Saint Germain

Havia em Trump um elemento fingidor realçando sua suposta atitude bravia, como um canastrão trocando de cena.

Sergio Vilas-Boas

Uma pilha de pratos desaba lá dentro, na cozinha. Gustav Salvatori chicoteia os rapazes de branco com o couro de sua voz maligna. O proprietário do St. Germain é um canalha repelente. Diz preocupar-se com o bem-estar dos clientes e espalha por todos os cantos que o mal-estar dos músicos, por exemplo, não o incomoda nem um pouco. Reduziu o preço do couvert. Aos seus auxiliares diretos, no entanto, os que cuidam do seu core business, Salvatori paga bons cachês.

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Charles Trump está encostado ao balcão do scotch-bar, bebendo com o colega Ezequiel. Trump olha para Ezequiel e move as sobrancelhas na direção do casal sentado à mesa 13, no fundo.

– Conhece?

– Outro gângster visitante. (Ezequiel esmaga a brasa do cigarro.)

– Hum… De qual nicho criminal?

– Influências. (Ezequiel não está a fim de papo.)

– E ela?

– Não se mete, Trump. Não se mete.

Salvatori, vaidoso de seu novo terno xadrez vulgar – Trump teria prazer em enforcá-lo com a gravata vermelha de ferradurinhas azuis -, passa pelos dois fumando um charuto da grossura de um bordão. Desde criança Salvatori aprecia figuras exóticas e propensas à contravenção, como o lobista que faz companhia à morena “desesperadora”.

O mafioso odiava o repertório de Ezequiel e Trump naquela noite, e os dois sabem disso. O paladar musical de Salvatori não é muito diferente da maioria dos frequentadores do St. Germain Blues Bar, histórico club para cidadãos de caráter duvidoso. Mas o St. já foi melhor frequentado. Antes apareciam políticos do primeiro escalão, diferentes dos de hoje, na maioria cumpridores de tarefas. As mulheres também se comportavam de modo mais elegante diante da oferta de uma joia ou de uma insinuação cretina.

Na mesa 13, sem notar o tédio da bela estátua andaluz a seu lado, o traficante de influências beberica de tempos em tempos. Há uns óculos redondinhos pendurados em seu rosto; a rala franja grisalha oleosa escorre pela testa. Quase cobre seus olhos de cão perdido. É baixote, caladão, magricela.

A morena andaluz tem mais pedigree. Usa um vestido tubinho preto. Sua sombra devora a do traficante. Charles encantou-se com os cabelos dela e com o friso provocante da calcinha, da qual ele imaginara a cor e os detalhes da renda quando a viu passar rumo ao toalete.

– Como é que esse lustra-botas pode ser um articulador de bastidores? Meu Deus, que desperdício.

– Tira o olho, Trump. (Ezequiel mistura com o dedo o gelo flutuante no copo de vodca, desprevenido. Sorve o primeiro gole. Para ele, o primeiro é o que desce melhor. Desce ardendo, antes de fundir-se à exalação fria dos cubos.)

Nos intervalos, as pessoas aproveitam o silêncio para conversar, armar planos e ciladas. Não é o caso do traficante e de sua acompanhante. Os dois não sabem o que fazer com as mãos e seus olhares se desviam. Eu próprio achei que havia uma diferença entre os dois, e que esta devia ir muito além dos extremos visuais.

Um sujeito de uma mesa cheia, a única da noite com mais de duas pessoas, se levanta para cumprimentar Trump e Ezequiel. Não satisfeito, o cara começa aquela conversa chata de gente que bebe além da conta, não presta atenção nos arranjos e ainda por cima pergunta por que não tocaram As Time Goes By. Ouve a desculpa de sempre. Trump e Ezequiel são parceiros até a morte. Os kids durangos do St. nunca dizem não, mas em certas noites só tocam o querem, indiferentes aos riscos.

Sob a atmosfera enfumaçada do St. descortinam-se conflitos, seduções, mentiras, amarguras, prazeres anunciados e ideais renunciados. Notívagos em busca de aventuras longe da vastidão de seus solitários quartos escuros.

