Astoria, Queens, 1994

Incursões sobre meus treinos para a produção de
Os Estrangeiros do Trem N” em Nova York.

Sergio Vilas-Boas

A primeira medida concreta foi estabelecer uma disciplina de trabalho que harmonizasse a sobrevivência, o casamento em progresso, as pesquisas e entrevistas para “Os Estrangeiros do Trem N” e os estudos, esboços e exercícios sobre a arte da ficção. Imerso em um oceano de demandas, meus projetos pareciam ainda mais difíceis do que eram.

A sensação de miudez elevava-se ao quadrado quando me lembrava que estávamos sobrevivendo com os 625 dólares mensais que Pati recebia como babá de duas meninas intratáveis. Talvez por isso eu introjetara um sentimento profundo, machista e hiperbólico de que a minha existência por si só era um prejuízo enorme para toda a humanidade.

O dinheiro poupado durante um ano evaporou. Havia pedido demissão da Caixa quatro meses e meio antes, e o dinheiro do acerto, corroído pela inflação e convertido em dólares, não incentivava olhares na linha do horizonte. Como tive uma infância e adolescência austeras, os apertos nunca me apertaram, na verdade; e mesmo se resistisse à necessidade de cortar custos, os custos me cortariam, anyway.

A despesa diária não alimentar agora se resumia a uma viagem de ida-e-volta de metrô, ou seja, dois dólares e cinqüenta centavos, e uma estratégia para os deslocamentos. Não podia ir a vários lugares distantes um do outro no mesmo dia; e, onde quer que eu fosse, tinha de levar lanche na mochila – em geral um sanduíche de patê de atum e uma garrafa plástica com suco de laranja – como uma criança a caminho da escola.

Os Estrangeiros…” ainda era uma ideia vaga; o tema imigração, gigantesco; meu método de trabalho, intuitivo, para não dizer amador. A mente continuava atravessada pelo Mal do Ocidente, doença silenciosa que afeta todos aqueles que vislumbram o futuro antes de viver o presente. Vislumbres de sucesso e consagração desviavam-me constantemente do essencial.

Mas durante praticamente toda a primavera de 1994, em Nova York, estabeleci meu primeiro autodesafio narrativo de grande extensão: uma novela, mini-romance ou seja qual for o nome que aquilo podia ter. Melhor dizer que era o último amistoso antes da estreia na Copa do Mundo. A produção daquela novela-treino era uma espécie de curso autodidático de ficção, que eu mesmo inventei. Aplicado, comprava e lia com afinco manuais e guias.

Então, para sair do zero (zero de publicação), eu acordava todo dia às sete, bem disposto. Vinha dormindo superbem, aliás. Iniciava a rascunhação à mão logo depois do café-da-manhã, quando Pati saía para aulas de inglês dela. Sem a minha máquina de escrever Remington portátil e sem dinheiro para comprar um processador de texto – aquelas máquinas de escrever elétricas com um display de cristal líquido –, só me restava ficar namorando nas lojas os primeiros PCs com sistema Windows.

Uma vez passei em frente a uma loja e cobicei um laptop Packard Bell 486. Notem as características técnicas do meu sonho de consumo na época: tela preto-e-branco de 9,5 polegadas, 3kg, 4MB de Ram e 100MB de HD. E o mais incrível: custava 999 dólares! “Em breve”, eu me dizia diante das vitrines faiscantes. “Em breve.”

Sem hesitações, entrei em uma papelaria e comprei dois cadernos em espiral – um de capa verde, com cento e vinte folhas pautadas e três divisões; e o outro de capa vermelha com duzentas folhas e cinco divisões. Comecei pelo de capa verde, onde descarreguei com eletricidade o começo da novela-teste. Vinha arquitetando aquele começo mentalmente fazia algum tempo.

Ficou assim: “Abro os olhos e percebo que há sol lá fora. A janela está clara. Tento mover o corpo. Parece inútil. Algo mais sustenta minha preguiça, algo que vai além da simples indisposição de dizer outro bom dia aos meus colegas de Caixa. No meu quarto, as formigas de sempre entram e saem pelas fendas dos marcos; um cão ladra ao fundo; uma porção de água marulha pelas tubulações da parede que me separa de Inês. De imediato, tudo parece normal, como eu próprio, no meu modo de despertar e sentir”.

Aqueles cadernos já estão bem encardidos. Eu os preenchi com uma letra minúscula usando lapiseira 0,5. Notável a textura suavemente aveludada das folhas causada pelo esfrega-esfrega de várias borrachas consumidas até o último átomo. O caderno nº 1, de capa verde, está todo ocupado; o nº 2, de capa vermelha, começa com uma advertência: “Carece de objetivo maior. Afinal, o que acontece aqui?”.

