Os foguetes

“Esses dois aqui é os homi da luz”, cada um diz ao apresentar Rubens e eu aos nativos. “A luz que eu, eu mandei trazê procês.”

Sergio Vilas-Boas

1984. O projeto de eletrificação do distrito de Curimataí, Norte de Minas, fora pedido para ontem. Os coronéis da região estavam pressionando. “Esses dois aqui é os homi da luz”, cada um diz ao apresentar Rubens e eu aos nativos. “A luz que eu, eu mandei trazê procês.”

Os carrapatos sugavam nós dois, os dois branquelos. Por fim tivemos a brilhante ideia de aplicar da cintura para baixo um composto de substâncias sintéticas cloradas e fosforadas de alta toxicidade. O produto é um pó branco de cheiro asfixiante. Mas não havia alternativa. Eu estava com os pés cheios de bolhas e os testículos inchados. Passei a noite procurando os malditos pelo corpo. Os piores são os pequeninos, que se confundiam com minhas sardas.

“Maldição!”, grita Rubens retirando os óculos de lentes verdes grossas bifocais que lhe dão um aspecto sinistro de policial do DOPS. Rubens coçou a sua paradoxal barba de Che Guevara e por acaso encontrou um carrapato imenso nela. “Assim a gente não vai agüentar.”

“Vamos dar o fora, Rubens”, eu disse. “Esse lugar é um inferno.”

Os peões não reclamavam. “Tamo com a pele curtida já”, diziam. Continuavam batendo a foice com precisão e sonhando com os trocados que iam receber. Morriam de rir quando eu usava a foice. Eu não passava de um garoto de dezoito anos recém-habilitado a motorista na capital, e que despendia uma energia imensurável dando dezenas de pancadas inúteis com a lâmina da foice nos cipós entrelaçados aos galhos baixos das árvores.

E os peões eram capazes de abrir rapidamente uma clareira de três metros na mata. Mas é claro: o Rubens e eu parávamos toda hora para coçar o saco, literalmente, e ajustar as perneiras às botas, que estavam dificultando ainda mais os movimentos e a circulação do sangue. Mosquitos sobrevoavam a equipe de topografia como helicópteros de guerra. Os raios de sol filtrados pela mata não queimavam, mas o abafamento era cruel. Rubens estava empapado e eu, inconformado.

“Vamos embora, Rubens. Não dá”, insisti achando que era melhor “perder o emprego do que estar aqui”.

“Calma. Cê tá em ‘estágio probatório’, lembra?”, Rubens alfinetou, mantendo a sua posição de veterano sarcástico a aplicar trote no calouro besta. “Período de experiência é assim mesmo. Agüenta firme.”

Calei-me. Topetudos sabem onde pisam. Minha dificuldade de enfrentar autoridades estava no auge. E naquele momento o Rubens era uma autoridade. Sem um relatório favorável dele eu podia não ser contratado pela empreiteira da Companhia Energética; e, não sendo contratado, eu não teria o relatório de estágio assinado e avalizado; e sem o relatório de estágio assinado e avalizado eu não podia obter o diploma de eletrotécnico pelo CEFET-MG.

“Nóis já cegamo os pau tudo, moço. Nada de vista. Tamo no rumo certo?”, pergunta um dos peões, o mais atarracado, com cara de índio.

“Cé tá é duvidano do meu teodolito, moço”, Rubens rebateu imitando o modo de falar dos matutos, mas indiferente ao fato de que o tal peão jamais ouviu na vida a palavra topografia e muito menos teodolito [por favor, recorram à Wikipedia]. Rubens parou um instante. Ficou pensativo. Olhou para mim: “Ele deve ter razão. Pode ser que a gente esteja abrindo a picada na direção errada sim, porque, pelas minhas contas, já era pra gente ter avistado a torre da igrejinha de Curimataí”.

“Não brinca”, lamentei, esfregando desesperadamente o rosto. “Tudo o que fizemos ontem e hoje tá perdido? É isso?”