– “A solidão é névoa densa / Acima de nossas cabeças,/ Aguarda outro / lume breve / de papel e alcatrão / crepitando”. (Trump galopa lado a lado com um caubói chamado Jack Daniel’s, duplo) Fiz esse hoje, pouco antes de vir pra cá.

Ezequiel, fingindo uma dor de cabeça insuportável, faz pouco dos versos.

– Me poupa, Trump. Babalu (dirige-se ao barman, este), faz um chá de erva cidreira pro Charles, vai.

Os dois trabalham no St. há mais de dez anos, pouco menos do que eu. Durante todo esse tempo, minhas retinas acumularam uma infinidade de “momentums”. Em cada um havia a imagem congelada de gente fabulando em torno das teimosias do passado. Fora da penumbra, não deviam ter muito o quê ou com quem conversar.

– Vou lá. Vou falar com ela.

– My God! (Ezequiel inspira, desiludido; “não tem jeito com esse merda”, pensa.) Você está muito carente. Fica quieto aí. Carentes não sabem distinguir o sim do não. (Ezequiel sempre diz a Trump o que este já deveria saber.)

Charles gira o banquinho e bate no ombro do colega, resolvido a enfrentar a “névoa densa”. E de um jeito mais decidido do que ele próprio esperava, considerando seu atual estado de abandono. Contorce-se entre as mesas, ignora os rostos familiares. Havia em Trump um elemento fingidor realçando sua suposta atitude bravia, como um canastrão trocando de cena. Ele se apresenta. A “pantera andaluz” (Paola é o nome) corresponde, ingênua.

Os olhos dela refletiam os néons acima do balcão onde, entre uma baforada e outra, Ezequiel permitia que a memória fosse transportada para bem longe. Na Terra, os cotovelos sustentavam sozinhos os arranhões dos tempos em que era dependente de uma série de coisas, até de drogas. À minha frente, fumava e bebia com os olhos fixos no pôster de Duke Ellington.

Trump acendeu a lanterninha e, sutilmente, iluminou o decote. Pôde ver entre os dois seios geometricamente dispostos a pinta negra afundada no canyon. “Os mamilos feito duas / vivas tatuagens / infláveis”, poetizou, mentalmente. “Os pêlos dela eriçaram-se!” (Isto só pode ter sido imaginação dele, mas preciso dizer.) Por desordem ou medo, há muito Trump não sentia os relevos de um corpo feminino. Suas mãos andavam costuradas ao trompete, como quem diz amém à separação.

Paola bebia uma cerveja. O perfume dela era fulminante. Os lábios, uma luxúria. Trump enxergava flertes em tudo. Até nos gestos. O traficante deixava esquentar uma lata de Coca-Cola light esquecida sobre a mesa. Absorto, não abriu o semblante supostamente frágil só porque Trump se aproximou.

– Você é maravilhosa, Paola. (havia a intenção, mas, de qualquer forma, escapou-lhe.)

Ezequiel amassa outro cigarro no cinzeiro, levanta-se e sinaliza para Trump, que olha o relógio. Foram-se seus preciosos 15 minutos. Salvatori sai da cozinha, ajeitando o paletó, ensaiando maus dizeres. Babalú (eu), finge que vai vomitar. Ezequiel ri. (do bar, o palco parece um pedaço de céu apagado no firmamento, assim como este comentário pode soar inteiramente dispensável.)

A conversa entre Trump e Paola tomava forma, “ganhava nevoenta densidade dramática”. Tanto que, entusiasmado, Charles ignorou o bandidinho. Em baixo da mesa suas mãos tremiam.

– Que tal um drink juntos mais tarde? (um sussurro ao pé do ouvido de Paola; autista teimoso, Trump contrariava os conselhos de Ezequiel novamente.)

Paola lançou os cabelos atrás das orelhas, o brinco esquerdo caiu e Charles se abaixou para apanhá-lo. Pôde ver as botas de texano do traficante, que tinham uma biqueira de metal cintilante. Naquela tensão sonâmbula, as botas pareciam duas mandíbulas afoitas. Charles havia ido muito além dos descuidos com as bitucas de cigarro no carpete de casa. Quando se recompôs na cadeira, o terror surgiu vestido de graça.

