Rota de colisão

O raciocínio de Herman fora temporariamente amputado, e agora obedece ordens involuntárias.

Sergio Vilas-Boas

Herman estacou no beiral do vigésimo andar do edifício onde possui um apartamento, em Londres. (Ele e a esposa Emile passam em média seis meses do ano na Inglaterra, a trabalho.) O raciocínio lhe fora temporariamente amputado, obediente a ordens involuntárias. Achava que tinha razões para experimentar a morte.

Envolto em um overcoat preto, pois fazia um frio de doer aquela noite, o olhar perturbado de Herman, como um periscópio, pairava sobre a luminosidade urbanóide. As paredes arranhavam-lhe as costas das mãos, duas extremidades horizontais de um homem de braços abertos, em forma de cruz. Se dependesse apenas de si, teria reduzido ao máximo a força da gravidade.

– Raimundo vai se atrasar, querido. O trânsito, as interdições, as festas, você sabe. Mas ele ligou dizendo que vem. Garantiu que vem. (Emile está bastante assustada, embora não demonstre; de vez em quando cospe cutículas longe.) Herman, o que você está tentando fazer? (e surgem as primeiras lágrimas.) Querido, diga alguma coisa. Qualquer coisa. Me fale da sua úlcera! Hoje eu quero ouvir. Juro que quero.

Herman gira lentamente a cabeça para a janela, onde a esposa, abobalhada, parece agravar-lhe a sensação de fracasso e desonra. Herman vinga-se repulsando-a moralmente, mantendo um soberbo estado de indiferença retilínea, buscando uma luminosidade repentina, que, de fato, emerge: fogos de artifício espocam no ar, misturando-se aos spots do Canary Wharf, às luzes girando nos tetos das vans, às estrelas incrivelmente próximas. Ele parece estar tentando tolerar-se por ainda estar vivo. (da boca de Herman, um vapor condensado, nada mais.)

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Dr. Max entrou pela garagem do edifício, fundos. Não percebeu o circo armado em frente à portaria principal. Um bando de gente atenta e apreensiva, bisbilhotando. Veículos estacionando nos arredores, oficiais do esquadrão de resgate armando camas elásticas, ambulâncias preparando socorros, equipes de reportagem movimentando-se como coiotes.

Quando Dr. Max abre a porta de seu apartamento, no vigésimo andar, dá com a cara atormentada de Emile, várias pessoas estranhas de olhos inflados, inclusive eu, e um oficial uniformizado da Brigada de Operações Especiais. Ninguém diz coisa alguma, nem mesmo Dr. Max. Mas vai até a janela, para onde todos olhávamos, e enfia a cabeça na noite. O cenário é tão autodescritivo que o médico se esqueceu de perguntar como havíamos entrado. A mim, porém, Emile deixou escapar que tinha uma cópia “clandestina” das chaves.

– Você não devia estar de plantão? (pergunta ela, buscando abrigo no ombro de Dr. Max.)

– E estou. (Max franze a testa; delicadamente, desgruda o corpo dela do seu e a repreende com um olhar direto e silencioso.) Vim só apanhar uns livros.

Na verdade, Dr. Max passara em casa para trocar de roupa. Confidenciou-me, em imaturos e ostensivos sussurros, que ia deflorar o Terceiro Milênio em companhia de uma “tcheca maluquinha”, que conhecera na última viagem a Praga. Demorou a se dar conta da real situação em que Emile estava metida. Exceto ela, ninguém acreditava que Herman fosse capaz de saltar.

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Dias antes da gota d’água, do provável golpe último, Herman havia assediado Emile. Insinuara a prática de “algum tipo de sexo”, o que ela recusou prontamente. Preferiu continuar jogando paciência com o computador. Agora Emile se sentia culpada, por essa e por outras.

– Faz tempo que a tristeza vem mordiscando os calcanhares do meu marido. E nem percebi. (assoa o nariz.)