O caderno nº 2 começa com “Acordo com batidas na porta. Custo a mover-me. Parece haver uma rocha me prensando contra a cama. Há um mínimo de intenção de me erguer, um esforço mental, na verdade, que não se converte em movimento. Abro os olhos e percebo que nada aconteceu. Continuo pregado ao colchão. Passei mal à noite, vomitei. ‘Já vou!’, é o que consigo dizer”  e onde deveria estar o “Capítulo 28” há apenas o título: “Capítulo 28”.

Nestes dois cadernos produzi apenas os dois primeiros terços da primeira versão da novela-teste, ficção sobre um bancário sexagenário (Sr. Edmundo), ex-alcoólatra, caladão e incompreensível, que não consegue se relacionar (embora queira) com a mulher (Inês) e a filha única (Alma). A história desse senhor teve vários títulos e versões.

(Por fim, batizei-a em 2001 de “Sujeito Zero” – a nona versão finalmente concretizada que ganhou menção honrosa em um concurso de romances da revista “Cult”. Com as ilusões renovadas, encontrei motivação para escrever uma “apresentação para venda” da obra. No trecho da carta em que descrevo sucintamente os personagens encontro o seguinte trecho – falando sério – sobre a filha do bancário: “Alma, 33 anos, militante antiglobalização, envolve-se numa conspiração internacional para impedir, em janeiro de 2001, a posse do presidente George W. Bush, o ‘tipinho que tornará nosso ar ainda mais irrespirável’, como ela diz”. Notem que eu já antevia o pior muito antes da concretização da tragédia chamada George W. Bush. Sem contar o fato de que a disputa com Al Gore pela presidência dos EUA foi vencida, como se diz no futebol, com um gol de mão quase aos quarenta e seis minutos do segundo tempo. Mas não quero me gabar, não. Mas estamos em dois mil e tanto e a minha resistência em jogar fora aqueles dois cadernos em espiral, preenchidos em 1994, é incompreensível.)

Mais relevante ainda é a situação onírica sem precedentes na qual me encontrava em Nova York em 1994. Naquele ano, pela primeira vez eu reunia condições materiais e cabeça no lugar para apostar em uma história autobiográfica – como são todas as histórias, aliás. Sim, e agora estou sozinho no apartamento de infinitos espaços em branco repletos de lembranças escancaradas. É como se eu me assistisse em tempo real por um circuito interno de TV.

Morávamos em Astoria, Queens, área predominantemente residencial, com casas geminadas de tijolos aparentes cor de ferrugem e prédios deteriorados de três, quatro andares, muitos deles construídos nas décadas de 1920 e 1930, e com porões habitáveis. Mas não neste prédio, que é de propriedade do casal Vendome, italianos.

O apartamento térreo possui um corredor de entrada, com duas portas à esquerda – a da cozinha e a do banheiro. O corredor termina na sala, que é suavemente retangular, e onde a TV está desligada, como sempre; onde um CD de Pat Metheny – The Road to You, na faixa “Last train home” – gira no toca-cds; onde há um sofá-cama preto rudimentar, desmilingüido, sem pés, e quatro cadeiras com o estofamento manchado circundando a mesa redonda de vidro inteiramente tomada por pertences dos nossos dois roomates que estão agora manobrando carros freneticamente em estacionamentos de Manhattan.

O porão do prédio está ocupado por velharias e restos de construção, o que o torna parada obrigatória para bilhões de ratos bon-vivants. Eles entram pelas frestas das tubulações de aquecimento central e de gás de cozinha. O caminho é fácil porque as paredes falsas de madeira estão recheadas por tubulações, cabos elétricos e vigas de aço, e a vedação é inacreditavelmente precária nos pontos de conexão entre o universo íntimo e iluminado dos apartamentos e o submundo horrendo da escuridão abdominal do prédio. As condições internas de habitação são até bastante razoáveis, contudo, embora o aluguel nos custe novecentos dólares mensais (valores de 1994)!

Recém-formados “tardiamente” em jornalismo e tentando se localizar na Big Apple, Pati e eu só contávamos com o dinheiro que poupáramos nos doze meses anteriores: ela trabalhando como assistente de edição num telejornal e eu como escriturário da Caixa. A ideia de uma temporada em Nova York foi minha, ao que Pati logo aderiu, não sem ressalvas. O proveito da jornada era individual, sobretudo, mas também do casal.

Depois de mútuos estranhamentos, perdas progressivas de traços identitários, dificuldades de relacionamento e choques idiossincráticos, começamos a nos entender num crescendo excitante. Sedados pela luxúria, esquecíamo-nos atados um no outro como dois felinos. Numa dessas ela se ergueu um pouco, olhou o espelho em frente e fez um coque com os seus cabelos incrivelmente longos, na época. Vi-me refletido no mesmo espelho, porém ao contrário, e por um ângulo cômico.

“Tá pensando em quê?”

“Você sabe.”

“Não sei não.”