– Es-cu-cu-cu-cu-ta aqui, ô-ô ca-ca-ra. Quem vo-vo-vo-cê pen-pen-sa que-que-que é, hein? Te me-me-me-me-to a ma-ma-mão na cara, ou-vi-vi-viu? (para os padrões internacionais do cinema de ação, por exemplo, aquele não era exatamente o tom de voz que se esperava de um matador. Muito menos de um traficante de interesses. Mas Trump pediu licença e saiu apavorado na direção do palco. O tartamudeante reposicionou os oclinhos, ajeitou o paletó de tweed.) E uma ba-ba-ba-ba-la na ca-ca-ca-be-ça! (berrou, consternado.)

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Ezequiel, ao piano, folheava partituras. Próximo a mim, Salvatori apontou para o próprio relógio de pulso dando batidinhas com o indicador da mão direita. Trump estava que era o avesso de um vulcão. Mesmo assim não tomaria nenhuma atitude precipitada sem antes pisotear o charuto de Salvatori até transformá-lo em pó.

Contido, porém, limpou a boquilha do trompete e começou o último tempo da noite com Vivo Sonhando, de Jobim, em ré-maior. Tom desculparia os vibratos retorcidos de Charles Trump, que não chega de saudade do ídolo recém-falecido. De irresistível relance, viu o estranho casal aos beijos. Reconciliantes verdadeiros ou meramente contratuais? Trump nunca saberia.

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– O quê? Vê se eu ia ter medo de um ordinário daqueles! (Trump gabava-se para a madrugada fria de julho, a caminho de casa, misturado ao latido dos cães.)

Ezequiel, pele cor de jabuticaba, como a noite, acende outro cigarro. Faltava pouco para chegar em casa e esbofetear seu “brother”, sujeito condenado à fissura perpétua.

(1998)

A reportagem de imersão

Num contexto de globalização econômica e avanços tecnológicos acelerados, a crença num mundo sem fronteiras parece onipresente, mas a reportagem de imersão ainda é valiosa, na visão dos  jornais.


Sergio Vilas-Boas
“Jornal da ANJ”, abril/2010

Nos anos 1950, bem antes do surgimento da internet, a cultura da imagem começou a alterar significativamente o modo de produção das reportagens impressas sobre povos e culturas pouco conhecidos (dentro e fora das fronteiras nacionais). Repórter e fotógrafo viajavam juntos a fim de “descobrir lugares”. Era assim que o jornalismo desvendava universos fisicamente longínquos. Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, é um marco daquele jornalismo antropológico: a terra, o homem, a luta.

Mais de cem anos depois de Os Sertões, num contexto de globalização econômica e avanços tecnológicos acelerados, a crença num mundo sem fronteiras parece onipresente. É como se a Terra houvesse sido totalmente esquadrinhada, como se a expressão “tempo real” pudesse ser aplicada a tudo, como se o local e o global, culturalmente falando, fossem indistintos. Quais os impactos disso sobre a cobertura do chamado Brasil Profundo? A prática da “reportagem de imersão”, que busca revelar mundos “estranhos” para o leitor, alterou-se?

Jornalistas de gerações diferentes acreditam que a dinâmica da globalização não reduziu nem eliminou diferenças culturais. “Tenho observado que as culturas locais, mesmo sob o impacto da globalização, com freqüência se reafirmam, encontram formas de sobrevivência e de desenvolvimento, fazendo uso inclusive dos equipamentos que absorvem das culturas envolventes”, observa Carlos Azevedo, ex-repórter da revista Realidade, autor da coletânea Cicatriz de reportagem (Editora Papagaio).

Em 2008, Azevedo esteve entre os índios caiabis do norte do Mato Grosso (também estivera entre eles em 1962). Os caiabis, conta, adaptaram-se à tecnologia introduzida, mas mantêm-se culturalmente vigorosos. “Há um vasto campo de trabalho para esse jornalismo de interação cultural. A reportagem, quando feita sem etnocentrismos e preconceitos, dá sempre resultados criativos e úteis.”

