O amor e a primeira morte

Morreu em 1986 para que nascesse outro alguém; alguém nascido para descobrir para o que nasceu.

Sergio Vilas-Boas

Morri pela primeira vez em 1986. Morri para que nascesse outro eu – um que não acreditasse que nasceu para alguma coisa, mas que nasceu para descobrir para o que nasceu. Esse espírito guerreiro e realizador, essa dedicação incondicional e desmesurada ao trabalho criativo, essa disponibilidade para a mudança (minha) hoje é fruto daquela primeira morte (é?).

Liguei para Ivana de um telefone público do aeroporto. Ela me mandou passear. Daí, entrei no Shaft nº 7. No Aeroporto de Confins, BH, onde eu trabalhava como eletrotécnico, na época, havia o Shaft n° 7, passagem que conduzia a uma extensa galeria subterrânea com três bandejas metálicas suspensas em cada uma das paredes de concreto armado. As bandejas transportavam quilômetros de fios e cabos de várias bitolas e finalidades. Um túnel escuro e sem fim.

Entrei no Shaft parecendo uma barata fugindo da luz (kafkiano, claro): curvado, atônito, com uma angústia paralisante e falando sozinho – coisas profundas, talvez, mas incompreensíveis; e com uma acidez cruel me corroendo o estômago. A respiração era um suspense. Tremia dos pés à cabeça. Aqueles medos que vinham se formando desde a Idade da Pedra concluíram seu processo formativo ali.

Desabado no chão do Shaft, sentia o silêncio cavernoso do meu esconderijo sendo atravessado pelo ruído sinistro do relógio de pulso. Com a alma dissociada do corpo, um vazio incoerente me ocupou como nunca. Botei a mão no ventre. Doía. Ali, enterrado no underground, literalmente, me dei conta de que estava mesmo apaixonado pela Ivana. Ali, no Shaft, então, travei um confronto melancólico comigo mesmo enquanto a fita da namoro era rebobinada.

///

Oh, não, você ligou para ela? Convidou-a para sair hoje à noite, sei. E além de responder “não” ao convite ela acabou com você! Certo, ok. Mas você vai procurá-la assim mesmo hoje custe o que custar, estou vendo. Vai tentar colocar as coisas em pratos limpos, pois não se pode terminar assim, de repente, sem um olho no olho, não é verdade? Brincadeira… Não é não. Ela estava falando sério. Muito sério. Nunca ouvi a voz dela assim. É, mas ao telefone a gente é capaz de tudo.

Você parece previamente rendido ao desastre. Está aqui, neste buraco, dobrando-se em cólicas, os hormônios lutando entre si; o corpo esquentando e esfriando em espasmos; as articulações das pernas, dos braços, dos dedos, do pescoço combalidas como os alicerces de um edifício depois de um terremoto. Está segurando a cabeça entre as mãos e gritando para si mesmo: “Não! Não! Não!”. Isso mesmo. Então grite: “Não! Não! Não!”

Justo agora, hã? Justo agora que você reconheceu os erros que ela lhe apontou; justo hoje, quando você, pela primeira vez, teve coragem de dizer aos amigos que está apaixonado por ela e se deu conta de que despertar de manhã é uma coisa deliciosa porque você acorda e a primeira coisa que se lembra é de que há ela; mas por que ela achou de romper horas depois de vocês dois terem passado uma noite de sensualidade e prazeres tão incríveis? Sim, sim, você tomou a decisão de se mostrar por inteiro e esta é mais uma razão para que nada disso esteja acontecendo.

Mas está acontecendo, meu caro. É um fato. Desabafe, desate o nó da garganta: “Não é possível!”. Muito bem.

Largado nas entranhas (o Shaft nº 7) deste modorrento elefante branco chamado de aeroporto, onde você exerce a função de eletrotécnico, sabe que, se morrer aqui, serão necessários dias, talvez semanas até alguém te encontrar exaurido, pálido, com a boca seca e os olhos estatelados. E daqui a pouco a sua turma começa a tocar MPB naquele bar lá, no centro, onde você tem experimentado bebedeiras e boemia. Só que alguém não estará lá com o pessoal: você.