Que fique claro que, por preconceito, o líder Rubens considerava o auxiliar aqui “um menino tecnicamente despreparado e psicologicamente covarde”. Mas dirigiu-se pacientemente ao segundo peão, o mais magro, que tinha rugas tão precoces que a sua verdadeira idade poderia ser à primeira vista duplicada.

“Seu Nô, a quantos quilômetros o senhor acha que estamos de Curimataí?”, Rubens perguntou.

“Olha, moço, em quilontro, sei não. Mas nóis deve tá a uma légua da rua, maomeno.”

“Como é que o senhor sabe?”

“Sabeno, uai.”

“O senhor consegue chegar lá passando aqui por dentro?”, Rubens perguntou, maquinando algo.

“Sei. Ô, se sei”, respondeu o Seu Nô.

Rubens teve um estalo. “Vamos fazer assim…” Eu e os peões paramos de coçar e de estapear nossos próprios rostos agora virados para Rubens. “Eu procuro um ponto de vista alto por aqui pra instalar o teodolito”, prossegue resoluto. “E você”, ele se referia a mim, “você volta por onde viemos, pega o carro na estrada, dirige até Curimataí e, de lá, você solta vários foguetes. Tem foguetes no porta-malas do fusca. Entendeu?”

O autoritarismo do projetista-chefe não me incomodava nem um pouco àquela altura. Eu estava pensando apenas nos minutos, talvez horas, em que ficaria longe daquele lugar medonho, onde, além de tudo, eu era obrigado a usar mangas compridas e lenços enrolados no pescoço e na cabeça, como aqueles cortadores de cana do interior paulista. Valia tudo para tentar aplacar a voracidade dos insetos.

Soltei a foice no chão e parti imediatamente de volta pelo longo (e perdido) caminho que os peões abriram a facão e foice nos últimos dias. Desapareci na mata em segundos, com a cabeça cheia de maus pensamentos, arquitetando um plano para me safar daquela roubada e poder me tornar, quem sabe, um projetista de gabinete, com roupas limpas, ar-condicionado e cafezinho a qualquer hora. Afinal: “Que garota bonita vai dar bola pra trabalhador técnico braçal?”.

Do sol chovia fogo. O vento estava de férias. As árvores faziam a sesta ao meio-dia. A estrada de terra era estreita. A secura transformara a terra macerada em um talco de textura finíssima com mais ou menos um palmo de profundidade. Minhas botas eram engolidas por aquele pântano de pó. Estaciono o fusca em um ponto alto próximo ao povoado de Curimataí. Da beira do barranco avisto um campo de futebol uns dez metros abaixo de mim.

Apanho foguetes e fósforos no porta-malas. Caminho uns vinte metros de costas para o fusca. Desajeitado, tento acender o primeiro foguete. A ideia é que o Rubens se localize pelo ruído ou pela fumaça do foguete e assim possa direcionar o teodolito corretamente na direção de Curimataí, direcionando a possível posição dos postes que sustentarão os cabos de energia elétrica. A continuidade do projeto de eletrificação naquela área agora depende da minha atitude, portanto minha função é decisiva, e estou a fim de acabar logo com esse meu batismo de fogo.

Mas…

De repente olho para o meu lado direito e vejo o fusca branco da empresa descendo sozinho de ré à beira do barranco alto, estrada abaixo, como se tivesse sido empurrado por uma força sobrenatural. Deixo cair tudo que está em minhas mãos e desato uma corrida louca pela estrada em direção ao fusca, levantando uma densa nuvem de poeira atrás de mim. Abro a porta do fusca em movimento, entro dentro dele, sendo ao mesmo tempo arrastado por ele, e puxo o freio de mão no exato momento em que sinto o chassis sofrer um tremor agourento, seguido de um ruído abafado.