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Dr. Max achou, por devoção à medicina, ou talvez por piedade, que tinha certa responsabilidade no caso. Devia ajudar a dissolver o impasse antes de ir ao encontro da tcheca, embora o tempo inteiro salientasse que “o Hospital o esperava”.

– A senhora conhece os afetos e desafetos dele? (estava claramente representando; Dr. Max não deve ser assim tão solene com Emile quando a sós.)

– O quê? (ela se espanta.)

– Digo, afeto por alguma coisa. Tem alguma coisa de que ele goste muito?

Emile se esforça para resgatar alguma lembrança que possa traduzir em um nome.

No momento não me ocorre nada. (e logo desiste de arriscar; diz que está sem forças.)

– Ele não é afeiçoado à senhora? (pergunto, tateando para não parecer maliciosa e intrometida.)

Ela coça as sobrancelhas e encara Dr. Max como quem pede apoio, autorização ou a indicação da porta de fuga.

– Acho que é mais ligado ao Martin. (lamenta com os ombros, patética; corre para o banheiro.)

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Pelo que entendi, a vida de Herman não foi só decepções: a revista “Yourself” dedicou-lhe uma página com foto em 1998, enumerando suas tacadas certeiras à frente de uma multinacional de cosméticos; escrevera um livro, “Como Prosperar Num Mundo Aparentemente Sombrio”, que entrou uma vez na lista dos mais vendidos no gênero economia/administração/negócios/direito de um jornal do Rio de Janeiro. Chegou a ser convidado para algumas palestras.

– Eram entediantes. (suspira Emile.) Ele criava expectativas, mas nunca aconteceu de haver uma platéia realmente interessada. (um longo soluço.)

Por outro lado, Herman foi um businessman tipo nocauteador. Derrubara concorrentes ágeis e promovera fusões e incorporações entre empresas inglesas e brasileiras.

– As primeiras devoraram as segundas. (recorda-se a esposa.) Naquelas inúmeras reengenharias, ele mandou cortar cabeças que não foi brincadeira.

Para Herman, a máxima de que a concorrência estimula a evolução era “bullshit”. Preferia ver os concorrentes fenecerem como baratas, de pernas para o ar, debatendo-se para tentar sugar uma última molécula de oxigênio.

– Um ranzinza de desejar “mau dia”, isto sim. (resmunga Dr. Max, que também só deve conhecer Herman com os olhos de Emile.)

– Gosta de umidade. Nuvens cinzas. Chuvisco. (ela começava a encontrar no novelo a ponta de que tanto preciso para desenvolver o meu trabalho.) Evita o ar exterior. O pai inglês ensinou Herman a tolerar a solidão. A mãe brasileira fez dele um hedonista… (depois disso, só abriu a boca quando o psiquiatra de Herman chegou.)

O que mais? Acho que a rotina de Herman não ia além de edifícios climatizados, carros de vidro fumê levantado e blindado, insônias, relatórios, assinaturas com Mont Blanc, reuniões, viagens em primeira classe, cápsulas de vitaminas importadas.

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Lá embaixo, pessoas se esbarram umas nas outras, atabalhoadas. Parecem ansiosas pelo salto, pela queda livre, libertas dos dissabores recíprocos. Fracassos à parte, naquela noite Herman era mais importante do que as comemorações programadas para a chegada do Milênio.

Debaixo de rojões abafados ao longe, surgiu Raimundo, o psiquiatra brasileiro, acompanhado de uma intrigante paciência brutal, uma frieza perturbadora. Reage como se procedesse a uma autópsia.

– Sra. Emile? (arrisca o psiquiatra; esquivo-me e indico a esposa, que está a um canto, amparada por Dr. Max; Raimundo corrige o ângulo de visão.) Há quanto tempo ele está lá fora, naquele frio todo?

– Acho que faz uma hora.

– Hum… (o psiquiatra elabora uma equação complexa.) Seu marido tem um bom público, Sra… Sra…

– Emile.