Então, levante-se, ande até o vestiário sem demonstrar abatimento aos peões, troque essa roupa imunda, tome o ônibus convencional das 17h15, pegue uma poltrona bem ao fundo do ônibus, feche os olhos e finja que está dormindo profundamente. Não fale com ninguém, não responda nem pergunte o que quer que seja. Ninguém pode saber que você está em crise, ok? Dor de cotovelo – fossa – aos 21 anos é uma coisa ridícula.

E quando o ônibus despejar o seu corpo fraco no terminal rodoviário, você vai subir em disparada as escadas sem se despedir de nenhum outro colega seu; vai atravessar sem fôlego a praça em frente, aquela que não tem árvores, movendo as suas pernas a passos largos, combinando dois estilos – cem metros rasos e oitocentos metros com barreiras; vai seguir por aquela avenida até à altura do Palácio da Artes, virar à direita na rua mais estreita até quase esquina da outra avenida e…

Aperta logo essa campainha, idiota. O quê? O porteiro está dizendo que ela não está. Pois então diga a ele que você vai esperar aí embaixo, no saguão. Vai ficar esperando até ela voltar. Como não pode? Discuta com o cara. Diga que está vindo de longe só para falar com ela. Isso aí. Diga que está vindo do interior do Estado para isso. Invente que ela está te esperando. Certo, certo. Ah, nesse caso é diferente. Você prefere esperar no bar ao lado. Ótimo. Tudo bem. Então vai lá, vai para o bar, criatura.

Eu sei, eu sei o que você está sentindo. É duro mesmo. Afinal, ela já tinha lhe atingido no peito anteontem com aquela conclusão certeira, que você escutou como sendo a verdade mais verdadeira do mundo: “Você é um infeliz”, ela provocou. Ter de engolir isso em seco é terrível mesmo. O que mais podia dizer? “Um sujeito inteligente, criativo e sensível que nem percebe que esse negócio de eletrotécnica não tem nada a ver com você; que essa matemática-física-química toda não tem nada que ver com você; que esse emprego em aeroporto não tem nada a ver com você.” Na melhor das intenções, foi mais ou menos isso que ela lhe disse, não foi?

Ao que você concordou sem concordar porque o que estava em jogo, você pensava, não era você, individualmente, nem ela, individualmente, mas vocês dois juntos. “Está bem, está bem”, foi tudo o que você conseguiu formular, pois estava atônito, tentando encaminhar a conversa para um entendimento, qualquer que fosse. E estava certo. Você não podia perder dois mundos ao mesmo tempo: ela e o personagem fugidio e superficial que você criou para adiar o seu encontro com o fato indiscutível de que está apaixonado por ela.

“Se não fizer alguma coisa que te dê prazer, você vai continuar assim, distante e falso”, ela cravou. Uh! Que soco bem dado. Que show de bola. Ela te esnobou de uma forma incrível, soberba, clássica mesmo; ela, uma garota excitante de apenas dezenove anos. É, ela tem apenas dezenove anos, cara, e se saiu muito, mas muito, muito melhor que você, que se acha o cabeça do affair. O cara supostamente mais “cabeça” que ela. Tolo.

Senta aê. Uma vodca. Perfeito. Com gelo. Melhor ainda. Boa hora para algo forte. Ajuda a botar as ideias no lugar. Durante a tal conversa atravessada (foi anteontem mesmo, né?) não era possível virar a mesa usando o seu jogo labiríntico de palavras, os seus ardis que evidenciam mais a sua racionalidade que a sua real experiência direta com os organismos vivos. Você ainda vive a vida indiretamente. Você vive para dentro, não para fora. Calma, calma. Não está sendo dito nada que você não saiba.

