O escriturário

E o gerente deflagrou outras das suas blitze nas gavetas das mesas de seus subordinados.

Sergio Vilas-Boas

Claquete.

Agora tenho que devolver os cheques sem cobertura. Assim: cheque de quem é amigo do gerente, quem não é; amigo, não amigo; quem é amigo, quem não é; inimigo, amigo, inimigo, amigo; lançar à mão todos os documentos contábeis; conferir os valores pelo menos duas vezes; ajustar débito e crédito; preencher os im­pressos de inclusão no cadastro de emitentes de cheques sem fundos; excluir os que limparam seus nomes; cobrar multas; contabilizar os cheques de outros bancos; e depois datilografar dezenas de guias em uma Remington cinza-chumbo.

Enquanto isso, o gerente deflagrava outras das suas blitze nas gavetas das mesas de seus subordinados. Vasculha tudo à procura de “objetos estranhos”. Recolhe batons, espelhos e fotos de família; revistas, carnês e sacolas plásticas; restos de comida, receitas, remédios e vasos de flores. Fico sabendo que hoje ele encontrou preservativos e cartas de amor nas gavetas de um colega e o menosprezou por causa disso na frente dos demais.

Por outro lado, aqueles que mantêm as gavetas “rigorosamente arrumadas”, recebem elogios, pontos e concorrem a prêmios. Ele é um gerente behaviorista. A agência acaba de abrir e já está apinhada de clientes, com filas intermináveis. Boa hora para a coragem de um covarde se revelar. O sujeito para ao meu lado. Eu operava a calculadora eletrônica com uma velocidade extraordinária. Nem sentia os dedos.

“A sua vez. Abre a gaveta pra mim ver”, diz o gerente de trinta e poucos anos, branco como leite, vestindo um terno xadrez que esteve na moda vinte anos antes. Semi-analfabeto.

Eu e meus desajustes e fusos horários; a negação das vinte mastigadas no almoço, recomendadas pelo RH; a inflação de volta; as dívidas em moeda corrente; o Fiat 147 preto ano 1980 enferrujando na oficina mecânica por falta de grana para pagar a retífica do motor – minha poupança havia sido confiscada; e a terceira onda da Revolução Industrial a todo vapor.

Outras sensações prenunciavam a explosão do bancário frustrado, mas ninguém havia notado: o pavor de virar mão-de-obra mecânica para o resto da vida; o ódio à “insanidade” do chefe; o desejo de vingança; os músculos em erupção; e, por fim, o desejo profundo de dar um safanão rente à mesa e espalhar aquelas montanhas de cheques pelo chão. Não sou nada “sensível” quando oprimido.

Ele levou as mãos à gaveta superior da minha mesa, mas eu a bloqueei com a perna esquerda. “Aqui você não mexe”, eu disse, encarando o tipo olho no olho, disposto a desmontar aquele espetáculo de realismo que não tinha nada de mágico.

Fiquei entre ele e as gavetas. Não ia liberar o caminho para ele nem morto. O subalterno inconfidente acabava de desafiar a criatura gerencial que contribui para o mundo ser pior do que é. Os colegas sentiram o peso do “aqui você não mexe” e levantaram as orelhas. A agência inteira aquietou-se, paralisada. Calculadoras, máquinas de escrever e carimbos emudeceram.

O cara sentiu a surpresa do golpe, mas tentou disfarçar porque a situação era ambígua. Sendo eu um tipo qualquer, um funcionário medíocre, a autoridade gerencial não precisava responder ao desafio. Bastava uma simples indiferença e as fronteiras ficariam novamente bem sublinhadas. Deve ter batom ou espelho aí dentro”, ele diz, afrontando o rebeldinho. “Por isso não quer abrir a gaveta, né?”

Trêmulo, nervoso, extenuado, preferi sair de cena. Deixei-o para trás, com cara de tacho, desvalorizado como moeda de um centavo perdida na rua. E ele foi importunar outro infeliz. No trajeto, porém, zombou de mim, eu soube. Fez piadas tão patéticas quanto a sua própria figura retocada.

A linha de montagem voltou a funcionar. Máquinas e vozes reiniciaram uma orquestração apavorante. A nossa agência, que tinha um índice de 75% de descontentamento com a chefia, seria a mesma depois da minha atitude?

No dia seguinte ao enfrentamento, cheguei quinze minutos antes do horário regulamentar. Tomei meu cafezinho habitual e acendi um cigarro na copa. Olhei o quadro de avisos. Uma folha de papel tamanho ofício, datilografada, estampava o nome dos “desleixados”. Noutra folha, presa por dois alfinetes de cabeça amarela, estava escrito que a minha mesa era “um exemplo de organização e preenchia os requisitos básicos do correto padrão de qualidade em nossos serviços”.

A assinatura do gerente estava lá. Ele revistara a mesa na minha ausência. Arranquei o comunicado do quadro e voltei ao trabalho com ódio de mim mesmo. “Mas preciso pagar minha faculdade de jornalismo”, ponderava. Um tempo depois um colega veio me chamar: “Ele está à sua procura. Quer falar com você urgente!”. Senti aquela pontada de sempre na espinha, aquela pontada que simboliza pavor atávico de acabar na sarjeta por ser “desobediente”.

Sentados em frente à mesa dele estavam dois clientes. Pareciam descontraídos, enquanto eu, tenso, me aproximava como quem comparece a um interrogatório policial.