– … Claro. Mas não vai pular. Estas novelas costumam durar poucos minutos. Ele não pula mais. Garanto. Daqui a pouco vai estar com fome.

– De onde tirou essa certeza? (Dr. Max aquece Emile com um manto.) Por favor, dê uma esperança mais concreta a ela, Mr. Raymond.

– Uma esperança concreta… Ok. Se é o que querem, vou tentar.

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– Sra. Emile, como acha que seu marido está ocupando o pensamento a esta altura dos acontecimentos? (mais uma vez tento atiçar os sentidos dela.)

– Com as conseqüências da morte, tenho certeza. É um ser humano como outro qualquer, mas fizeram-no acreditar que era um super-homem. Deve ter descoberto que não é. Senão, não estaria lá, tentando entregar os pontos. Ele sempre pensa no que pode perder.

– Como assim?

– Herman sentirá muito a falta de Martin, aquele seu abominável cãozinho. É o ser mais fiel que lhe restou, depois de tanta misantropia e deslizes. (silêncio absoluto.)

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Vou fazê-lo saltar, quer ver? O que falta a todos nós é coragem, e é isso que Herman vai nos mostrar. (o psiquiatra fala como se tivesse uma tabela de estímulos e respostas; o equivalente de uma bula.)

Emile dá um sorriso travado, combinação de pavor e lerdeza. Arranca uma lasca de unha como quem rasga um saquinho de ketchup do McDonald’s.

Sim, estou falando sério. (insiste Raimundo.)

Dr. Max enterra os dedos nos cabelos. Está muito mais ansioso do que preocupado. Não compreende a frieza do psiquiatra.

Lá embaixo, uma série de camas elásticas alinhadas, à espera de Herman. À minha direita, um corpo cravado na parede úmida, fundido a ela como as efígies das moedas de euro. Além de distante, estava geograficamente inatingível. Os homens da brigada não tinham como alcançá-lo.

A “Cool Britânia” de Sir Tony Blair não apresentou aos espectadores boquiabertos uma forma imediata de salvar um alucinado disposto a jogar-se de uma altura de 70 metros. Um oficial do esquadrão tenta convencer Herman a desistir, já que não tem como agarrá-lo pelo pescoço e receber a medalha sonhada. Herman não dá ouvidos.

O psiquiatra acende outro cigarro, enquanto dois helicópteros espreitam, como moscas.

– Hoje estou sem idéias, o que não é comum. (depois de ter sido rechaçada a proposta lunática de incentivar Herman a saltar, Raimundo ficou assim, desolado e sentimental; chamaram-no de louco, e isto o abalou.)

Max caminha em direção à sacada, massageando a testa.

– Pense logo em alguma coisa. (olha no relógio: 23h35; está atrasado para o encontro.)

– Seu nervosismo é ridículo, Max. Herman tem todo o direito de pular. Amanhã poderá ser um de nós. (Raimundo faz uma pausa; um longo trago; bolhas de fumaça azul.)

– Você é um covarde, Raymond. (apesar de exaustos, todos se intimidavam.) Por que não tenta dizer ao Sr. Herman que irá pular no lugar dele? Quem sabe assim não atinge o nervo nu? Não percebe que o que ele precisa é afeto? De alguém que se importe verdadeiramente com ele? (argumento já usado por mim, caro Dr. Max.)

Emile entrega a Raimundo uma bebida de aroma rascante. Enquanto nos distraímos, Dr. Max atravessa a janela. Sinto uma pontada no peito, mas retraio. Um movimento rápido e ele já está com os dois pés sobre o beiral. No térreo, a multidão vai à loucura. Herman gira o pescoço para o lado da janela.

– Pare onde está. (voz grave, corajosa, invulnerável, ao contrário do que imaginávamos.)

Dr. Max não dá ouvidos. Tateia a parede mais alguns centímetros. Emile corre para a janela, em pânico.

