Repórter para sempre agora

Em “Operação Massacre” (1957), impressionante narrativa sobre homens aprisionados sem provas e fuzilados sem julgamento, o argentino Rodolfo Walsh mesclou investigação, jornalismo e literatura, nos moldes de “A Sangue Frio” (1966). Mas sua aceitação não foi rápida e estrondosa coma a de Truman Capote.

Sergio Vilas-Boas
Rascunho“, janeiro/2011

Todas as formas jornalísticas são investigativas. Mas a expressão “jornalismo investigativo” se refere normalmente à vigília dos poderes públicos, principalmente a banda podre. Se nesse escopo estivessem incluídos os “poderes privados”, o próprio Quarto Poder teria de ser vigiado com procedimentos mais amplos que os de um ombudsman e menos ideológicos que os das organizações de media watch. Mas não é bem assim.

Já o bom Jornalismo Literário, embora construído com pesquisa e conversação intensivas, não costuma ser comparado ou confundido com o investigativo. Uma resposta possível para essa diferenciação seria a que o JL possui uma característica intrínseca extra: a linguagem artística. O literário e o investigativo, porém, coexistem há séculos e, a priori, nada impede um repórter de fundir os dois conceitos numa mesma reportagem.

“Operação Massacre”, do argentino Rodolfo Walsh, 23º título publicado na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras, é uma clássica mescla de investigação de atos do Poder Público com o uso deliberado, calculado, da expressão literária. Quase dez anos separam esta obra do icônico “A Sangue Frio” (1966), de Truman Capote. Mas “Operação Massacre”, embora publicado antes (1957) daquele, é bem menos conhecido no mundo.

Ao contrário de Capote, Walsh escreveu o seu relato-denúncia durante um regime de exceção, quando as liberdades democráticas na Argentina estavam suspensas. Enquanto “A Sangue Frio” contou com um plano de marketing arrojado e uma revista de grande circulação (“The New Yorker”) antecipando os capítulos, as reportagens e posteriormente o livro de Walsh foram sistematicamente rejeitados devido ao seu explosivo conteúdo político.

“Operação” reconstitui as horas que antecedem a prisão (antes da meia-noite do dia 9 de junho de 1956, fato importantíssimo) de pelo menos doze homens, seus fuzilamentos e o processo judicial movido por um dos sobreviventes. Como a imprensa tradicional ignorava o caso, Walsh acabou conseguindo publicar sua série no periódico “Mayoría”, de pequena circulação, entre maio e junho de 1957.

Para absorver plenamente a narrativa é preciso conhecer o contexto histórico que a gerou. Em junho de 1956, o peronismo, deposto nove meses antes, fez sua primeira tentativa séria de retomar o poder mediante uma revolta de base militar com algum apoio ativo de civis. Uma proclamação assinada pelos generais Juan José Valle e Raul Tanco fundamentava a rebelião com uma descrição bastante exata do estado de coisas na Argentina da época.

O país, proclamavam, vivia uma tirania impiedosa e cruel. Perseguia-se, prendia-se, confinava-se. “Excluía-se da vida cívica a força majoritária.” Havia ainda o totalitário decreto 4161 (que proibia a simples menção do nome de Perón). Queriam ainda suprimir o artigo 40 da Constituição a fim de impedir “a entrega dos serviços públicos e das riquezas naturais ao capitalismo internacional” e evitar que o país “regredisse à condição abjeta de feitoria colonial”.

A proclamação do general Juan José Valle, embora destituída de hipocrisia, era inconsistente. Sacrificava o conteúdo ideológico em favor do impacto emocional. Propunha em suma um retorno crítico ao peronismo e a Perón através de meios transparentes: eleições em até 180 dias com a participação de todos os partidos. No plano econômico, o programa declarado se contradizia ao assegurar “plenas garantias aos capitais estrangeiros investidos ou por investir”.

“Valle agiu e, como era de se esperar, pagou com a vida, o que é muito mais do que qualquer palavra”, escreve Walsh. A história da rebelião, porém, é curta. Entre o início das operações e a redução do último foco revolucionário passam-se menos de doze horas. Às 21h30 do dia 9 de junho de 1956, no Campo de Mayo, sem a participação popular, um grupo de oficiais e suboficiais comandados pelos coronéis Cortínez e Ibazeta dá início aos ataques.