“Quero que você olhe este cheque”, o gerente me pediu.

Examinei-o, frente e verso: “Um cheque. O que é que tem?”.

“Não percebeu nada?”

“Não.”

“A rubrica em cima do carimbo de devolução é sua?”

“É minha sim.”

“Por que você devolveu este cheque, é o que quero saber.”

“Porque está preenchido errado. Faltam os centavos.”

“Mas já foi revogada pelo Banco Central a devolução por divergência extenso-numeral!”, irritou-se.

“Eu não sabia.”

“Não? Vocês ouviram isso?”, e, como um pastor, dirigiu-se a todos os que eram capazes de ouvi-lo. “Espantoso! Ele acabou de dizer que não sabia, pessoal. Não sabia!”

A Circular XX/90 do BC havia batido nas agências bancárias do país exatamente no dia em que eu me ausentara para ir ao dentista. Ninguém me avisou do tal documento, nenhum colega me comunicou. Ou será que não prestei atenção de forma alguma à circular XX/90 circulante?

“Tem outra coisa, banana”, prosseguiu o cara. “O cheque é de um de nossos melhores clientes PJ.”

“É?”

“Esse cheque tinha de ser pago. Em qualquer circunstância. Ordens minhas. Ordens anteriores à Circular XX/90!”, e esmurrou na mesa.

Existem zilhões de frases curtas e poderosas para servir de borduna nessas horas. Mas as melhores se esvaem antes da formulação. Retive apenas uma delas – “não grita comigo, quadrúpede!” –, mas guardei-a para o momento certo.

“Olha, se você não trabalhar direito aqui eu vou mandar te transferirem para uma agência a dez horas de avião daqui, bem na fronteira com o fim do mundo, tá me ouvindo?”

Constrangidos, os donos da empresa “ferida” pediram licença e se retiraram.

“Vou te ferrar”, diz o gerente, enquanto observa o idiota-eu pelas costas. Além de tudo, o idiota-eu saíra do tribunal sem permissão, deixando o juiz mais nervosinho ainda.

Naquele dia não fui à faculdade de jornalismo à noite e não dormi um minuto sequer. Reconstituí várias vezes o episódio da vergonha que o gerente me fizera passar na frente dos colegas e dos clientes. Amofinei-me. Planejei mil formas de vingança. A ideia de matar o sujeito continuava convidativa. Transtornado, andava de um lado para o outro no meu bunker.

Até que tive uma ideia e, com o rádio ligado, passei a noite em claro, esperando o dia amanhecer. Finalmente amanheceu. Saí. Apertei o relógio de ponto muito antes da entrega dos malotes de cheques, que chegavam bem cedo. A cada minuto meus olhos fundos e avermelhados verificavam a porta. Não falei com nenhum colega nem tomei meu cafezinho habitual. Mas fumei bastante. Finalmente o sujeito-gerente apareceu antes de a agência abrir. Fui imediatamente ao encontro dele.

“Bom dia”, eu disse com a frieza de um psicopata. “Preciso falar com você um minuto.”

“Senta aí, rapaz.”

“Tenho uma coisa pra te dizer.”

“Rá! Pois diga.”

“A sua pessoa me causa repugnância”, disparei cruelmente. O sujeito se assustou, mas disse “é mesmo?” com um tom indiferente. “Quero ser transferido. Não vou mais trabalhar aqui, pelo menos não enquanto você for o gerente.”

“Ora, ora. Mas para você ser transferido você vai precisar da minha assinatura. Eu assinaria com prazer, mas… Você acaba de me dar uma boa razão pra mim [ignorante] não assinar a sua transferência. Vai ser legal ter você por perto nos próximos cem anos, me suportando dia a dia.”

“Você vai ter que assinar.”

“Ah, é? Como? Vai me obrigar a assinar?”

“Eu, pessoalmente, não. Mas alguém da diretoria da Caixa vai.”

“Certo”, ele diz coçando com o lado de fora da mão o pescoço escanhoado. “Então procura a diretoria ‘da Caixa’, por favor. Durante aquela uma hora que você vai gastar no ônibus daqui até o centro da cidade eu simplesmente pego o telefone e acabo com o seu futuro.”

“Combinado.”

Não gastei uma hora para chegar ao edifício da superintendência. Na verdade, levei uma hora e meia. Mas passei o dia inteiro sentado diante da secretária do diretor de recursos humanos, que mandou me dizer que não estava, a fim de tentar se livrar de mim. “Não tenho pressa”, falei para a moça de tailleur. “Vou ficar aqui horas, dias, semanas, meses, se necessário. Até ele me atender.”

Um mês depois definiram que o “escriturário problemático” tinha de ser transferido daquela agência pobre para qualquer setor administrativo. Durante o período de espera, evitei cruzar com o gerente, honrando o que eu havia prometido à psicóloga da empresa. Mas a rinite psicológica piorou devido à incrível carga diária de adrenalina. Desde então, sempre que fico inexoravelmente acuado, espirro centenas de vezes.

Espirrei mais ainda no dia em que, já formado em jornalismo e passando uma temporada de “transcendências culturais” em Nova York, pedi demissão virtualmente, embora a internet estivesse nos cueiros. A carta (seca) foi enviada por um aparelho de fax posicionado dentro da redação do “New York Times”, gratuitamente, com a ajuda de uma amiga que era então subeditora de esportes lá. Mas por que diabos mesmo estou me lembrando disso?