Tramoias de Dico e Lionel

Tramar é a razão de ser destes dois senhores tão bem afinados quanto o canto dos pássaros.

Sergio Vilas-Boas

Uma pracinha agradável e limpa. Ajardinada, meios-fios tingidos de cal, coreto e… que curioso. A uns dois metros do chão há um compartimento de alvenaria com uma porta de duas bandas trancada a chave. A porta se abre na direção dos assentos e escadas da praça. Um oratório? Pode ser. Afinal, estamos em Espírito Santo de Campos, conhecido como Espírito Santinho, onde a religiosidade é prevista.

Esse apelido popular – Santinho – faz jus ao povoado, que deve caber num retângulo de quinhentos por duzentos metros. Distrito da cidade de Campos dos Goytacazes (RJ), embora esteja a setenta quilômetros dela, Espírito Santinho ganhou um presente do poder público no início deste terceiro milênio. O presente foi guardado exatamente dentro da caixa de tijolos.

Péra aí. E essa antena parabólica? Presente também. Ora, ora. Que oratório, que nada. O compartimento não abriga imagem de santo coisa nenhuma. Isto é um aparelho de tevê! Fico sabendo que ele significa muito para os moradores (cerca de três mil ao todo, a maioria na zona rural). Quem não tem, vem assistir a tevê na praça. Em noite quente, mesmo quem tem, vem. Costumam ligá-la de segunda a sexta às dezoito horas. Desligam lá pelas vinte e duas horas. Falará até mais tarde se tiver futebol ao vivo.

Novelas são uma reza. Quebram o silêncio e o isolamento do lugar. Sim, porque o padre só aparece na recém-construída Capela do Divino Espírito Santo aos sábados; e o calçamento e a luz elétrica só chegaram nos anos 1970. Estima-se que Espírito Santinho tenha cento e setenta e cinco anos de existência. Será? Ou melhor, foi?

Nenhum ficcionista algum dia pensou em ambientar uma trama aqui. No entanto, tramar é a razão de ser de dois senhores. Dois moradores de temperamentos diferentes. Seu Dico (Walcyr Tavares de Oliveira) e Seu Lionel Cândido tramam balaios e peneiras com fibras de bambu. A força física exigida pelos balaios se encaixa melhor nas mãos largas e ásperas de Seu Dico. A concentração e a delicadeza necessárias ao tecer das peneiras têm mais a ver com Seu Lionel, um colecionador de silêncios.

São cunhados. Seu Dico, 68 anos feitos em 2004, casou-se há décadas com a irmã gêmea de Seu Lionel, Dona Lionor. Lionel e Lionor nasceram prematuros em Mimoso do Sul (ES), há sessenta e seis anos, o que explica, de certa forma, a compleição miúda, frágil de Seu Lionel, especialmente. Mordida por uma cobra quando grávida de sete meses, a mãe de Seu Lionel, Maria Dias Cândido, faleceu durante o parto feito às pressas.

Parteiras sacaram uma menina e se distraíram com ela, enquanto os outros tentavam inutilmente reanimar Maria Dias. De repente, deram fé: Ué, tem mais um!. Era Seu Lionel, provavelmente pedindo para não sair. Ele se tornaria um sujeito acanhado, represado. Quando bebê, tivero que enrolá muito pano em Lionel pra ele ficá de um jeito que dava pra carregá no colo, conta Dona Lionor. Seu Lionel teve o privilégio de aprender a tramar belíssimas peneiras com o pai, Próximo Cândido, um agricultor sem posses.

Com Seu Dico a transmissão de saberes sobre balaios foi custosa. Quem dominava a técnica era o avô Arnesto, prensado em barranco por uma vaca brava. Desde então, ficou desconjuntado. O incidente agravou sua irritabilidade. Meu avô não queria que eu aprendesse a fazê balaio de jeito nenhum, lembra o falante Seu Dico. Pirraça pura.

Aos dez anos, Seu Dico não tramou fibras e, sim, um plano: subir no pé de jambo e ficar olhando o avô trabalhar com os canivetes, taquaras e cordas. Passados alguns dias, insultou-o: Então é assim que faz, é?. Seu Arnesto trovejou na hora: Ah, moleque, vou te comê no porrete. Manco, Seu Arnesto jamais conseguiria apanhar o ligeiro Seu Dico. Mas ele picava, destruía todo balaio que eu tentava fazê.