Ofegante, empapado de suor e com poeira até nas artérias, uma descarga de adrenalina percorre a minha espinha de ponta a ponta. Ufa. Acabo de salvar o fusca de um desastre sem precedentes. O destino do carro, e talvez o meu, era desabar de uma altura de cinco metros e despedaçar-se no campo de futebol, lá embaixo. Mal pude acreditar que consegui evitar essa tragédia. Os pássaros do cerrado piavam indiferentes ao que havia acontecido. Restabeleceu-se ao meu redor o mesmo silêncio de milênios atrás.

Safei-me, mas não totalmente. O fusca estava com as duas rodas do lado direito no ar e as do lado esquerdo não aderiam à estrada coberta de algo-como-talco-para-bumbum-de-nenê porque o chão do carro estava em contato com a estrada. Ou seja: eu não podia mover o carro; e eu estava a sete quilômetros de Curimataí; e nos cerca de vinte quilômetros que percorri para chegar até ali nenhuma viva alma havia cruzado comigo; e o fusca estava amassado na lateral; e o Rubens estava me esperando; e aquele era o meu primeiro emprego como eletrotécnico; e eu estava contando com a assinatura da empresa no relatório de estágio para eu obter o diploma do CEFET.

Apesar da sorte, eu estava fodido, enfim. E aos dezoito anos, quando fodidos, os jovens tendem a pensar em cortar os pulsos, pois nessa faixa etária o suicídio ainda pode levar a certa imortalidade; ou, quem sabe, gritar “socorro!” e desobstruir as carótidas; ou chamar pela mããããããe depois de chorar como um cuzão; ou sair correndo sem rumo e sem parada pelo mundo como o Forest Gump; ou simplesmente desmaiar sobre o pó e jogar a culpa toda em cima de um colapso sem explicações.

Mas meus pais, subliminarmente, me haviam ensinado que as opções para gente de classe média baixa são, na verdade, duas: sobreviver ou sobreviver. Meu sangue agitado estava tentando me comunicar isto. Como? Ativando sinapses que desligam as lamentações e acendem o desejo de tomar providências concretas. Mudar o cenário ou eu próprio. As primeiras ideias de reação nascem mesmo um pouco estúpidas, sempre, mas são imprescindíveis.

Tentar levantar sozinho o fusca usando as mãos foi uma delas. Outra foi arrancar a trave superior do gol do campo de futebol para tentar enfiá-la debaixo do fusca e arrastá-lo de volta à terra firme, mas com o custo extra de amassar os para-choques, estribos e cano de descarga. Além das mãos e dos ombros feridos, aquele esforço todo me exauriu. Deixei-me afundar de costas no talco da estrada, de barriga para cima. Vi um bando de coleirinhas e tico-ticos farristas fazer piscar, como um diafragma, o sol debilitante que me atingia em cheio os olhos.

Levantei-me, caminhei até o ponto onde eu devia ter soltado os foguetes. Apanhei-os. Estourei uns dez foguetes, que, para minha sorte, além de uma reverberação incrível, geraram uma fumaça certamente visível para o Rubens, que estava lá no meio da mata. Assim eu o manteria ocupado, juntamente com os peões, e todos nós ganharíamos tempo. Daí, andei durante duas horas à procura de ajuda. O sol me cozinhou. Meu coração disparara uma descarga elétrica tão grande que nem senti os carrapatos me devorando. Em Curimataí, um lugar desgraçado, convenci uns sujeitos malencarados a emprestar homens e cavalos para o resgate do fusca.

Começava a escurecer quando recolocamos o fusca na estrada. De volta ao povoado, os peões já montados em seus cavalos, mandei fazer sanduíches de pão com salame [em São Paulo se diz “mortadela”] e abrir cervejas geladas para todos. Lembro que um dos caras me falou assim: “O dia que o seu carro andá sozin de novo pode vim cá e chamá nóis que nóis te ajuda a levantá ele”. Agradeci o cara, seriamente. Depois disparei uma gargalhada longa e potente. E todos riram também de um modo estúpido, sem um porquê.