Era mesmo muito difícil reverter tudo anteontem. Sabe por quê? Porque você estava entre perdê-la e perder-se a si mesmo, e ainda por cima com grandes chances de que essas duas perdas desabassem sobre você de uma só vez. Digamos assim: se você convencê-la de que de agora em diante será mais compreensivo e companheiro, pode perder a si mesmo; e se não convencê-la disso, você não só perde-a como também perde a si mesmo. Que tal?

Iludiu-se que havia conseguido evitar que ela te mandasse para o espaço. Ok, tá, você conseguiu, mas ela mudou de ideia. Ela mudou de ideia, meu amigo. Isso é o que acontece com as melhores cabeças. Além do mais, ela também está passando por uma fase difícil, esqueceu? Ela chegou aqui sem conhecer ninguém. Está longe de casa, da família e dos amigos. Não é chegada a estudar. Caiu de paraquedas em um pré-vestibular ridículo simplesmente porque os pais querem impor a ela uma seqüência lógica.

Não, não, nem pense nisso. Nem pense em pensar que os problemas dela são menores que os seus. Ela não está sofrendo com tudo porque é mimada e manipuladora, como você disse, e sim porque a pressão sobre ela também está muito grande. E como se não bastasse tudo, ela não passou na prova da Federal nem na da PUC. E agora?

Portanto, meu caro, pare de batucar os dedos no aço do balcão, mova a sua bunda mole daqui imediatamente e vá agora verificar com o porteiro se ela já voltou. E se não tiver voltado? Se não tiver voltado, você volta para este bar sujo e fica aqui esperando até ela voltar, seja quando for. Você pode talvez tomar outra vodca enquanto espera, ou uma cerveja, mas não sem comer algo, porque o seu abdômen está em chamas.

Na superfície, camarada, a causa do seu sofrimento é a separação. A separação de uma moça sedutora, divertida e sagaz, em quem você apostava. Ela bagunçou completamente a sua cabeça dura, hã? Você vinha fazendo de tudo para mostrar-se avesso e indomável e, no entanto, ela estilhaçou a sua carapaça. Rá! Mas ainda pode ser que ela se torne o seu primeiro relacionamento não baseado apenas em sexo. Quem sabe. Há sempre uma chance. Há sempre uma fé.

Daí ela entra no prédio e vê você conversando com o porteiro. Contrariada, ela passa por você sem olhar para os lados. Daí você grita “Espera!”, mas ela não lhe dá ouvidos. “Precisamos conversar”, você insiste, mas ela diz, como sempre, aquilo que normalmente as mulheres dizem nesses casos: “Não há nada para conversarmos”. “A gente tinha se ajustado, não tinha?”, você apela. E ela rebate que “não tinha acertado nada”. O verbo “ajustar”, aliás, é muito “técnico”, no caso. Não percebe? Incrível.

“Eu já te prometi que vou ser mais romântico, mais isto, mais aquilo. Eu te prometi nunca mais ficar jogando na sua cara aquele lance desleal seu comigo quando eu morava na sua cidade…” Mas ela, serenamente, responde algo como “não estou duvidando se você é capaz de cumprir ou não o que promete. Não mudei de ideia por causa disso”.

E você pede para conversarem com calma lá em cima porque o porteiro está de olho e ouvindo tudo. Ela diz não com a cabeça. A amiga dela está em casa estudando e não dá para falar com ela por perto, “até porque ela deu uma mancada fenomenal no dia que meus pais estiveram aqui”. Dane-se a sua amiga, você diz, em seu tom arrogante (mas que você prefere descrever como “audacioso”). Ela sabe que esse tom não é intrinsecamente seu, mas de qualquer modo não suporta mais ouvi-lo nesse tom… Falseado às tampas.

As portas do elevador se abrem. Ela entra. Aperta o botão nervosamente. Pede para você não subir. Na verdade, implora para que você aceite o fim desse namoro dúbio, cercado por impossibilidades, barreiras autoimpostas, reentrâncias. Um relacionamento teatralmente adulto de dois adolescentes em idade adulta. Você pergunta, cheio de suspeitas absurdas, se ela está mesmo segura do que está fazendo. “Tão insegura quanto você. Mas tem de ser assim”, ela responde.

