As três marias

Maria Luiza hospeda, Maria da Conceição preserva e
Maria do Amparo costura.

Sergio Vilas-Boas

Os temporais vinham nos acompanhando desde Diamantina e não nos faltava ciência e intuição sobre os sessenta quilômetros de barro entre as cidades do Serro e de Conceição do Mato Dentro. Debaixo de uma chuvinha insensível, eu e a fotógrafa Cuia Guimarães avistamos as luzes do distrito de Córregos por volta das 20h30 do dia 27 de janeiro. Chegar esgotado, e à noite, e com chuva, não é nada bom. Interfere em nossas pré-visualizações criativas sobre o desconhecido. Mas não quando o desconhecido é Córregos.

A rua principal do povoado é mesmo única, mas bem-criada. As fachadas das casas, capelas e igrejas – pintadas, harmônicas – são cenográficas. Um silêncio de horário nobre de verão extrapolava a bruma da noite úmida. Até chuva chata sossega aqui, pensei. A política local, graças a Deus, é a política das portas e janelas abertas. O senso de detalhe e capricho dos moradores… notável. Três marias, em especial, o encarnam: Maria Luiza Marillac Duque Thomaz (Dona Marillac), que hospeda; Maria da Conceição Machado (Dona Mariinha), que preserva; e Maria do Amparo Teixeira Duque (Dona Amparo), que costura.

As três foram protagonistas da Festa do Divino resgatada pela Faop. A festa esteve devagar, quase parando. Afinal, a última ocorreu em 1997 ou 1998? Não consegui saber. Só dizem que foi uma festa meio improvisada. Um certo Seu Raul, que só tomava banho quando chovia, não pôde honrar o compromisso de ser o festeiro. O ônibus em que ele viajava – da linha Congonhas do Norte-Conceição do Mato Dentro – caiu no rio Santo Antônio, que atravessa Córregos. Ele vivia pescando nesse rio, lamenta Dona Mariinha.

Dona Mariinha, 70 anos, é valorosa, conversada e gentil. Mas exatidão não é seu forte. Por isso Fátima Aparecida Silva, casada com um “neto de criação” de Dona Mariinha (que nunca pariu), tenta aclarar um pouco os registros não-registrados. Filha de Seu Ananias, outro festeiro célebre, Fátima, 25 anos, é pedicure. Com os pés de Dona Mariinha no colo, entre lixas, alicates e vapores de acetona, Fátima me conta que foi um bocado pomposa a festa de Seu Judas (Judas Tadeu Ferreira Duque), em 1987, mais ou menos. Mas nada se compara à festa de seu Pedro Generoso Duque, o Seu Pepê… em 1981, 1982 ou algo por aí. Mataram vários bois e assaram os churrascos na praça. Ah, ah! Isso até as crianças confirmam.

Outro festeiro muito lembrado é Luiz Belarmino, falecido marido de Dona Mariinha. Luiz Belarmino era um professor rigoroso, de português impecável. Colecionava selos e orquídeas, e datava as fotografias de seus álbuns pessoais – o que me ajudou bastante, diga-se. Em 1964, Seu Luiz enfeitou os postes de luz do povoado com os sete dons e a pomba branca símbolo da Santíssima Trindade.

Segundo a Bíblia, é a presença do Espírito Santo que executa a vontade de Deus no mundo. O Espírito age na criação e na conservação da vida humana; manifestou-se na milagrosa concepção de Jesus e, ainda por cima, desceu sobre os apóstolos no dia de Pentecostes.

Glorioso Jesus, que enviastes o Espírito Santo sobre os apóstolos, antes ignorantes e medrosos, tornando-os destemidos e sábios, vem sobre mim e sobre a humanidade inteira, a fim de que pelo mesmo Espírito possamos ser salvos e testemunhar vivas de vosso santo amor. Amém.

Saudosa, Dona Mariinha conta que a festa proporcionada por seu marido foi simples, mas belíssima. Luiz mesmo fez tudo. Levou a coroa na mão! Ele e a imperatriz! Não levou na cabeça, não. Não? Era muito pesada, bobo. Bem-humorada, ela se diverte. O metódico Seu Luiz, pistonista e maestro da banda local, comprara três caixas de cerveja na ocasião. Duas sobraram. Procê vê: naquele tempo sobrava cerveja aqui. Dona Mariinha sorri, buliçosa. Sim, ele dava aula de terno, gravata e sapato encerado. Era um negro cismado!, sublinha sua distinta viúva branca.

A casa de Dona Mariinha é um brinco. Guarda quatro tesouros que se destacam entre vários: um anel feito com ouro garimpado na rua única de Córregos, depois de muitas chuvas, nos anos 1940; o orquidário com espécies do cerrado mineiro, catalogadas pelo falecido; uma coleção de latinhas de sardinha, areadas religiosamente, penduradas na parede da cozinha e chaves pintadas, todas na cor prata, enfeitando as paredes da sala. Compotas transparentes sobre a mesa abrigam bolinhas de gude multicores. Miniaturas de anjos e santos povoam prateleiras impecavelmente lustrosas.

Em Córregos, a Festa do Divino transcorre em julho, por causa do período de férias. A data exata, bem, a data exata vai depender da agenda do vigário. As cores predominantes da festa são o vermelho e o branco. Os moradores fizeram o mastro que sustenta a bandeira com a pomba branca do Divino. A tradição manda que a bandeira saia da casa do primeiro mordomo. Acontece de haver mais de um mordomo. Se houver, todos se reúnem na casa do primeiro, de onde a bandeira parte em procissão, acompanhada ainda por banda de música, marujeiros, cavaleiros e fiéis. Na festa-resgate organizada pela Faop, buscaram a bandeira na casa de Dona Marillac.