Duas décadas depois, meu amigo Eduardo Geraque iria à noite de autógrafos de “A Arte de Tecer o Presente”, de Cremilda Medina, que havia sido nossa professora na pós-graduação da ECA/USP. Edu me trouxe um exemplar do livro com uma dedicatória da Cremilda para mim. Assim: “Com mão firme e inteligência rigorosa você conduz a narrativa do presente para o futuro”. Memorável. Mas, na verdade, o que fiz aqui, neste texto, não foi exatamente movê-la para o passado? Eu e minhas centelhas inúteis.

Humanismo & celebridades

A resposta à pergunta “o que é humanismo?” dependerá de qual tipo de humanismo estivermos falando.

Sergio Vilas-Boas

Antonio Candido escreveu em seu primeiro artigo (7/1/1943) como crítico da “Folha da Manhã”: “(…) não disponho de nenhuma faculdade extraordinária como levantar as tampas dos crânios ou farejar o princípio dos princípios. (…) Se nem sempre é possível dizer tudo aquilo que se pensa, é sempre possível dizer apenas aquilo que se pensa”. Resolvi então dizer apenas aquilo que me ocorre (agora) sobre a palavra humanismo. O que significa, na verdade? A palavra humanismo se confunde com a filosofia sobre a natureza do ser humano – sua essência, sua índole, sua condição.

O tipo de resposta que obteremos sobre “o que é humanismo” dependerá de qual tipo de humanismo estivermos falando. A palavra humanismo tem vários significados. Autores e palestrantes normalmente não esclarecem qual ou quais deles pretendem abordar, causando confusões e generalizações. Os vários humanismos podem ser facilmente separados e definidos por adjetivos apropriados: humanismo renascentista, humanismo literário, humanismo cristão, humanismo moderno, humanismo existencialista e outros.

A maneira como nos vemos e somos vistos é a base dos estudos sobre esse tema. Aristóteles (384-322 a.C.) foi um dos primeiros a dar extraordinária contribuição à compreensão do ser humano ao afirmar a indissolúvel união entre espírito e matéria, alma e corpo. Alma e corpo estão unidos entre si de forma natural. A alma representa algo de divino em nossa existência. Já Santo Agostinho (354-430) e Santo Tomás de Aquino (1225-1274), pensadores do humanismo cristão, reforçaram que o humano é um ser paradoxal, síntese natural de princípios contrários e exigências opostas. Agostinho e Aquino tomaram como pressupostos a inteligência (que nos diferencia dos animais), a possibilidade de amar e a solidariedade.

O humano possui ainda o diferencial de poder reviver o passado mentalmente, e de dar-lhe significados distintos conforme o estado mental. Todas as pessoas vivas, e não apenas as famosas, compõem a memória social e coletiva. Ecléa Bosi nos dá exemplos a partir da matéria descartada pelo jornalismo frugal: “…é do cotidiano que brota a magia”, escreve ela, “a brincadeira que vai transformando uma coisa em outra. (…) o tecido das vidas mais comuns é atravessado por um fio dourado: esse fio é a história”. Implícita está a seguinte idéia: a inclusão é uma atitude humanística, e o comum é apenas aparentemente comum, pois guarda segredos.

O cotidiano da deslumbrante Gisele Bündchen, por exemplo, não é feito só de passarelas, papparazzi, badalações e mimos. Para saber quem Gisele realmente é teríamos de acessar sua intimidade e sua essência; conhecer a mulher ocultada pelo mito e o mito ocultado pela modelo. De qualquer maneira, não é o caso de recusar a matéria de Gisele (seria uma atitude um tanto suspeita) apenas pelo fato de a maioria de nós mortais desconhecer a alma de Gisele.

Costumo dizer, em tom de jocoso, que toda pessoa é o que ela pensa enquanto repousa a cabeça no travesseiro antes de dormir. O resto são projeções, máscaras, arranjos para arrastar as cargas. Oportuno, então, falarmos da Renascença (séculos 15 e 16), período em que a figura humana, especialmente o corpo humano, se tornou o tema preferido da arte. Na Renascença, a dignidade e o valor do ser humano eram o leitmotiv também das especulações filosóficas. Escritores, pintores, escultores e filósofos celebraram o ser humano como um microcosmo, uma miniatura do universo, algo belo e intermediário entre a matéria e o espírito. O humano participa do divino e atinge, através de Deus, a plena perfeição e a felicidade.