As portas do elevador se fecham com uma rapidez impressionante. Esta será a imagem que vai ficar gravada na sua mente: a imagem dela desaparecendo como se estivesse em uma foto sendo apagada das margens para o centro. Isso dará força e durabilidade ao seu melodrama, mas ainda não é a consumação do episódio. Você vai sofrer um bocado com o fato de esta cena final não ter acabado com um beijo úmido e cinematográfico. O que não deixa de ser um sinal (positivo) de resignação da sua parte, diga-se.

E ficou sem jeito, a coisa toda. Outro. Ah, o ciúme dói da flor da pele ao pó do osso. Rói do cóccix até o pescoço. Verdade.

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Mais de um ano depois do rompimento, ela me localiza, me convida para sair e, como sempre, topo. Mostrou espanto quando eu disse que ela havia mudado a minha vida.

“Você implodiu o técnico racional”, tive coragem de dizer, pois já era outro. “Te devo essa.”
“Me deve essa? Mas isso é um elogio ou o quê?”, ela perguntou, injuriada.
“É um elogio, sim.”
“Olha, nunca pensei em mudar a sua vida. Muito menos daquela maneira. Na verdade, fui muito burra, isto sim, porque senti a sua falta e não tive coragem de voltar atrás. Se você tivesse me pedido pra voltar, eu teria voltado na mesma hora.”

Pode parecer estranho, mas nunca cogitei de pedir a ela para voltar, opção que um personagem um pouquinho mais real nas mesmas condições teria certamente levado em conta. O desfecho teria sido completamente diferente se a minha leitura do episódio tivesse sido outra. Na verdade, estivemos – ou apenas eu estive? – em um filme.

Um filme com um roteiro fantasioso e desencontrado, no qual os dois protagonistas retroalimentavam-se com noções muito equivocadas um do outro. Não fomos nada convincentes ao projetar uma imagem de audácia e irreverência. É, agora entendo: aquela dramaticidade toda agora me aparece totalmente fora de contexto.

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Estava na redação fechando o suplemento cultural quando o telefone tocou mais de uma década depois. Era ela. Queria me parabenizar pelo meu livro que ela vira exposto na livraria de um amigo meu, a única que o vendia. Conseguiu o telefone na editora e quis confirmar se eu era eu. Na época, ela ainda não havia entrado em uma faculdade e já se divorciara do primeiro marido com o qual tem uma filha.

Hoje está claro para mim que os nossos caminhos não se cruzaram por acaso. Precisávamos um do outro para um empurrão providencial para frente; precisávamos de um choque de encantamento e ilusão para podermos entrar de sola na fase adulta. Aprendi que o amor verdadeiro não é irreal: ele é pacífico, conseqüente e constante. O amor vê-se a olhos nus, e por isso não é eterno. Nada que se possa enxergar com muita clareza, aliás, pode ser eterno.

E se? Talvez a vida hoje fosse outra se ela não tivesse desistido de mim, ou se eu tivesse respondido positivamente ao arrependimento dela por ter desistido de mim. Talvez agora eu estivesse morando em uma cidade de cem mil habitantes, administrando um comércio qualquer, tendo filhos e me forçando a cumprir com as obrigações. Pensando bem, foi mais fácil parir outro eu: um eu mais poético, mais lírico, mais sensível, mais musical, menos técnico. Nessa linha. Torta.

Elogiemos os autores ousados

James Agee evita a indulgência ao retratar a vida de meeiros do Alabama.

Sergio Vilas-Boas
Rascunho“, fevereiro/2010

O lançamento de “Elogiemos os Homens Ilustres” é um claro sinal de que há hoje no Brasil um ambiente propício à apreciação de narrativas jornalísticas complexas, que escapam ao impressionismo sociológico superficial e nos ajudam a repensar tanto a filosofia quanto os métodos do jornalismo. Comparado com “Hiroshima”, “A Sangue Frio”, “O Segredo de Joe Gould” e “Na Pior em Paris e Londres” – os melhores títulos da coleção Jornalismo Literário, sem dúvida –, “Elogiemos” é certamente o mais desafiador. O próprio coordenador da coleção, Matinas Suzuki Jr., que parece ter sofrido para produzir o posfácio, assumiu: “Sente-se uma hesitação formal: o livro parece não ter começo e não ter um fim”.