Indígenas, camponeses, sertanejos, tuaregues, esquimós, cocaleros etc. agora têm mais contato com a urbanidade. Talvez conheçam os “urbanoides” mais do que estes a “eles”. As desconfianças continuam mútuas, porém, apesar das facilidades logísticas e de comunicações. Fernando Molica, colunista de O Dia e coordenador do MBA em jornalismo investigativo da FGV, percebe que o mundo está cada vez mais parecido. “Mas é exatamente por isso que o jornal impresso precisa lidar mais com os ‘diferentes’ e com as ‘diferenças’.”

As diferenças num mundo parecido

Leonencio Nossa, repórter do Grupo Estado em Brasília e autor de Homens invisíveis, que narra uma expedição liderada por Sydney Possuelo em busca de um povo isolado na Amazônia (os flecheiros), acredita que expor ao leitor culturas desconhecidas é uma forma de aproximar mundos. “Esse tipo de reportagem não está na contramão do mundo globalizado e digital. Pelo contrário. Uma matéria sobre um menino matis do Rio Ituí, por exemplo, reflete os novos tempos”, afirma. “Há populações desconhecidas até para moradores dos centros urbanos próximos.”

Cinqüenta anos atrás, muitas reportagens em zonas de fronteira eram especiais pelo simples fato de que jornalistas haviam estado “lá” para contar o que viram. Hoje em dia é mais difícil essas matérias estarem dissociadas da agenda jornalística. “O importante é colocar no debate proposto pelo jornal indivíduos que possam acrescentar algo à nossa vida por seu imaginário, sua forma de viver e, mais ainda, sua extraordinária capacidade de vencer a luta cotidiana contra a natureza, seus códigos e castigos”, observa Leonencio.

É consenso que a era digital facilitou alguns processos de apuração, mas o trabalho de campo não poderá ser suprimido tão cedo. Em “reportagens de fronteira” a presença do repórter é decisiva. É em campo que histórias são compreendidas; é em campo que os atores principais são identificados e destacados; é em campo que os cenários e percepções (do repórter e do “outro”) geram sentido. Memórias e tradições ainda não são apuráveis via Google; e uma webcam é insuficiente para captar um conflito existencial, por exemplo.

As telecomunicações possibilitam, conectam, aproximam. Mas as viagens (em sentido amplo) continuam sendo indispensáveis em pautas de imersão. Alguma forma de “deslocamento” – ou talvez “descolamento” – é inevitável. “Um dos papéis do jornalismo é traduzir coisas que nos parecem fora de ordem”, reflete Molica. “Por que um jovem árabe amarra um cinturão de bombas e se explode? Cabe a nós tentar entender isso em termos culturais, até porque aqui mesmo, no Rio, temos meninos que se imolam.”

“Importante ir lá e ver de perto”

Marcelo Beraba, editor-chefe do “Estadão”, afirma que a linha editorial do Grupo Estado contempla essa busca por “novas fronteiras”, desde que a narrativa seja “inteligente e agradável”. “Em certas matérias podemos pegar especialistas e dados e construir um texto. Noutras, não. É importante ir lá e ver de perto”, enfatiza. “Há hoje mais reportagem em jornal do que em outras mídias. Em algumas editorias às vezes mais que em outras; e em alguns dias mais que noutros. Mas sempre há reportagem na mídia tradicional.”

Além do deslocamento (ou descolamento) cultural, um repórter precisa mover-se longas distâncias para cruzar uma “zona de fronteira”? “Não”, assegura o veterano Ricardo Kotscho, repórter da revista Brasileiros. “Uma boa pauta pode estar a alguns metros da redação. Mas é preciso ter capacidade de identificar a boa história. O problema é que quase ninguém mais cobre a cidade inteira. Cobre apenas partes dela, as chamadas áreas nobres.”

Repórter especial do diário português Público há vinte anos, Paulo Moura lembra que viagem e reportagem aprofundada estão intimamente ligadas: “A ideia de viagem desfigurou-se com o turismo de massas. Mas não é fácil viajar. É possível ir a um lugar incrível e voltar sem nada para contar. Viagem implica uma atitude e um método: saber observar, saber fazer perguntas, saber envolvermo-nos nos acontecimentos e nas histórias. Uma viagem é sempre uma reportagem”.