Mas pouco a pouco os “egos” (claro, esta palavra não era usada na Renascença) inflaram tanto que as pessoas se convenceram de que eram elas as criadoras de Deus, e não o contrário, como até então se pensava. Os renascentistas não apenas valorizaram o Homem, como o valorizaram em sentido unilateral, até fazê-lo acreditar que era o centro do universo. Deflagrava-se então um processo de auto-elevação extrema que culminaria em uma nova concepção e uma nova atitude em relação, por exemplo, à natureza. Com o desenvolvimento da ciência e da técnica, a visão de mundo nos séculos seguintes seria marcada pela crença de que a natureza existe para ser explorada em nome do progresso.

Os iluministas, oportunamente, se perguntaram: ora, se o mundo é explicável pela ciência e pela técnica, por que nos ocuparmos de uma porção supostamente divina, subjetiva do Homem? A partir desta questão nasceram conceitos como a dialética em Hegel (1770-1831), o materialismo econômico em Marx (1818-1883), a moral em Nietzsche (1844-1900) e existencialismo em Sartre (1905-1980). Para os quatro, um sujeito só poderia ser considerado humanista se fosse ateu.

Chegamos assim aos primórdios de uma era em que a matemática conquistou preponderância sobre a subjetividade. A idéia de que pela objetivação se pode explicar/descrever tudo, problema já superado pelos bons cientistas vivos, ainda encanta muitos freqüentadores de ambientes jornalísticos tradicionais. Uma das conseqüências disso é a veneração do corpo e da matéria mensurável em detrimento da essência humana, que é imaterial. Ao cultuar o corpo hedonisticamente, a mídia, um tanto em desacordo com as ciências de ponta, estabelece hierarquias para quem tem e quem não tem valor, quem vale muito e quem vale pouco, quem vale e quem não vale uma materinha. Neste ponto, qualquer vestígio de uma distorcida herança renascentista não será mera coincidência.

E nós nos perguntamos se pode ser diferente. A resposta é sim. Em todas as mídias? Não saberia ainda, mas em livro, sim, certamente. Ecléa Bosi faz percurso inverso ao da TV aberta. Inclui em vez de excluir; procura brechas para o passado em vez de esquecê-lo. Suas histórias “reais” (vividas ou ouvidas) evidenciam uma busca da essência, não das aparências: um velho que extrai reflexões da infância a partir de uma gravura do início do século 20; um taxista de Santo Amaro que comprou uma ilha; um italiano combatente da Resistência que escapou de Auschwitz inspirado pela leitura de “Pinóquio”; o solteirão que não desistiu de obter autorização judicial para vender sua casa no interior e ir conhecer o mar; a história de João e a festa de São João; da onça que podia ter aparecido; de um natal em Florença, um fado em Lisboa e por aí vai.

“Velhos Amigos” aproveita objetos perdidos e esquecidos tanto quanto sentimentos e impressões pessoais. “As histórias de vida estão povoadas de coisas perdidas que se daria tudo para encontrar: elas sustentam nossa identidade, perdê-las é perder um pedaço da alma (pág. 27)”, escreve Ecléa. “As mensagens impostas pela mídia invadem nosso cotidiano, penetram corações e mentes, extinguindo assim todos os vestígios de uma cultura espontânea e arcaica, a chamada cultura popular (pág. 33).”

Pois bem. A alma são os objetos, que apalpamos, mas também os sentimentos. Os sentimentos são condição sine qua non para a prática do Jornalismo Literário. Antes de racionalizar, precisamos sentir, como fazem os artistas e os cientistas. Ecléa Bosi aproveitou o prodigioso poder de evocação da memória para explorar a diversidade, apostar no encontro (em vez de no telefone ou na internet), percorrer o mundo caminhando (em vez de encerrar-se na falsa segurança de uma bolha blindada e climatizada); ela procura a beleza no jovem e no belo, mas também no feio e no idoso; evita critérios de escolha estritamente econômicos, classistas ou físicos; e, principalmente, demonstra fé nas artes de narrar. “Velhos Amigos” não pode ser considerado jornalístico, obviamente, mas o que se realiza nele é exemplar do ponto de vista humanístico, e inspirador para jornalistas dispostos a enxergar mais longe.