O que em princípio parecia “apenas” uma extensa reportagem extravagante sobre pobreza, ignorância e falência resultou numa perturbadora etnografia. Há um embate entre o jovem repórter culto residente em Nova York e “eles”, os meeiros brancos do Alabama, lugar tão distante da “nossa” sofisticação quanto o sol da lua; e o pano de fundo é a Grande Depressão, que afetou em cheio o sul dos Estados Unidos, principalmente.

Antes de tudo, importante lembrar: 1) que a condição de miséria expressa no livro já existia no EUA antes do Crash da Bolsa. Pior: ela continua a existir em outras partes do mundo; 2) a narrativa é precedida de 62 imagens estupendas do fotógrafo Walker Evans (1903-1975). Originalmente, as fotos não têm legendas, de propósito. Algumas imagens estiveram expostas no Masp, em São Paulo, no ano passado dentro de uma grande mostra sobre o trabalho de Evans.

Então, se você cair na armadilha de examinar “Elogiemos” com base no presente do indicativo do jornalismo brasileiro (ou no que dizem por aí sobre “a literatura e o jornalismo”), você ficará tentado a dizer: “Mas que enrolação! E quanta mixórdia! Cadê o clássico, cadê?”. A forma atingida por Agee é tão engenhosa quanto confusa, e, claro, ela reflete o que o autor era: uma criatura extremamente agitada por dentro e por fora.

Vejam o que Evans escreveu na apresentação do livro (sob o título “James Agee em 1936”): “A fala, no fim, era seu grande traço distintivo. (…) Não se tratava de exibicionismo, e não era necessariamente fruto de uns tragos. O que estava por trás dela era a pura energia da imaginação. Que encontrava correspondência em sua energia física. (…) Muitas vezes você ficava com vontade de amordaçá-lo e amarrar uma caneta em sua mão. (…) No Alabama ele se viu possuído pelo trabalho, que o assoberbava dia e noite. Ele provavelmente não dormia. (…) No Alabama ele suava a se coçava com uma alegria profunda. (…) A rebeldia de Agee era irrefreável, autodestrutiva, profundamente ética, infinitamente penosa e, em última instância, inestimável”.

O depoimento de Evans refere-se ao período em que conviveu com Agee no Alabama – de julho e agosto de 1936 – a serviço da “Fortune”, revista que começou a circular logo depois do Crash e representava então o mainstream liberal do empresariado americano. A reportagem acabou não sendo publicada na revista, mas serviu de rascunho para o livro, que só conseguiu editora – a Houghton Mifflin – em 1941, mesmo assim com ressalvas (e por fim as vendas da primeira edição foram pífias: cerca de 600 exemplares).

Ética e moral

Além de certeiro, o depoimento de Evans mostra um Agee irrequieto e ambicioso. Dizem que ele era mesmo uma força da natureza, o protótipo das angústias americanas de então. A década de 1920 ficou conhecida como Era do Jazz, com suas músicas “amalucadas” e seus indivíduos excêntricos à maneira de alguns personagens de Scott Fitzgerald (incluindo ele mesmo e a sua mulher, Zelda). Mas a farra terminou numa quinta-feira de setembro de 1929 com a falência da Bolsa de Nova York.

Na década seguinte, o índice de pobreza nos Estados Unidos era típico de “terceiro mundo”, e em parte por causa disso o país entrou num processo profundo de revisão de consciência. Era necessário desvendar, com ou sem o patrocínio do Poder Público, a “América dos norte-americanos”. John Steinbeck e John dos Passos, assim como muitos outros autores célebres da época, são também fruto daquele momento de realismo em que as mazelas sociais foram enfaticamente denunciadas.

