De moinhos e homens

Seu Isá, como é conhecido, executa cálculos complexos de cabeça e, talvez por isso, consegue compreender as formas e os valores de tudo.

Sergio Vilas-Boas

Isac Valério, conhecido como seu Isá, guarda uma velha carteirinha desbotada onde se lê: “Assentador oficial de micro hidrelétricas”. Ele construiu ou reparou na região de Caparaó e Alto Caparaó, em Minas Gerais, mais de cem moinhos de moenda (especialmente os moinhos de pedra) e uns cinquenta que combinam moenda com geração de energia elétrica. “Se minha memória variá pra mais ou pra menos eu aviso.” Está orgulhoso de poder se lembrar e instruir.

Seu Isá executa cálculos complexos de cabeça e, talvez por isso, consegue compreender as formas e os valores de tudo – da água e da falta, da pedra e da indiferença, da árvore e do ruir. Considera-se visionário: “Tenho ideias muito fina. Tô sempre calculano as consequência, as causa. Dos atos e dos fato”. Nasceu em 1927, em uma fazenda na região conhecida até hoje como Valérios. Isac (ou Yz’hak) significa alegria, riso, em hebraico.

Neste 2004, mora no município de Alto Caparaó, mas ainda conserva carne de porco em lata de gordura. Continua usando chapéu Ramenzoni, tamanho 59, 100% pele de lebre. “Coloco o chapéu até quando vou no quintal.” Enfiou quatro peças de ouro entre os dentes há anos e carrega um cordão dourado no peito. “Gosto de ouro. O ouro é símbolo de riqueza. Mas, pra mim, é só um gosto.”

Em matéria de gosto, aliás, seu Isá é desembaraçado. Se aprecia um certo modelo de botina, compra cinco, seis pares de uma vez. Guarda-as no topo de algum armário. Preferia camisas e calças brancas, juntas, desde que não parecesse médico. “Num é que um dia me gritaram na rua: ‘Ao leiteiro!’. E aí resolvi mudar.” Reorientar cores foi bem mais fácil do que nortear um automóvel. Seu Isá é incapaz de cruzar com pessoas nas ruas sem paradinhas demoradas. “Se bobear, então, tô eu bateno num poste.”

Distraído? Não. Seletivamente concentrado, isto sim. Escolheu e foi escolhido conforme os encaminhamentos divinos. Em 1944, casou-se com Estér Tavares, cinco anos mais moça. Seu Isá tinha 21. No mesmo ano começou a trabalhar com Tio Aquiles, carpinteiro de primeira linha. Tio Aquiles – cunhado da avó de seu Isá, na verdade – ajudou seu sobrinho adotivo a aceitar que nos tornamos o que sempre fomos. “Ele foi meu único mestre em forma humana. O mestre maior é Deus.”

Embora tenha sido um sujeito severo e metódico, Tio Aquiles foi paciente com aquele jovem bonachão e resignado. Antes de tudo, sabe-se lá quando, a natureza brindara a ambos com uma insígnia crucial, que é a integridade. O jovem Isac aprenderia, então, carpintaria e “picar moinhos”, dois ofícios necessariamente conciliáveis.

Como assim, picar moinho? Calma. A expressão significa fazer umas ranhuras na pedra giratória para ela moer mais eficientemente o milho, o arroz ou a canjica. Trata-se de uma entre as várias tarefas de um especialista em moinhos de pedra, como seu Isá. Para picar a pedra, usa um ponteiro que ele mesmo caldeia a ferro e fogo. A ponta é bem fina, mas “engrossa com o costume. Picá uma pedra pode acabá com uns dez ponteiro”.

O moinho de pedra nasceu no plural. Na verdade, há duas pedras (também conhecidas por mós). A de cima gira e a de baixo fica imóvel. Ambas carecem ser picadas. Os ponteiros férreos de seu Isá abrem-lhes furos quase cilíndricos; e ranhuras nas faces que se atritam. Vistas do alto, as duas mós picadas lembram uma rosquinha. As ranhuras podem ter o comprimento e a espessura de um palito de fósforo e se dispõem no círculo como os algarismos de um relógio. Após um tempo inestimável, a moagem consome as ranhuras.

A família dos moinhos de pedra(s) é a mais tradicional e apurada. Na Idade Média, grãos de trigo, por exemplo, eram triturados em moinhos de pedra manuais, que evoluíram para o de pedra movido por animais e depois para os movidos a água; finalmente surgiriam os moinhos de vento e os movidos a vapor.