– Ficou maluco, Max? Você pode cair, idiota! Não faça isso, pense em nós dois, no nosso amor! (tensa, perdeu a cautela; tanto que ainda não notou que o vizinho já a descartara, nos dois sentidos, seja qual for o desenlace desta noite.)

O ousado amante de Emile prossegue lixando as solas dos sapatos no beiral, centímetro a centímetro, tentando forjar uma coragem que, no fundo, é um atestado de irresponsabilidade, que afronta ainda mais a auto-estima tardiamente abalada de Herman.

– Mais um passo e será o fim. (grita.)

– Tenho uma proposta. (Max ofega, mal consegue explicar-se.)

– Já te mandei parar. (devolve Herman.)

– Escuta: eu salto e você retorna, ok?

– Você está superestimando suas aptidões psicológicas…

– Combinado assim? (interrompe Dr. Max.)

Herman move o globo ocular na direção dos fogos, cada vez mais intensos. A ansiedade em relação à chegada do Milênio é enorme, embora ninguém saiba muito bem por quê. Nunca havíamos experimentado nem mesmo uma virada de século, talvez por isso. Alcoólatras russos, segurando garrafas de vodca, gritam “pula, pula!”.

– HONRE O SEU RITMO, HERMAN!! (grita Raimundo, intrometendo-se no processo.) Ritmo é coisa pessoal! Lembra-se do que conversamos semana passada? O ritmo ideal, Herman, é o do sempre! Lembra-se?

Os membros da brigada, que já se mostravam sonolentos, correm para reposicionar as camas elásticas – parecem moleques aparando frutas cadentes com a barra das camisetas. Os londrinos são acometidos por uma agonia instantânea, diluída no rufar dos tambores, no espocar dos fogos, na ventania dos helicópteros, tudo na tevê.

Às 23h55, os olhares de Herman e Dr. Max ainda estavam entrelaçados, hipnotizados pelas digressões premonitórias da morte e por aquele instante mínimo em que é possível repensar um pouco de tudo, até da própria vida.

– Nós dois saltamos, então. (Herman nunca falara tão sério em toda sua vida.)

///

Herman estava em Londres quando recebeu um e-mail avisando-o da demissão. Provavelmente, nem havia se recuperado do tranco quando extraiu da estante alguma publicação e a maldita foto instantânea caiu sobre o carpete felpudo. Nela, Emile e Dr. Max beijando-se.

Horas depois Herman estacou no alto do edifício como um dois-de-paus. E então, como assistente social, fui acionada para amparar as prováveis subvítimas da consumação. Em diversos pontos do mundo, rolhas de champanhe, entre outras coisas, quicavam no asfalto frio.

(2000)

Fatos e ficções a sangue frio

A obra é admirável, mas Truman Capote inventou;
inventou, inclusive, o paradoxal gênero “romance de não ficção”.

Sergio Vilas-Boas
escrito em 2002; revisto em 2010.

A Companhia das Letras relançou “A Sangue Frio”, de Truman Capote (1924-1984), dentro da coleção Jornalismo Literário, inaugurada em setembro de 2002 com “Hiroshima”, de John Hersey. “A Sangue Frio” é uma obra admirável, mas não “uma nova forma de arte”, como vem sendo dito desde os anos 1960. Há um dado importante, raramente mencionado: Capote inventou coisas. O confiável biógrafo Gerald Clarke em “Capote: Uma Biografia” (Editora Globo) escreveu:

“Mesmo que os sabujos de jornal não soubessem – e Alvin e Marie Dewey tiveram o cuidado de não o contradizer -, Truman cedeu a algumas poucas invencionices, pelo menos a uma mais grave, e por causa dela ‘A Sangue Frio’ ficou mais pobre. (…) Concluiria [o livro] com a execução?, indagava-se. Ou deveria terminar com uma cena feliz? Escolheu a segunda hipótese. Mas como os fatos não lhe proporcionaram nenhuma cena feliz, foi obrigado a inventar uma: um encontro casual de Alvin Dewey e Susan Kidwell, a melhor amiga de Nancy Clutter, no aborizado cemitério de Garden City, um oásis na secura da cidade. Lá estão enterrados os Clutter, assim como o juiz Tate, que sentenciou os assassinos”.

