Eduardo e eu

O gol está escancarado. O ponta-esquerda e o lateral-direito correm para a bola molhada e pesadona como tigres famintos.

Sergio Vilas-Boas

1. Em campo

O campo de terra do Estrela Futebol Clube está quente e seco neste início de tarde de sábado. É visível o castigo imposto pelas últimas águas, que revolveram o barro e balearam a terraplenagem. Três homens nivelaram os altos e baixos com enxadas e picaretas. Nem era preciso. Aqueles meninos de várzea tinham aptidão para jogar até na superfície lunar.

As traves receberam tinta branca e redes de náilon amarelas. Desenharam o campo a cal. Numa das laterais içaram a bandeira dos times na ponta de longos bambus verdes. Faixas penduradas nos postes de iluminação pública da rua adjacente saúdam o Estrela Futebol Clube e o 1º Festival de Futebol do bairro.

Perto da linha lateral do campo há duas mesas de bar dobráveis. Na vermelha repousam quatro troféus de tamanhos e formas diferentes. Dois deles já foram disputados hoje de manhã. Estão aqui para honrar a iniciativa dos organizadores e dar pompa ao evento.

Sobre a mesa branca esvoaçam as escalações dos times, os resultados anteriores, a súmula dos juízes, os horários dos jogos e a relação dos patronos e apoiadores. Debaixo dela cinco bolas oficiais descansam. A molecada “desuniformizada” tem fome de tocar essas esferas mágicas, e por isso um homem as vigia.

Vê-se gente espalhada dentro e fora do campo. Os de fora concentram-se nos pontos onde as árvores fazem sombra. Os dois times se aprontam às vistas de todos. Atrás do gol, debaixo de um toldo de lona, o técnico Antônio Rocha distribui as puídas camisas doadas no ano anterior pelo vereador Vilibaldo Alves, da Arena (em 1977, ele odiava o MDB).

Rocha tenta passar instruções aos meninos da categoria dente-de-leite, de que Serginho faz parte. Nem todos os jovens são dentes-de-leite, na verdade. Alguns fingem que são, só para driblar o regulamento tácito. De qualquer forma é visível que alguns veteranos mal cabem nos calções que lhes castigam as virilhas e os testículos.

A camisa 4 vai para Serginho, lateral direito do time. Ele faz aquecimento como um jogador profissional, orgulhoso de defender as cores amarela e verde do time de seu bairro. Suas meias estão abaixadas até a canela. Concentrado, encabeça a fila para entrar em campo.

Ao cruzar a linha de fundo, toca a mão no solo abençoado e persigna-se. A torcida grita “Estrela, Estrela”, ao som de taróis, surdos e tubadoras improvisados. O juiz uniformizado prende a bola no círculo central sob o pé esquerdo do seu Bamba Mayoral preto.

De camisas brancas, calções e meias verdes entra em campo também o Clube Atlético Aliança, amargando vaias e palavrões. Devidamente acomodada, a minúscula torcida visitante – acuada, tímida e reduzida – caberia perfeitamente dentro de uma Kombi. O árbitro apita o início do jogo.

O técnico Rocha usa uma calça boca-de-sino de tergal puído e uma camisa de brim azul-marinho com as mangas dobradas até os cotovelos. A barra da calça arrasta-se e oculta sua botina de boiadeiro. Observa o jogo andando ao redor do campo: “Jorjão, marca o meia deles!”. Mete os olhos onde a bola não está, irrita-se com firulas desnecessárias. “Perdeu, volta, pô, volta pra combatê!”

O suor logo empapa a testa de Rocha em gotículas que escorrem pelo peito como respingos de chuva. Ele retira um pente feito de osso e incrementa o topete desgrenhado. Sua pele está curtida pelo sol de outras pelejas em campos de outros bairros da capital provinciana.

Bolas de peladeiros paralelos também invadem o campo e às vezes confundem a partida, que está bastante equilibrada. A rede dos dois gols exerce enorme fascínio sobre a molecada extracampo, altar sagrado onde a todos é dado o direito de celebrar o futuro.

(De tempos em tempos a malha amarela é estufada por uma bola de borracha, murcha e estropiada, embicada pelo dedão escalavrado de algum aspirante. Para a meninada, estufar a rede sacia a mente e o estômago.)

Clever, filho do técnico Rocha, é habilidoso. Tenta um drible próximo à meia-lua da grande-área. Derrubado. Rocha intervém na discussão sobre quem irá cobrar a falta. “Cobra essa, Fernando. É sua!”, grita.

Fernando corre até o local da penalidade. Seu corpanzil tensiona ao máximo as costuras do uniforme. Os meninos do Aliança reclamam que a barreira se posicionou a menos de nove passos da bola. O juiz distribui cartões amarelos. “Aêêêê oooooo piiiicolé cremoso!”, grita um moleque quebrando o silêncio e pedindo passagem.

Fernando corre para a bola com sua chuteira 41, fôrma larga, fumegando como o cano de um revólver. Desfere um chute violentíssimo, mas canhestro. A bola carimba o Aero Willys do sujeito que vende caldo de cana. Um torcedor baixinho devolve-a num sem-pulo, perdendo o pé direito do chinelo. “Aêêêê oooooo piiiicolé cremoso! Chocolate, creme, nata e limão”, canta o moleque.

O Aliança pressiona, mas não surpreende. O centroavante dribla o beque central do Estrela com uma finta de corpo e toca na saída do goleiro. Mansa e caprichosamente a bola lambe a trave esquerda e rola em direção ao córrego contíguo.

O troco vem logo em seguida. O lateral esquerdo tenta uma rasteira em Clever, que se safa; o zagueiro puxa-o pela camisa, mas Clever escapa; o último defensor aplica-lhe então um golpe talvez de judô, dentro da área grande –  o filho do Rocha está endiabrado hoje – e é pênalti!

Clever conversa com a bola. Procura convencê-la a sossegar-se no topo de um talude. Toma distância, ignora a manha dos adversários, aguarda o apito. Não sabe, mas está sendo observado pelo mesmo olheiro que levou um craque aqui do bairro chamado Marinho para se tornar ponta-direita do Atlético-MG.

“Gooooooool…”

Segundos depois, porém, uma bola é cruzada na área do Estrela. O goleiro sai mal e os zagueiros não conseguem interceptá-la. A bola atravessa toda a extensão da grande-área implorando para ser chutada. O gol está escancarado. O ponta-esquerda do Aliança, Tecun, e o lateral-direito Serginho correm para a bola molhada e pesadona como tigres famintos.

Tecun é um negro magro e muito alto (o dobro da altura do Serginho). Suas desajeitadas pernas de saracura apóiam-se em um par de patas colossais, de solas cascudas e sulcadas e bastante mal-acomodadas em um Conga roto extra-large. Então…

Tecun acerta a bola com sua canhota bestial e, milissegundos depois, ouve-se uma segunda explosão surda. A bola chutada à queima roupa atinge em cheio o rosto do lateral direito, que desaba, senhoras e senhores. Está no chão, de costas. O juiz interrompe o jogo. Os jogadores fazem um círculo ao redor do garoto inerte.

2. A clínica de olhos

Acordei do apagão grogue, atarantado, ouvindo sibilações apavorantes. Percebo a sombra fantasmagórica de corpos disformes inclinados sobre mim. Tapo o olho direito com a mão. A constatação é chocante: não enxergo nada com o esquerdo e pouco com o direito. Uma compacta mancha leitosa me separa do mundo óbvio como se eu fosse um personagem do “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago.