Segundo o antropólogo Gilberto Freyre, autor de Casa Grande & Senzala (1933), os brasileiros conheceram o pão no século XIX. Antes do pão, havia o biju de tapioca. Só com a chegada dos imigrantes italianos é que a panificação começou a se expandir. A história dos moinhos de pedra, portanto, está atravessada pela história do pão, do suor e da fé.

A fé de seu Isá encontra-se atavicamente ligada à biografia de Alto Caparaó, cidade a 330 km de Belo Horizonte. Ela é a porta principal de acesso ao Parque Nacional do Caparaó (criado em 1961) e ao Pico da Bandeira. A maioria de seus 4.500 habitantes é branca. Loiros e loiras autênticos transitam pelas ruas. Brancos católicos (minoria), não católicos e evangélicos. Ao todo, há mais de vinte igrejas na cidade, principalmente presbiterianas, batistas e adventistas. “Sou metodista desde os 13 anos. Nunca fumei nem bebi.”

Anos antes, a irmã Enedina feriu seu Isá, ainda garoto, sem querer. O menino Isá costumava firmar grandes inhames, um a um, em uma bancada de madeira, para que Enedina os rachasse como se fossem lenha. Numa dessas, ela errou o golpe. Atingiu o dedo anular de seu Isá (hoje sem a última falange), quebrou uma junta do dedo médio e afundou a unha do indicador. “Difícil pra mim, desde esse dia, é apanhá parafusin piquininin.”

No reino dos Valérios curavam-se certa amputações com querosene. Embeberam querosene num pedaço de pano e enrolaram na mão do “menino alegre” (outro significado para Isac, em hebraico). E pensar que a ideia de usar querosene não tinha saído da cabeça de nenhum peão ou pagé, mas de um juiz de paz chamado Agenor José Pinheiro. “O que senti muito mesmo foi que me queimou. A mão ficou cheia de bolha d’água. Hoje, quando tô com essas gripe resistente, ponho umas gota de querosene no chá.”

Pior do que aquela agonia toda, talvez só um tiro no pé ou três pontes de safena. Na única vez que seu Isá recorreu aos serviços de um hospital, abriram-lhe o tórax para reparar e desentupir três de suas manilhas. Seu coração estava que parecia um moinho sem água no rodiz. Rodiz é a peça atingida pela força da água. Redondo, composto por vários pequenos remos, a função do rodiz é propulsar o eixo que faz girar a pedra moedora. Rodiz sem água é coração sem sangue. Ou coração disparado.

Na juventude, seu Isá andava com uma garrucha Laporte 320 na cintura. “O que espanta bicho e ômi bravo é tiro. Então, a gente precisava ter.” Mas nunca usou. Nem mesmo quando pressentiu a fatalidade numa discussão entre dois sujeitos. Um deles sacara uma arma e atirava para errar, enquanto o outro, audacioso, ia ao encontro do atirador com uma chibanca na mão. Seu Isá chegou primeiro. Na disputa pela arma, uma bala atravessou-lhe o pé, sem grandes prejuízos. “Quem entra numa história pra ajudá, tem proteção.”

Taí um homem empírico. Em sua primeira investida com moinhos, tomou pé das partes sem se desentender com o todo. Analisou até o correr da água. Constatou que ela está para o moinho como o cartucho para a espingarda. A queda d’água tem de descer coada por uma manilha de oito polegadas, inclinada pelo menos 45º e tem de seguir veloz até um redutor de diâmetro várias vezes menor, de onde sairá o “tiro”. “Aprendi tudo por tentativa e apuração.”

Peça por peça, seu Isá foi edificando suas doutrinas. Tempereiro? Ah, o regulador da pedra que gira, o controle para uma moagem grossa, média ou fina. Segurelha? Tá bom, ela conecta o eixo na pedra picada. Moega? Sim, o receptáculo do milho. Cambota é o caixote de madeira que protege a pedra de moer. Pedra de moer? E existe pedra melhor que outra? Ô, se tem. A melhor é uma de nome popular – Cabo Verde –, que sobra na Serra do Caparaó, região de fronteira Minas-Espírito Santo.

Contudo, seu Isá não tardaria a descobrir o fundamental: os moinhos são tão únicos quanto um ser humano; e que, ao final, tudo se encaixa; que, num bom moinho, toda peça é substituível, de um jeito ou de outro; e que adaptação é diferente de criatividade. Na falta de madeira, sabugos de milho são a sua matéria prima.

“A vida hoje ficou mais fácil porque estudaro coisa por coisa. A gente, que tem pouco recurso, também precisa estudá. Estudá conforme o que a gente tem.”

 Texto publicado em 2000 e incluído no livro “Perfis: o Mundo dos Outros / 22 Persoangens e 1 Ensaio” (Manole, 2014, 3ª edição)