Paulo Totti, também veterano e atualmente na equipe de repórteres especiais do Valor Econômico, tem viajado pelo Brasil e pelo mundo escavando histórias que ligam o mundo da economia ao das culturas locais, pressupondo que os empresários, potenciais leitores do Valor, não estão interessados apenas em matemáticas financeiras. “Seja no interior do Maranhão ou na China, minhas viagens são bancadas pela empresa”, afirma. “Mas suspeito que 80% das matérias que exigem que o repórter saia da cadeira são pagas pelos respectivos interessados no assunto”, lamenta.

No passado os jornalistas viajavam mais que hoje? “Isso não é verdade”, rebate Marcelo Beraba. “Antigamente, viajávamos muito e hoje também. Estadão, Folha e O Globo, por exemplo, têm equipes viajando neste momento para vários lugares do mundo: Chile, Iraque, Haiti, Iêmen, Amazônia e outros lugares onde é necessária a nossa presença. Se fazemos isso o suficiente para cobrir bem o Brasil como um todo, aí é outra coisa. Diria que não é suficiente. Mas no passado também não era.”

Para Ricardo Kotscho, os jornais vêm diminuindo gradualmente os investimentos em reportagens detalhadas. “Grandes reportagens são raras na imprensa brasileira, mais preocupada com futricas políticas, denúncias, escândalos, celebridades, notinhas e com a editorialização do noticiário. Por isso, surpreendem cada vez menos o leitor, que, aos poucos, vai deixando de ler e de assinar jornais e revistas”, adverte.

Apesar da palavra “grande” no nome, uma “grande reportagem” não é, necessariamente, uma reportagem longa, jornalistas concordam. A palavra “grande” – no caso brasileiro – serve para substituir qualificativos como “in loco”, “detalhada”, “vivencial”, “aprofundada”, “interpretativa”, “humanizada” (mais ancorada em personagens do que em relatórios e estatísticas) etc. “Assuntos importantes, polêmicos e desafiadores continuam atraentes para os leitores. Mas estamos falando de qualidade, não de quantidade”, afirma Azevedo.

OS SERTÕES PROFUNDOS

Afinal, o que é Brasil Profundo? As definições variam conforme a época. “Euclides da Cunha imortalizou a palavra sertão, termo que, nos primórdios da ocupação, referia-se a algumas léguas do pátio do colégio jesuíta de São Paulo. Com o avanço das bandeiras, o sertão foi se afastando das cidades, e daí surgiram os ‘sertões goianos’, os ‘sertões de Minas’, os ‘sertões do Mato Grosso’ etc.”, observa Leonencio Nossa, que escreveu reportagens seriadas para o Estadão sobre temas amazônicos.

Recentemente, os jornais passaram a trocar a palavra sertão por termos como “Brasil Profundo”, “grotão” e “rincão”. “Mas prevalecia a ideia de Euclides expressa em ‘Os Sertões’ de que esse Brasil Profundo acabaria extinto pelo avanço da tecnologia e dos meios de comunicação e de transporte”, lembra Leonencio. “No entanto, o sertão, ou Brasil Profundo, poderá continuar sendo um espaço longínquo.”

“Sertão não é necessariamente a Região Nordeste”

Mais tarde o sertão ficaria associado ao interior do Nordeste, especificamente, e não mais à direção oeste em geral. “Nos livros escolares aprendi que o sertão ou era puro ou era um inferno, mas sempre exótico”, conta Demitri Túlio, repórter de O Povo, de Fortaleza. Demitri integrou a equipe que produziu cadernos especiais temáticos seriados (e premiados) sobre o sertão cearense. Foram três cadernos de doze páginas enfocando “mares do sertão”, “desertos do sertão” e “chuvas do sertão”.

“O sertão está em outras regiões do país e mesmo na África e no Oriente médio. É um lugar de ‘ressurgência’, não de mortificação. Imagine se pensássemos o Rio como um lugar apenas de violência e tráfico; ou São Paulo apenas como uma cidade saturada.  Os estereótipos podem matar o bom jornalismo e contribuir para a consolidação de valores equivocados. Por isso esse tipo de reportagem é importante”, argumenta Demitri.