Recuso ajuda. Desde sempre odeio ser alvo de atenções pelo mal. Abro caminho desesperadamente entre os curiosos e corro, aos prantos, guiando-me por sombras e empurrando o olho baleado para dentro como se ele estivesse por um fio e fosse saltar a qualquer instante. Ferviam os músculos da face suja de barro vermelho, na qual as costuras do couro da bola haviam feito marcas.

O percurso de mais ou menos duzentos metros até em casa dura séculos. Meu pai não está. Minha mãe nunca dirigiu um automóvel e tampouco teria um com o qual contar. O nosso fusca 1967 vermelho havia sido vendido para custear o assoalho e os revestimentos do banheiro e da cozinha, pois a nossa casa até um ano antes existiu em estado básico.

Minha mãe colocou no chão o meu único irmão, que era uma criança de cinco anos e estava no colo dela quando cheguei, e enfiou a minha cabeça debaixo da torneira do quintal. A água fria abafou o choro. Acho que pensei em como meu pai ia reagir, de que maneira me repreenderia. Ele é um homem severo e intransigente, que mete medo. Será que vai gritar comigo?

Sua figura mais ou menos tirânica adiciona mais terror ao terror. Seus filhos são os únicos que não podem brincar livremente pelas ruas deste bairro bucólico. Na rua não se aprende nada que preste, ele diz. Meninos na rua só causam problemas. Meu pai nunca foi bom em lidar com contrariedades e reveses. Para ele, são imprescindíveis a previsão, a ordem e a rotina.

Angustiada, pensando as mesmas coisas que eu, certamente, minha mãe aciona o nosso vizinho, sr. Alberto, patrulheiro da Polícia Rodoviária Federal, que, por sorte, está de folga hoje. Ela diz a ele “olha as bolinhas de dentro do olho dele, sr. Alberto, olha. Ai, meu Deus”. E o sr. Alberto comenta “é mesmo. As meninas dos olhos tão crescidas”. Algo assim.

Na verdade, minhas íris, que são de um verde-escuro intermediário, pareciam duas jaboticabas apesar da luz espectral daquela tarde. Em meio à mancha leitosa ondulante, eu capturava sons aleatórios de múltiplas direções, mas não conseguia me concentrar em nenhum ponto. Era como se estivesse anestesiado, e o drama tivesse perdido elasticidade.

O estresse me exauria. Já não tinha forças nem para chorar. Queria me entregar logo a um sofá, uma cama ou um canto qualquer. Sentia um frio polar. Os maxilares tiritavam. Precisava de uma palavra de conforto, mas obtive o que realmente precisava: ação. Sr. Alberto atendeu prontamente ao pedido de minha mãe, retirou o carro dele da garagem e partimos. Minha mãe ficou com meu irmão de cinco anos.

Examinaram meus olhos em vários hospitais. O distintivo de policial de sr. Alberto ajudava. Mais de três horas depois do acidente, ninguém havia assumido o problema. Ninguém me deu um remédio. Meu organismo só contava com um copo de água com açúcar que minha mãe me fizera engolir antes de sair.

Por fim batemos na Clínica de Olhos da Santa Casa, onde supostamente havia o melhor atendimento de urgência para um caso como o meu. Passamos à frente. Pegamos uma rampa de acesso atulhada de gente, atravessamos um labirinto de corredores, esquinas e curvas. Em sentido contrário ao nosso vinham macas brancas, cadeiras de rodas brancas e criaturas em branco movendo-se rapidamente.

Entro por um portal altíssimo que conduz a uma sala cheia de equipamentos. Ela é provavelmente escura. Provavelmente? Não. Certamente. Pois há uma parte à direita do meu campo de visão que não está leitosa, tampouco branca. É como se eu enxergasse as coisas por uma fresta, uma fissura, o que me obriga a mover a cabeça constantemente para encaixar a pulsação do mundo nessa estreita faixa de janela da alma aberta.