A mesma poética me guiou em “Perfis – e Como Escrevê-los” (Summus, 2003). Nele, tento descobrir o universal embutido nas particularidades de 12 escritores – dez brasileiros e dois estrangeiros. Através deles, lancei luzes sobre dramas humanos do nosso tempo. Procurei entendê-los em vez de estereotipá-los. Os programas de TV enjoativos (mas não só eles – alguns jornais e revistas também) nutrem um interesse doentio pelos famosos. Os não muito conhecidos têm seu lugar desde que estejam em evidência por algum fato muito extraordinário. Já um sujeito desconhecido, por mais revelador, não passa de corpo sem apelo. Exceção, claro, para os grotescos, os pitorescos, os vitimados, os loucos de pedra. As exceções só confirmam a regra patente do jornalismo industrial: o que não se vê, não se sente, e, portanto, não desperta.

É fácil aceitarmos que a realidade não é puramente física. Se fosse, o ser humano simplesmente não existiria. O que nos caracteriza, como bem diz o filósofo Pedro Dalle Nogare, é o transfísico, o que foge a qualquer mensuração matemática. A ciência só pode nos trazer vantagens, desde que reconheça seus limites. Limites de possibilidades e de resultados. Nunca a matemática ou a química, por exemplo, poderão conhecer o ser humano como um todo, exatamente porque o humano é algo mais do que suas visíveis feições.

Ambientes (profissionais, domésticos, públicos) mais arejados já estão mudando de perspectiva: em lugar do individualismo, a consciência planetária. “Surpreendentemente, as maiores descobertas científicas destes últimos séculos, que abalaram as evidências mais comuns dos homens, foram no sentido de mostrar cada vez mais claramente a união do ser humano com o resto do Cosmo (Copérnico e Galilei), com os outros seres inanimados e viventes do planeta Terra (Darwin), com seus semelhantes na sociedade, sobretudo através das relações de produção (Marx), e finalmente a atração irresistível e complementar de uma metade do gênero humano (machos) com a outra metade (fêmeas), por instintos profundos e enraizados na própria personalidade do indivíduo (Freud)”, escreve Pedro Dalle Nogare em “Humanismos e Anti-Humanismos” (ed. Vozes).

Qual o perfil do humanista pós-moderno? Especulando: ele/ela é um defensor dos direitos civis, da democracia participativa, do desenvolvimento econômico sustentável, da paz, da solidariedade, da ética, do meio ambiente, do pluralismo, da diversidade, da igualdade e da espiritualidade (religiosa ou não). O humanista pós-moderno não se opõe às globalizações e revoluções tecnológicas, mas deseja que elas diminuam, em vez de aumentar, o fosse entre ricos e pobres. Enfim, estamos falando de sujeitos inconformados, que sempre existiram e continuarão a existir. Os humanistas, aliás, são os imprescindíveis a que se referia o dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956).

Por último, sugiro dois programas culturais para testar sua capacidade de perceber as grandes questões humanas: entregue-se plenamente às sensações de um passeio de montanha-russa e depois vá assistir ao filme “As Horas” (“The Hours”). Quando deitar a cabeça no travesseiro, à noite, relembre as duas experiências, remonte-as, compare-as. Note a dureza de lidar com o imanipulável, e a medonha incongruência das simulações que criamos para evitar o desconhecido. Outra coisa: se estiver sem sono, comece a ler “Velhos Amigos” também. Nele, a delicadeza é um valor humano tanto quanto o humanismo é um valor sem medidas. (Publicado em 2003. Revisado em novembro de 2010)