Naquele momento, a Rádio Estado, porta-voz oficial do governo, transmitia composições de Haydn. Até quase à meia-noite, calcula Walsh, noventa e nove de cada cem habitantes do país ignoravam o que estava se passando no Campo de Mayo, em Avellaneda, em Lanús e em La Plata. Às 23h56, a Rádio Estado parou de reproduzir Stravinsky e pôs no ar a marcha que habitualmente encerrava as transmissões. Essas e outras rotinas constavam do livro de locutores, como era praxe, “à página 51, rubricada pelo radialista Gutenberg Pérez” (outra prova valiosa levantada por Walsh).

Ou seja, a Rádio não pronunciou uma só palavra sobre os acontecimentos subversivos; não se fez a mais remota alusão à lei marcial (segundo a qual revolucionários comprovados poderiam ser executados sem julgamento). Mas, como toda lei, aquela também deveria ter sido promulgada e anunciada publicamente antes de entrar em vigor. Às 24 horas do dia 9 de junho, portanto, a lei marcial ainda não vigorava em nenhum ponto do território argentino.

Mas, no calor dos combates, a tal lei já estava sendo aplicada. Antes da meia-noite alguns líderes rebeldes em ação já haviam sido presos e fuzilados sumariamente. O pior foi que pessoas desarmadas (capturadas sem provas concretas de participação no levante) também foram assassinadas. É o caso de oito homens presos numa casa de Florida, bairro do município de Vicente Lopez, a meia hora de Buenos Aires.

Os oito sujeitos ouviam pelo rádio a luta pelo título sul-americano de boxe entre o campeão Lausse e o chileno Loayza. A casa, na qual entraram primeiramente os personagens Carranza e Garibotti, era na verdade composta por duas. Uma na frente e outra nos fundos. A dos fundos era alugada para um sujeito que seria decisivo na investigação jornalística do repórter. E a da frente pertencia a Horacio di Chiano (leia trecho do livro).

Walsh penou para provar que, quando a luta de boxe se iniciou, estavam na casa Carranza, Garibotti, Díaz, Lizaso, Gavino, Torres, Brión, Rodríguez e Livraga. Por volta das 22h45 aparecem dois desconhecidos. Torres achou que eram amigos de Gavino; Gavino, que eram amigos de Torres. Só mais tarde compreenderam que eram espiões. Estavam ali para sondar se havia armas e verificar se a entrada estava desimpedida.

Minutos depois a polícia invade o local com violência. “Onde está o Tanco?”, “Onde está Tanco?”, repetiam os guardas enquanto davam buscas e espancavam. Entre os ouvintes da luta de boxe havia sim alguns simpatizantes do peronismo, mas nenhum revolucionário. Pior: não escondiam ali general nenhum. Depois de horas apertados numa cela todos são levados a um campo escuro distante do município. É quando pressentem que serão “massacrados”

Mas a incompetência dos policiais em executá-los só é comparável à maneira esdrúxula com que foi conduzido o processo movido por Juan Carlos Livraga, um dos sete sobreviventes. Com identidade falsa (adotou durante a investigação o nome de Francisco Freyre), Walsh acompanhou passo a passo as tramas judiciais para acobertar mandantes e executores.

Durante o julgamento, alegou-se que não existiram fuzilados, e Walsh, sobre este ponto, preenche o absurdo com seu próprio espanto: “Gostaria de pedir ao leitor que não creia naquilo que relatei, que desconfie do som das palavras, dos possíveis truques verbais a que todo jornalista recorre quando quer provar algo, e acredite somente naquilo que afirmou Fernández Suárez [chefe de polícia responsável pelas prisões e fuzilamentos], concordando comigo”.

Isto porque o próprio chefe de polícia, num deslize, declara perante a Junta Consultiva, em 18 de dezembro de 1956, que “com respeito ao sr. Livraga, quero deixar registrado que na noite de 9 de junho de 1956 recebi a ordem de dar busca pessoalmente numa casa… Nessa propriedade encontrei várias pessoas… Entre elas, estava esse senhor”. Em seguida tentam argumentar que as cicatrizes dos ferimentos a bala (na boca, na bochecha e na perna) de Livraga não eram prova de que ele era um “fuzilado”, mas sim um “revolucionário”.

