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A (des)atenção posta à prova

Está cada vez mais difícil prestar atenção. Enquanto a escola organiza a nossa mente para o amanhã, em ordem cronológica, a era digital organiza tudo de modo reverso, do mais recente para o mais antigo, fragmentando a nossa capacidade de memorizar. É como se estivéssemos tentando viver “tudo ao mesmo tempo agora”. Como isso não é viável, a gente se frustra. Como escapar? A única certeza é que é inútil ficar lamentando o caráter invasivo da tecnologia em nosso cotidiano. Precisamos é de estratégias de autocontrole – como fazemos, aliás, com outras tentações. Ler mais

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A posse e o efeito posse

Se objetos colecionados são “chaves para outro mundo” e “certificadores de imortalidade”, como crê Philipp Blom em seu excêntrico livro, seria eu um insensível que não consegue tocar “as profundezas de quem sou”? Adoro perguntas que me atingem em cheio, mas acho que não é o caso de responder esta. Apesar de ser minimalista e de não colecionar asbolutamente nada, me sinto tão pleno de corpo e alma quanto quem retém obstinadamente ingressos de cinema, ímãs de geladeira, cartões postais, bolinhas de gude, relógios velhos, mouse pads, moedas de um centavo, canetas, revistas antigas, cabides, contas de restaurante, miniaturas, etc. Leia mais

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Sorte é mais do que sorte

Nas sociedades altamente competitivas a ideia de sorte está acoplada a um paradigma tão antigo quanto imutável: o de que o sucesso (material, financeiro) decorre principalmente (se não unicamente) de características individuais como talento, inteligência, vontade, esforço e habilidade em correr riscos. A ladainha termina assim: “E uma pitada de sorte”. “Se é verdade que algum grau de talento é necessário para ter sucesso na vida, por que a maioria das pessoas mais talentosas não alcançam os mais altos picos de sucesso, sendo ultrapassadas muitas vezes por indivíduos medíocres?”, questionaram três pesquisadores italianos. Ler mais

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Decisões cruciais

Recebi muitas mensagens pedindo que eu desdobrasse o assunto escolhas e decisões. Então, atendendo aos pedidos, chegamos ao tema das decisões cruciais, aquelas que podem mudar nosso destino de maneira irrevogável e cujos processos nos deixam com a sensação de estarmos imersos em uma espécie de névoa (como na foto acima). Diferentemente das escolhas de “coisas”, nas decisões cruciais o número de alternativas é geralmente pequeno. Em muitos casos, estamos lidando com apenas duas opções, e todas têm pros e contras, e nenhuma é melhor que a outra, necessariamente. Ler mais

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Escolhas são paradoxais 

Por que é cada vez mais difícil escolher? Well, let’s face the facts:  1) Opções demais geram confiança de menos porque o afã de dar a tacada certa nos paralisa; 2) O que nos trava não é a tomada de decisão em si, mas as possíveis consequências da decisão; 3) A gente tenta evitar ser responsável por uma escolha por medo de se arrepender; 4) Toda decisão tem um preço – monetário (em moeda corrente mesmo) ou não monetário.  5) Para cada escolha feita (ou decisão tomada), estamos também escolhendo não escolher, obviamente; 6) E com tantas opções interessantes ao alcance, nossas expectativas em relação às escolhas aumentam muito. Em países pobres como o Congo e a Nigéria, por exemplo, essa “neurose” inexiste. Ler mais

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Ser cosmopolita é um atrativo

Cidadão do mundo é quem pretende superar os limites da divisão geopolítica e as cidadanias nacionais. Os cosmopolitas recusam a identidade patriótica que os governos nacionais impõem e reconhecem-se como independentes por serem Cidadãos da Terra. É o meu caso. Em maio de 1992 (26 anos atrás), aos 26 anos de idade, parti de Belo Horizonte para a minha primeira viagem internacional: Nova York. Até então, eu só tinha viajado de avião uma única vez e nunca havia posto os pés em uma cidade cosmopolita. Minha vida nunca mais foi a mesma. Ler mais 

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Adorações transversais

As linhas que separam o super fã de um idólatra compulsivo ou de um fanático insano não são fáceis de identificar. Um fã admira ídolo e obra e ponto. Já o idólatra tende a se anular como indivíduo à sombra de suas adorações. Não se gosta e tem autoestima baixa, segundo pesquisas.  E os fanáticos? Não por acaso se atraem e formam grupos coesos, impedindo-se uns aos outros de colocar em dúvida suas adesões incondicionais a uma ideia, uma fé, uma teoria ou uma pessoa. Cria-se, assim, terreno fértil para intolerâncias. Apesar dessas sutis diferenças, idolatria e fanatismo têm raiz idêntica: a idealização. Ler mais