“Estou aqui há mais de três meses e não escrevi uma linha. Às vezes acho que só vou conseguir escrever quando não precisar mais me preocupar com aluguel, comida, contas…”

“Só uns poucos privilegiados estão livres dessas coisas.”

“Esse negócio de ‘um romance sobre imigrantes’ é tão vago quanto o espaço sideral.”

“Mas é assim. Vago mesmo.”

Olhei para a janela. Estava nevando: “Queria poder ficar aqui o tempo que eu quiser. Amo Nova York”, pensei.

“Já estamos aqui. É o que importa”, ela disse como se houvesse lido meus pensamentos.

“Ok, mas como continuar?”

“Continuando.”

“Nossa poupança acaba dentro de algumas semanas e não temos um trabalho decente.”

“A gente vai se virar.”

Um dos meus maiores temores era voltar para Belo Horizonte. “Eu devia reconhecer o meu lugar, isto sim”, resmunguei. Pati ficou calada, mas ela estava à vontade. Esvoaçou os cabelos de propósito, admirando-os narcisicamente ao espelho. “Imagine o que o povo lá deve estar pensando de mim. Como é que pode o cara pedir demissão de um emprego como aquele?!”

“É, você recusou mesmo o seu lugar. Agora o seu plano vai ficar mais interessante do que quando ele era segredo”, Pati brincou. “E sabe o que é o melhor disso tudo?”

“O quê?”

“Estamos a dez mil quilômetros. A ligação é caríssima e uma carta simples leva mais de dez dias pra chegar.”

“Mandei a minha demissão por fax! Senti um frio na barriga na hora.”

“Um frio na barriga?”

“Achei que eu tava fazendo uma grande besteira.” Silêncio. “O pior é que…”

“Ei, ei, ei”, Pati estalou os dedos. “O que pode ser pior do que ‘falta de perspectivas’?”

Admirável a riqueza de vivências consecutivas que experimentamos juntos. É como se tivéssemos nascido um para o outro. Mas é fato que o amor altera o olhar. Realça. Ressalta características primordiais. Faz jus às admirações mais genuínas, às percepções mais extravagantes e inusitadas. Embora maduros (eu tinha 28, ela, 30), não estávamos preparados para as perspectivas que Nova York nos oferecia. Matematicamente, executamos com rigor o plano de ir. Mas, afora o plano em si, os nossos objetivos em geral eram rasos: ficar uns três meses para ver como é (eu); escrever “Os Estrangeiros do Trem N” (eu); estudar inglês (os dois) e ganhar uns trocados em atividades duras.

Para executar o plano de passar um tempo em Nova York foi preciso austeridade e disciplina espartanas. A inflação galopava na casa dos 30% ao mês, em média; corroía salários com a velocidade de uma nuvem de gafanhotos numa plantação de milho. Se poupar em nossa moeda era difícil, poupar em dólar, então, um verdadeiro malabarismo, porque a moeda americana se valorizava praticamente de hora em hora.

Pati e eu recebíamos nossos salários, retirávamos uma parte considerável, às vezes a metade do que ganhávamos no mês, e saíamos em disparada até a casa de câmbio mais próxima. Levávamos os dólares em nossos corpos, presos por dentro dos jeans, e logo que voltávamos do trabalho enfiávamos as notas novinhas dentro de livros.

Às vésperas do embarque, dois moleques arrombaram com facilidade a janela do apartamento onde morávamos e roubaram comidas e bugigangas. Aqueles moleques idiotas e famintos podiam ter feito um estrago considerável no nosso futuro se tivessem folheado livro por livro. Havia na biblioteca doze mil dólares em notas de cem e de cinqüenta marcando as páginas da melhor e da pior literatura universal. Atingíramos esse montante não apenas poupando, mas também com a venda de um VW Gol e de uma linha telefônica residencial, que, na época, valia uma fortuna.

Atravessamos um ano de pão-durismo voluntário total. Praticamente desaparecemos do mundo do consumo. Na única vez em que resolvemos sair dos trilhos, nossos olhos sobrevoaram o cardápio de uma pizzaria e ficamos chocados. O preço de uma marguerita era pelo menos dez vezes maior que no ano anterior. Ou algo assim. Não pagar aluguel também foi decisivo naqueles tempos de estoicismo.

Era o meu tempo de transgressões. Em retrospecto: casar fora do papel, sem cerimônia nem festa, nem satisfações sociais; estudar jornalismo e não medicina, nem engenharia, nem direito, como deveria fazer qualquer sensato ocupante das camadas de base da pirâmide social que tivesse o privilégio de poder fazer um curso superior; e deixar o cabelo crescer. Achava que um rabo-de-cavalo coroaria aquela fase de rebeldia meio tardia, em que eu resolvera não apenas ser outro, mas parecer outro: renovado, desapegado, irreverente. O aspirante a escritor se preparava para o Grande Encontro consigo mesmo. Mas não sabia quando nem onde esse Grande Encontro ocorreria.