“Houve outras argúcias, desmentidos, comunicados. Desmenti-os, um por um, durante a campanha jornalística. Sua análise já não é necessária. A prova reunida em vários meses de investigação permitiu que eu acusasse Fernández Suárez de assassinato, coisa que fiz incansavelmente, sem que ele se dignasse a querelar contra mim.” Walsh confronta duas investigações sobre o caso Livraga: a sua própria e a do juiz Belisario Hueyo em La Plata.

“Elas praticamente se superpõem e se completam. Em alguns aspectos, a minha era mais detalhada: incluía declarações dos sobreviventes Troxler, Benavídez e Gavino, que estavam exilados na Bolívia e não puderam prestar depoimento ao doutor Hueyo; entrevistas com Horacio di Chiano, Torres, Marcelo e dezenas de testemunhas menores que não passaram pelo gabinete do juiz; e uma cópia fotostática do livro de locutores da Rádio Estado, estabelecendo a hora em foi promulgada a lei marcial.”

A tal lei foi promulgada e comunicada à nação pela Rádio Estado às 0h32 do dia 10 de junho de 1956. Portanto, Livraga foi preso quando vigoraram as leis comuns, e, ao prendê-lo, os policiais não o acusaram formalmente de nada. Quem o deteve foi um funcionário civil, Fernández Suárez, o chefe de polícia da província. “Enquanto está preso, Livraga naturalmente não comete crime nenhum. Esse dia acaba – como todos – à meia-noite.”

O argumento central de Walsh é o de que Livraga, preso no dia anterior (antes da meia-noite), não podia ser julgado nem punido senão em conformidade com o Código Penal vigente no momento de sua prisão, que previa garantias, defesa, um juiz natural, um processo. Mas o parecer do procurador e a sentença da Corte resultaram numa sinistra corrupção das normas jurídicas, ocorrência terrivelmente comum em países afundados em violência política.

Esta narrativa incrível nos remete a absurdos kafkianos, com a diferença de que se trata do real. Um real tão insano que não podia ser descrito como ficção. Embora narre fatos que aconteceram de verdade, o relato é eminentemente político e não tem nem mesmo como se misturar com o “realismo”. “O realismo precisa de visão”, afirma com precisão a pesquisadora Natalia Brizuela no posfácio. “‘Operação Massacre’ e outros textos posteriores de Walsh se constituem a partir do que não se vê, do que não se sabe, do impossível, dos mortos que vivem.”

Questão central da obra é a ausência de sentido, o nonsense. Em lugar do detetive Daniel de seus romances policiais (Walsh antes publicara alguns), o investigador aqui é o próprio autor, talvez o primeiro detetive literário da Argentina moderna. (Talento para tal não lhe faltava. Mestre da criptografia, Walsh decifrou um telegrama norte-americano que pretendia ser comercial mas que na verdade continha detalhes sobre a invasão de Cuba pela Baía dos Porcos, em abril de 1961. Graças a esse trabalho, a invasão não tomou Cuba de surpresa e fracassou.)

Nesta obra jornalística magnífica o mítico Walsh trabalhou com afinco e afeto as memórias fotográficas de Livraga e os sentimentos de viúvas, órfãos, conspiradores, asilados, fugitivos, delatores presumidos, heróis anônimos e outros sobreviventes que adotaram identidade falsa ou se exilaram na Bolívia. A apuração é tão minuciosa quanto impressionante.

Com mais de quarenta edições na Argentina, o livro figura hoje entre as obras mais importantes da literatura histórica latino-americana e inspirou autores importantes como Ricardo Piglia. Walsh estremeceu a divisão ortodoxa que separava a literatura e o jornalismo em seu país. Por outro lado, a experiência afastou-o para sempre da ficção e o vinculou à política. Foi dado como desaparecido desde 1977, quando escreveu uma carta de repúdio à Junta Militar golpista encabeçada por Jorge Rafael Videla. (Publicado no jornal “Rascunho”, de literatura, edição de fevereiro/2011.)

TRECHO

Por fim, silêncio. Depois, o ronco de um motor. A caminhonete põe-se em movimento. Para. Um tiro. Silêncio outra vez. O motor torna a zumbir, num minucioso pesadelo de marchas e contramarchas. Num lampejo de lucidez, don Horacio compreende. O tiro de misericórdia. Estão revistando um a um os corpos e executando os que dão sinal de vida. E agora…

Sim, agora chegou a sua vez. A caminhonete se aproxima. O chão, sob os óculos de don Horacio, desaparece em incandescências de giz. Estão a iluminá-lo, estão apontando para ele. Não os vê, mas sabe que apontam para sua nuca.