Bom dia, dr. Eduardo, este menino levou uma bolada enquanto jogava futebol e diz que não está enxergando nada com o olho esquerdo e pouco com o direito. Acho que aconteceu umas três horas atrás. Não, ele não é meu filho, não. “Ué, rapaz”, espanta-se o médico, que tem um enorme bigode preto, “deixa eu ver esses teus olhinhos de Tostão”.

Tostão? Ah, o Tostão, ex-jogador da seleção tricampeã do mundo na Copa de 1970, diz o atleticano sr. Alberto. O Tostão, cujo nome verdadeiro é também Eduardo, como o deste atencioso médico. O Tostão, que levou uma bolada no olho esquerdo em 1969, no estádio do Pacaembu. O Tostão, craque do Cruzeiro. O Tostão que, por causa da bolada, teve de abandonar a carreira de jogador aos 26 anos e está agora estudando medicina e será o outro dr. Eduardo da história. Pensei: meu destino será este?

3. “O futebol acabou para você”

Ainda bem que estive distraído enquanto o médico tentava me tranqüilizar contando a história do Tostão (dr. Eduardo), porque a hipótese de não poder mais jogar futebol era a que mais me angustiava. Nunca fui bom de bola, mas pertencia a uma espécie não rara de viciado que ainda por cima sonhava ser profissional. Até freqüentei a escolinha do Cruzeiro de futebol de salão (não se usava a palavra “futsal”, na época).

Minha vida girava em torno de bolas, chuteiras (com traves de prego ainda, por que eram mais baratas), revistas especializadas, botões com escudos intercambiáveis, a flâmula e a camisa do Cruzeiro Esporte Clube que eu não dispensava quando ia ao Mineirão assistir aos jogos. Lembro-me jubilosamente da primeira vez que entrei naquela arena imensa e iluminada num sábado à noite, com meu pai, para ver Cruzeiro e América.

Ah, sim, eu jogava bola até sozinho. É verdade. Atacava e defendia dos dois lados do quintal da casa. Quando estufava as redes imitava o barulho da torcida com a garganta e corria de braços abertos para a massa em delírio nas arquibancadas. Quando o meu parceiro eu-mesmo de time fazia uma jogada espetacular eu o cumprimentava efusivamente.

Sofria e cobrava faltas e pênaltis, e laterais, e escanteios, e tiros-de-meta. Fazia defesas milagrosas. Engolia frangos memoráveis. A cada drible desconcertante tentava atingir as próprias pernas com violência, mas me safava, e dava um passe para o muro, que me devolvia a bola com a exatidão de um craque, em tabelinhas envolventes, na entrada da grande área.

Os cruzamentos do muro eram precisos. Sem marcação, às vezes, eu cabeceava a bola para o chão, de um modo indefensável para o goleiro-eu.  Quando o meu time sofria um gol, eu reclamava com o juiz, caso achasse que a jogada havia sido irregular, ou com o zagueiro do meu time, caso ele tivesse falhado “clamorosamente”. De vez em sempre o gandula agia de má-fé, mas era repreendido.

Os empates mornos sem gols eram malvistos, mas ocorriam, porque na vida há de tudo, e o universo particular é reflexo da mesma vida. Se fosse para perder, que fosse por três a um, com um gol meu, pois, jogando comigo mesmo, os fracos só podiam perder com a cabeça erguida; e as vitórias eram sempre da exceção sobre a regra, do pequeno sobre o grande, do modesto sobre o arrogante, do claro sobre o escuro. O suor estava acima do troféu. 

O que mudou? Então, no Pacaembu, em 1° de outubro de 1969, um tal de Ditão, zagueiro do Corínthians, rechaçou selvagemente a bola que velejava aos solavancos sobre o gramado encharcado. Na verdade, uma bola perdida para ambos, Ditão e Tostão. Ditão tinha pouca afinidade com as belas artes do futebol. No momento em que o Ditão deu o chutão a cabeça do craque do Cruzeiro estava a trinta centímetros da pelota molhada, que só não foi parar na avenida Pacaembu porque o olho esquerdo do garoto a bloqueou. Naquela tarde, torcidas e colegas fizeram um silêncio aterrador no Pacaembu.