Quem (não) conhece bem o lendário “A Sangue Frio” pode estar meio perdido a essa altura. Situemo-nos. Lançado originalmente nos EUA em 1966 (Capote já havia publicado alguns capítulos na revista “The New Yorker”), o livro reconstitui a história do sinistro assassinato dos quatro integrantes da família Clutter. Herbert, Bonnie, Nancy e Kenyon foram amarrados, amordaçados e baleados na cabeça, dentro de casa, na noite de 15 de novembro de 1959.  O crime ocorreu na obscura cidadezinha de Holcomb, Kansas. Os dois principais suspeitos – os assaltantes Perry Smith e Dick Hickock – foram presos em Las Vegas, julgados e enforcados em 1965.

E quem eram os dois personagens do encontro casual inventado por Capote? Alvin Dewey foi o investigador que trabalhou no caso e auxiliou diretamente as pesquisas de Capote; Nancy Kidwell, a melhor amiga de Nancy Clutter, uma das vítimas. Após narrar os enforcamentos em detalhes, Capote cria uma cena em que Dewey encontra Susan e mantêm um curto diálogo reflexivo diante da lápide dos Clutter no tal cemitério.

Truman obscureceu ao invés de iluminar a sua façanha com o sua “obra maior” – “A Sangue Frio” é também um dos maiores fenômenos de marketing da história do mercado editorial. “Realmente, o termo que ele cunhou, romance de não ficção, não faz sentido. Um romance, segundo a definição do dicionário, é uma narrativa fictícia de extensão considerável: se uma narrativa é não ficticia, não é um romance”, afirma Clarke.

Em livro ou em revista, a história dos Clutter de Holcomb arrebatou multidões. As quatro edições da “New Yorker” dedicadas ao caso bateram recordes de vendas. O livro logo se tornou um dos maiores best-sellers literários de todos os tempos em vários países. Em menos de um ano após o lançamento Capote embolsou US$ 1 milhão (líquidos) e deu uma festa memorável no Plaza, em Nova York, com a presença de celebridades de diversas áreas.

O painel intrigante e meticuloso montado em “A Sangue Frio” comprova (ainda comprova) que a narrativa da realidade pode ser tão artesanal quanto a literatura. Mas Clarke nos lembra que histórias reais escritas com técnicas romanescas eram consideradas uma espécie inferior de literatura, na época. Os jornalistas, diziam os críticos, “não estavam aptos a explorá-la”; e os bons ficcionistas norte-americanos, por sua vez, desdenhavam a reportagem “porque repórteres não são capazes de produzir boa ficção”.

Capote nunca foi um repórter de noticiários, mas escreveu textos interessantes para revistas. Para a”The New Yorker”, produziu um perfil memorável de Marlon Brando e uma grande reportagem dramática sobre a turnê de uma trupe da Broadway para apresentação do musical “Porgy and Bess” em Moscou. Os dois textos podem ser lidos na coletânea “Os Cães Ladram: Pessoas Públicas e Lugares Privados” (L&PM, edição de bolso). 

Mesmo não tendo sido considerado “um dos maiores ficcionistas americanos de todos os tempos”, tal como ele desejava (tinha um ego imensurável), Capote abriu fronteiras com “A Sangue Frio”. Antes de tudo, expôs a importância da solidez do trabalho de campo na construção de uma narrativa sobre “o que de fato aconteceu”. O dândi entrevistou, bisbilhotou, esmiuçou, interpretou; relacionou-se com os policiais e com os criminosos; reconstituiu em detalhes diálogos, geografias, feições, pensamentos, temperamentos e lembranças; foi iluminado tanto quanto iluminou o provinciano e conservador ambiente de Holcomb, no condado de Garden City. (Imagine Capote, baixinho, gay e afetado no meio de personagens que deviam lhe parecer recém-saídos de um filme de caubóis.)