Dona Marillac, 64 anos neste 2005, é a única no distrito a oferecer pensão completa para viajantes aventureiros. Fincaram em sua calçada um marco do projeto turístico Estrada Real, encampado pelo atual governador de Minas, Aécio Neves. Coincidentemente, Córregos teve uma pousada chamada Estrada Real entre 1999 e 2004. Alvo de um imbróglio, a pousada está sendo processada por poluir o visual do belo casario colonial com uma estouvada construção em madeira escura. A prefeitura de Conceição tinha aprovado o projeto! lamenta Fátima, que perdeu seu emprego.

Mas Dona Marillac hospeda com tanto zelo e afeto que… bem, a essa altura, quem vai se lembrar de Estrada Real? Criada em Tapera (Santo Antônio do Norte, oficialmente falando), também distrito de Conceição do Mato Dentro, Dona Marillac se mudou para Córregos em 1965, depois de terminar o curso normal. Nessa época, já lecionava. Sua típica casa de interior de Minas tem fogão a lenha com um assento lateral para aquecer pés e corações no tempo do frio. Vocês dormiram bem? Estão satisfeitos? Por favor, fiquem à vontade, viu, gente? Ocês comem quiabo?

Então, seguimos a procissão que vai até a igreja. O padre benze a bandeira, celebra missa. A bandeira é hasteada no adro enquanto foguetes e fogos de artifício iluminam a noite de sábado. Nos velhos tempos, lá pelas quatro da manhã do domingo de festa, o maestro Luiz Belarmino tomava seu café e regia a banda no adro e também à porta da casa do festeiros (imperador e imperatriz). Era a alvorada do Divino!

O cortejo busca os festeiros na mesma casa, conduzindo-os para a missa, às 10h do domingo, na Igreja construída entre 1722 e 1738. Tombada pelo Iphan mas esquecida, a Igreja roga por nova restauração. Tábuas do teto divinamente pintado estão desabando. Dona Amparo me aponta as imagens de duas nossas-senhoras-aparecidas. Uma é a padroeira do Brasil. A outra é de pele branca, a Nossa Senhora Aparecida de Córregos. Essa apareceu só aqui. Veneramos as duas.

Dona Amparo é uma tímida costureira de mão-cheia que olha por cima dos óculos. Tem uma filha única de 38 anos que mora em Belo Horizonte. O primeiro neto nasce em junho deste ano, revela, ansiosa. Dona Amparo costurou as roupas, bandeiras e estandartes para a festa-resgate. Estandartes são os quadros que representam os sete dons: sabedoria, entendimento, ciência, conselho, fortaleza, piedade e temor a Deus. A pomba azul e branca ao centro irradia sete chamas prateadas. Abaixo da pomba, lê-se: “Vinde, Espírito Santo”. Nas janelas da Igreja penduraram-se doze bandeiras para lembrar os doze frutos: fé, caridade, gozo, benignidade, paciência, generosidade, castidade, modéstia, bondade, continência, brandura, paz.

Até os anos 1970, os festeiros eram sorteados. Depois decidiram que festeiro seria quem se oferecesse para sê-lo. A comunidade toda ajuda como pode. Um saco de arroz, um de açúcar, o que for, diz Dona Amparo. A festa é nossa, frisa Dona Marillac, o padre só vem celebrar. Neste resgate, Caruncho (Antônio Geraldo Araújo dos Santos), 50 anos, foi o imperador e sua mulher, Valdirene da Conceição Reis, a imperatriz. Caruncho cumpre assim a promessa feita por Eva Dionísio, sua mãe. Aos 12 anos, Caruncho fraturara severamente a perna esquerda no estranho episódio do “coice indireto” de um cavalo. A mãe prometeu que, se ele se curasse, a família daria um jeito de propiciar os comes e bebes da Festa do Divino. Curou com raiz e fé, conta Caruncho, mostrando a cicatriz da fratura que não o impediu de andar.

Fundado por bandeirantes em 1702, Córregos é um dos mais antigos distritos do município de Conceição do Mato Dentro, que se autodenomina “a capital mineira do ecoturismo”. O cultivo de cereais sustenta essa porção rural vasta e escassamente povoada. A Festa do Divino em Córregos aglutina, envolve, orgulha e volta agora a fluir em sentido contrário ao esquecimento, como a promessa da mãe de Caruncho. Ela num pôde cumpri, porque num teve condição. Agora eu pude. Tá cumprido. E ele suspira.

O bispo Dom José recebeu o cortejo à porta da Igreja por volta das 11h. Caruncho e Valdirene entraram no sagrado recinto com honras e importâncias. Após a missa, a apoteose: uma extensa procissão ocupou a rua única de Córregos. Quarenta cavaleiros, usando longa faixa vermelha, homenageavam a crença no Divino Espírito Santo.

Casas enfeitadas com flores debaixo de foguetório ressoaram múltiplos sons de banda, de congada e de marujada. Crianças, jovens, senhoras e senhores, agricultores, retireiros, moradores de outros distritos… Muita gente se envolveu nesse resgate esplêndido, que, entre outras coisas, afastou a idéia antes corrente de que festa memorável é festa pomposa. Não é.

 “Esse povo que veio de fora [a equipe da Faop] fez a festa acontecer de novo; desenterrou ela; e vocês viram que não é preciso riqueza; que a Festa do Divino é uma festa de fé, que pode ser feita com muita simplicidade. Tratem de fazê-la ano que vem e não deixem ela voltar pra gaveta”, disse Dom José durante a missa do domingo. Caruncho faleceu meses depois.

Escrito para o projeto Resgate Cultural da Estrada Real, patrocinado pelo Sebrae-MG e realizado pela Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop).