escolha do conjunto de aplicativos que permitem a edição e a entrega dos conteúdos. “Não presuma apressadamente que você tem de oferecer a edição inteira do seu jornal ou revista num tablet”, adverte.

“Faça tudo sempre pensando na matéria, no assunto e no público potencialmente interessado”, continua. “Quem está interessado neste assunto? Onde essas pessoas estão? Como encontrá-las? E não leve muito a sério quem lhe disser que tem as respostas certas para estas e muitas outras perguntas. Estamos entrando numa nova etapa.”

Mais que uma plataforma

Na era dos tablets, o maior desafio dos jornais será reestruturar suas operações para se adaptar às novas ferramentas, aos novos comportamentos dos usuários e à entrega de conteúdos em múltiplas plataformas. Especialistas sugerem que os fluxos de produção para as várias mídias continuem no caminho da unificação e da integração.

O iPad é uma realidade tanto quanto uma promessa. Espera-se que a nova device da Apple seja um conjunto de novos canais de distribuição para pacotes multimídia. Mas, para estar dentro de um iPad, é preciso construir esses pacotes. “Estudem imediatamente um modelo de negócios sustentável antes de apostar nos tablets”, sugere Kerry Northrup, da Universidade de Missouri.

Na verdade, a Apple está fazendo mais do que simplesmente vender uma nova plataforma de mídia. A empresa de Steve Jobs está também alavancando a venda e utilização de seus aplicativos. Por outro lado, o sistema todo só poderá se expandir se houver um diversificado ecossistema de conteúdos App à venda.

“O mercado, no caso, será definido pela Apple e o ponto de vista da empresa ainda é desconhecido”, advertem as consultorias internacionais de mídia. O iPad e outros tablets que estão a caminho constituem tanto uma oportunidade de receita quanto um mostruário para o negócio jornal. “No entanto, os tablet sozinhos não são a salvação do jornal como negócio”, alertam os consultores.

Os designers de plataformas para tablets estão apostando num aparelho portátil com bateria de longa duração, tela plana de alta resolução, conexão sem fio e preço abaixo de US$ 500. As consultorias internacionais, por sua vez, acreditam que a necessidade de conectividade tende a ser um empecilho à rápida universalização dos tablets.

Cinco mil anos de aperfeiçoamento

O arquiteto digital Roger Fidler, da Universidade do Missouri, aposta na massificação por meio do modelo “documento”. O livro, a revista e o jornal são todos resultado de 5 mil anos de adaptação nossa ao “documento”, diz ele. “Nesse sentido, os tablets não são mais que a última encarnação de algo que vem de muito longe.”

Fidler tem visitado fábricas de tecnologia de tela plana na tentativa de persuadi-las a criar um produto que “encarne” as necessidades dos jornais. No Japão, grandes marcas como Sharp, Sony, NEC e Matsushita estão desenvolvendo tablets. Nos Estados Unidos, a ATT e a Motorola, entre outras, entraram no jogo.

Mas para ter sucesso no mercado de consumo geral será necessário um tablet esbelto que: pese menos de um quilo; tenha resolução equivalente à da tinta em papel; dialogue com outras máquinas; seja touch screen; use bateria com vários dias de duração; possua ampla capacidade de armazenamento e tela vertical que lembre os “documentos” com os quais lidamos no dia-a-dia.

Ray Pearce, diretor de circulação do “The New York Times”, acrescenta à lista as seguintes características: conectividade ubíqua, possibilidade de download a qualquer tempo, design convidativo à leitura, ágil e-commerce (poder comprar algo com um único toque) e múltiplas formas de se criar um ecossistema de anúncios que se retroalimente.

Apesar das derrapagens na migração para o online, a luz continua brilhando no fim do túnel. O tablets apontam uma direção diferente para o mercado editorial. As versões digitais das revistas “Time” e “Wired”, por exemplo, puderam ser baixadas no iPad nos últimos meses por US$ 4,99 cada edição.

A diferença crucial entre o jornal e a revista em tablets talvez seja a periodicidade. Acredita-se que seja mais “simples” em periodicidades semanal e mensal. Embora a entrega dos conteúdos tenha um custo bem mais baixo (não se gasta óleo diesel, papel, tinta etc.), será necessária grande agilidade para oferecê-los aos usuários de tablets dia após dia.

Por uma estratégia comum

O consultor da ANJ, Antonio Athayde, que trabalha com computadores desde 1965, considera “inegavelmente lúdica” a experiência com um iPad. “De certa forma, é divertido compará-lo com as centenas de equipamentos que o precederam. Mas, pessoalmente, acho que daqui a alguns meses os tablets com sistema operacional Android vão surpreender. O iPad nada mais é do que um fruto da cabeça do maior gênio do marketing da atualidade”, comenta.

A ANJ reuniu um grupo de técnicos dos principais jornais do país para rodadas de discussões que poderão levar a uma estratégia comum de abordagem do relacionamento do meio com as “lojas” nas quais os aplicativos para e-readers e tablets são vendidos. “Tal estratégia poderá vir a ser utilizada por um grande número de jornais associados.”

O conceito de que tudo na internet tem de ser oferecido de graça, principalmente a informação, prejudicou o negócio das empresas de comunicação, concorda Athayde. “Reverter isso é um enorme desafio. A questão de como enfrentá-lo ainda não está clara. Talvez a única certeza seja a de que só com atitudes coletivas se chegará a um resultado mais rapidamente.”

As mudanças no fluxo de produção dos jornais, anteriores à chegada dos e-readers, resultaram em redações integradas que geram edições para internet e para papel. “Jornalistas talvez sejam os profissionais que tiveram sua rotina mais afetada pelas recentes inovações tecnológicas na área. Mas os e-readers são apenas mais uma plataforma de distribuição.”

Não faltam softwares e aplicativos para criar e inserir pacotes de conteúdos nos tablets. Um deles é o holandês Woodwing, vendido no Brasil pela Epyx Soluções Editoriais. O Woodwing foi utilizado em conjunto com o Adobe InDesign para a geração do App da revista “Time”. O desenvolvimento do projeto demorou cinco semanas, incluindo o tempo de aprovação na Apple.

“Há um punhado de softwares à disposição para inserção de edições nas mais diversas tecnologias de distribuição de informação. Algumas dessas tecnologias são oferecidas por empresas brasileiras, e o grupo técnico da ANJ também está avaliando isso”, adianta Athayde. “Os tablets oferecem recursos de convergência entre texto, áudio, vídeo e navegação na web, trazendo mais oportunidades criativas aos editores.

Abril/2011. Um ano após o lançamento da primeira geração do iPad os jornais brasileiros começam a ter uma noção dos limites e possibilidades dos tablets. As percepções mais evidentes: esse tipo de “device” veio para ficar e em breve estará tão presente na vida das pessoas quanto os celulares e os PCs; a base de usuários no Brasil, embora pequena, vem crescendo rapidamente; a maioria dos jornais brasileiros de médio e grande porte oferece aplicativo na loja Apple; as principais empresas jornalísticas do país estão preparando o lançamento de edições pagas no iPad; a geração de receita com tablets parece muito mais palpável que no online e nos smartphones. A seguir, algumas percepções marcantes sobre esse assunto:

1. Crescimento do mercado de tablets aponta para diversificação

O primeiro jornal feito exclusivamente para o iPad, o “The Daily”, da News Corporation, grupo de mídia de Rupert Murdoch, que acaba de sair do forno, é um marco simbólico da evolução do “produto jornal”. “Estamos no início da curva de aprendizagem e há um grande campo de experimentações pela frente. A experiência de consumo de informação no iPad pode ser muito rica e agregar ainda mais valor ao conteúdo que produzimos. Isso abre grandes possibilidades comerciais”, acredita Guilherme Vieira, gerente de plataformas digitais da “Gazeta do Povo”.

Guilherme espera que os leitores atribuam valor não apenas ao conteúdo, mas também à interatividade, “de forma análoga ao que ocorre na indústria do cinema”. “Há muita gente disposta a pagar mais para ver determinado filme na versão 3D, por exemplo”, compara. “O conteúdo é o mesmo, porém entregue de maneira mais elaborada. Isso vale também para a publicidade. Em termos editoriais, além da ampliação na quantidade e na forma (com vídeos e infográficos agregados às matérias), experimentaremos aplicações para interação tanto online quanto off-line.”

O Grupo Folha não encara o iPad como iniciativa isolada. “O crescimento do acesso a conteúdos por meio de dispositivos móveis é um movimento semelhante ao de pouco mais de uma década com a criação dos sites jornalísticos na internet”, analisa Ana Lucia Busch, diretora-executiva de novas mídias da “Folha”. “O conhecimento acumulado com a distribuição de conteúdos para outras plataformas digitais será importante nos experimentos. Estamos mais preparados para vender formatos novos para tablets.”

Há outros sistemas operacionais disponíveis além do da Apple (utilizado nas duas gerações de iPads e nas quatro de iPhones). O Android (do Google) tende a ser o principal concorrente, podendo até ultrapassar a Apple, como já ocorreu no mercado de smartphones; o Windows Phone (da Microsoft, em parceria com a Nokia) é uma promessa; e a plataforma RIM, utilizada no Blackberry, apresenta bom potencial de aplicação e expansão.

A concorrência entre plataformas reflete a diversificação do próprio mercado de tablets, impulsionado pelo sucesso do iPad. A primeira geração do Galaxy Tab, da Samsung – com plataforma Android, tela menor que a do iPad e câmera –, por exemplo, é fruto de uma efervescência notável na demanda. No final do ano passado havia trinta modelos de tablets à venda nos Estados Unidos, o que fez a Panasonic, a Motorola e a Lenovo anunciarem que também disputarão uma fatia desse mercado.

Segundo a consultoria PRTM, 64 empresas estão fabricando e/ou desenvolvendo tablets, e os 17 milhões de aparelhos vendidos ano passado levaram os estrategistas a prever que até 2014 esse segmento atingirá a marca de 200 milhões de unidades. Essa projeção é quatro vezes maior que o previsto para o mercado de smartphones e cinco vezes maior que o potencial de crescimento dos PCs.

Dos trinta tablets efetivamente colocados à venda em 2010, apenas nove eram produzidos por grandes marcas globais. A disputa acirrada vai impactar também os desenvolvedores de chips e de sistemas operacionais. Embora o iPad seja o tablet mais vendido hoje no mundo, o sistema Android, da Google – única plataforma a desafiar, no momento, as ambições da Apple – está na maioria (55%) dos aparelhos portáteis interativos.

A batalha corpo a corpo está tendo repercussões até nas lojas virtuais de aplicativos. Segundo as contas da PRTM, a plataforma Android ostentava até fevereiro último a oferta de 230 mil aplicativos, contra 350 mil da Apple Store. Os especialistas agora acreditam que ocorrerá com os tablets o mesmo que aconteceu com os smartphones, ou seja, a Apple tendo que dividir o território com outras três ou quatro marcas.

No mês passado (março), o Android estava em 31% dos smartphones, contra 25% de iPhones, 30% de Blackberries e o restante se dividia entre Nokia, Motorola, LG e outros. “As plataformas Apple e Android serão maioria também nos tablets”, acredita Sílvio Genesini, diretor-presidente do Grupo Estado e coordenador do comitê de estratégias digitais da ANJ. “Se o Galaxy Tab, por exemplo, evoluir para uma tela maior, ele poderá ser um forte concorrente do iPad.”

A Apple é ainda predominante (até o final de 2010 haviam sido vendidos 15 milhões de iPads mundo afora, ou seja, 75% do mercado de tablets), mas as vendas de tablets com plataforma Android estão crescendo mais rapidamente que a Apple mesmo após o lançamento do iPad 2. Os especialistas agora apostam que o mercado de tablets em breve estará mais fracionado, reduzindo o poder de fogo da Apple em termos de hardware, software e e-commerce.

No médio e no longo prazo essa expectativa (factível) é vista como “positiva para o setor jornal”. O sistema de vendas fechado tornou a Apple dona do campo, da bola e do jogo, e jornais do mundo inteiro estão insatisfeitos com o que chamam de “interferência excessiva” da empresa encabeçada por Steve Jobs (licenciado para tratamento médico). Os protestos giram em torno das políticas da Apple, que controla os preços, cobra 30% de comissão e impede que os jornais gerenciem as informações sobre seus assinantes.

2. Jornais protestam contra os 30% retidos pela App Store e iTunes

O entusiasmo inicial dos publishers em relação aos tablets se baseava em parte na hipótese de que esses dispositivos digitais de leitura e entretenimento seriam uma forma de os jornais enfrentarem a ameaça de gigantes como Google, Microsoft e empresas de telecom. No entanto, a Apple, primeira a oferecer um dispositivo de leitura multimídia consistente, adotou uma série de exigências que tem incomodado os executivos de jornais.

“Até o momento, a Apple se colocou ao lado desses gigantes, assumindo uma postura muito semelhante à deles. Do ponto de vista dos desenvolvedores de conteúdo, principalmente os publishers, que arcam com custos elevados para garantir a qualidade das suas publicações e para manter seu papel social, o relacionamento está longe de ser bom para os dois lados. Há muita negociação a ser feita e pouca flexibilidade do lado de lá”, observa Guilherme Vieira, gerente de plataformas digitais da “Gazeta do Povo”.

Além de ditar os preços de venda avulsa e de assinaturas, a Apple leva 30% de tudo o que é comercializado em sua loja virtual. Estas e outras imposições despertaram furor nos jornais europeus, principalmente. As primeiras pressões surtiram algum efeito. Em fevereiro foi anunciada a permissão da venda de aplicativos nos sites dos próprios jornais, desde que comercializados pelo mesmo preço também na App Store. A regra dos 30%, porém, continua.

As lojas virtuais dos tablets com plataforma Android cobram comissão de 10%, bem menos que a Apple. “Mesmo assim, é caro, e não se justifica”, enfatiza Sílvio Genesini, coordenador do comitê de estratégias digitais da ANJ. A Apple também não abre aos jornais o acesso às informações dos usuários e assinantes. Ao comprar na loja Apple, uma janela pergunta ao leitor se ele/ela permite o acesso a seus dados pessoais, comprometendo as equações de marketing das empresas jornalísticas.

A receita proveniente da venda de aplicativos em larga escala é fundamental para a Apple, e não é por acaso que a empresa se tornou a maior loja de músicas do planeta. “Era esperado que a Apple fosse cobrar um preço pelo uso de um grande ativo seu: a base de dados de sua loja virtual”, lembra Ana Lucia Busch, diretora-executiva de novas mídias da “Folha”. “O que precisa ser discutido é a autonomia das empresas jornalísticas na administração de seus próprios clientes e nas decisões que dizem respeito unicamente a seu negócio.”

“Os sistemas  iTunes e Apple Store  são as molas mestras de uma estratégia que integra não só o iPad, mas também PCs tradicionais. Essa estratégia estava bem clara desde o começo. Era um movimento coerente em relação ao ecossistema fechado que a Apple montou. O fato de a plataforma do Google cobrar taxas mais baixas não altera o quadro de concentração excessiva”, observa Luiz Dutra, diretor de tecnologia da RAC.

Para Marcelo Rech, diretor de novos negócios do Grupo RBS, a Apple está “falando grosso” porque ainda não tem concorrente à altura. “No mercado de smartphones, onde a competição é maior, isso já não ocorre. De qualquer forma, acredito que o domínio absoluto da Apple no mercado de tablets é insustentável no longo prazo.” Rech considera essencial a liberdade dos jornais de vender edições especiais e assinaturas diretamente ao seu público.

“A Apple está desconsiderando os modelos de assinaturas que os jornais já utilizam há tempos e que são historicamente eficazes. A empresa de Jobs não tem sido uma boa parceira das principais empresas jornalísticas do mundo. A cobrança de 30% sobre as vendas, além de elevada (a Apple não faz esforço algum), simplifica de maneira negativa o relacionamento detalhado que mantemos com nossos usuários e assinantes”, Rech continua.

Luiz Dutra acredita que os tablets que concorrerão seriamente com o iPad são promissores, e talvez seja mais fácil comercializar conteúdos neles, até para que eles precisam se diferenciar da Apple: “Dificilmente os concorrentes vão viabilizar ecossistemas fechados como o do iTunes. Essa é uma oportunidade que deverá ser explorada pelos produtores de conteúdo para retomar o controle do acesso ao usuário final. O comitê de estratégia digital da ANJ tem estudado com afinco esse cenário, a fim de encontrar soluções”.

“Os produtos concorrentes que tive a oportunidade de conhecer e experimentar são muito promissores, sim. Por outro lado, não carregam a marca e fama da Apple”, adverte Carla Esteves, gerente geral de novos negócios da Infoglobo. “Ao impor um custo adicional excessivo na cadeia de valor da produção de conteúdo, a Apple restringe a utilidade do próprio produto digital”, adverte Luiz Dutra.

3. Base de usuários no Brasil ainda é pequena, mas promissora

Além da diversificação de criadores de hardware (tablets), software (sistemas operacionais) e lojas digitais – fatores que poderiam forçar a Apple a se abrir mais –, há o problema da expansão da base de usuários. “Isso é fundamental”, afirma Marcelo Rech, do Grupo RBS. “Quando atingirmos a marca de um milhão de usuários de tablets, creio que teremos uma razoável massa crítica sobre como operar comercialmente nesses novos dispositivos.”

O iPhone levou quatro anos para atingir a marca de 1 milhão de aparelhos no Brasil. Quanto ao iPad, lançado oficialmente no país no final de novembro, estima-se que existam 100 mil usuários (incluindo os aparelhos adquiridos no exterior). Ao todo, segundo dados da consultoria IDC, o Brasil possui mais de 200 mil tablets, e existe a expectativa de que em pouco tempo eles ultrapassem a marca de 1 milhão.

“O fator fundamental em questão continua sendo escala e consumo”, diz Axeu Beluca, gerente de marketing da “Gazeta do Povo”. A escala depende do preço e vice-versa. “De qualquer forma, os tablets vieram para ficar”, afirma Mario Blanco, gerente de produtos da Positivo Informática, “pois atendem cada vez mais à necessidade de mobilidade e de conectividade das pessoas”.

A Positivo lançou no ano passado o leitor eletrônico (e-reader) Positivo Alfa, sucedido pelo Alfa Wi-Fi, que agora permite o download direto de livros digitais sem necessidade de interface com um computador. O Alfa foi o primeiro leitor digital brasileiro de livros a empregar tecnologia touchscreen. “Receptivos às novidades tecnológicas, os brasileiros estão começando a descobrir as vantagens da leitura digital.”

A Positivo pretende entrar no mercado de tablets, mas seu novo produto ainda não tem previsão de lançamento: “Estamos pesquisando as especificações e um bom sistema operacional para que o nosso produto atenda perfeitamente às necessidades do consumidor brasileiro”. A presidente Dilma Rousseff determinou que o Ministério das Comunicações coordene a partir de agora as ações de inclusão digital, incluindo “a massificação da banda larga” e o incentivo à produção nacional de tablets a preços baixos.

Como mídia ou como negócio, a receptividade dos dispositivos portáteis de leitura e entretenimento se insinua de diversas formas. “O aplicativo da ‘Folha’, por exemplo, já foi ‘baixado’ mais de 80 mil vezes. Isso nos dá uma noção da escala e do potencial que temos. Se compararmos com a circulação média dos jornais no Brasil, começamos a trabalhar com um universo bastante relevante”, acredita Ana Lucia Busch, diretora-executiva de novas mídias da “Folha”.

A maioria dos jornais brasileiros de médio e grande porte lançou aplicativo gratuito no iPad, como degustação ou em caráter experimental. Uma vez aberto e gratuito, seria difícil passar a cobrar? “Se o conteúdo publicado em tablet for isolado, sem integração com outros ambientes, sim, será difícil fechá-lo depois. Por outro lado, se o tablet for apenas parte de algo mais amplo, integrado a várias plataformas, a liberação do acesso pode viabilizar novos produtos”, analisa Luiz Dutra, diretor de tecnologia da RAC.

O fato é que as tentativas de definir cobranças por acesso (“paywalls”) têm sido uma resposta à constatação de que o modelo de financiamento exclusivo por propaganda, com a cessão gratuita do conteúdo, causa um desequilíbrio nas contas dos jornais, acredita Dutra: “Para fechar o acesso é preciso ter conteúdo relevante a ponto de o usuário aceitar pagar por ele. Não há um modelo pronto e acabado que resolva essa equação de maneira trivial”.

4. O tablet comporta jornais “geneticamente modificados”?

Os tablets como um todo (não apenas o iPad) tendem a ser um “jornal modificado” ou uma “nova mídia”? Alternativa importante no “mix” de produtos das empresas jornalísticas ou apenas mais uma plataforma entre tantas? “Muitos aplicativos no início serão ‘jornais modificados’. Mas poderão assumir características de nova mídia à medida que forem integrados à rotina das pessoas. Em relação ao ‘mix’ de negócios, os tablets talvez assumam um papel importante”, aposta Axeu Beluca, gerente de marketing da “Gazeta do Povo”.

Rafael Silveira, diretor de desenvolvimento de produto e inovação da Rede Gazeta, distingue dois tipos de aproveitamento: “Os grandes jornais irão tirar proveito de uma série de recursos que antes só eram possíveis na internet e, mesmo assim, com limitações de manuseio (com mouse e teclado). Já os jornais locais poderão ganhar em escala e competir com o mundo! Os tablets quebram ainda mais as barreiras de acesso ao conteúdo”.

Ana Lucia Busch recusa a ideia “de jornal como uma mídia estanque”, preferindo pensar em termos de “geração de conteúdo”: “Qualquer nova plataforma exige uma forma confortável de distribuição e leitura.  Simplesmente transplantar os formatos do papel para as telas, de forma automática, põe em xeque a inteligência do leitor, que espera da ‘Folha’ a melhor edição possível”.

Marcelo Rech encara os tablets como “plataforma nova que se vale simultaneamente do melhor do impresso e da web”, com maior conforto e de leitura e linguagem multimídia: “Operando num universo mais fechado de acesso, o iPad, por exemplo, propicia a interação com matérias aprofundadas. As características mais marcantes do iPad são o relaxamento e a imersão, e não tanto o consumo rápido de pílulas de informação. Isso, claro, nos beneficia”.

O que define “a nova mídia”, na visão de Luiz Dutra, da RAC, não é o tablet em si, mas a digitalização completa da produção e da distribuição de conteúdos. “O tablet, na verdade, é apenas mais uma tela, um dispositivo para entrega de conteúdo e ponto de interação, como os smartphones e a televisão também estão se tornando. O tablet, por si só, não constitui nenhuma revolução”.

Quanto às iniciativas (exclusivas ou não) para iPads, o que deverá prevalecer são os valores clássicos do jornalismo, observa Ana Lucia Busch, do Grupo Folha: “Um jornal cheio de possibilidades técnicas, mas incapaz de dar um furo ou de produzir jornalismo crítico, não tem chance de sobrevivência em um ambiente tão competitivo do ponto de vista da oferta de noticiário”.

5. Experiências marcantes com ou sem receita direta

No atual universo brasileiro de 100 mil iPads, o jornal que atingir 3 mil assinantes já pode se considerar “no lucro”, segundo Sílvio Genesini, vice-presidente do Grupo Estado. “Se tivermos 5 mil assinantes, magnífico”, diz, referindo-se ao próprio “Estadão”. Para Sílvio, o investimento se paga num intervalo de seis meses a um ano. “Em dois anos atingimos 15 mil assinaturas do nosso jornal digital [para uso em PCs]”, compara, otimista.

Até o fechamento desta edição o “Estadão” estava aguardando a aprovação da Apple para lançar um aplicativo pago projetado exclusivamente para o ambiente do iPad. Essa versão paga, segundo Genesini, é um pouco diferente da anterior, que era gratuita. “Será como que o terceiro clichê das edições em papel, depois da nacional e da local.” O design é da empresa espanhola Cases.

Sílvio calcula em R$ 200 mil o investimento necessário para o projeto inicial de lançamento de um app. “Mas esse custo pode ser menor, dependendo da sofisticação do projeto, que se resolve com quatro ou cinco profissionais. Na verdade, o que nós e a maioria dos jornais brasileiros estamos fazendo, por enquanto, é comprar um lugar na fila, com vistas ao futuro.”

Para Carla Esteves, da Infoglobo, tudo vai depender do produto e do público-alvo: “No fim das contas prevalece a velha equação: investimento, receita e margem”. Rafael Silveira, da Rede Gazeta, que, conscientemente, optou por não lançar agora um aplicativo no iPad, sugere o investimento em nichos.

“Uma publicação em iPad para a classe médica, por exemplo, talvez possa se justificar mais rápido que num jornal local e popular de um estado não muito populoso, como o Espírito Santo, por exemplo. A viabilidade estará nesse primeiro momento atrelada ao risco da aceitação do mercado, bem como seu tamanho”, analisa Rafael.

Os custos de manutenção de um aplicativo para iPad ainda são obscuros, porém. Como não se sabe ao certo como o mercado irá se comportar, não há como fazer estimativas, por enquanto. O que se sabe com certeza é que os tablets são o suporte que hoje melhor reproduzem a experiência com o papel, tanto no plano editorial quanto no do modelo de negócio.

As fontes de receita tendem a ser as mesmas do impresso: assinatura (por período e talvez por tema), venda avulsa e publicidade. Além disso, do ponto de vista dos jornais, o processo comercial num tablet (mais especificamente no iPad), é claro e palpável, diferentemente dos smartphones. “Incentivamos os jornais a começar logo a cobrar”, enfatiza Genesini.

Guilherme Vieira, da “Gazeta do Povo”, vislumbra adequações ao meio: “O conteúdo deve ser consumido através de uma ótima experiência, e, para isso, ele deve ser pensado e produzido para o tipo de embalagem ou dispositivo no qual será entregue. Este nos parece o melhor caminho”.

Por esse raciocínio, o conteúdo entregue num iPad reuniria recursos do mundo digital, mas mantém a mesma disposição das reportagens do impresso. “Na internet, todas as notícias acabam tendo peso idêntico. No iPad, a leitura se aproxima da versão impressa, pois segue a mesma lógica de edição”, observa Sandra Gonçalves, diretora de redação da “Gazeta do Povo”. “Nosso aplicativo foi desenvolvido exclusivamente para o iPad, mantendo o DNA do impresso”, complementa Marcos Tavares, editor-executivo de imagem da “Gazeta”.

6. “The Daily”

O “The Daily”, da News Corporation, marco zero em termos de jornal nascido exclusivamente para plataforma Apple, é uma iniciativa ousada. “É bonito e fácil de explorar. Já o sistema de carrossel, embora interessante, me parece confuso, do ponto de vista editorial”, diz Sílvio Genesini, coordenador do comitê de estratégias digitais da ANJ.

Nas primeiras semanas, a seleção dos conteúdos do “The Daily” parecia mais inclinada a apelos populares (esportes e variedades, por exemplo) e menos focada no chamado “público profissional”. Experiente na lida com tablóides ágeis e sensacionalistas, a News Corp é dona também do “The Wall Street Journal”, tradicional e sisudo.

A assinatura do “The Daily” na App Store custa US$ 0,99 por semana. “Esse valor é muito mais barato do que eu esperava”, surpreende-se Genesini, “e foi definido assim talvez por influência da Apple, que adora esse negócio de vírgula noventa e nove”. Murdoch quer atingir rapidamente 100 mil assinantes num universo de mais de 5 milhões de iPads só nos Estados Unidos.

O alfaiate da realidade

“Honra Teu Pai”, de Gay Talese, evidenciou a
habilidade pactual do mestre do New Journalism.

Sergio Vilas-Boas
Rascunho“, junho/2011

Seu estilo elegante, clássico, finíssimo, não se confunde; seus transparentes métodos de pesquisa e entrevista continuam fazendo escola; suas temáticas certeiras englobam personagens com RGs e endereços facilmente alcançáveis – todos gravitando fora da imaginação, pois estão iluminados pelo mesmo amanhecer que funda o cotidiano de qualquer mortal. Ele busca a subjetividade do real com elevada força, oxigenando o espectro artístico que até o jornalismo possui.

 

 

 

 

 

 

Se o assunto é “não ficção” de qualidade, Gay Talese é sempre tomado como exemplo por jovens e veteranos da imprensa, que o endeusam. O endeusamento, no mundo de hoje, é uma forma ansiada de conforto, e talvez por isso paire uma nuvem de unanimidade sobre a cabeça deste gentleman habilidoso. Nos meios acadêmicos sua validade ainda se situa nos extremos: os departamentos de Letras o ignoram e os de Comunicação o superestimam.

Seria infalível o último mestre vivo do Jornalismo Literário? Claro que não. Ele também pode ser lido como um conservador a serviço do mercado editorial norte-americano, no qual tamanho é documento. Mr. Talese não vacila entre a abundância e a superabundância. Oferece sempre mais do que os leitores exigentes precisam. O excesso é uma de suas marcas registradas ou uma forma de rigor?

“O Reino e o Poder” (1969) e “A Mulher do Próximo” (1981), relançados pela Companhia das Letras, e “Vida de Escritor” (2006), incluído na coleção Jornalismo Literário, comprovam a mentalidade do autor da antológica coletânea “Fama & Anonimato”: a fluência está no senso de detalhe, tanto quanto no volume de insumos. “Honra Teu Pai” (1971), que acaba de ser incluído na mesma coleção, é outro de seus clássicos portentosos.

Antes publicado aqui com o título de “Honrados Mafiosos”, “Honra Teu Pai” é uma imersão profunda na trajetória do mafioso Bill Bonanno, filho de Joseph (Joe Bananas) Bonanno, imigrante de Castellammare del Golfo, oeste da Sicília. O subtítulo (“o primeiro livro de não ficção a penetrar na vida secreta da máfia”) não é enganoso. Para realizar o livro, foi quebrada a omertà, código de silêncio dos criminosos de descendência italiana.

Mas não há, apesar disso, nenhum furo de reportagem, stricto sensu. O que chama a atenção é o modo como Talese capta a aparente contradição entre o terrorismo e a obviedade que marcavam o cotidiano de Bill – um criminoso, digamos, “pós-moderno”, que talvez não houvesse ingressado naquele submundo se a hereditariedade não fizesse parte do dogma da Máfia, na época, ou da família Bonnano, em especial.

Imersão profunda

Se você (tanto quanto eu) não suporta mais histórias de mafiosos de descendência italiana, paciência. Considere que a ficção assumidamente baseada em fatos exagera o real para torná-lo consumível. Eis o ponto, então: os refinados designs narrativos do filho do alfaiate de Ocean City, Nova Jersey, nunca foram maculados por arranhões espetaculosos. O Bill de Talese é violento e charmoso, egoísta e meditativo, impulsivo e equilibrado, enfim, humano.

Diferentemente de Tom Wolfe – outro expoente do New Journalism –, espalhafatoso e onomatopéico, Talese é sóbrio e compreensivo. Quem pensa que compreender é o mesmo que concordar está evidentemente equivocado. A compreensão pressupõe o altruísmo de colocar-se disponível, de deixar-se levar pelos movimentos que ocorrem fora da concha do umbigo, onde impera uma terrível predisposição ao estereótipo.

A concordância é admissível, mas não obrigatória, e jamais estaria livre do rigoroso exame (auto)crítico do autor. Uma das qualidades mais louváveis, aliás – e raramente mencionada –, de Talese é a habilidade pactual. Tolo quem supõe que numa narrativa de não ficção o autor faz somente o que quer, como os ficcionistas de gabinete. Não. Sempre há pactos, acordos, negociações etc.

Fazer Bill Bonnano se abrir foi uma tarefa árdua, impossível de se resolver apenas pelo fato de Talese ser, na época, uma figura eminentemente pública, um jornalista de sucesso, o autor que se tornara best-seller com uma obra extraordinária sobre a saga das famílias Ochs e Sulzberger, descendentes de judeus alemães publishers do “The New York Times”, a principal dinastia do jornalismo norte-americano.

Para “penetrar”, como diz o verbo do subtítulo, você tem de ser aceito. Como ser aceito num mundo que não é exatamente o seu? Cada caso é um caso. Cada caso implica uma maleabilidade acima da média por parte do autor. Talese viu pela primeira vez um membro da família Bonnano no dia 7 de janeiro de 1965, quando, na qualidade de repórter do “The New York Times”, cobria a prisão de Bill, então com 32 anos, no momento em que ele ascendia na hierarquia da organização criada por seu pai, Joe (Banana) Bonnano.

O misterioso desaparecimento de Joe, seis semanas antes, levara as autoridades a pressionar Bill para que ele desse alguma informação sobre o paradeiro do pai. Perguntava-se se o velho Joe teria encenado seu próprio seqüestro a fim de se esquivar das autoridades federais que investigavam um suposto complô, arquitetado por Joe, para assassinar três chefes rivais; ou se o velho siciliano já teria sido morto pelos que pretendia eliminar.

E, como Bill Bonnano se negasse a cooperar com o FBI, foi intimado a comparecer perante um grande júri federal em Manhattan, “e foi ali que o vi pela primeira vez”. Foi quando Talese abandonou por um momento a condição de repórter do “Times” e, ciente de que sua carreira seria mesmo a de escritor de livros, se aproximou de Bill para lhe dizer que gostaria de discutir a possibilidade de produzir um livro sobre a juventude do mafioso. O advogado de Bill, Albert Krieger, protegeu seu cliente o quanto pôde.

“Por sua expressão, porém, percebi que ele [Bill] tinha reagido bem. Talvez a ideia lhe tivesse interessado. (…) Depois disso, liguei várias vezes para o escritório do sr. Krieger em Manhattan, tentando, sem êxito ou incentivo, obter um encontro pessoal. Mais adiante naquele inverno, entretanto, depois de haver escrito duas cartas a Bill Bonnano, endereçadas ao escritório de seu advogado, e de ter deixado dois recados por telefone, recebi um aviso de que o sr. Bonnano e seu advogado se encontrariam comigo para jantar, na semana seguinte, numa churrascaria na Segunda Avenida, perto do edifício das Nações Unidas.”

Durante o jantar, Talese conta no pósfacio, Bill se manteve neutro quanto à possibilidade de vir a ser tema de um livro, mas se deram “extremamente bem”. “Ele parecia ter prazer em relembrar detalhes de sua infância, de seus tempos de estudante no Arizona, da vida dupla que levara como universitário, acompanhando colegas bonitas em festas nos fins de semana e depois indo de carro, sozinho, ao aeroporto de Tucson para receber um dos homens de seu pai que chegara da Costa Leste. Sem sombra de dúvida, até então ele jamais falara sobre essas coisas com pessoa alguma de fora da organização, tão solitária e recôndita tinha sido sua vida pessoal. Ali no restaurante tive a impressão de que tanto ele como eu estávamos ouvindo sua história pela primeira vez.”

Talese convidou Bill e sua mulher, Rosalie, para jantar em sua casa. Bill prometeu que iria, e foi mesmo. Depois disso, às vezes com suas respectivas mulheres e filhos, encontraram-se em várias ocasiões, “firmando aos poucos o relacionamento e a confiança que eram essenciais para o livro que eu esperava escrever, um livro que transmitisse a complexidade de ser um Bonnano, a atmosfera especial que reinava na casa, o efeito do passado sobre o presente”.

Emboscadas

O episódio que os aproximou decisivamente, porém, ocorreu cerca de um ano depois de se conhecerem. Bill apareceu de repente na casa de Talese. Estava barbado e ofegante, usando uma camisa preta sem gravata. Pediu desculpas pela surpresa e começou a explicar, “com uma calma extraordinária”, que pistoleiros tinham tentado matá-lo. Três dias antes Bill havia caído numa emboscada num sábado na rua Troutman, no Brooklyn, armada por uma facção rival.

Toda a vizinhança ouvira os muitos tiros, mas os jornais e rádios de Nova York não deram a mínima para o incidente. Bill ficou tão surpreso quanto desapontado, concluindo que a imprensa era totalmente dependente de porta-vozes do governo para obter suas notícias. Como esses porta-vozes estavam de folga, nada foi apurado ou transmitido. Outra hipótese que Bill aventou foi a de que a polícia se calara de propósito.

“Eu já não trabalhava mais no ‘Times’, mas me propus a falar com um editor de quem era amigo, e foi com essa dica que a história veio à luz. Além disso, o episódio aproximou-me ainda mais de Bonnano.” A partir de então, Bill enviou a sua irmã, Catherine, que morava em São Francisco, uma carta autorizando-a a tratar com Talese aspectos pessoais da vida do irmão. Informante valiosa, Catherine abriu as primeiras portas.

Extraordinário o fato de que Talese, ele próprio filho de um altivo alfaiate que emigrou da Itália para os Estados Unidos na década de 1920, já pesquisava e dialogava com os potenciais personagens de “Honra Teu Pai” enquanto redigia “O Reino e o Poder”, sobre a saga dos publishers do “Times”. Aquela intensa atividade de campo e de gabinete sinalizava o dinamismo diferenciado da não ficção de longo alcance que Talese consolidaria no formato livro.

Passados quarenta anos da primeira edição em inglês de “Honra Teu Pai”, sua leitura talvez seja influenciada por “O Poderoso Chefão” (1972), filme de Francis Ford Coppola vencedor de nove Oscars e baseado no romance homônimo de Mario Puzo, e pela série de TV “Família Soprano”, exibida entre 1999 e 2007 nos Estados Unidos. Em comparação com a história positivamente “monótona” narrada por Talese, essas produções agora podem parecer meros reality shows.

O bom narrador do real une duas qualidades aparentemente distantes uma da outra. De um lado, precisa de inteligência racional para estudar, levantar informações e interpretações, compreender com profundidade e analisar o assunto que tem pela frente. De outro, precisa de inteligência emocional (incluindo a intuição) para se deixar tocar sensorialmente pela ressonância interior causada pelas características subjacentes, pelos cenários por onde circula e pelas pessoas com as quais lida tête-à-tête.

A expressão não ficção às vezes soa mal, talvez pela negativa renegadora. Mas ficção não é sinônimo nem de mentira nem de verdade. Para autores como Talese, o importante é a procura por conteúdos/formas imbricados, expressos de maneira tão fascinante que possam ser lidos como (apesar de não serem) romances. O conjunto da obra de Talese (em livros e na revista “Esquire”, principalmente) indica que tal complexa combinação pode ser atingida por quem é, considera-se e assume-se, em sentido amplo, repórter.

Se o Jornalismo Literário tivesse uma finalidade única, ela seria a seguinte: aprofundar assuntos e transmiti-los com arte, sem moralismos. Nesse sentido, “Honra Teu Pai” (título sugerido por Rosalie, mulher de Bill) é, no fundo, um drama doméstico que enfatiza o indivíduo mais que o crime, a partícula mais que a matéria, a confiança mais que a traição, a instituição família mais que a Família Bonnano. Em seu núcleo há uma pergunta-chave: o que o futuro reserva ao filho nascido no seio de uma organização criminosa?

Talese não apenas responde à questão como honra o seu maior fundamento como jornalista-autor: persistir em penetrar nas camadas mais profundas do entendimento, evitando por todos os meios a conclusão apressada e a suposição fácil. Foram sete anos de trabalho, afinal. E, como bônus, você ainda será levado a conhecer o processo histórico das máfias de Nova York (dos irlandeses do início do século XX aos latinos de hoje, passando, claro, pelos italianos, centro do centro).

“Honra Teu Pai” é um exemplo de transparência no trato com personagens, fatos e interpretações; e volta à luz no exato momento em que mesma editora relança também “O Jornalista e o Assassino”, de Janet Malcolm, obra marcante do ponto de vista da ética jornalística, e que aborda o relacionamento “esquizofrênico” entre um narrador da realidade (Joe McGuinniss) e seu protagonista, um homem que matou a própria mulher e suas duas filhas (Jeffrey MacDonald).

TRECHO (pp.159-160)

Cerca de 75% da receita do crime provinha de cidadãos que apostavam com corretores em corridas de cavalos e outros eventos esportivos, ou que faziam uma fezinha em loterias clandestinas. Embora um típico apostador da loteria pudesse ser uma dona de casa do Harlem que, vivendo do seguro-desemprego, depositava 25 centavos, toda manhã, com um apontador da vizinhança, na esperança de bater a vantagem de mil para um da banca e acertar no número diário, que por acordo prévio poderia ser formado pelos três últimos algarismos do total apostado no hipódromo local naquele dia, e embora o freguês típico do bookmaker de corridas pudesse ser um mecânico de automóveis ou um carregador que apostava dois dólares num cavalo todos os dias, há nos Estados Unidos um número suficiente desses jogadores – milhões de pessoas para quem uma pequena aposta constitui um tônico diário e que não podem dar-se ao luxo de comparecer pessoalmente a um hipódromo – para sustentar a fabulosa indústria do jogo ilegal, uma indústria que prosperava havia décadas, apesar dos agentes da lei e do desejo de legisladores puritanos.

Jornalismo Narrativo (2)

As pessoas tendem a ler com mais interesse
textos nos quais conseguem enxergar a si próprias.
Leia também Jornalismo Narrativo (1).

Sergio Vilas-Boas

Nos últimos trinta anos vimos nascer (e passamos a usar) desktop PC (DOS), desktop PC (Windows), fax, laptop (Windows), e-mail, internet (www), Web 2.0, smartphones, redes sociais, tablets. O dinamismo da história das comunicações é uma flecha lançada ao infinito, que ainda não atingiu fatalmente um alvo específico. Mas, surpreendentemente, em vez de afastar o Jornalismo Narrativo da imprensa brasileira para sempre, a Era Digital, ao baratear custos, despertou-o de um sono de quase duas décadas.

Apesar da utopia vigente de que o jornalismo hoje pode ser feito sozinho (“eu, pauteiro”, “eu, repórter”, “eu, editor”, “eu, frila”, “eu, empreendedor”, “eu, a novidade”, “eu, tudo”), a Era Digital permitiu uma conclusão que não parecia óbvia no auge do frenesi tecnológico: o jornalismo em si (sua essência) não mudou muito, e a reportagem continua sendo o carro-chefe das empresas sérias.

Tudo isso ocorreu em um contexto de globalização: democracias se consolidando na América Latina; empresas jornalísticas fazendo tardiamente (em comparação com as empresas de outros setores) o downsizing e a reengenharia gerencial; postos de trabalho e funções sendo eliminados; profissionais experientes tendo de repensar suas carreiras; o jornalismo impresso entrando em crise; e as redações mundo afora tendo mais mulheres que homens, embora a maioria dos altos cargos continue nas mãos daqueles.

Este é o cenário mundial, macro. E no Brasil? Cenário aparentemente muito positivo. Nos últimos vinte anos o país atingiu: estabilidade da moeda, crescimento econômico, consolidação da democracia participativa, eleição de governos pluralistas, inserção mais ativa das classes C e D no mercado de mídia, com tablóides gratuitos (depois pagos), expansão da TV por assinatura com maior oferta de canais dublados e de produções locais com finalidade de informação e/ou entretenimento; expansão do acesso à Banda Larga etc.

Mas há um aspecto que interessa diretamente a todos nós, neste curso: o retorno à pluralidade de práticas em decorrência do desgaste do modelo imitador do diário americano USA Today e da revolução tecnológica. Em um país sem tradição democrática de longa data e com pouca tradição de jornalismo investigativo, isto significa uma abertura maior para a experimentação em termos de gestão, conteúdo e forma.

Resistências, há. E elas são culturais. É comum ouvirmos exercícios (naturais) de autodefesa nas redações mundo afora: a gente não tem espaço nem tempo; os salários estão estrangulados e não há como motivar os jornalistas; estamos sobrecarregados e mal conseguimos dar conta do básico; os donos de jornais não querem esse tipo de matéria porque exige deslocamentos e custa caro; não temos espaço para textos longos; meu editor nunca vai aceitar uma reportagem dessas, que não passa de jeito nenhum pelos vários “filtros” internos aqui da empresa; a objetividade é um patrimônio sagrado.

O jogo de censuras e autocensuras parece estar com os dias contados, no entanto. Os jornais diários nunca viveram um momento tão propício à inovação (em todos os âmbitos) como agora. Em um cenário de rápidas mudanças tecnológicas, o chamado storytelling (a arte de contar histórias) tem sido apontado como um dos caminhos para a oferta de conteúdos exclusivos e diferenciados (no impresso ou no online)

Por desconhecimento ou resistência, jornalistas me perguntam: “Narrar não é o que os jornalistas fazem todos os dias?” A resposta pode ser “sim”, “não” ou “depende”. A discussão sobre o conceito de narrativa é acadêmica e possui múltiplas abordagens. Alguns estudiosos acreditam que o simples ato de escrever uma matéria jornalística implica narrar; outros sustentam que narrativa é uma história centrada em personagens, em torno dos quais se desenrola um enredo ou trama.

O Jornalismo Narrativo se encaixa historicamente nessa segunda corrente. Os personagens são a razão de ser de todo o processo de produção da matéria – da pauta à edição. Estamos falando, portanto, de lidar com histórias reais sobre pessoas reais em lugares reais vivendo (ou tendo vivido) situações reais, mas com uma amplitude de pauta, apuração, redação e edição maior que no jornalismo informativo.

Narrar, além de tudo, é uma atitude. O novo (o diferente do habitual) requer ousadia. A primeira diretriz é ir a campo: observar, indagar, ouvir mais do que falar, mas falar também; conquistar a confiança das pessoas para que elas relatem suas experiências de maneira autêntica e espontânea; selecionar ocorrências que ajudem o público a entrar no relato e vivê-lo como se estivesse lá; apurar/escrever a história como se tivesse uma câmera na mão, dirigindo o olhar do “espectador”.

Há uma premissa simples por trás de tudo isso: as pessoas tendem a ler com mais interesse textos nos quais conseguem enxergar a si próprias. Isto significa que, embora não seja obrigatória, a prática do Jornalismo Narrativo é uma opção interessante na busca por diferenciação, e pode contribuir para que as “reportagens especiais” sejam realmente especiais, e não apenas “notícias espichadas” ou “relatórios secos”.

O Jornalismo Narrativo, em princípio, se destina a audiências cultas, compostas por pessoas que precisam da leitura não apenas para uma sobrevivência básica, mas para melhor se situarem no mundo complexo em que vivemos. Ávidas por conteúdos expressivos diferenciados, essas pessoas estão em toda parte e, além de plenamente inseridas nas estruturas atuais de consumo e interação tecnológica, ajudam a formar uma percepção positiva da empresa jornalística que acompanham/assinam.

[Não podemos nos esquecer que a leitura não é uma habilidade inata. Ninguém nasce leitor. As pessoas se tornam leitoras por meio de incentivos dados ainda no ensino fundamental, que levem o individuo a acreditar ao longo do tempo que a leitura de textos (de qualquer tipo) pode fazer diferença na vida de alguma forma. A maioria das pessoas, porém, não atinge esse nível de hábito, ou não vai muito além do processo meramente instrumental da leitura.]

[Não esquecer também que, em um contexto de notícias onipresentes, de fácil acesso e muitas vezes gratuitas, a informação se tornou commodity. A geração de conteúdos exclusivos e de alto nível é, portanto, fundamental para as grandes empresas jornalísticas. Nesse sentido, o Jornalismo Narrativo e o Jornalismo Investigativo, por exemplo, se apresentam como alternativas de diferenciação comprovadamente sólidas.]

Mas os métodos e procedimentos do Jornalismo Narrativo exigem treinamento específico, formação que não tem sido contemplada devidamente nos cursos de graduação e nos programas de focas. Daí a necessidade, conforme a demanda da empresa ou o plano de carreira do jornalista, de se procurar uma formação adicional.

Mais história

O Jornalismo Narrativo vem de longe. Seu marco histórico inaugural mais facilmente localizável está em algum momento da segunda metade do século 19, quando a literatura de ficção (os romances e os contos) rompeu o “melodrama” do período romântico com o objetivo de produzir “uma ficção verdadeira sobre o real” (no dizer de Gustav Flaubert).

A ascensão do realismo na ficção, principalmente o de temática comportamental, fomentou a explosão de autores clássicos que lemos até hoje, como Balzac, Dostoiévski, Tolstoi, Dickens e o próprio Flaubert; Dafoe, Machado de Assis, Euclides da Cunha e tantos outros.
Num crescendo de refinamento e sofisticação, o realismo acabaria penetrando em uma camada mais política, ansioso por denunciar as mazelas geradas pelo capitalismo e pelos regimes autoritários das primeiras décadas do século 20.

Hemingway, Steinbeck, John dos Passos, Faulkner, James Agee, Graciliano Ramos e dezenas de grandes jornalistas-escritores são exemplos dessa safra conhecida como “realismo social”. De um lado, a ficção lutando para incorporar o real, o imediato, o contemporâneo, o factual, o calor dos acontecimentos recentes. De outro, o jornalismo se esmerando na cobertura de guerras, como a de Secessão, nos Estados Unidos, a dos Böers, na África do Sul, a Guerra Civil Espanhola e outras.

O “cronismo de guerra”, com grandes repercussões entre os leitores, foi a semente para uma evolução da crônica (no sentido hispânico e anglo-saxão do termo*) para a reportagem de apuração sistemática e verificação plausível, pois, numa guerra, como sabemos, a primeira vítima é a verdade. O livro A primeira vítima, de Phillip Knightley, demonstra isso.

Enquanto na literatura o realismo se encaminhava para uma temática mais social, o jornalismo de reportagens detalhadas se direcionava para métodos um pouco mais refinados de apuração e expressão; e, na década de 1950, os Beatniks sacudiriam o mundo literário com suas “ficções a quente”, em plena febre das vivências e muito próximas da oralidade. Eram ficções mal-comportadas na forma e às vezes delirantes no conteúdo, mas com um fascinante componente de transgressão.

A literatura beat não teve equivalente no Jornalismo. Nos anos 1950, principalmente nos países desenvolvidos, o Jornalismo já estava numa fase de industrialização na qual o mundo das redações parecia se dividir entre os construtores de pirâmides de ponta-cabeça e os construtores de panoramas sociais; entre os com uma visão meio científica da profissão e os que a viam como arte.

O acirramento de ânimos entre essas duas tendências gerou conflitos nas redações de jornais e revistas mundo afora. Mas também fez eclodir um momento histórico importantíssimo do jornalismo de imersão: o New Journalism (Novo Jornalismo), imantado pela capacidade de provocação dos Beatniks e pela efervescência cultural dos anos 1960, quando pessoas de todas as idades estavam nas ruas para lutar contra o Sistema. O Sistema, na época, era o capitalismo e a moral religiosa.

Gay Talese, Norman Mailer, Tom Wolfe foram os principais protagonistas norte-americanos daquele tempo de inquietude geral – na política, nas artes e, inevitavelmente, no próprio jornalismo -, cujos reflexos são sentidos até hoje. Mas o que havia de New, de Novo, naquele New Journalism? Em essência, nada. Aquilo já era feito de maneira bastante arrojada desde o século 19, como eu disse.

O que havia de novo, na verdade, era o fato de que, naquele momento, leitores do mundo inteiro passaram a consumir jornalismo não apenas porque ele era factual, mas porque ele podia ser vislumbrado como um produto de estética prazerosa. O sujeito ia à banca para comprar o texto de Fulano, tanto quanto para comprar o jornal ou a revista tal.

Se comparado aos Estados Unidos, onde o Jornalismo Narrativo está amplamente difundido e praticado sem interrupções ao longo de mais de um século, o Brasil fica bem atrás. Não significa que não tivemos bons momentos ou que hoje em dia isso não ocorra nunca. Ocorre, sim, mas principalmente em revistas, não tanto em jornais diários.

Tivemos momentos históricos importantes. Imitamos com bastante argúcia a prática norte-americana do New Journalism em revistas como O Cruzeiro (na década de 1950), Jornal da Tarde (anos 1970) e Realidade (1966-68). Mas não houve uma prática ininterrupta, não se criou uma cultura de narração de experiências nem um amplo mercado consumidor de histórias jornalísticas.

Vários fatores podem ajudar a explicar essa lacuna: 1) ao longo do século 20 nossa democracia foi frágil, levando-nos a regimes de exceção de tempos em tempos; 2) Em função dos altos e baixos de nossa convicção democrática a imprensa brasileira se acostumou a ser totalmente contra ou totalmente a favor deste ou daquele governo; 3) Déficits de formação universitária adequada à prática do jornalismo de profundidade como complemento às coberturas hard news.

Todos esses fatores, somados a vários outros, são tremendamente nocivos à prática do qualquer forma de Jornalismo, e não seria diferente com a Narrativa. A retomada do regime democrático, a partir de 1985, abriu possibilidades para todas as práticas: a narrativa, a investigativa, a noticiosa, a cidadã etc. Mas, ao contrário do que poderíamos supor, ocorreu o inverso: os jornais brasileiros se restringiram ao noticioso.

Ainda predomina no Brasil o modelo gráfico-editorial inspirado no diário americano USA Today, que se baseia em textos curtos acompanhados de muitas ilustrações, infografias, tabelas didáticas e fotos com legendas que repetem as imagens. Esse modelo parte do princípio de que as pessoas não têm tempo para ler e só lêem por obrigação ou por necessidade específica (profissional, por exemplo).

O sucesso comercial do modelo USA Today, difundido pela Escola de Navarra, da Opus Dei, que deu consultoria para a maioria dos jornais brasileiros nos últimos trinta anos, foi rapidamente assimilado em todo o país e acabou criando um “vácuo narrativo”, como se houvesse uma única maneira de praticar jornalismo: aquela do hard news, do colunismo e das dicas/serviços.

[Escrito para uma palestra aos docentes e alunos da Universidade Federal do Ceará (UFC) em abril de 2011; atualizado/revisto em 2013]

Leia também Jornalismo Narrativo (1).

PS: Sergio Vilas-Boas já conduziu cursos, palestras e treinamentos sobre Jornalismo Literário (Jornalismo Narrativo) em instituições como PUC-SP, Universidade Metodista, Uni-BH, U.F.Ceará, U.F.Santa Catarina, UEPG, Unesp, Uni-Brasil, Universidade de Londrina, SindJor-SP, ABJL, Itaú Cultural, Abraji, Flip, Sesc-PR, “Zero Hora”, “Folha de S.Paulo”, “O Estado de S.Paulo” e “Jornal da Tarde”, entre outras.

Doc multimídia sobre o trabalho de Sergio Vilas-Boas