AMAZÔNIA AINDA FASCINA

A Amazônia, universo cujo gigantismo é impossível de ser compreendido em sua totalidade, como escreveu Euclides da Cunha no início do século XX, continua fascinando o jornalismo e o público. Não se trata mais de uma região isolada, propriamente. Muitas populações indígenas e comunidades ribeirinhas estão agora equipadas com internet e telefonia móvel, por exemplo, mas a dificuldade de acesso físico aos locais continua encarecendo a produção jornalística.

Aruana Brianezi, editora executiva do jornal A Crítica, em Manaus, conta hoje com uma equipe que “domina assuntos relacionados à Amazônia”. As pautas mais comuns referem-se ao cotidiano dos moradores do interior. “Temos correspondentes em Parintins e um colaborador em Manacapuru, e equipes da capital viajam pelo menos uma vez a cada 15 dias”, diz. “Mas os deslocamentos têm alto custo. Poucas cidades possuem aeroportos, não há estradas ligando a maioria dos municípios e essas viagens tendem a ser longas.”

Editores e repórteres concordam que um dos caminhos para diversificar a pauta e ampliar assuntos é trabalhar histórias que girem em torno da vivência de personagens. “Concentrar a história nos personagens e não nas estatísticas oficiais ou no discurso de gabinete é uma maneira de pegar o leitor pela identificação. Isso nunca deixou de ter importância”, acredita Demitri Túlio, repórter especial de O Povo.

Em 2006, O Povo ganhou o prêmio Tim Lopes de Investigação da Agência Nacional dos Direitos da Criança e Adolescentes (Andi). “Na verdade, era uma bolsa para custear despesas de grande reportagem. Fizemos então um caderno de doze páginas (mais uma série durante dez dias) sobre exploração sexual e comercial de meninas e meninos nas BRs do Nordeste”, lembra. “Não inventamos a roda. Apenas centramos tudo na fala das pessoas. A parcela ‘oficial’ da apuração saiu em rodapés ou em forma de anexos.”

REPORTAGEM É UM PRODUTO CARO, SEMPRE

Reportagens especiais planejadas com base em aprofundamentos e vivências não precisam ser necessariamente longas, mas em geral envolvem deslocamentos, observação de campo, pesquisas bibliográficas e personagens relevantes. Na era da internet, editores e repórteres reafirmam a necessidade de matérias jornalísticas situadas fora da agenda do dia, mesmo reconhecendo que isto requer investimentos financeiros e humanos.

“Apesar de não vermos nos jornais uma cobertura extensiva e regular da complexidade nacional, ainda assim os recursos investidos nisso são muito altos. Há milhares de blogs com opiniões, palpites, análises etc. Ok, mas quem está lá, quem tem um sujeito lá, em campo, são as mídias tradicionais. Mal ou bem, esse é o diferencial de um jornal. E não é barato”, enfatiza Marcelo Beraba, do Estadão.

“Não acredito que o custo de uma grande reportagem seja maior hoje do que era, ou que as empresas sejam hoje mais pobres do que nos tempos em que a reportagem era o carro-chefe dos grandes jornais. A revista Brasileiros, onde trabalho, é uma prova de que é possível fazer reportagem sem gastar muito. Está nas bancas há mais de dois anos sem uma grande empresa por trás, embora ainda lute para ter o devido retorno em publicidade”, opina Ricardo Kotscho.

Na impossibilidade de percorrerem-se longas distâncias, as metrópoles-sedes dos principais jornais são um cosmo repleto de pautas para reportagens especiais diferenciadas. As cidades contêm mundos dentro de mundos, e variadas zonas de fronteira cultural e socioeconômica à espera de jornalistas com “espírito livre”. Paulo Moura, do diário português Público, acredita que é possível produzir boa reportagem sem gastar muito.

“Os lugares onde a vida é mais cara ficam nos países do Ocidente, ou nas grandes cidades onde a maior parte dos grandes jornais está baseada. Aquilo que se poupa num mês a viver numa zona periférica é suficiente para pagar a viagem até lá. Além disso, o enfoque pode fazer-se ao virar da esquina”, propõe. Na Amazônia, porém, esta ainda é uma meta difícil.

“Não há como produzir qualquer reportagem desse tipo fora de Manaus sem que se gaste um valor considerável. O acesso aos rincões se dá, via de regra, em aviões de pequeno porte (que precisam ser alugados) ou em embarcações movidas a diesel. O deslocamento é o componente mais pesado dos orçamentos de viagens aqui”, analisa Aruana Brianezi, de A Crítica.

A INTERNET ESTÁ SUBUTILIZADA

Impresso e internet podem se unir para realizar e difundir reportagens inovadoras e em profundidade a respeito do “distante” (que pode estar tanto ali quanto na outra ponta do mundo)? Paulo Moura, repórter especial do diário português Público desde 1989, acredita que sim. “Há toda uma série de novas experiências com as linguagens que a internet tornou possíveis, e que se definem pela conjugação de vários elementos – imagem, som, infografia, texto. Uma mesma história sobre um povo ou um lugar pode ser contada em várias linguagens articuladas”, reflete.

As mídias audiovisuais e digitais facilitaram o contato cultural do público com informações gerais sobre povos e lugares. Mas os jornalistas acreditam que sites e programas de TV e documentários muitas vezes reforçam o “exótico” e o “estranho”. “O exotismo e a estranheza continuam lá, mas já não basta mostrar os clichês e os fenômenos superficiais. É preciso ir fundo, descrever, narrar o que é realmente único a fim de atingir o universal. Isso torna o desafio do jornalista ainda maior”, diz Moura.

Parece consenso que o impresso não tem como concorrer com a internet no quesito velocidade de transmissão. Ricardo Kotscho, da revista Brasileiros, acha que impresso e online são mundos distintos, e cada um tem de respeitar “sua própria natureza”. “Reportagens inovadoras e em profundidade ainda são produtos para jornais e revistas. Por experiência própria, textos mais detalhados não funcionam na internet, que é mais fast food. O internauta só costuma ler o título e dois parágrafos e já manda um comentário. Parece mais preocupado em dizer o que pensa do que em ler”.

Por outro lado, o potencial da internet ainda está subutilizado. Em termos de multimídia, a produção de “reportagens de imersão” planejadas exclusivamente para o online ainda é tímida no Brasil. A seção Special Report do site Tampabay.com, vinculado ao jornal americano St. Petersburg Times, por exemplo, se tornou conhecida pela edição ousada de matérias redigidas com aprofundamento e detalhe, e aproveitando com criatividade todos os recursos de áudio, foto e vídeo à disposição.

A internet costuma ser vista também como uma espécie de braço direito da globalização, na medida em que ajuda a tornar próximo o que é distante; fácil o que é complexo; familiar o que é estranho. “Mas é exatamente isto que nos leva a crer que está tudo enfadonho, previsível e até fictício. As coisas humanas são, por natureza, diversas. O jornalismo impresso deve então especializar-se em procurar o que é diferente, o que é rebelde, o que é autêntico, o que é irredutível”, propõe Moura.

Atualmente o jornalista pode levar para campo um arsenal de máquinas como laptops, celulares, telefones por satélite, câmeras etc; pode ainda operar essas máquinas com facilidade e rapidez, sem a necessidade de apoio técnico especializado. “Qualquer um pode ir, com um laptop e um celular, por exemplo, para a selva do Congo ou para uma aldeia na Sibéria. Mas só fará um trabalho interessante quem tiver inteligência, cultura e criatividade”, reflete Moura.

PS: tenho conduzido cursos, palestras e treinamentos sobre Jornalismo Literário (Jornalismo Narrativo) em instituições como PUC-SP, Universidade Metodista, Uni-BH, U.F.Ceará, U.F.Santa Catarina, UEPG, Unesp, Uni-Brasil, Universidade de Londrina, SindJor-SP, ABJL, Itaú Cultural, Abraji, Flip, Sesc-PR, “Zero Hora”, “Folha de S.Paulo”, “O Estado de S.Paulo” e “Jornal da Tarde”, entre outras.

Doc multimídia sobre o trabalho de Sergio Vilas-Boas