Esperam um movimento. Nem isso, talvez. Talvez atirem do mesmo jeito. Talvez estranhem justamente que ele não se mexa. Talvez descubram aquilo que é evidente, que ele não está ferido, que não sangra em parte nenhum do seu corpo. Uma náusea espantosa revira-lhe o estômago. Consegue sufocá-la nos lábios. Quisera gritar. Uma parte de seu corpo – os pulsos apoiados no chão como alavancas, os joelhos, as pontas dos pés – quisera escapar enlouquecida. Outra – a cabeça, a nuca – repete: não se mexa, não respire.

Como consegue ficar imóvel, conter a respiração, não tossir, não uivar de medo? No entanto, não se move. As lanternas tampouco. Espreitam-no, vigiam-no, com num jogo de paciência. Ninguém fala, no semicírculo de fuzis que o rodeia. Mas, ninguém atira. E assim se passaram segundos, minutos, anos… E o tiro não vem.

Quando torna a ouvir o motor, quando a luz some, quando sabe que estão se afastando, don Horacio começar a respirar lentamente, muito lentamente, como se aprendesse a fazê-lo pela primeira vez.

Adivinhe o que aconteceu conosco

Antes de “fugir”, Diogo precisava de alguém para tomar conta dos seus gatos.

Sergio Vilas-Boas
Rascunho”, janeiro/2011

1. partidas

Sei que liam trechos de livros em voz alta um para o outro e discutiam com entusiasmo os filmes; sei que desligavam os celulares e evitavam almejar qualquer coisa que o nosso próprio bairro não propiciasse. Naqueles finais de semana o contato deles com o resto do mundo se restringia ao download de músicas e seriados dos anos oitenta. Mas havia também “luxúrias imperiais”, como dizia Diogo: “Uma comunhão de ascendência universal cujas essências remontavam às cavernas”.

Nascido o sol, Diogo girava o corpo nu noventa graus para laçar a nudez de Emília; atravessava a coxa sobre as coxas dela; apoiava a cabeça no ombro dela sentindo o frescor de sua “pele aveludada (ah, aqueles hidratantes e xampus frutados da Victoria’s Secret)”; e envolvia o seio direito dela na palma de sua mão esquerda; “sussurrava ‘me ama?’ no ouvido dela quantas vezes fossem necessárias até aflorar aquele ‘sim’ impreciso.”

Numa manhã, porém, o script mudou. O corpo dele se chocou contra a desocupação. Restaram farelos de pão, dezenas de pratos e copos sujos na pia, garrafas de vinho vazias, objetos deslocados por zonas improváveis, bolas de papel higiênico ressecadas, uma televisão fora do ar, um laptop escuro e os dois gatos de Diogo – Cid e Cléo – dormindo ao pé da cama.

Agora o meu amigo tem o mesmo sonho toda noite: vê Emília se erguendo da cama dele, tomando um banho, aplicando um perfume caro, vestindo (talvez) a mesma roupa que usara naquela última noite e saindo sem cerimônias. Mas pelo menos nesse tal sonho-pesadelo ela se lembra de escrever um email ao Diogo no qual expõe seus motivos e ainda fornece um endereço. “Mesmo assim, tudo termina de modo incompreensível, Isis”, ele me disse.

“A ‘mocinha’ não deixou pistas, é? Esperava o quê?”, o pai dele perguntou ironicamente. Ah, a família do meu amigo: “Vinte e dois confrades ao todo, de classe super-hiper-média, que atraem, absorvem e reciclam a mediocridade”. Fingem se importar com o futuro do planeta, mas são uns consumistas predatórios. Sanguíneos, vivem em função uns dos outros. Vedados, não cultivam amizades. “Bastam-se pelos quatro cantos com suas comidas típicas e suas preocupações com a vida dos outros.”

Diogo faz aniversário na véspera do Natal. As festas dele (quando há) se confundem com as de um sujeito falecido há dois mil anos. “Ó, não, desta vez os líderes do clã vão transformar meu aniversário de trinta anos numa deprimente terapia de grupo.” O case a ser discutido pelos gurus é o de um cara que abandonou a carreira de médico pelo meio, que perdeu o emprego de redator num portal de fofocas sobre famosos, que foi abandonado pela namorada.