Capote não acreditou que podia dar conta do trampo sozinho, apesar de sua experiência de escritor emprestada ao jornalismo. Tanto que pediu ajuda da amiga e conterrânea Nelle Harper Lee, a autora de um livro só: “O Sol É Para Todos” (“To Kill a Mockinbird”). No início das pesquisas em Holcomb, Nelle foi o anjo da guarda de Truman, abrindo o caminho para que ele fosse aceito naquele cenário caipira. Em conversas aparentemente casuais e descompromissadas, os personagens abriam-se . A idéia era exatamente esta: misturar-se com as pessoas e atentar para os momentos reveladores.

Vale contextualizar a “polêmica” da cena final e atualizar o entendimento sobre a atitude de Capote. Sem puritanismos, minha opinião é a seguinte: Capote escorregou feio. Defendo a exatidão, doa a quem doer. Se Capote reconstituísse a cena baseado em alguma evidência ou registro, tudo bem. Mas não parece ter sido o caso. O primeiro e único mandamento de qualquer narrativa que se pretenda de “não ficção” é exatamente “não inventar pessoas, lugares e episódios”. (O “não” é uma espécie de negativa afirmadora, no caso, por mais contraditório que pareça.)

Passados mais de quatro décadas, contudo, esse pecado não deverá derrubar o mito criado em torno de Capote e sua obra. Certas informações vieram à tona talvez já sem efeito. Mesmo na época do lançamento do livro não havia grandes expectativas estéticas em relação aos chamados livros de não ficção. Nos anos 1960 não existia uma Literatura de Não Ficção (socialmente aceita, como hoje) com regras e princípios.

Os ataques mais pesados ao Jornalismo Literário vêm exatamente dos ideólogos da objetividade, os “modernizadores do jornalismo”, que consolidaram a supremacia dos textos burocráticos, pobres de espírito, de vocabulário e de história. O jornalismo diário assim segue tentando imitar o que pensa ser a vida: um eterno comer, beber, dormir e trabalhar, não necessariamente nessa ordem, não necessariamente com a consciência limpa. No fim das contas, o caráter tendencioso dos noticiários termina obscurecido por seu próprio véu de neutralidade.

Reportagens ditas objetivas de hoje, baseadas em “aconteceu ontem” ou “fulano disse”, não raro enfrentam reações iradas das fontes. Mas, nesse caso, seus autores não têm como se defender alegando que “apenas estavam experimentando uma linguagem elaborada”. Alguns personagens de “A Sangue Frio” queixaram-se de cenas, diálogos, pensamentos e atitudes que não batiam com suas lembranças. Já os dois protagonistas da cena final inventada, ao que se sabe, nunca espernearam. Estranho.

Enquanto isso, a fama de “jornalista” de Capote, que chegou a merecer 18 páginas da revista “Life” na época, escapou ilesa. Suas qualidades de fanfarrão, imiscuído nos altos escalões sociais, e sua história de vida conturbada propiciaram muito mais munição a seus detratores do que seus supostos deslizes como repórter. Além do mais, os tempos são outros. Transposta para os dias atuais, a revelação da fraude da cena final de “A Sangue Frio” talvez nem fosse alvo de celeumas. Ou seria? Difícil saber. O mercado editorial é tão vulnerável ao escândalo e à fraude quanto Wall Street.

Para haver debate aprofundado seria necessário, hoje, um entendimento universal sobre os pilares do Jornalismo Literário. Pilares, que pilares? Estes: imersão total do autor no tema escolhido; estrutura narrativa que capte a atenção do início ao fim; foco em personagens, não em abstrações; linguagem aprimorada; exatidão; ética; e simbolismo (entendimento do que tudo aquilo representa no nível macro).