“Elogiemos” é uma das narrativas marcantes daquele contexto, e expressa como poucas as angústias em torno de temas como ética e moral. Seu tema central é, na verdade, a própria consciência do autor. Agee questiona seu papel como observador da “realidade”, o sentido do jornalismo, sua utilização, seu papel na sociedade, sua metodologia.

“Quem, o quê, quando, onde e por quê (ou como) são o clichê essencial e o bem-estar do jornalismo: mas não quero parecer falar do jornalismo favoravelmente. Ainda não vi um artigo jornalístico que transmitisse mais que a mais exígua fração do que qualquer pessoa mesmo que apenas moderadamente reflexiva e sensível pretenderia e desejaria dizer com aquelas inatingíveis palavras, e mesmo essa fração nunca vi limpa de um ou outro grau de patente falsidade. (…) O sangue e o sêmen do jornalismo são uma ampla e bem-sucedida forma de mentir. Retire-se essa forma de mentira e não se tem mais jornalismo.”

Somada à uma energia verbal incontornável, essa preocupação exacerbada consigo mesmo, sua profissão e seu tempo conduziu Agee a uma linguagem que esfacelava as referências básicas de comunicação jornalística então vigentes (não seria exato rotulá-lo como “hermético”, embora aceitável). O tempo todo ele se interroga também sobre os limites da expansão e da colocação do nosso olhar sobre as coisas animadas e inanimadas, e avisa-nos: “descrição é uma palavra de que se deve suspeitar”.

Sua habilidade com descrições (de geografias, objetos, feições, temperamentos, situações) é mesmo notável. No entanto, esse afã descritivo acabou reproduzindo o que ele próprio chamava de “ilusão de corporificação”. Agee confundia descrever com “decompor” ou “dissecar”. Daí ele se exaure: “O fracasso, de fato, é quase tão vigorosamente uma obrigação quanto é uma inevitabilidade em tal trabalho: e aí repousa a mais mortal das armadilhas da consciência exausta. (…) Deem-me o nome de uma só verdade dentro do alcance do homem que não seja relativa e eu me sentirei um grau mais propenso a me desculpar por isso”.

O mais desconcertante é que seu incrível approach ontológico amplifica tanto quanto diminui, reconhece tanto quanto nega a própria arquitetura verbal. Em algumas passagens tive a sensação de que estava em contato com uma obra contra si mesma, uma obra cujo objetivo é nos alertar para algo mais ou menos assim: “Estou tentando, pessoal, mas é impossível me desfazer da certeza de que a representação do real pela escrita é limitante e inútil”. Até parece que estou resenhando um ensaio e não uma super-reportagem escrita com técnicas de romance, certo? Certo. Mas este é apenas um dos aspectos.

Dois james

Falemos então de Agee em campo (um “trabalho de campo” sólido seria a primeira instância definidora de uma boa reportagem de Jornalismo Literário). Primeiramente, qual era o projeto original de Agee/Evans? Abordar a Grande Depressão pela convivência com meeiros plantadores de algodão do Alabama. A escolha deles foi arbitrária, como toda escolha em jornalismo, aliás: focar três “famílias típicas” de colonos brancos, tendo os Gudger (que na verdade eram os Burroughs) em primeiro plano. “Não encontramos uma só família que estivesse plenamente representada na totalidade dos colonos daquela região”, Agee escreveu logo na primeira página.

Embora sua profusão verbal se sobreponha à “informação referencial” ao longo do livro, há momentos em que consegue ser aberto, claro e direto: “Gudger – uma família de seis – vive com uma ração de dez dólares por mês durante quatro meses do ano. Ele já viveu com oito, e com seis. Woods – uma família de seis – até este ano não conseguia mais que oito por mês durante o mesmo período; neste ano ele conseguiu elevar para dez. Rickets – uma família de nove – vive com dez dólares por mês durante o período desta primavera e começo do verão. Essa dívida é paga no outono com juros de 8%. Cobram-se 8% também no fertilizante e em todas as outras dívidas que os colonos contraem”.

Este obstinado James, seguidor do outro James, o Joyce, viveu com essas famílias e penetrou em todas as instâncias do ser daquelas pessoas. Registrou seus olhares, o modo de caminhar e falar, de comer, vestir, dormir; as escolas e as igrejas que (não) freqüentavam; a maneira como plantavam, colhiam e sofriam; pensamentos em voz alta; a arquitetura, a casa, a mobília, os odores, os bichos, o clima etc. Ele acreditava que uma “inspeção total” o levaria a uma compreensão profunda e irrepetível, apesar das limitações epistemológicas que ele mesmo aponta.

Aí reside a principal qualidade desta obra que se pretende “artística”: Agee deu o máximo de si para evitar a complacência e a indulgência. Diferentemente de certos trabalhos de mestres do JL da primeira metade do século passado, Agee não idealiza seus personagens e tampouco explora-os com o intuito de vender ideologias, como fizeram John Reed e Jack London, por exemplo. Outros traços elogiáveis, e que tornam “Elogiemos” um dos trabalhos de metarreportagem mais ambiciosos e corajosos de que se tem notícia, são, repito, a investigação íntima e a linguagem.

Reconheço que, com os olhos de hoje, todas essas características podem ser vistas também como deméritos, conforme o ponto de vista. Independentemente disso, porém, “Elogiemos” continua capaz de implodir as falsas verdades (e as mentiras verdadeiras) de sempre sobre o que o jornalismo é e não é. Marcos Faerman (1943-1999), repórter durante período áureo do “Jornal da Tarde”, nos anos 1970, perguntava-se “como ser jornalista sem ler James Agee”. Pergunto eu: “É honesto continuar fazendo jornalismo do mesmo jeito depois de ler James Agee?”.

+ SOBRE O AUTOR

James Rufus Agee – repórter, ficcionista, poeta, roteirista e critico de cinema –nasceu em Knoxville, Tennesse, em 1909. Aos seis anos perdeu o pai num acidente de carro e foi enviado para um colégio interno. Seu conselheiro na adolescência foi o pastor anglicano James Harold Flye. Apesar de mau estudante, ingressou na Universidade Harvard. Casou-se três vezes e teve ao todo quatro filhos. Em 1942 abandonou a reportagem para se dedicar à crítica cinematográfica nas revistas “Time” e “Nation”. Seu ótimo texto “A grande era da comédia”, de 1949, publicado originalmente na “Life”, foi reproduzido no número 2 da revista “Serrote”, do Instituto Moreira Salles. Morreu de infarto dentro de um táxi em maio de 1955 em Nova York. Seu romance autobiográfico “A Death in The Family veio a público postumamente. O escritor Truman Capote, em entrevista na “Paris Review” (nº 16, 1957), disse que incluiria James Agee em sua “lista ampliada” de escritores que o influenciaram. Publiquei este no jornal “Rascunho”, edição de fevereiro/2010.

TRECHO DO LIVRO

Condições “sanitárias” e iluminação

Por ser parte de um abismo e de um atraso similares, a falta de vasos sanitários é também de grande importância. Mas aqui eu não preciso fazer tantas ressalvas. A essas famílias faltam não só “o encanamento”, mas também as “casinhas” que jocosamente supomos ser propriedade de um fazendeiro americano, e os catálogos de pedidos pelo correio que, de novo com um estridente rirrirri, imaginamos ser o papel higiênico desse fazendeiro. Eles se retiram aos arbustos; e se limpam como podem com jornal se o tiverem pela casa, caso contrário, com espigas de milho, gravetos ou folhas. Dizer que quanto a isso eles se veem forçados a viver “como animais” é um pouco tolo, pois os animais levam vantagem sobre eles em muitos aspectos. Direi, então, que não importando se Banheiro o Belo deve ou não ser louvado em todas as nações, não é uma vantagem para eles em um mundo “civilizado” ter de lidar com suas necessidades íntimas como o fazem os mais simples dos selvagens.