Se “comunicação de dispensa sem consideração” (o portal de fofocas o demitiu por email, em duas linhas) é desconcertante, imaginem uma “dispensa sem comunicação”, como fez Emília. Descobri o essencial: ela já tinha uma passagem internacional marcada; e as pessoas do círculo íntimo dela, às quais Diogo não havia sido apresentado (isso era parte do pacto de clandestinidade do relacionamento), conheciam os planos.

Um Aniversário-Natal em família naquele momento de abandono seria uma péssima ideia, não? Sr. Jonas, o “pai fascista”, repetiria pela enésima vez por que prefere um caucasiano comprovadamente corrupto a votar em uma mulher negra com um projeto reformista. “Não voto a favor de pessoas, nem de projetos, nem de ideias. Meu voto é sempre contra alguém ou alguma coisa.” A mãe apostólica continuaria esperando um milagre que revertesse sua realidade adiposa; e a irmã, ao contrário, insistiria em imitar a magreza pálida das tops. Sério? Sério.

Diogo por fim reconheceu que, além da fase difícil e dos constrangimentos que a família lhe impunha, havia duas fortes razões para ir ao encontro “do novo e do verdadeiro”: 1) Tinha uma ideia racional de onde Emília estava; 2) Sua desmemoriada mãe esquecera o cartão de banco em cima do aparador, juntamente com as novas senhas anotadas num papel à parte.

Na volta do banco (havia sacado uma boa grana, “que minha mãe nem vai dar falta”), ele passou no meu prédio. Queria conversar. Mencionou uma dezena de coisas que poderia dizer a Emília se a encontrasse mesmo em Londres. Por fim, faltavam os gatos. Cléo estava obesa. Só podia comer ração light. Cid, por sua vez, recuperava-se de uma anemia. A veterinária havia sido categórica: Cid não pode comer daquela ração especial light de jeito nenhum!

Alguém teria de ir ao ap do Diogo duas vezes por dia, de manhã e à noite, para reabastecer as tigelas e observar os bichanos comerem. Gatos, eles são adoráveis, mas estão se lixando para ideias humanas. Quem faria isso? “Isis, a essa altura do campeonato você é a única pessoa que admiro sem ressalvas”. Fiquei lisonjeada, claro, apesar do pessimismo de fundo. Dei-lhe um abraço com aquele meu afeto exagerado e desejei-lhe sorte nos mistérios da aventura.

2. chegadas

Isis e sua irmã, Alma, moram em cidades diferentes. Falam-se pelo Skype (com câmera) frequentemente. Sr. Abel, o pai delas, apareceu na casa de Alma com uma falta de ar implacável. “Desta vez não é chantagem”, disse Alma. Apesar do rush de dezembro, Alma conseguiu uma passagem promocional para as seis da manhã. Preparou a mala como se estivesse indo para longe.

Na cama, tarde da noite, recebeu a visita de antigos fantasmas: a “meia-idade”, os frágeis relacionamentos com homens comprometidos, as carências e angústias da irmã, a situação agora crônica do pai, os embates estressantes entre a associação do bairro (que ela presidia) e os donos daqueles malditos e barulhentos bares, o medo que sentia de sentir culpa por culpar-se tanto.

Na véspera da minha viagem para Londres, Isis me contou que meses antes ela havia ido à fazenda de recuperação de dependentes onde o pai dela estava internado. A fazenda, filantrópica, era bem distante. “Ele se aproximou calmamente. Estava barbeado e magro. A gente se abraçou meio que fora de prumo. A tosse seca e constante dele me afligiu, e a primeira coisa que fez foi implorar que eu o levasse pra casa. Não, pai, não. Mas vou te levar num posto de saúde, então, ok? Ok.”

Pegaram uma estrada horrível, meia hora de muita poeira e calor, até um distrito próximo, onde turistas aproveitavam o feriado prolongado nas montanhas. A médica estagiária tinha ido almoçar. Isis se irritou, deu um jeito de localizar a moça e intimidou-a. A estagiária teve de sair de onde estava para ir auscultar o sr. Abel, medir sua pressão arterial, examinar suas amídalas.

“Bronquite tabágica”, cravou. “Nada de mais.”
“É o caso de pedir uma radiografia pelo menos, não, doutora?”

Indignada com a ironia de Isis, a moça abriu um riso cínico. Radiografia nesta cidadezinha fantasma e ainda por cima no meio de um feriadão… Vai sonhando, ela pensou. Mas a estagiária preferiu não revidar: “Ah, não precisa. Não mesmo”.

Voltaram para a Fazenda Futura. Minha amiga estava tensa e dividida. Precisava tirar o pai dali, mas não devia (o índice de credibilidade dele no quesito disciplina era zero). Tinha então de mantê-lo ali, mas não devia, por causa do estado de saúde dele. O nó da situação: como levá-lo e ao mesmo tempo mantê-lo ali? Ele não podia escapar do tratamento outra vez, não podia voltar a beber outra vez, não, porque ninguém agüentava mais!

Sr. Abel se encaminhou cabisbaixo na direção do portal de entrada, que ficava a uns quinhentos passos da sede da fazenda comunitária. Apenas funcionários e internos podiam atravessar o portal. Em seguida, parou. Virou-se para a filha rapidamente, como se houvesse recordado algo inadiável. “Isis, tá vendo aquele roseiral ali?” Sim. “Fui eu que plantei.” Legal. “Fiz tudo sozinho.” Que bom. “As freiras adoraram.” Isis travou.

Sr. Abel tinha mãos mágicas para plantas, mas era um homem difícil e desacreditado. Arrancar-lhe aceitações era tão complexo quanto sacar-lhe frases. Ele nem aprofundava nem abandonava as discussões. Alma tentava cercá-lo pelos flancos. Em vão. Isis, ao contrário, ignorou-o o quanto pôde. Até que não pôde mais.

Num domingo chuvoso sr. Abel escapou da Futura e foi ao encontro da filha geograficamente mais próxima. Alma levou um choque ao ver o pai fatigado, asfixiado, mais diminuído que o habitual, mal conseguindo manter-se de pé. Acolheu-o. Como não?

Alma e Isis cultivavam uma amizade terna e respeitosa, embora construída sem estímulos paternos, pois o pai era desse jeito e a mãe, embora socialmente maravilhosa e esplêndida à maneira dela, atrapalhava-se toda quando o assunto era “família”. Não desenvolveu seu talento potencial para o matrimônio e era definitivamente deficitária em maternidade.

No avião, Isis não conseguia definir para si mesma o que a atormentava de fato. Havia um emaranhado de sentimentos difíceis de nomear. Estava envolvida com um problema que nem fazia ideia de como enfrentar. Tentava invocar toda a sua coragem, mas acabou se culpando: “Deixar o pai à própria sorte, sem diagnóstico, naquela cidadezinha fantasma. Francamente, Isis”.

Enquanto isso, Alma ouvia a interpretação da bateria de exames: metade de um pulmão de sr. Abel estava debilitada e o outro pulmão, tomada pela coisa, parara de funcionar para sempre. Impossível saber ao certo desde quando. Imediatamente, baixaram sr. Abel em cima de um fraldão aberto sobre a maca e puseram nele uma veste de duas bandas amarrada lateralmente. O secreto par de dentaduras virou coisa pública; as solas cascudas de seus pés e os enormes joanetes se expuseram a zombarias. Meteram-lhe um tubo garganta adentro.

Os procedimentos para drenar os derrames infecciosos nos pulmões começaram mais ou menos pela hora em que Isis tomou o táxi em frente ao saguão de desembarque. Nessa emergência perturbadora residiam fatos inapreensíveis: tudo, absolutamente tudo, se desenrolara antes da chegada de Isis – da internação ao último ranger da porta da UTI –, tudo muito, muito rápido; e o sr. Abel entrou em coma induzido sem o conhecimento do principal.

Agora, querida Isis, resta aceitar que a única pessoa com quem você não se reconciliou na vida estará ainda mais longe no momento em que você se identificar na portaria; aceitar que a única pessoa que podia te ajudar a perdoar-se não estará disponível quando a voz do elevador do hospital disser… “Sétimo!”

Aos prantos, minha amiga imobilizou Alma num abraço que bem podia ter durado para sempre; e um conjunto de sentimentos difusos varreu completamente de sua memória – como que por uma rajada de vento –, o compromisso assumido de cuidar de meus gatos enquanto eu estivesse em Londres. (2010)