Capote violou o mandamento que diz “pessoas reais, em lugares reais vivendo situações reais”. Quem lê obras de Jornalismo Literário atualmente sempre poderá se perguntar se aquilo aconteceu mesmo (sim, às vezes a realidade supera a ficção) e se foi mesmo daquele jeito. Algumas descrições, diálogos, monólogos e digressões feitas a partir de reconstituições responsáveis podem parecer tão hiper-realistas quanto uma obra de ficção premeditada. Nesse sentido, uma boa narrativa da realidade em geral parece (parece) romance ou conto, mas não é. Não pode ser.

Chegamos ao ponto em que o círculo deste artigo tende a se fechar. O que é fato? O que é ficção? A fronteira entre ambos, que chegou a parecer bem definida até às vésperas do surgimento de “A Sangue Frio”, ruiu com a chamada pós-modernidade. Nas últimas décadas, as ciências em geral começaram a ver que essa fronteira, na verdade, esteve sempre aberta. Uma das evidências disso, notaram os pesquisadores, eram exatamente as narrativas que se situavam na zona de fronteira, as que pretendiam, como é o caso de “A Sangue Frio”, fundir a História com a Arte.

Historiadores, antropólogos, sociólogos e jornalistas se acostumaram com o pressuposto de que lidavam com fatos e de que seus textos refletiam a realidade. A filosofia e a psicologia, especialmente, acabaram mostrando que todos estamos mergulhados até o pescoço no território da ficção. O real e o imaginário são indissociáveis. A realidade é uma construção simbólica, engendrada individual e coletivamente. Acreditar que se está oferecendo “o que realmente aconteceu, nem mais nem menos” é um sintoma de esquizofrenia.

Até os trabalhos mais aparentemente científicos têm uma “poética”, elemento estético construído a partir de uma filosofia, uma visão de mundo. Não quero dizer com isto que tudo é permitido, que qualquer coisa é qualquer coisa, que basta “o autor querer”. Insistir na tecla de que “tudo o que narrei é a verdade, nada mais que a verdade dos fatos” é uma atitude marqueteira. Capote agiu assim em suas entrevistas durante as pesquisas para “A Sangue Frio”. Se aspirasse às mais sólidas virtudes do Jornalismo Literário (em franca evolução), Truman Capote não inventaria a cena final em hipótese alguma.

Também não se trata de dizer apenas, grosseiramente, que a “luz apagou, a utopia sumiu, a noite esfriou” (parafraseando o extraordinário poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade). Ultimamente andaram decretando o fim de tudo: da arte, das ciências, da ética etc. Curioso que ninguém, que eu saiba, decretou o fim do jornalismo básico, apesar de sua mais do que demonstrada incapacidade de se renovar e de se manter lado a lado com as evoluções deste nosso cada vez mais indecifrável mundo.

O problema continua sendo as “representações factuais”, o modo como as mensagens são construídas, embaladas e difundidas. Imparcialidades mascaradoras, pretensão ao conhecimento absoluto de conteúdos inaugurais, uso de estatísticas para impressionar o leitor-telespectador-ouvinte, entre outros recursos oportunistas, tentam forjar o real. A reprodução da realidade total, tal qual, é um objetivo inatingível. Nem por isso devemos desistir de nos aproximar das verdades possíveis. Capote quebrou o contrato, ficcionalizou deliberadamente, omitiu. Inspirou tanto quanto decepcionou seus seguidores. Mas seu modo literário de narrar continua sendo referencial para jornalistas-escritores.

Referências básicas

Livros
CAPOTE, Truman. A sangue frio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
CAPOTE, Truman. Os cães ladram: pessoas públicas e lugares privados. Porto Alegre: L&PM, 2006.
CLARKE, Gerald. Capote: uma biografia. São Paulo: Globo, 2006.

Filmes
A sangue frio (In cold blood). 1967. Dir.: Richard Brooks. 134 min.
Capote. 2005. Dir.: Bennett Miller. 98 mins.
Confidencial (Infamous). 2006. Dir.: Douglas McGrath. 117 min.