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Comparações que apreciam

Comparar-se com os outros é tão inevitável quanto interessante, às vezes, se consideramos os possíveis efeitos educativos. Mas tenho tentado moderar as comparações, no sentido de torná-las mais pertinentes e seletivas. Enxergar o outro através de mim e me enxergar no outro é uma experiência extraordinária, que mantém ativos o corpo, o raciocínio, a existência. Acho válido, por exemplo, observar o outro sem superioridade nem inferioridade; melhor ainda quando me leva a querer “imitar” um comportamento que me impressiona positivamente.  Ler mais

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Perseverando na espera

A sabedoria de esperar (e, por consequência, de perseverar) é a base de muitos projetos bem-sucedidos, de curto e de longo prazo. Mas essa é uma habilidade que não estava escrita em meu DNA. Fui obrigado a aprendê-la empiricamente, tanto nos relacionamentos com pessoas quanto nos relacionamentos com as adversidades do dia a dia. A duras penas entendi que só vale a pena perseverar quando a recompensa futura é objetivamente melhor que a recompensa imediata (se houver); e hoje sei que lido melhor com os obstáculos diários nos momentos em que estou centrado, satisfeito comigo mesmo. Ler mais

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Reclamar é impreciso

Com ou sem razão, reclamar indiscriminadamente parece grátis, mas tem um preço… Vejam que paradoxo: nos momentos em que minha vida estava de fato ruim, lutei como um autêntico guerreiro; mas nos momentos em que tudo parecia andar (e realmente andava) bem, comecei a reclamar do que faltava e do que não. Isso não me torna um indivíduo singular entre os demais da espécie à qual pertenço – a mesma que vocês pertencem. Ao contrário. E foi essa trivialidade do ato de reclamar que me levou a pensar a respeito. Ler mais

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Elogiemos a imperfeição

A crença irrefletida na perfeição pode estagnar, enquanto a aceitação do imperfeito gera movimento contínuo… O ideal de perfeccionismo me movia adiante. Ainda move, mas em grau menor. Sinais: 1) Por ter grande capacidade de perceber e reter na memória detalhes e padrões (físicos e comportamentais), incluo muitas variáveis extras nos relacionamentos e nos processos de trabalho; 2) Alimento uma desconfiança irrestrita em relação ao que faço, como se profissionalismo e qualidade elevada por si só não fossem um caminho para a excelência; 3) Reescrevi este parágrafo dez vezes. Ler mais

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Senso de privacidade

Omitir as próprias idiossincrasias é uma coisa, evitar contagiar-se pelo excesso de informações sobra a vida alheia é outra. Dizer que sou apegado à privacidade é correto, mas meus jovens leitores podem questionar: se assim fosse, você não se revelaria em um blog – ao escrever, por exemplo, sobre sua dificuldade em exercer atividades nas quais deixou de acreditar, como fez no texto da semana passada. Nada de mais. É possível uma pessoa ser pública (autoexposta) no mundo virtual e ao mesmo tempo privada (protegida em sua intimidade) no mundo concreto. Ler mais

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O fim do jejum necessário

Não consegui continuar fazendo coisas nas quais deixei de acreditar, daí optei por me retirar de cena, por um tempo. Virei jornalista meio que por acaso, e valeu a pena, mas fui abandonando a atividade pouco a pouco, ano a ano, sempre tentando abrir espaços para outros modos de vida. O mesmo aconteceu com a minha trajetória de professor: investia e desinvestia conforme as demandas por bem-estar físico e mental. Principalmente mental. O único objetivo que atravessou com alguma constância pelo menos metade da minha vida foi o de me tornar escritor. E aconteceu, e também valeu a pena. Porém, experimentei – por vontade própria – um jejum de mais de dois anos.  Ler mais

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A banalização da autoajuda

Pesquisadores de diversas áreas têm mostrado que a autoajuda positivista não se sustenta em pesquisas realmente sérias… Há evidências, por exemplo, de que expressar raiva não fará a raiva passar; e que pré-visualizar metas não aumentará as suas chances de atingi-las. “Outro dado que chama a atenção é que os países ‘mais felizes’ nunca são aqueles onde a autoajuda vende mais”, afirma Oliver Burkeman em seu “Manual de Antiautoajuda”. Ler mais

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A positivação da felicidade

A psicologia positiva turbinou a indústria da autoajuda e, no fundo, criou um clima de otimismo tão generalizado quanto falso. Em um mundo onde tudo se vende, até o moralismo tem valor comercial. Há moralistas em toda parte, atuando em setores diversos, pregando não o que acreditam ser o melhor para eles, mas o que acreditam ser o melhor para os outros. E um cobiçado subproduto desse moralismo onipresente é a felicidade, ou melhor, o ideal contemporâneo de felicidade. Ler mais