À noite, no Hotel, Tostão acordou enxergando pontos escuros. Em Belo Horizonte, no dia seguinte, o diagnóstico não podia ser mais cruel: descolamento da retina. Faltavam exatamente seis meses para a convocação definitiva dos jogadores que seriam tricampeões do mundo em Guadalajara (1970), e a atuação de Tostão nas eliminatórias havia sido estupenda, tanto que lançaram um documentário laudatório sobre ele naquele período: “Tostão, a Fera de Ouro” (1969), uma relíquia. Psicologicamente, Tostão teve de prosseguir com o temor constante de que o problema voltasse e o impedisse de ser convocado. Ele acabou brilhando na Copa, mas o problema voltou em 1973. Adeus, futebol.

Claro, se Ditão fosse um craque, daria um toque para o lado, sairia com a bola facilmente. O acaso tem seus constructos. Mesmo assim é difícil entender essas rajadas banais que nos tiram do rumo e parecem retardar a nossa chegada a algum porto seguro. Aquele acidente só não foi perversamente destruidor porque tanto Tostão quanto Eduardo Gonçalves de Andrade tiveram, desde sempre, uma bússola apontada para um horizonte mais amplo.

“No futebol ou na vida, o acaso é tão importante quanto o esperado”, Tostão me disse em sua casa durante uma conversa longa para um perfil dele que produzi para o suplemento cultural “Fim de semana”, da “Gazeta Mercantil, onde trabalhei entre 1997 e 2001. Por eu ter tido a oportunidade, já adulto, de puxar o fio da memória de Tostão ao vivo, meu pai, ainda cruzeirense, deve estar me incensando para os seus companheiros de céu que testemunharam ao vivo o lendário time do Cruzeiro que encantou o mundo.

Então, o dr. Eduardo, o outro, o oftalmologista, pede ao sr. Alberto para esperar na sala ao lado. Conecta o meu queixo e testa a um aparelho com uma luz intensa e ardente, que me causa um desconforto atroz. A luz me punge como se houvesse um alfinete na ponta do feixe. Reclamo da dor e o dr. Eduardo então pinga a primeira de um milhão de gotas de colírios.

Ele e um colega começam a falar de fundo de olho, e córneas, e pupilometrias; e cristalinos, máculas, retinas escleróticas, coisas estranhas que se misturam a humores aquosos e vítreos, que sofrem com a alta das pressões internas… Retos mediais, superiores e oblíquos, conjuntivas, coróides, reações ciliares. Até que ouço a expressão “ponto cego” e pela primeira vez na vida perco, momentaneamente, a minha sanguínea e um tanto autística certeza de que sempre acabo saindo de meus apuros intacto.

Por pouco eu teria sofrido um descolamento de retina, como ocorreu com o ídolo Tostão, mas não foi o caso, afinal. Recuperei a visão quase total ao longo das minhas férias escolares, quando freqüentei diariamente, inclusive aos sábados, a Clínica de Olhos da Santa Casa. Durante esse período, minha vida se resumiu a repouso (na medida do possível), colírios, pomadas e antiinflamatórios.

O pior diagnóstico, porém, eu já o havia absorvido no sábado mesmo em que o ponta-esquerda Tecun, do Aliança da várzea, desferiu aquele chute feroz, que tinha como endereço certo o gol praticamente vazio do Estrela. Quando meu pai voltou do trabalho, minha mãe explicou tudo, e ele foi curto e enfático: “Então acabou. Você nunca mais joga futebol, entendeu? Acabou”. A ordem jamais foi cumprida em sua totalidade. Para ser cumprida, ainda que indiretamente, foram necessários uma bicicleta, um violão, livros, anos e a consciência tardia de que, na verdade, eu era um pequeno perna-de-pau.