Graças a Deus, conhecimento não é matéria destrutível. Conhecimento se guarda na memória. Nem o derrame que Seu Dico sofreria décadas depois, e que afetou um pouco suas vistas e sua fala, o impediram de exercer o ofício de balaieiro. Minha língua ficou meio lerda; minhas mão, não. Seu Lionel e Seu Dico se dão muito bem. O falatório de um complementa o silêncio do outro, e vice-versa.

E se a gente acabar tramando outra coisa que não seja um balaio, Seu Dico?, perguntou a aluna e artesã Shirley Jardim. Tem poblema não, respondeu o divertido Seu Dico. A gente inventa um nome pro que ocê fizé. Mas o nome é o parir das crias. A concepção mesmo começa no lascar das taquaras para se obter as fibras ou “palhas”.

Seu Lionel e Seu Dico cortam, conforme o objetivo, tiras estreitas (de meio centímetro de largura) para peneiras; tiras médias (de dois centímetros de largura) para as laterais dos balaios e tiras “folgadas” (de uns quatro centímetros) para a estrutura e o fundo dos mesmos.

Cortados em peças, os bambus são desmiolados até se atingir o “vidro” – a casca verde do bambu, muito flexível e resistente. O vidro é o que interessa, diz Seu Lionel, num raro momento. A espessura da fibra será proporcional a sua largura.

Os dois mestres raspam as taquaras apoiando-as sobre a coxa. Apenas uma toalha os protege de alguma navalhada improvável. O miolo do bambu verde – a parte branca, retalhada pelos canivetes – tem um cheiro úmido, fresco e adocicado. Usam os retalhos para acender fogo. Qualquer bambu verde serve, Seu Lionel? Não. Para peneiras, é preciso encontrar no mato bambu com nós espaçados pelo menos trinta centímetros um do outro.

Enquanto os balaios envolvem uma trama mais braçal, bruta, devido ao tamanho, as peneiras são um exercício de paciência e gentileza. Seu Lionel é compenetrado, meticuloso. Ensinou dois tipos de trama: a “escaminha”, um quadriculado complexo e vistoso; e o “capitão”, um pouco (só um pouco) mais simples. A tecedura começa com o cruzamento de carreiras de palhas estreitas (de meio centímetro cada). A intervalos regulares, uma passa por baixo e a outra por cima. Esse princípio básico vale para os balaios.

Os arcos das peneiras não são de bambu, como se poderia imaginar e, sim, de madeiras de incrível vergadura: imbirama, taipá e outros “paus” do mato como roxinho, carrapeta, sapucaí e folha-de-serra. Peneira de catar feijão tem arco de oitenta centímetros de diâmetro; já o diâmetro dos arcos das peneiras para milho e arroz é de quarenta centímetros, em média.

Além de peneiras, Seu Dico e Seu Lionel podem usar suas tramóias para fazer também vassouras, esteiras, cestos diversos; e quiçambas (muito usadas em colheita de café e para transportar cargas em lombo de animal) e jequis (armadilhas para pegar peixe em rio). Os tamanhos seguem a vontade do freguês. Encomendas reacendem-lhes a alma.

Se preciso for, Seu Dico, por exemplo, fica alisando as palhas até tarde da noite na rua adjacente, debaixo de um poste de luz; ouvindo passarinhos e dizendo oi para quem passa. Se nada me estorvá, faço dois balaio grande num dia. Seu Lionel, pai de uma única filha (Rosânia), é mais metódico. À noite, prefere esperar pelo telejornal e depois ir descansar. Uma filha só tá bom, diz Seu Lionel, impassível. Tem gente demais no mundo.

Mas as encomendas de balaios e peneiras foram diminuindo com o tempo, reflexo talvez da decadência econômica do norte do Estado do Rio de Janeiro, entre outros fatores. Como a pecuária requer pouca mão-de-obra, muita gente faliu ou migrou. Seu Dico e Seu Lionel resistem. Ambos moram às margens da rodovia RJ-230, que tangencia Espírito Santinho bem rente.

Mas não são vizinhos. Numa eventualidade, trocam mensagens telepáticas. Na época da crise do café e do açúcar, casas foram abandonadas, marimbondos tomaram conta, lembra Edivar Pereira da Silva, o Seu Vavá, 67 anos, Administrador Regional. Sinal dos tempos. Hoje, uma placa suspensa sobre a esquina da rodovia com uma transversal diz assim: Já estou com saudade. Volte sempre.

Espírito Santinho é um daqueles lugares que dificilmente se verá retratado na tevê da praça.

Escrito em 2004 para o projeto Resgate Cultural da Bacia do Rio Itabapoana, realização conjunto dos Sebraes de MG, ES e RJ, executado pela Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop).